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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

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Só poesia não basta, amor, que as palavras são vãs e ficam dobradas em envelopes rotos dentro de gavetas com cheiro a naftalina, ficam os bilhetes esquecidos nos casacos de Inverno, ficam os livros nas prateleiras, que cuidas com zelo mas deixaste de folhear. Não me ocorre maior poesia do que a que os nossos lábios trocaram no escuro, perdidos, sequiosos de encontrar o que lhes faltava. Voltasse atrás e ter-te-ia calado com beijos meigos logo que começaste a falar, teria pegado nas tuas mãos e não as largaria desde aquele momento. Os planos de fugirmos juntos, de mandar tudo ao ar, de só encostar a minha cabeça ao teu peito sabem a sangue na boca. Que amor triste, o nosso, que matámos antes de poder ser. Que amor frio, o nosso, poesias feitas lâminas de papel. Há um frio que me cresce que só no teu interior vazio e negro pode caber. Duas solidões pelos ares, onde pertencem, num paralelo irreal onde o teu corpo sobre o meu canta magias que ninguém pode ler.

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[Crónica publicada no Repórter Sombra.]

No rescaldo de mais uma Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas), a COP24, ocorrida em Dezembro na Polónia, ousemos perguntar o que nenhuma televisão ou jornal mainstream perguntou: que avanços fez a maior autoridade mundial no tema em relação à mais premente ameaça global? A resposta é triste. Nada. Zero. Bola. Nicles.

Além de relatórios com dados científicos que apontam as balizas máximas a que podemos permitir que o planeta aqueça (“muito baixo dos 2°C”), cálculos optimistas e prazos demasiado permissivos para nos desviarmos do caminho do descalabro, o IPCC queda-se entre a impotência e a inépcia para realmente mudar o curso fatalista para que o capitalismo nos atirou.

Este organismo da ONU existe há trinta anos e o melhor que conseguiu até agora foi forjar acordos que têm sido incumpridos pelos signatários e desprezados por países que são responsáveis por grande parte da quota de emissões de gases de efeito de estufa. Os Estados Unidos da América anunciaram a saída do Acordo de Paris em Junho de 2017, o Brasil já deu sinais no mesmo sentido, e todos os países cuja economia depende dos combustíveis fósseis rejeitaram o último relatório do IPCC, divulgado em Outubro: EUA, Rússia, Arábia Saudita e Kuwait.

Em 1997, os signatários do Protocolo de Quioto estabeleceram a meta de redução de 18% (20% na União Europeia) das emissões de gases com efeito de estufa em comparação com os valores de 1990. Os EUA não assinaram e desde então Canadá, Rússia, Japão e Nova Zelândia ficaram fora do acordo, pelo que este compromisso só abrange cerca de 14% do total de emissões. Em 2014, a UE ratificou o Acordo de Paris, comprometendo-se com a meta vinculativa de 40% de redução (face a 1990) das emissões até 2030. Como expectável, este acordo de boas intenções não teve impactos significativos fora dos documentos e resultou em coisa nenhuma.

Ainda que fossem cumpridas as metas propostas por um documento que só abrange 55% das emissões de gases de efeito de estufa, as suas repercussões seriam insuficientes. Mas não é o caminho da redução de emissões que o mundo está a tomar. 2018 foi o ano recordista de emissões, com a concentração de CO2 mais elevada dos últimos três milhões de anos. Os vinte anos mais quentes da História ocorreram nos últimos vinte e dois anos. Ao passo que os governos neoliberais enchem manchetes de slogans apelativos a falar da descarbonização, de empregos verdes e de energias renováveis, na prática continuam a apoiar as indústrias petrolíferas e as actividades delas directamente dependentes, a concessionar áreas para prospecção de petróleo e gás, a fomentar a massificação do transporte aéreo, a penalizar os trabalhadores com taxas e impostos sobre veículos e combustíveis, a negligenciar a premência do combate às alterações climáticas e a não apresentar alternativas viáveis para as questões energéticas, alimentares, para a mobilidade ou para as crises sociais decorrentes ou agravadas pela crise universal ambiental e climática.

António Guterres, secretário-geral da ONU, na abertura da COP24 pediu a governos e investidores que "apostem na economia verde, não no cinzento da economia carbonizada". Fê-lo na Polónia, país com uma actual dependência energética de 80% do carvão, na cidade anfitriã de Katowice, cuja mais significativa actividade económica é a exploração de reservas deste combustível fóssil. As próprias reuniões da conferência tiveram lugar numa mina de carvão desactivada e um dos patrocinadores oficiais do evento é uma empresa de exploração de carvão. O presidente polaco, na mesma sessão de abertura, faz a apologia da utilização do carvão pela via da “segurança energética” (leia-se lucro) e segue a sua performance de demagogia extrema ao afirmar que isto não conflitua com a protecção do clima, e que "os diferentes países devem abordar a política económica e climática de uma maneira realista, e evitar situações que ameacem a estabilidade das suas sociedades", já que, embora "a acção climática represente muitas oportunidades e benefícios económicos, sociais e de saúde, também gera custos, especialmente em regiões tradicionalmente baseadas nos combustíveis fósseis". Ou seja, num evento que deveria centrar-se na ciência e nas políticas necessárias a evitar o colapso civilizacional, a palavra mais repetida continua a ser economia e o tema central continua a ser o capital.

Observemos, então, temas colaterais de somenos importância, como vidas humanas. Estima-se que a média anual de deslocados por mudanças climáticas entre 2008 e 2016 chegou a 25,3 milhões e, a continuar a este ritmo, as alterações climáticas serão responsáveis por 200 milhões (sim, duzentos milhões!) de refugiados climáticos até 2050. A Organização Mundial da Saúde estima sete milhões de mortes anuais por causas directamente relacionadas com a poluição. Ainda que observemos apenas a perspectiva capitalista, a mesma OMS estima que, nos 15 países que emitem maior quantidade de gases com efeito de estufa, os impactos na saúde da contaminação do ar custem mais de 4% de cada PIB, ao passo que as acções para alcançar as metas do Acordo de Paris custariam cerca de 1% do PIB mundial. Dá que pensar? Pensemos mais um pouco.

Sabemos que apenas 100 empresas são responsáveis por 71% das emissões globais de gases de efeito de estufa. Estamos a destruir a atmosfera (e a civilização como a conhecemos) para que muito poucas pessoas tenham acesso a lucros estratosféricos. Essas pessoas são tão mortais quanto o resto de nós, os seus descendentes e os nossos. A bem de quê? Do lucro imediato, da sustentação de um sistema que assenta na exploração de quase todos por parte de uns poucos? O lucro não pode continuar a ser colocado acima da vida de biliões de pessoas!

O máximo que podemos permitir que as temperaturas médias globais subam em relação a níveis pré-industriais é 1,5ºC (e até 2018 a subida média registada já é de 1ºC). Para isto ser possível, é necessário cortar as emissões em cerca de 50% nos próximos onze anos, até 2030, e atingir a neutralidade carbónica em 2100. Isto não significa que não existam já consequências graves neste momento (a abundância anormal de fenómenos climáticos extremos, secas e fogos florestais devastadores, a subida do nível médio da água do mar, com impacto directo na vida de pelo menos metade da população mundial), significa sim que, a partir deste limite, a vida nos moldes em que a conhecemos hoje será insustentável. Os efeitos das alterações climáticas e da geopolítica de um mundo orientado globalmente para produção de lucro são directamente responsáveis por crises migratórias, por escassez alimentar, por guerras e por crises sociais e humanistas. As populações mais vulneráveis são as mais pobres e fustigadas e, dentro destas, as mulheres são sempre o grupo mais fragilizado. Além de irracional, é eticamente aceitável que continuemos a permitir, impávidos e serenos, ao homicídio em massa da Humanidade?

Nem todos estamos de braços cruzados a aguardar o ponto de não retorno. O número de activistas envolvidos em protestos contra as alterações climáticas e a exigirem aos seus governos acções concretas e drásticas na redução de emissões de gases de efeito de estufa tem sido surpreendentemente grande, dizem os media, mas este factor surpresa só existe por parte de quem não reconhece a centralidade e urgência desta luta. As consequências das alterações climáticas são catastróficas para todo o planeta e o tempo de agir é agora, pelo que na verdade, do ponto de vista do activismo pela justiça climática, muitos mais (virtualmente, todos) são necessários.

A luta não é vã. Em Portugal, com apenas três anos de luta coordenada entre a sociedade civil e pequenas organizações ambientalistas, foram cancelados 13 dos 15 novos contratos previstos em 2015 para exploração de hidrocarbonetos (e os dois ainda activos, para exploração de gás nas zonas de Aljubarrota e Bajouca serão também suspensos), o que significou uma derrota estrondosa do plano de um governo que tem apoiado de forma despudorada as grandes empresas petrolíferas. Contudo, isso é apenas uma ínfima parte das lutas que têm de ser travadas em todo o mundo, porque a única forma de não mudar o clima de forma insustentável é mudar o sistema. Não há forma de a civilização como a conhecemos ultrapassar isto de outra forma. Não nos podemos dar ao luxo de perder esta luta.

Velozes e gélido, 
Fantasmas 
Os traços negros arrombam
A quietude das tardes frias
Apaga-se o céu como cortina
As aves estagnam,
Os arbustos chiam. 
Os olhos dela gritam 
Exclamam em surdina 
Como uma cruz
Incerta, trémula de susto 
Cala toda a luz
Abafa um choro, um riso,
Abismo com sapatinhos de lã

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Há um ano entraste de rompante, vindo do nada, como se as coincidências cósmicas tivessem um propósito. Disse-te o meu nome, tu disseste o teu nome, deu-se uma espécie de explosão catastrófica e fantástica, cheia de fogos-de-artifício e vórtices de caudal pleno de estrelas e tormentas espinhosas, e nada mais foi como havia sido até então.

Não poderei elencar as dores, as zangas, os abraços, as confidências, os sorrisos, as lágrimas que nos causámos, que excedem em número e em força a disponibilidade da memória. Poderia elencar os beijos e poemas, as promessas cumpridas e as quebradas, mas tu preferes esquecer e eu também. Passei um ano inteiro a escrever-te a ti, de ti e para ti e tudo o que só os teus olhos leram já diz demais, sem nunca dizer as palavras de que fiz barreira maior. Creio que devia parar aqui. Não só de escrever para ti, mas parar por completo. Parar de abrir portas a quem chega de novo com ideias e sentimentos e requisições e entusiasmos. Fechar as frestas que abri antes e parar de sentir frios e arrepios. Parar de me importar contigo, parar de querer dar-te o que te ofereci e não colheste, parar de confundir com afecto que tanto tenhas colhido de mim. Devia parar de sentir, de te sentir ao longe, de te ouvir a voz plena, de te escutar lamúrios e suspiros desanimados mascarados com planos que não te bastam. Devia parar de ser para parar de doer.

No outro dia, os que me querem e conhecem bem, só ainda não todo o avesso, que só sabem um resumo da nossa estória, brindaram à tua ausência, à tua saída com a porta a bater e a fazer estremecer as minhas paredes. Tiveram essa audácia, apesar de suspeitarem o quanto me dói este naufrágio sem jangada, para me convencerem com afronta de que estou muito melhor sem ti. Sem saberem que ruí por completo, que me perdi no caudal de mim mesma. Enquanto os copos tiniam, pensava em como nunca te culpei de nada e na ambição em que se tornou o teu sorriso. Nunca me arrependi daquele Janeiro escuro em que te encontrei de olhos vendados, te tirei as máscaras e derrubei os muros todos, como disseste no primeiro dia. Olhei para o fundo de um copo, imóvel e calada, concentrada em não deixar cair lágrima alguma, a muito custo. Tenho saudades, sim, e preciso de saber que estás bem, que alguém te cuida e aquece o bloco de gelo com que proteges o coração.

Tantas vezes me aconselharam a voltar-te costas, a não te dar a importância que nunca me deste, a proteger-me. Mas prometi que não te deixaria só, e não me interessa quantas barreiras e novos muros nos separem, só não ficarás. Prometi que não seguiria sem ti e aqui estou, estagnada. Já tentei retomar a marcha, com um pedaço a menos, que me falta, mas seguindo. Ainda não consegui o reequilíbrio, talvez o pedaço que me faltas seja mais central do que antecipava.