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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

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Muitos trazem cravos pendurados no peito aberto, cheio de orgulho do que não chegou a ser, murchas pétalas de uma liberdade tímida que se encolheu e resignou.

Desbotados, cravos murchos, cansados de uma luta que se venceu mas não medrou.

Outros empunham cravos ao alto como tochas, que de luz se vestem as flores quando os olhos estavam já acostumados a uma escuridão sufocante. Contra o azul do céu, um cheirinho de ousadia, palavras de ordem a romper décadas de silêncios mais fortes.

Eu carrego um cravo às costas. Não como fardo, mas como desígnio, desejo, propósito maior. Destino e rota incontornável, que canta o som de grilhões caídos e alvoradas por estrear nos sonhos de muitos olhos, nas lágrimas de muitos mares.

Não é mais bravo o meu cravo do que os outros, rubros heróis que fizeram de espingardas jarras. O cravo que carrego, que me empurra e me sustenta é hoje, é agora, é urgente. Os cravos da madrugada mais antiga do que eu, os cravos que já foram, esses são eternos. São os cravos das canções e da História, de um final quase feliz que podia ter sido um princípio de tudo, tivesse criado raízes.

O meu cravo negro e triste, traído, posto de parte, adiado, não se resigna a esperar mais, não cede e não cai. É cravo novo, viçoso, a cada manhã regado com lutas, com povo e materializadas utopias. Cravo poema, esperança em flor, com pressa de crescer e ser erguido vitorioso. Branco paz, branco puro, branco futuro. Negro noite, negro tormenta, definitivo luto. Meu cravo vivo, pulsante, vermelho sangue, vermelho liberdade, vermelho punho erguido, vermelho grito.

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Publicado originalmente no Repórter Sombra, no dia 29/04/2019.

(DAVID) When I met you I could see your light It felt so right, you were the one for me I’d never been so in love before So I locked that door and threw away the key But soon enough came the darkest times And all those signs stacked this long list You and I, we can never be one We tried to run but you’re so hard to resist Resist We split ways ‘cus we thought it was right But now none of us can sleep at night Oh no I fell hard for you More than I ever knew (so vicious, so truly repetitious) You won’t get rid of me Well I can’t get rid of you One of us should know Do we stay, do we go? (ambitious and highly superstitious) You’re hard to resist now Why do I keep resisting you?

(ALICE) When I met you I could see your light It felt so right, you were the one for me It was nothing like I’d seen before It was hard to ignore but nothing comes for free Soon enough we were out of control Two angry souls except when we kissed Now I guess I just keep hurting myself I’m out of the shelf but, man, you’re hard to resist Resist We split ways ‘cus we thought it was right But now none of us can sleep at night Oh no I fell hard for you More than I ever knew And it’s getting so vicious So truly, so truly repetitious One of us should know Do we stay, do we go? And still we insist, You’re hard to resist now Why do I keep resisting you?

(DAVID) Oh no I fell hard for you More than I ever knew (so vicious, so truly repetitious) You won’t get rid of me Well I can’t get rid of you (ALICE) One of us should know Do we stay, do we go? And still we insist You’re hard to resist now Why do I keep resisting you? So vicious.

Há mais de oito dias que não te choro. Agarro nessa pequena vitória para desassombrar os vazios que encontro nos passos insuspeitos, nas sombras e nos caminhos em que te encontro a espreitar para dentro de quem sou. Mandei-te um beijo provocador só com o meu nome, para te lembrar que nunca te esqueço. Não há tréguas ou descanso para o que é definitivo. Afecto crónico a que já chamei doença (e vês como ainda evito dizer amor, palavra embaraçosa, sem definição ou justificação racional), sem saída que não seja a fuga para a frente, a que tu tomaste de rompante e sem olhar para trás.

O nascer-do-Sol sobre o rio tem tentado piscar-me o olho, com pós e aromas de poesia, que sacudo à bruta porque me levam sempre a ti e ao turbilhão que me atira para uma escuridão fria que ecoa a tua ausência.

Há um ano e pouco o teu gelo rachou, em noite de fogo-de-artifício, recordas-te? Disseste o meu nome e ali colaste todos os cacos das tragédias que semeámos.

Agora que me secaste a poesia, que escrevo só para ti quando a emoção tem saudade de sair, a máquina alada jaz quebrada num ermo.

 

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Also, all mutually satisfactory relationships between consenting adults are valid, even if the specific details don't conform to your tastes or moral sensibilities.

Image description: Screen capture of a tweet by twitter user @DrSprankle

Foi Salgueiro Maia, capitão de Abril, que o disse há quarenta e cinco anos. A ditadura foi derrubada e a democracia teve, depois de quarenta e um anos, as portas finalmente abertas.

 

Desobedecer a leis de regimes opressores, ditaduras, ou quando as leis não servem ao povo mas a quem o explora, é um direito e um dever de quem tem a justiça como ideal.

 

O sistema judicial é feito para proteger a classe dominante e manter os poderes. Não nos iludamos, as leis só servirão o povo quando o povo mais ordenar efectivamente. Até lá, a lei é burguesa e protege o poder, ou seja, o capital, ou seja, os ricos, patrões e empresas.

 

A noção de legalidade não é em nada paralela a uma mensurabilidade do que é certo face ao que é errado (em termos de justiça e não em termos morais). Disso mesmo são evidências históricas as inúmeras validações legais de atentados contra a humanidade. A escravatura era legal, o holocausto foi legal, o apartheid na África do Sul era legal. A segregação racial nos Estados Unidos da América era perfeitamente legítima perante a legislação então em vigor, da mesma forma que o voto às mulheres era negado ou o trabalho infantil de doze horas diárias na Inglaterra em plena Revolução Industrial era prática corrente. Hoje mesmo, o casamento entre pessoas do mesmo género é duramente condenado em muitos pontos do globo (como se de um crime horrendo se tratasse), ou o adultério da mulher, por exemplo. Fica claro, portanto, que legalidade e justiça são conceitos afastados e só vagamente relacionados.

 

Os actos de desobediência civil podem ser tão pouco confrontativos como não pagar impostos, como fez Henry David Thoreau (o pioneiro a teorizar sobre o conceito) no século XIX, contra a escravidão e o financiamento da guerra contra o México, ou faltar às aulas como forma de protesto, ou ocupação de espaço público sem comunicação prévia às autoridades, bloqueando o trânsito, ou à ocupação ou danificação de propriedade privada. Por norma, a desobediência civil pauta-se por acções não violentas (embora o conceito de violência possa ser discutível), mas o seu impacto tem um efeito ampliado e provavelmente mais capaz de alertar e mudar mentalidades, sobretudo em tratando-se de acções massivas, repetidas, insistentes. Quando se sabe que se luta por justiça, por igualdade, por um mundo melhor, não há argumentos legais que demovam quem acredita; não há medo ou repressão capazes de calar a razão.

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Desobedecer é preciso. Num mundo repleto de injustiças, de violações de direitos humanos, de exploração dos mais fracos por parte dos mais fortes e de iminente colapso climático e ecológico, o problema maior é obedecer. É compactuar, pela inacção, com o sistema que causa e se alimenta das discrepâncias. Não é cumprindo ordeiramente as exigências dos mais poderosos que se muda alguma coisa do tanto que está errado. Não é com petições e abaixo-assinados que se alteram políticas ou que se revertem os efeitos do capitalismo selvagem que deixam tantos na miséria para muito poucos se tornarem cada vez mais ricos. Muitas vezes, nem sequer os protestos públicos, palavras de ordem e faixas se fazem notar o suficiente nas casas do poder, que continuam o seu caminho seguro de cilindrar as vidas de milhões de pessoas a troco de mais uns milhões nas contas bancárias, mais uma negociata bilionária a ser paga pelo bolso de quem já pouco tem. O agente de mudança real na sociedade, colocando de parte as opções violentas (que também só estão ao alcance das mesmas entidades políticas e económicas com meios para as concretizar e para sustentar uma organização robusta) ou, concedendo, com excesso de boa vontade, que as eleições democráticas possam realmente carregar um poder em que é natural e legítimo ser ou estar profundamente descrente, é a contestação massiva e organizada, a disrupção.

 

A desobediência é uma arma contra a opressão. A desobediência militar de um grupo de bravos derrubou a ditadura em Portugal em Abril de 1974. A desobediência civil é uma arma política de enorme potencial de mudança, que tem conseguido vitórias surpreendentes, desde as sufragistas aos movimentos pelos direitos civis americanos. Atente-se no exemplo de Greta Thunberg, a activista adolescente que fez da greve às aulas uma forma de unir meio mundo em torno da maior causa comum, ou o movimento internacional Rebelião de Extinção (Extinction Rebellion), na mesma luta pela justiça climática através de múltiplas acções directas não violentas de desobediência civil, em dezenas de cidades pelo mundo fora. Até onde se poderá ir se existirem inúmeras acções de desobediência civil, por todo o mundo, em sintonia em relação às suas reivindicações, a chamar à responsabilidade decisores políticos e poderes económicos, a alertar e despertar os cidadãos comuns para se juntarem às causas? Pequenas rebeliões locais, a multiplicarem-se a uma escala crescente, a crescerem e a deixarem de ser pequenas e locais para serem a grande escala e internacionais, a engrossarem as massas de uma mesma grande rebelião, serão um dia capazes de implementar uma autêntica revolução?

 

É difícil prever o que o futuro pode encerrar, mas é com esperança renovada nas vitórias dos movimentos sociopolíticos que se estão a erguer confiantes a exigir um mundo mais justo para todos que reside hoje a esperança na humanidade. Venceremos!

 

Crónica publicada originalmente a 16/04, no Repórter Sombra.

Morreste-me nos braços num dia igual aos outros, antes de o sonho começar a ser real. Quando me sentia ainda excepção pontual, de inseguranças feita e pernas a tremer. Quando ainda eram os teus olhos irreais demais para os saber de cor.

Não sei dizer-te saudade, não sei chamar-te amor.

Não te vejo a meu lado, não te oiço o respirar, os silêncios reticências sombras suspiros. Nem de ti sei, das tuas noites abertas de dúvida, das manhãs chuvosas que interrompem a música do teu sono.

O fio condutor que te trazia a mim cortei-o com os dentes. Memórias não sustentam ninguém, não retiram do ferro o peso acre ou do vazio no peito o sabor dos beijos. Afago os teus dedos sabendo que nada sentes e consumo esta estética da morte lenta que tece frases cinzentas a meia luz, como cicuta.

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“Dizer mentiras é feio!” - ensinamento incontornável dos adultos às crianças pequenas, tentativa de reprodução dum parâmetro moral nas mentes dos mais pequenos. Contudo, fá-lo em simultâneo com a instalação de uma série de mentirinhas aparentemente inofensivas, a bem de um imaginário fantasioso comum, ditado pelos costumes de narrativas vagamente educativas, como a existência de um Pai Natal que premeia crianças bem comportadas (mas que no fundo premeia as privilegiadas), fadas dos dentes e bichos papões. De seguida ensina-se as crianças a não dizer todas as verdades, que podem ser incómodas, embaraçar os adultos ou chocar os interlocutores: “isso não se diz!”, “mostra respeito!”

Portanto, sob o escudo da retórica moralista defensora da verdade, desde pequenas as crianças são ensinadas, pelo exemplo e pelas inúmeras mensagens contraditórias, que devem omitir e mentir para se encaixarem na norma, para não serem malcriadas, para não serem confrontativas e como sinal de respeito.

A mentira é uma constante da vida. É mais cómoda do que verdades inconvenientes, evita diferendos e atritos, faz promessas impossíveis, ganha eleições. Como uma capa de camuflagem que esconde a verdade feia e protege das verdades alheias.

Mais do que uma arma, a verdade desarma os outros. Incomoda, porque é, muitas vezes, inesperada. Outras vezes, demasiadas, porque magoa, e magoa os mais próximos, os que mais se deseja proteger. Ser brutalmente honesto pode ser uma maldição. Ser adepto da verdade absoluta a todos os momentos pode entrar em contradição com o conceito útil, que se vai adquirindo com as tareias da vida, de verdades desnecessárias. Opiniões que ninguém pediu, informações supérfluas, se só vão servir para magoar ou perturbar alguém, ou considerações que não trazem nada de positivo, são mais benéficas mantidas em silêncio.

Mas as mentiras, essas são corrosivas, qualquer que seja a sua envergadura. Fétidas e de pernas curtas, vão arrastando pelo caminho os que se aproximam, vão-se encrustando cumulativamente, camada sobre camada, como sujidade que se acumula ao longo do tempo, de tal forma que já não se consegue ver a superfície real. Uma mentira fininha por educação, outra mais espessa para não ficarem com a ideia errada, outra pequenina porque nos pediram segredo, outra camada mínima para evitar o confronto…

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Mesmo sem má índole ou segundas intenções, a verdade torna-se tão distante e inverosímil que chega a ser divertido que tantas pessoas tenham dificuldade em acreditar nas verdades que lhes são atiradas a sangue frio. As verdades inesperadas, que chocam, aquelas que são frequentemente maquilhadas com mentiras, são tantas vezes recebidas com gargalhadas nervosas, inseguras, incrédulas, como piadas e como falsidades. Quando se reforça e assegura que não há nada de falso nas inéditas afirmações, assume o lugar o espanto, o receio, eventualmente a consternação. E fica a verdade como um incómodo que é preciso explicar, justificar a fundo. Fosse uma qualquer balela evidente e seria aceitável com tranquilidade.

No fundo, o que falta não é só a exposição da verdade sem tabus. O que falta acima de tudo é capacidade de encaixe, de lidar com o confronto com algumas verdades, com a distância entre as expectativas e a realidade. Não somos (especialmente os povos latinos) formatados para lidar com a frustração ou para reagir racional e friamente, mas antes a evitar causar frustrações aos socialmente próximos. Mesmo que para isso seja necessário suavizar a verdade com as universalmente aceitáveis little white lies, aparentemente inofensivas, mas que contribuem para uma realidade assente numa pilha de máscaras globais.

O desconforto da mentira fica só com quem mente para não ofender os restantes, que se sentem ofendidos com a dívida de verdades. Será a mentira um gesto de sacrifício, abnegação ou indulgência? Ou talvez seja o comodismo que faz perpetuar as mentiras e a aceitação social das mesmas. Talvez seja demasiado difícil, exigente, cansativo, penoso ser sempre inteiramente fiel à verdade absoluta. Mas para quem? Para quem fala verdade ou para quem prefere viver num mundo de faz-de-conta a lidar com verdades que magoam e desarranjam os lugares das coisas?

As verdades, mesmo as mais difíceis, só doem uma vez. As mentiras são matreiras, mas sempre descobertas. E aí doem múltiplas vezes: pela mentira em si, pelo acto de quem mentiu, porventura por todos os cúmplices que assentiram, e torna a doer de cada vez que se confronta o que se sabia como verdade e deixou de ser. Dizer mentiras é feio, viver mentiras é indigno.

Aceita-se traições, duas caras e cenários idílicos de paredes falsas a troco de uma paz superficial, de uma aparência esquizofrenicamente divergente do que é real. Aceita-se tolher quem somos e queremos a bem de manter longe os limites de normas que ajudamos a definir. O que temos a perder vale assim tanto a pena? Para que se quer um mundo, relações ou quotidianos impregnados de floreados inúteis e sorrisos falsos, apenas para colher uma ou outra facada nas costas, uma ou outra desilusão e tempo perdido? Tenhamos a coragem de ser objectivos, de ser assertivos, de abrir à luz os lugares de sombras e de enganos.

Qual é o custo da mentira e, mais importante, qual é o custo da verdade?

 

Crónica publicada originalmente no Repórter Sombra, a 03/04.

Talvez o último primeiro beijo seja sempre o mais mágico e, na falta de repetições apetecidas, a memória lhe vá conferindo tons mais cristalinos.
Chamei-lhe poema.
Passam aviões, livros e discussões, e os olhos dele cravados em mim, ficando.
Passam dias, semanas e meses, e os meus olhos cravados no espanto, escorrendo ternura na graça que já não escondo.

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Fixem esta data: 15 de Março de 2019. Vai ser apenas um começo, mas o começo da maior reviravolta política, económica e social de sempre em termos globais.

Milhões de pessoas, maioritariamente estudantes do ensino secundário e superior, saem às ruas a exigir acção dos seus governos para travar as alterações climáticas, a maior e mais premente ameaça global que a humanidade alguma vez enfrentou e que, se não forem tomadas medidas drásticas muito rapidamente, transformará irreversivelmente a vida como a conhecemos. Reclamam o direito a um futuro, têm argumentos incontestáveis e a força da mobilização de massas como nunca antes vista e, tudo indica, em crescendo. Não vão desistir até conseguirem o que reivindicam: medidas concretas e urgentes para reduzir as emissões de GEEs (gases de efeito de estufa) a níveis que permitam limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC em relação a níveis pré-industriais.

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O movimento #FridaysForFuture ou #ClimateStrike, iniciado por Greta Thunberg, uma adolescente sueca determinada a lutar pela justiça climática contra o sistema, cresceu exponencialmente desde os protestos solitários em frente ao parlamento sueco, e promete mudar o mundo. Têm-se sucedido greves e protestos de grande dimensão na Bélgica, Austrália, Reino Unido e França, por exemplo. Para 15 de Março, a Greve Climática Estudantil está agendada para centenas de cidades em 92 países. É A MAIOR GREVE DE SEMPRE.

O movimento é estudantil, mas colhe apoios sem reservas da comunidade científica internacional e dos activistas pela justiça climática. O consenso é inequívoco: para a maior crise ecológica de sempre, as respostas do status quo (de falsas soluções de “capitalismo verde” a um tecnopositivismo que remete para um futuro incógnito pelo qual não temos tempo para esperar de braços cruzados) não são minimamente eficazes. O problema reside no sistema, pelo que nada menos do que mudar o sistema o poderá resolver.

Em Portugal, estão confirmados 27 locais com protestos organizados o âmbito da Greve Climática Estudantil. Cientistas e activistas têm feito palestras nas escolas e universidades para esclarecer os factos das Alterações Climáticas e sensibilizar alunos. Juntam-se professores, pais e muitos movimentos sociais comprometidos com os direitos humanos, a justiça social, a luta feminista e anti-racista, porque a justiça climática é uma luta interseccional.

As ambições destes jovens não são modestas. Pretendem, e vão conseguir, mudar o destino da humanidade. Eu acredito, até porque é a única hipótese que temos. A Revolução começa agora!

Crónica publicada originalmente no Repórter Sombra, a 15/03.

Dia 8 de Março é o Dia da Mulher e está convocada uma Greve Feminista Internacional. Tendo em conta os comentários que se vêem e ouvem todos os anos como reacção ao Dia da Mulher e, ultimamente, como reacção específica à greve, ou muita gente não faz ideia da realidade em que vivemos, ou o feminismo ainda é um bicho papão que mete muito medo ou é ostensivamente incompreendido por parte de muita gente. Vou então endereçar e tentar desmistificar, um por um, os comentários mais representativos ou caricatos sobre o tema.

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Feliz dia da Mulher! Toma lá uma flor!

Não se macem, homens, patrões, sindicatos. Algumas pessoas até podem gostar de flores, algumas mulheres até podem achar que este dia é uma oportunidade de celebrar alguma coisa, mas estão... Como dizer isto?... Errados! O Dia da Mulher é um dia de luta política, não é um dia festivo com o propósito de agradar as mulheres com uma florzinha condescendente. Não precisamos de flores ou de festas, precisamos de ser tratadas como pessoas plenas, em igualdade de circunstâncias e direitos com as pessoas que não são mulheres, todos os dias.

 

Se há o Dia da Mulher, porque é que não há Dia do Homem?

Porque dia do homem é todos os dias. Sem excepção, nem mesmo a 8 de Março. Porque é o homem o privilegiado na sociedade patriarcal, porque as relações de poder estão desequilibradas e o domínio ainda pertence (incrivelmente!) aos homens. Olhem em volta. Olhem para as pessoas em posição de poder, para a Assembleia da República, para ministérios e secretarias de Estado, para as Assembleias Regionais, para o poder municipal, para o poder judicial, para as forças de segurança, para as mesas de accionistas, para as listas dos mais estupidamente bilionários da Forbes, para as direcções de ONGs, colectividades e associações de estudantes; olhem para as televisões, para os jornais, para os oradores em congressos, simpósios e conferências. Olhem para a representação de géneros na ficção, filmes e livros, na publicidade, nas embalagens de fraldas a iogurtes. É por isto que não há nem deve haver mais um dia especial, além dos 365 do ano, para celebrar a masculinidade. Porque não é o homem que está oprimido, sub-representado, reduzido a elemento utilitário ou decorativo, condicionado. Porque não é o homem que é vítima de mutilação genital em mais de 27 países a bem da “tradição” de controlar e reprimir a sexualidade, porque não é ao homem que são imputadas as principais tarefas de cuidados e trabalho reprodutivo, porque não é o homem que sofre violências múltiplas sobre o seu corpo, desde os ideais de beleza a que é esperado que corresponda até às agressões sexuais e à violência no parto, porque não é o homem que está, estatisticamente, mais sujeito à precariedade no trabalho, porque não é o homem que tem um fosso salarial de cerca de 20% para superar, porque não é o homem que é constantemente julgado e avaliado pela sua aparência ou pela sua conduta íntima, porque não são os homens que são apalpados em sítios públicos vezes incontáveis ao longo da vida, porque não são os homens que constituem 86% das vítimas de violência doméstica, porque não é o homem que culpabilizado pelas agressões que sofre. Porque aos homens tudo é permitido e desculpável, porque a cartilha moral é muito mais permissiva para os homens. Porque as mulheres são todas umas putas, mas o pior que um homem pode ser é filho da puta.

 

O machismo já não existe, isso era dantes!

Claro que não existe. As mulheres portuguesas de hoje são umas sortudas! Já podem votar, conduzir, trabalhar fora de casa (além da jornada dupla e tripla na gestão do lar e enquanto cuidadoras da família - já lá vamos) e ganhar 80% do que ganham os machos! Uau! Já podem viajar sem autorização escrita do seu amo, marido ou pai. Até já se podem divorciar e, heresia, interromper uma gravidez indesejada sem terem de recorrer a serviços clandestinos sem condições de higiene ou segurança. A não ser que residam em um dos muitos países em que esta realidade ainda é uma miragem! Mas nós por cá já temos esse incrível avanço há séculos - não, afinal é só desde há menos duma dúzia de anos.

Só no século XVIII é que era possível morrerem doze mulheres às mãos de maridos, ex-companheiros e pais em pouco mais de dois meses. Foi obviamente na Idade Média que a justiça portuguesa deliberou que o adultério da mulher era um gravíssimo atentado à honra do homem, e que isso seria uma atenuante face à agressão violentíssima (com uma moca com pregos, em jeito de Neanderthal!) da mulher “pecadora” por parte do seu ex-companheiro e do ex-amante, numa bonita união da masculinidade tóxica despeitada. Foi há pelo menos quinhentos anos que o mesmo juiz misógino, que se sente lesado por quem diz que ele é misógino, retirou a pulseira electrónica a um homem que agrediu ao soco a sua companheira porque ele nem sequer usou de qualquer arma contundente, e afinal só provocou hematomas, escoriações e um tímpano destruído, mais agressões verbais que já nem contam (afinal ela já estava surda do lado esquerdo, provavelmente nem ouviu).

 

Mas a igualdade já está garantida por lei!

Está sim, na Constituição e tudo. E está muito bem, só que entre o que está escrito nas leis e o que acontece na realidade vai um bocadinho, coisa pouca (ver ponto anterior).

Por um lado, a paridade é uma ficção. Era excelente não serem necessárias quotas para garantir o equilíbrio de géneros nos cargos de poder, é claro que o acesso devia estar reservado a critérios de meritocracia. Só que a meritocracia é um mito e a paridade espontânea outro. Numa sociedade patriarcal e intrinsecamente machista, se isto não for regulamentado e efectivamente aplicado, a mudança que se prevê (diz um estudo) que demore cinco gerações a lograr demorará ainda mais. E convenhamos, já ninguém tem paciência para esperar mais para sair da Idade Média.

Por outro lado, a lei pode ser interpretada e usada em sentidos diversos, de acordo com o juízo dos que têm poder de fazer exercer a lei, como Portugal tem sido tão eficiente a demonstrar.

 

Até já há mulheres que ganham mais que os maridos! O que é que querem mais?

O drama, o horror. Como assim, ousam perverter uma relação de poder típica e trocar os tradicionais papéis de género? Isso não é natural! Na volta, lá em casa mandam elas e eles, coitadinhos e emasculados, ainda têm de cozinhar, passar e lavar o chão, que é uma tarefa que se sabe tipicamente de fêmea, enquanto as patroas vêem a bola ou saem com as amigas. E as que nem querem ter filhos, renunciando ao desígnio divino e à sua função primordial (única não, porque alguém tem de lavar a loiça)? Mais as que dormem com quem entendem, as que são mães solteiras por opção, as lésbicas, senhores! Hereges! É natural que as mulheres ganhem menos do que os homens, porque afinal dedicam-se menos ao trabalho, não é? É. As mulheres têm esse terrível handicap de não ter genitais masculinos e toda a gente sabe que a “dedicação ao trabalho”, ou a capacidade, ou a competência, residem no falo. Ou a capacidade de exercer trabalhos mais pesados fisicamente, que as mulheres são todas fraquinhas, como se sabe… Não deixa é de ser curioso que o trabalho intelectual também seja díspar nas retribuições, apesar de as pessoas com mais formação serem… as mulheres.

 

Eu ajudo a minha mulher em casa e quando é preciso até troco a fralda ao bebé!

Ah, esta belíssima constatação que normalmente se faz acompanhar da expectativa de elogios e palmadinhas nas costas, como se de um acto heróico ou extraordinário se tratasse. Homem: se também vives lá em casa, não se chama “ajudar”. Se comes todos os dias, fazer o jantar em dias de festa não conta como partilhar tarefas. Se és parceiro, trocar uma fralda quando a tua companheira está ocupada não é ser um excelente pai; é nem conseguir chegar ao mínimo indispensável. A partilha de tarefas domésticas significa que elas são, efectivamente partilhadas, de acordo com possibilidades, disponibilidades, energias. Partilha de tarefas domésticas é qualquer um fazer o que houver para fazer, simples como isso.

As inúmeras tarefas domésticas, os cuidados da família e de casa, da prole aos mais velhos, são trabalho fundamental à sustentação da sociedade como a conhecemos, mas tipicamente, trabalho não remunerado e invisibilizado, a cargo sobretudo das mulheres. Aparece feito, como por magia. E mesmo as funções de cuidados que são assalariadas, estão tipicamente associadas às mulheres: limpezas, refeitórios, educação infantil, geriatria. E estão também tipicamente associadas a condições contratuais precárias, a baixos salários… Até quando?

 

Agora qualquer desentendimento entre o casal é logo violência doméstica...

A naturalização da violência doméstica precisa de ser banida. A violência doméstica precisa de ser erradicada, ponto! Num país onde mais de metade dos jovens já sofreu violência no namoro e 67% acha normal alguma forma de violência (física, psicológica, sexual ou atitudes de controlo), onde a escalada de femicídios está a atingir proporções absolutamente assustadoras, onde 85% das queixas não seguem para acusação e as queixas serão uma pequena parte das situações de violência, onde as vítimas são sistematicamente culpabilizadas e os culpados são deixados em liberdade, não pode haver a mais pequena chance de assobiar para o lado e ignorar o problema. Decretar dias de luto não faz nada pelas vítimas. Violência doméstica é crime público, já não pode haver cabimento na máxima “entre marido e mulher não se mete a colher”! Basta! Quem cala ou tenta escamotear a verdade está a compactuar com o crime e isto não pode ser tolerado!

 

Mas nem todos os homens!…

Claro que nem todos os homens são agressores, claro que nem todos os homens são machistas e nenhuma feminista em usufruto de plenas competências intelectuais acusa todos os homens de serem agressores ou machistas. Mas obrigada por frisarem o óbvio, não acrescentando rigorosamente nada ao tema e ocupando o espaço público com a vossa indignação inédita, desviando a atenção do que realmente interessa. Esta coisa do #notallmen é uma flagrante questão de ego. Tão acostumado que está a achar-se no direito de ter algo a dizer, a interromper, a ter a atenção e a palavra ainda que o assunto não lhe diga respeito, o pobre macho sente-se ameaçado no seu privilégio se alguém fala da sua tribo masculina sem criar a excepção em seu nome. O que a esmagadora maioria dos homens não entende é que é o seu lugar privilegiado na sociedade enquanto homens (sobretudo se forem ricos, brancos e heterossexuais) que os faz cair no ridículo de se sentirem melindrados com acusações justas para com os homens agressores e machistas. Senhores, para o “nem todos os homens” (#notallmen) é que já não há pachorra! Já muito ajuda quem não atrapalha, portanto queiram fazer o favor de se absterem quando não têm nada a acrescentar.

 

Vestida daquela maneira/à noite sozinha/estava a dançar com ele, o que é que ela queria?

Queria divertir-se, queria beber e dançar como as outras pessoas sem ser assediada, apalpada ou violada, sem ser agredida. Queria ser tratada com respeito, queria não ser alvo de juízos de carácter por fazer com o seu corpo o que bem entende, queria não receber assobios e propostas sexuais de desconhecidos, queria não ser assediada no trabalho, queria ter o mesmo salário e oportunidades que têm os homens seus colegas. Queria andar sozinha de noite sem ter medo de ser atacada. Queria não viver numa sociedade em que a cultura do estupro é dominante. Queria só ser respeitada e ter o mesmo tratamento que é genericamente dado às pessoas sem vulva. Queria não ser alvo do anedotário nacional que relaciona uma derrota do clube de futebol do agressor com a consequente surra na esposa, como se a correlação fosse aceite tacitamente como justificação. Queria não ser parte das estatísticas que apontam as mulheres como 80% das vítimas de violência doméstica e 90,7% das vítimas de crimes sexuais. E é também por causa deste flagelo que é muito necessário ter um Dia da Mulher e fazer uma Greve Feminista. Repitam comigo: as mulheres não são objectos, são pessoas.

 

Greve?! As greves só podem ser convocadas por sindicatos!

Esta Greve sustenta o nome por ser um evento internacional e que pretende ser uma expressão massiva de contestação social. Há países em que a mobilização em anos anteriores já juntou nas ruas milhões de pessoas (com e sem vulva)! Em 2018, só em Espanha foram sete milhões. Vejam bem que até cá no burgo da retaguarda da Europa, já há (poucos, poucochinhos e tão insuficientes) sindicatos temerários que foram buscar coragem política onde os seus pares não a vislumbram e fizeram o pré-aviso de greve. Os restantes continuam, aliás, a perpetuar o status quo e a “premiar” as trabalhadoras com flores, como se houvesse lugar a algum tipo de celebração ou como símbolo de uma espécie de fragilidade decorativa das mulheres nos locais de trabalho, o que rejeitamos com veemência. Poupem-nos a semelhantes manifestações de “solidariedade”, que aliás são utilizadas precisamente pelas entidades patronais - sim, as mesmas que cavam o fosso salarial que coloca as mulheres a laborarem sem remuneração por 58 dias anuais em comparação com os homens.

Se é esta fraca colaboração que a grande maioria dos sindicatos tem para oferecer às mulheres trabalhadoras, não são parte da solução, mas são indubitavelmente parte do problema - que é como quem diz, do sistema.

 

Mas não se pode convocar uma greve só para mulheres!...

Obviamente que não. Numa greve contra a discriminação, não são só as mulheres que devem lutar pelos seus direitos, mas todas as pessoas que acreditem que as pessoas que não se identificam como machos não são pessoas de segunda categoria. (A sério que é preciso explicar isto?!) Não existe guerra dos sexos, o movimento feminista quer acabar com o patriarcado, não com os homens. Aliados são bem-vindos e necessários. Os aliados que recusam perpetuar o sistema que lhes confere o privilégios múltiplos e lutam lado a lado com as mulheres, sem se sobreporem à sua voz, por um mundo mais justo para todos, são valiosos e bem-vindos.

 

Como é que posso juntar-me à Greve Feminista?

A greve almeja um abalo suficientemente forte nas opressões sistémicas para que o sistema mude de facto, e assenta em quatro eixos: greve ao trabalho assalariado, greve estudantil, greve aos cuidados e trabalho doméstico e greve ao consumo de bens e serviços.

Há várias formas de colaborar, sendo que fazer greve é a que encabeça a lista. A segunda melhor forma de ajudar é sair à rua e engrossar a massa humana das manifestações que vão ocorrer em vários pontos do país - quantas mais pessoas na rua a reivindicar os direitos de todas nós, melhor. Depois, é ainda fundamental o apoio dos homens à greve, não só engrossando os espaços de luta como também substituindo as mulheres nas suas tarefas domésticas e de cuidados, porque há muitas pessoas dependentes dele.

Se as mulheres param, o mundo pára.

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Olá. O meu nome não é Sofia e eu sou poliamorosa.

Não sou uma extraterrestre, não sou uma pervertida ou tarada sexual. Sou só alguém que, como provavelmente a maior parte das outras pessoas, ama mais do que uma pessoa mas, ao contrário da maior parte das outras pessoas, vive várias relações afectivas e sexuais com o conhecimento e consentimento de todos os envolvidos. Está dito. De seguida, vou explicar um pouco mais. Vamos por partes.

 

Poliquê?

O poliamor é uma das formas relacionais que se enquadram na não monogamia ética e distingue-se por existirem sentimentos românticos por mais do que uma pessoa em simultâneo. Uma imensa panóplia de outros formatos existem, desde as relações abertas à anarquia relacional. A diversidade é tanta que se torna complexo atribuir definições estanques e rótulos. O ponto fulcral de todas as não monogamias éticas é o desejo de manter relações afectivas ou sexuais com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, em que existe consentimento de todas as partes. Podem existir parceiros preferenciais numa hierarquia clara, ou não, parceiros ocasionais, tríades, diferentes graus de envolvimento emocional, com ou sem co-habitação, com ou sem co-parentalidade.

 

O meu percurso

Durante muito tempo achei que era monógama. Não conseguia conceber que tivesse espaço emocional para mais do que um Amor profundo, denso, absorvente, ou acreditava que pelo menos um seria sempre mais importante, mais bonito, mais pesado e, em comparação, a existirem sentimentos por outra pessoa, não podia ser amor, pelo que teria de fazer uma escolha e manter-me fiel ao “amor verdadeiro”. Quer dizer, não concebia isto especificamente para mim, já sabia o que era o poliamor, já apoiava desde sempre todos os formatos de relações abertas e de não monogamia ética, mas apesar do interesse político e social que me despertava, não me via a mim em tal situação. Até que aconteceu. De repente e sem pré-aviso, entrou na minha vida alguém que me abalou uma série de certezas, que me suscitou sentimentos muito fortes e impossíveis de ignorar, e isto sem colocar em causa ou alterar os sentimentos que existiam pela pessoa com quem já mantinha uma sólida relação íntima, a quem nunca escondi rigorosamente nada em nenhum ponto e que, sendo a pessoa absolutamente extraordinária que é, apoiou que explorasse livremente os meus sentimentos e desejos, num processo cheio de dificuldades e complicações particulares que superámos e com o qual aprendemos e crescemos muitíssimo.

 

Ao longo das contínuas incursões analíticas de auto-conhecimento, fui percebendo que já me tinham surgido vários outros interesses amorosos que não os meus parceiros durante o curso de todas as relações em que tinha estado, e que sempre tinha reprimido esses interesses, cortando qualquer hipótese de aprofundar o conhecimento da outra pessoa, porque isso se afigurava como um “risco”, um potencial atentado contra a estabilidade da relação. Tinha condicionado a minha liberdade sentimental a escolhas sucessivas, porque estava profundamente convencida que apenas uma pessoa poderia merecer o meu amor, todo o meu amor, como se de um recurso finito e escasso se tratasse.

 

Percebi finalmente o quão ridículo era deixar passar a oportunidade de deixar entrar na vida pessoas fantásticas, com o potencial de se tornarem muito importantes, por receio de gostar delas e, ao mesmo tempo, depositar toda a pressão de encontrar em todos os momentos o que se necessita de dar e extrair de uma relação emocional em apenas um outro ser humano, com personalidade, gostos e ritmos próprios, com falhas, erros e momentos complicados, e toda a miríade de particularidades individuais que têm direito a existir muito para além, e por vezes em contradição, da esfera da relação entre duas pessoas. Percebi que não só os modelos relacionais não-monógamos fazem muito mais sentido, como as próprias relações, cada uma delas, se torna muito mais saudável, com expectativas mais realistas, com comunicação mais fluida, com mais partilha e, ao contrário do que possa parecer à primeira vista, muito mais segurança. Percebi enfim que, tendo percebido tudo isto, não havia a menor hipótese de voltar a conceber plausível para mim a monogamia, que agora se afigura como restritiva e desadequada.

 

Como se gere?

Na não monogamia ética todas as relações (emocionais e/ou sexuais) são consentidas entre todos e existe um grau variável de liberdade para explorar afectos e desejos com outras pessoas. Isto é ponto assente. Depois, cada relação tem as suas dinâmicas, regras e hábitos próprios, que os intervenientes vão construindo e desconstruindo, ajustando, desejavelmente na óptica da confiança e transparência e com muita comunicação. Os formatos são múltiplos, não existem conceitos de relações “certos” ou “errados”. Há relações abertas (em que os intervenientes têm liberdade de explorar outros interesses afectivos ou apenas sexuais), há relações poliamorosas (em que as ligações implicam um envolvimento sentimental), podem existir relações com hierarquia distinta (com parceiros primários distintos dos secundários), ou no caso da anarquia relacional, sem regras estanques, e mais uma panóplia de variações. Há quem faça “contratos” ou estabeleça regras vinculativas e há quem vá acordando e decidindo o que é melhor e mais confortável para todos à medida que as situações e desafios surgem. As pessoas e as relações não são estanques, evoluem e adaptam-se. E acontecem problemas, crises, zangas e rompimentos, bem como fases excelentes e momentos fabulosos, como em todas as relações.

 

E o ciúme?

Na minha perspectiva, o ciúme é apenas um reflexo da insegurança ou do desajuste de expectativas. Não posso dizer que nas relações não monógamas não há ciúme. É claro que pode haver, porque a insegurança pessoal não se ultrapassa com passes de mágica, mas é vivido de outra forma. A comunicação aberta e constante é um imperativo, pelo que o cenário mais provável é que as pessoas inseguras deixem claras as suas inseguranças ou expectativas frustradas, e os seus parceiros façam o melhor que sabem e podem para as aplacar. Além disso, o mindset de uma pessoa não monógama é, à partida, capaz de resolver grande parte do problema na sua génese. A liberdade é a maior prova de amor. Se temos e damos aos nossos parceiros liberdade para estar com quem escolhermos, sem amarras ou condições, sabemos que quem está connosco só está porque quer e enquanto quer, e não para manter uma promessa ou contrato de fidelidade exclusiva.

 

O próprio oposto do ciúme é sentido frequentemente pelos poliamorosos. Chama-se compersão à alegria e felicidade que se sente quando um dos nossos parceiros encontra uma nova pessoa que o faça feliz - e não, asseguro que não é um mito.

 

Porque é que a monogamia é a norma?

A monogamia é o tipo de relação exclusiva (normalmente, em termos emocionais, sexuais, estruturais e sociais) entre duas pessoas. É a norma cultural vigente, dado que a presunção implantada colectivamente é a de que a relação romântica ocorre apenas entre duas pessoas. O conceito de monogamia está intrinsecamente ligado ao conceito de propriedade privada - e mais concretamente à ideia de, numa relação heterossexual, a mulher ser propriedade privada do homem. Na família monogâmica patriarcal, surgida com o advento da agricultura e do sedentarismo das populações, o homem é o centro do poder e tem um direito inquestionado de “ser infiel” (nos machos a líbido é apenas uma manifestação de virilidade, como é sabido), mas uma vez que precisa de garantir que os seus herdeiros são filhos legítimos, a mulher não aufere do mesmo direito. A (o)pressão acrescida que se atribui às mulheres verifica-se em todo um código de conduta subentendido que as obriga à monogamia e à fidelidade. Uma transgressão da mulher ao elo do matrimónio monógamo é, ainda hoje, vista como "um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem", citando o célebre – pelos piores motivos – acórdão do juiz Neto de Moura.

 

Como resultado desta opressão histórica propagada de forma quase universal, e reforçada pelo clero, as normas sociais vigentes impõem sobre o amor romântico uma série de regras e mitos sem fundamentos plausíveis.

 

A mononormatividade é incutida e reforçada socialmente de forma transversal. A ideia de que só se ama uma pessoa, de cada vez ou na vida toda, que quando se encontra “aquele alguém especial” se sabe, porque esse amor é tão único e irrepetível que só há um cartucho para gastar durante toda a vida, a noção de que ter sentimentos por outra pessoa além do parceiro já existente é uma espécie de falha ou poluição que invalida a veracidade do amor, está presente em todas as facetas da vida no mundo actual. Está presente nas narrativas romantizadas do amor idílico em filmes, romances e demais ficções em que os triângulos amorosos e outras alterntivas à ideia de amor perfeito único são apresentadas como obstáculo a superar, dilema a resolver. Está presente em toda a lógica dos mercados orientados para a vida a dois, em casal (e, já agora, em casal heterossexual e binário). Está presente na religião, na lei, na justiça, e está presente nos casamentos e ainda em grande parte das famílias divididas.

 

Quantas relações monógamas actuais são destruídas porque alguém sente interesse, atracção, amor por outro alguém e o reprime, causando desconfortos e desequilíbrios em si e na dinâmica relacional, ou persegue um novo interesse de forma escondida, sem assumir a verdade perante a relação já existente, como se a atracção ou o amor fossem algo de feio, sujo ou ilícito? Onde está escrito que só se pode ter uma relação, um amor, um companheiro?

 

Curiosamente, muito pouca gente parece parar para questionar esta ideia tosca e tão pouco sensata do amor romântico único. Em mais nenhuma relação emocional a sociedade interfere de forma a limitar a um o objecto de afecto. Não tem cabimento para ninguém obrigar as pessoas a escolher apenas um filho para amar, apenas um irmão, ou o pai ou a mãe, que os dois é demais. Ninguém fica boquiaberto perante o facto de alguém ter mais do que um(a) amigo(a) com quem gosta de passar tempo. O moralismo pequeno-burguês marca a natureza distinta das relações pela presença de intimidade carnal. Novamente, é a ideia fundada nas raízes da cultura judaico-cristã e reforçada pelo feudalismo de que o sexo é uma coisa pecaminosa (sobretudo para as fêmeas, já sabemos) a destrinçar o que é aceitável do que é um atentado aos bons costumes.

A monogamia enquanto norma social é, assim, uma opressão difícil de contornar.

 

Falar da não monogamia a pessoas monógamas

Não é fácil assumir e viver publicamente sem vínculos às expectativas do que é a norma social. O que existe em contra-regra é olhado como estranho, como anormal, é caricaturado e conotado com uma série de ideias pré-concebidas sem qualquer fundamento. No caso das não monogamias, a desinformação abunda e a desconfiança e o preconceito também. Falar da não monogamia a pessoas monógamas é um desafio e muitas vezes torna-se frustrante. Dizer e viver a verdade parece ser mais estranho do que encobrir com mentiras que tornam tudo muito mais normalizado. Na sociedade actual, em que o adultério é perfeitamente normalizado e até, em certa medida, expectável porque não só não questiona a norma da monogamia, como a reforça e reproduz, são as vivências amorosas e sexuais múltiplas com consentimento de todas as partes que são percepcionadas como transgressões sociais e morais. É curioso, não é, que a transparência e a verdade sejam consideradas imorais, mas que as opressões, mentiras e traições sejam corriqueiras e banalizadas?

 

Fazer uma saída do armário (“coming out”) pode ou não fazer sentido, consoante o contexto social e familiar, a personalidade e estrutura mental e emocional de cada pessoa. Não estando a fazer nada de errado ou que seja motivo de vergonha, pode ser esquisito fazer esforços para esconder o modo de vida; contudo, assumir perante o mundo formatado para a visão oposta e informar inusitadamente os outros pode também significar abrir a porta a preconceitos, a incompreensão, a tensões e a lutas que, muito francamente, podem aportar muito pouco além de desgaste emocional e turbulências desnecessárias.

 

Não pretendo fazer a apologia da não monogamia ética versus a ridicularização da monogamia. Não há certos ou errados no que diz respeito às relações pessoais íntimas. Cada qual sabe de si e o que funciona bem para uns não tem de funcionar para outros. Pretendo, sim, desmistificar as construções fictícias em torno da monogamia como modelo desejável, recomendável e caminho único para a felicidade amorosa. Pretendo, sim, fazer a apologia da liberdade, da aceitação, da tolerância. Acima de tudo, quero evidenciar aquilo que toda a gente, no fundo, já sabe. O amor não é um bem precioso que se deva guardar num cofre e dar a um receptor único. O amor é infinito, é plural, contagioso. O amor não se divide, multiplica-se.

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Numa manhã domingueira, baila o nevoeiro ao ritmo das ondas do rio. Tricoto uma rede de questões doridas, a pensar em quem me habita o coração, em quem poderia habitar, nos degraus da surpresa e da nostalgia, no carinho que se adivinha num olhar.

Surge a face dele numa parede ensolarada, aquele que nos juntou, como uma daquelas pausas que interrompem o riso antes do primeiro beijo no cinema cliché. Apesar de parecer despropositada a imagem mental do teu sorriso surgir na ponta da minha mão estendida, apesar de a tua voz não condizer com os diálogos que me seguem nos sonhos que tenho acordada, apesar de tudo em ti ser desfasado dos sonhos em que me embrulho, é a constatação de que não estás que me rompe a face em lágrimas soluçadas, apneia surgida do nada.

Estava bem até então, sozinha a tocar piano com os pontos de interrogação que me deixam pendurados nos sorrisos doces que respondem em esforço "eu também gosto de ti". A tua ausência inquieta-me tanto quanto a tua presença, sempre de rompante, sem ar, incontrolavelmente, asas a bater contra a espuma e salpicos de mar e vento. "Não sabia que estavas tão quebrada", diz o desatento salva-vidas. Tu saberás. E eu observo ao longe a tua queda de asas abertas, a pique contra garras de ferro que te estilhaçam em sombras, e na ponta da minha mão vazia o teu sorriso de luz não brilha.

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And all the things we were going to do. All the plans to being young and fearless until we woke up really, really old and hold each other's hands and kiss like we always did, with poetry between the lips, no walls and no clothes, just us and the poetry of the softest kisses.