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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

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As paredes meias são intransponíveis, frias, espessas, rudes. Gritam distâncias, cilindram qualquer aproximação luminosa. É difícil, é longe, não se consegue fazer ouvir do outro lado do muro. São franjas de alegrias francas penduradas nas molduras tortas, lá longe no tempo de fogueiras e sorrisos, de encontros e beijos furtivos, são mágoas penduradas nas esquinas, a lascar a tinta, a fazer sombra.

E é o castigo de ter tão dentro quem está longe e os dedos quase se aquecerem, entrelaçados nos sonhos e nos dilúvios da alma a desabar. Os abraços semeados nas entrelinhas, que fogem, com as letras todas menos algumas. 

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Balbuciaram duas ou três sílabas quando ele entrou. Teve de tocar à campainha, já havia entregue as chaves da casa no dia em que formalizaram a escritura e a casa passou a estar só em nome dela. O gato preto, Malaquias, espreguiçou-se e levantou-se pachorrento da pedra do parapeito da janela do quarto, que deixava de estar fresca com a incidência do sol do início de tarde. A última coisa que os unia, além do filho que fizeram juntos uma década antes, estava por fim a ser arrumada, devolvida ao seu lugar. Ele estendeu o livro de páginas amareladas e capa gasta, num tom de laranja que sugeria já ter sido vermelho. 
- Desculpa, parece que foi à guerra... Deixei-o ao sol muitas vezes, levava sempre na mochila quando ia... Quando saía por uns dias.
- Não tem importância, Miguel. – mentiu ela em voz pequenina e despachada.
Esticou o braço e pegou rapidamente no romance sem interesse que ele lhe havia oferecido pelo seu décimo oitavo aniversário, receando que um movimento mais lânguido denunciasse o tremor eléctrico que sentia por todo o corpo. Largou com suavidade na cadeira próxima o volume que lhe entregava aquele homem estranho que tinha sido seu amigo, confidente, namorado, depois noivo e marido durante alguns anos, até se tornar apenas uma cara familiar, que reconhecia das fotografias que ainda mantinha, por respeito ou solidão, nas cómodas e paredes. Sabia tudo deste homem, onde nascera, os nomes completos dos irmãos e pais e tios, a cor da porta da casa onde viveu na juventude, os pratos preferidos e a aversão que tinha ao sabor da hortelã, o jeito como coçava a testa quando tinha sono; porém, não o conhecia. Já não o conhecia nem sabia nada dele. A desabituação de um quotidiano que deixa de ser partilhado pode ser fatal quando a distância se instala, mais do que entre endereços, entre duas vozes caladas. O fosso entre aquelas duas vidas antes entrelaçadas tinha-se tornado fundo demais, sem pontos de contacto, todas as pontes ruídas, deterioradas pelo tempo e por bafios acumulados.
- Bom, então vou andando, não é? Na sexta-feira venho buscar o Pedro para o fim-de-semana, como combinámos.
- Então vá, não te atrases. Na sexta-feira, digo. O menino está ansioso por ver o quarto novo lá na tua casa. Não fala de outra coisa.
- Sim, eu sei. Tu também podes lá ir ver, pintámos o quarto de verde, está giro.
Iniciou um sorriso quase entusiasmado e depois pareceu-lhe despropositado. Que ideia tão descabida, convidar a ex-mulher para ir à casa onde vivia já com a namorada. Pausou.

O cabelo dela recebia da janela raios transversais de sol que nele acendiam um fogo alaranjado a emoldurar o queixo fino, escorrendo em fiapos pelo pescoço e pelos ombros encolhidos. Por um fragmento de instante, ele vislumbrou a miúda apagada com quem tinha dado o primeiro beijo na adolescência. Franzina, de voz aguda e débil como o corpo, cara sardenta e olhos mortiços. Viu-a então e agora como uma boneca de trapos que precisava de ser salva duma espécie de abandono, que se não fosse trazida à vida definharia prostrada, amarelecida e crespa como o Outono fazia às folhas das árvores, num banco de jardim ou em qualquer outra plateia de onde os picos de acção só são observados e aplaudidos, ancorada aos receios ou a uma qualquer irrealidade paralisante.
Ela passara toda a sua vida na hesitação, não experimentando a água até ser puxada para o mar, à espera que alguém lhe desse permissão para rir, para existir. Sentia que nunca tinha feito nada para conquistar o direito de ser dona de si, caminhava esgueirando-se dos obstáculos, como se a pedir licença para ser feliz, em bicos de pés, para não incomodar. Quando ele a olhou nos olhos antes de a beijar pela primeira vez, não resistiu, nem saberia como. Até a respirar o fazia de mansinho, ligeiro, quase sem se notar. Ele tinha salvo a menina tímida que não sabia quem era, injectou-lhe um fôlego fresco e encantado com os seus beijos e planos a dois. Mostrou-lhe que o mundo era dela se ela o quisesse, e ela ia sempre com ele para onde ele a levasse. De mãos dadas, ela tinha a direcção e o rumo que ele indicasse. Sem a mão dele a guiá-la, sentia-se perdida e sem propósito novamente. Naquele instante que sentia fatal como um ponto final, sentia que tinha falhado na sua única missão de vida: ser uma mãe exemplar, uma esposa dedicada. Só tinha de se ter mantido no plano. Quando, seis anos antes, ele tinha aceite uma proposta profissional a dois mil quilómetros, ela fez o que achou que esperavam dela. Aceitou a decisão que ele comunicou, sem mostrar sequer a mágoa que a roía de nem ter sido consultada. Afinal, era um bom dinheiro que entraria no orçamento, e não havia de demorar mais de dois ou três anos. Ficou, a bem do menino, da estabilidade, sozinha com ele. A vida não era fácil lá para onde o marido ia, as ruas eram inseguras, havia crime e dificuldades. "O pai foi ganhar dinheiro para nós, já está quase a vir ver-te", explicava sempre que o miúdo perguntava ou chamava pelo pai. As birras em que gritava desalmadamente pelo "papá" foram reduzindo e eventualmente foram sendo substituídas pelos pequenos actos de rebeldia, respostas tortas. "Aposto que se o pai aqui estivesse deixava." "Eu quero ir viver com o meu pai!", rosnava decidido para desconsolo da mãe. Ela também queria ter o pai dele ali, presente, a partilhar decisões e responsabilidades. E queria ter o marido ali, presente e a completar o pedaço que lhe faltava. Falavam ao telefone quase todos os dias, no início; ele contava os exotismos que o espantavam, ela dava conta do que se passava na escola do menino e das banalidades que lhe compunham os dias. Às vezes riam-se muito das estórias caricatas que guardavam para despoletar gargalhadas no outro, quase um simulacro das noites gostosas e serenas no sofá, em frente à TV, depois do miúdo estar deitado. Outras vezes ela confessava as saudades que tinha dele, para de seguida se sentir culpada por deixar no ar aquela fraqueza, por lhe infligir uma culpa da ausência dos papéis de marido e de pai, afinal ele estava a fazer o melhor que sabia e podia, a ganhar dinheiro - porque tudo se resume sempre ao dinheiro, porque a renda da casa não se paga sozinha, porque há contas para pagar, há a creche do menino, há as consultas e as vacinas, só em material escolar para cima de um dinheirão! "O pai foi ganhar dinheiro para nós", repetia-se por vezes em surdina, sozinha no quarto, de noite, a meio das insónias. Esticava o braço para o lado dele na cama e os lençóis frios e imaculados confirmavam a ausência, a distância, a falta de materialidade das memórias e o peso de chumbo das saudades. Tinha medo de estar em casa sozinha com o pequeno Pedro. Poucos meses depois da emigração de Miguel, o pequeno já dormia sem sobressaltos e bichos papões, e decidira passar a luz de presença para o seu quarto, com a desculpa de que o miúdo podia precisar de chamar a mãe durante a noite e assim ficava com o caminho iluminado. Desculpa pobre, a única pessoa que ali tinha medo do escuro e de dormir sozinha era ela. 

Sabia racionalmente que a culpa que sentia naquele final era descabida, mas nem por isso a sentença lhe parecia mais leve. Não tinha sido ela a quebrar os votos que tinham feito um ao outro. Tudo na vida dela a fazia sentir em dívida para com o mundo, inferior aos exemplos da mãe e da irmã, super-mulheres, fadas do lar, tolerantes para com as falhas dos seus maridos. Sentia os olhares condescendentes e jocosos quando, no trabalho, no refeitório partilhado com colegas confessava que se esquecera novamente de colocar sal na comida ou quando perguntava por alguma receita ou procedimento culinário muito básico. As outras mulheres faziam tudo parecer tão simples e natural. Divorciadas que orientavam sozinhas a casa e dois e três filhos, solteiras que namoravam e saíam com amigos e viajavam, decididas e sem hesitações. Invejava cada uma, não pelo que tinham, mas pela força que imprimiam em cada decisão, em cada argumento. Quando lhe perguntavam em conversa sobre uma polémica qualquer da actualidade, remetia-se quase sempre à mesma resposta: “não sei, não percebo nada disso” ou “não me meto em política, para mim são todos iguais.” 

Recorda-se das recomendações maternas antes de se casar, aos 22 anos. Sobre a lida da casa, as poupanças, e outras inutilidades que, grosso modo, lhe passaram ao lado. Ninguém lhe tinha dito como lidar com a solidão. Nenhum conselho falava do que fazer quando se sentia oca, sem força para nada, perdida. Sobre quais os passos correctos que podia tomar, sem manchar a reputação ou ofender o marido, quando queria dizer-lhe que tinha falta dele, que tinha vontade dos abraços nocturnos de antigamente, em surdina para não acordar o menino, que a preenchiam e lhe mostravam o mais próximo que conhecia da plenitude por alguns instantes. Não sabia, nem sabia que podia perguntar, por isso continuou sempre, obstinadamente, a fazer o que sabia fazer bem: calar. Viver em fuga. Passo ligeiro. Não incomodar. Quando a relação começou a ver as lonjuras distendidas, os silêncios prolongados, continuamente a ser esmagada com o peso da ausência, sabia que provavelmente devia ter feito alguma coisa, devia ter dito alguma coisa. Nunca o questionou sobre os dias em que ficava incontactável, supostamente a sul, nem mesmo quando lhe chegaram rumores que era por vezes visto com uma mulata muito bonita, de mãos dadas, ou quando viu uma fotografia de um almoço de amigos a que ele a levou. Pensou muitas vezes que o silêncio tinha sido sinónimo de conivência, de permissão até. Não que lhe fizesse uma enorme diferença que houvesse outra mulher, ela nem era dada a ciúmes ou sentimentos de posse, só não queria perder o suporte de que dependia. Nunca lhe disse “preciso de ti”, apesar de ser essa a maior questão. Talvez se tivesse estado disponível para passar algum tempo com ele na vida lá longe, fazer-se corpo presente. Talvez se mostrasse mais entusiasmo pelos relatos dele, se tivesse feito mais perguntas, perguntas diferentes. Talvez se naquele dia em que ele estava a passar umas férias forçadas em casa, à conta do calendário do trabalho, ela não se tivesse esquecido que podia ter sido ele a ir buscar o menino à escola quando ligaram a dizer que estava com vómitos e febre. Como é que ela podia ter-se esquecido da presença tantas vezes desejada do marido e pai do filho? Tinha-se habituado a ser mãe e pai. Tinha-se habituado a depender só dela, a contar só consigo própria, a largar tudo quando fosse preciso. Foi nesse dia que, desnorteada, soube que estaria sempre sozinha. Percebeu que afinal era sozinha que estava já há alguns anos, e até tinha sobrevivido. Privada de muitas coisas, com a solidão por única companhia todas as noites, mas sem precisar tanto de muletas como acreditara até então. Os regressos têm destas coisas. Por vezes passa-se tanto tempo a desejar recuperar uma fotografia difusa do passado que, quando o regresso se dá, reparamos que toda a harmonia que se pretendia recuperar deixou de fazer sentido e deixou de ser, afinal de contas, desejado. A saudade do que tinha, outrora, sido, não pode ser apaziguada senão com uma saudade do que está para vir, novo a estrear. Naquela tarde, depois de fechar a porta, surpreendeu-se quando suspirou de alívio. Não fazia a menor ideia do que se seguiria, mas tinha finalmente a certeza inabalável de que havia um caminho a percorrer e que o faria, passo a passo, com maior ou menor segurança, em qualquer direcção por que optasse. Já não havia ninguém que lhe puxasse a mão, mas também nunca mais admitiria uma outra mão que a travasse.

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O conto "A Mãe sem nome", da minha autoria, foi publicado este ano na colectânea "Ei-los que Partem! - Vol II", da Papel D'Arroz.

11 de Outubro é o Dia Internacional das Raparigas, mas é também o dia a partir do qual trabalho sem receber.

A desigualdade salarial entre géneros em Portugal corresponde a uma perda de 58 dias de trabalho remunerado. Significa isto que, em média, pelo simples facto de ter nascido com útero, ovários, vagina, as mulheres a desempenharem as mesmas funções que as outras pessoas que nasceram com pénis e testículos são penalizadas. São mais exploradas. Vendem a sua força de trabalho por um valor inferior. 

Além de todas as outras opressões que acrescem a esta, tão simples e tão óbvia, se as mulheres forem pobres, se não forem brancas, se forem imigrantes, se tiverem uma orientação sexual diferente da normativa...

A maior parte das famílias monoparentais dependem do salário de uma mulher, que permitimos ser inferior ao que devia, perpetuando o ciclo de desigualdades particularmente penalizador para os mais pobres.

Não somos o sexo fraco. Não somos menos competentes. Não temos menos formação nem menos capacidades. Não somos pessoas de modo algum inferiores. Porque aceitamos ser tratadas como trabalhadoras de segunda?

Até quando vamos - todos nós, pessoas - permitir que um género seja tão descaradamente, tão violentamente subjugado e remetido para um lugar secundário e acessório na sociedade e no mundo laboral?

Porquê? Até quando?

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A cultura do estupro não é apenas um conceito abstracto usado no discurso feminista; pelo contrário, é uma das mais violentas e conspícuas manifestações do patriarcado vigente e, ao que tudo indica, é a norma que prevalece na sociedade portuguesa, que oportunamente, se vê a braços com um momento de depuração mais do que de clivagem.


Provocando, apesar de tudo, choque e indignação suficientes para que se tenham organizado manifestações de repúdio em vários pontos do país, o Tribunal da Relação do Porto continua a liderar, de alguma forma, uma espécie de vanguarda do serviço público reverso. O ano passado, o juíz Neto de Moura permitiu-se redigir um acórdão indigno e asqueroso, que trouxe inspiração bíblica para a justiça do século XXI, apontando o adultério como atenuante para a extrema violência de que foi alvo uma mulher a quem o ex-companheiro e o ex-amante decidiram raptar e agredir com uma moca com pregos, quais Neanderthais, bem como condenando moralmente a vítima pela humilhação do marido traído. Cito: “Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. Ainda não foi há muito tempo que a lei penal [de 1886] punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando a sua mulher em adultério, nesse ato a matasse.


Ainda se aguarda o resultado do processo disciplinar instaurado aos dois signatários daquele acórdão e já este ano nova decisão do Tribunal da Relação do Porto mostra inequivocamente de que lado está a justiça burguesa em casos de estupro. Uma jovem foi violada por dois homens na casa-de-banho de um bar em Gaia enquanto estava inconsciente, mas os Tribunais decidiram que, não só não se teria tratado de violação (!), apesar de ter sido provado a existência de relações sexuais com penetração e ejaculação por parte de pelo menos um dos agressores, como ainda que os agressores não representam perigo para a sociedade e devem, portanto, cumprir apenas pena suspensa. Neste caso juntam-se agravantes como o presidente da Associação Sindical dos Juízes Portugueses (ASJP) ser co-signatário do acórdão que alega "um ambiente de sedução mútua" como atenuante para a ocorrência do crime, considerando que "a culpa dos arguidos se situa na mediania" e a "ilicitude é baixa".

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Na semana seguinte, vem a público uma investigação do Der Spiegel acerca do caso em que o craque futebolista Cristiano Ronaldo é acusado por uma mulher de a ter violado analmente. A mulher, uma professora chamada Kathryn Mayorga, fez queixa às autoridades no dia seguinte, foram documentadas lacerações e hematomas no seu corpo e foi posteriormente assinado um acordo de confidencialidade, em que recebeu uma verba para não revelar a identidade de Ronaldo. Curiosamente, daquelas coincidências que acontecem tantas vezes quando pessoas com muito dinheiro estão envolvidas, parece que a roupa que Kathryn usava aquando da ocorrência e que fora entregue à polícia como prova, bem como o seu depoimento original, desapareceram


A presunção de inocência é, obviamente, devida, e é aos tribunais que cumpre julgar as acusações, por muito pouca fé que depositemos na justiça. Mas aquilo a que se assiste em quase toda a sociedade está no extremo oposto, que é, além da defesa acérrima da suposta inocência do herói nacional, a culpabilização da alegada vítima, o desdém pelos eventuais danos sofridos e uma espécie de contra-ataque, apontando o dedo a um suposto oportunismo por ter sido aceite uma verba mediante um acordo.


Cultura do estupro é precisamente esta tradução da misoginia por entre homens e mulheres na sociedade civil e pelos órgãos soberanos; os casos supra-citados são apenas três exemplos evidentes e bem conhecidos por todos daquilo que se passa, em menor (menos mediática) escala, todos os dias, nas ruas, nas escolas, nas empresas, nos tribunais, nas nossas casas.


Cultura do estupro é assumir que é expectável que uma mulher que saia para se divertir e dançar numa discoteca seja um alvo fácil para violadores. É assumir que os violadores são apenas homens decentes, “bem integrados na sociedade e na vida familiar” que agiram comandados por impulsos sexuais. É assumir que os criminosos não têm de ter discernimento para controlar a sua conduta, mas que são as potenciais vítimas que devem comportar-se de forma a evitar suscitar os impulsos dos violadores. É assumir que o consumo de bebidas alcoólicas serve para atenuar o comportamento dos violadores ao mesmo tempo que serve para culpabilizar a vítima. É assumir que é natural que uma mulher desmaiada na casa-de-banho seja vista, não enquanto pessoa que necessita de cuidados médicos que salvaguardem a sua integridade física, mas como um corpo à disposição para o usufruto de quem quiser. É considerar natural que os homens que conversaram com esta mulher e lhe pagaram bebidas se sintam no direito de fazer do corpo inerte dela o seu recreio, que se pode bater com violência suficiente para causar hematomas vários, que se pode apalpar, que se pode penetrar com preservativo, que se pode penetrar sem preservativo, em que se pode ejacular. É dar estes factos como provados em tribunal e afirmar-se, ao contrário do descrito na lei (que foi alterada em 2015), que não houve violação, mas antes “abuso sexual de pessoa incapaz de resistência". É a sentença ser fruto de todos os possíveis atenuantes para os criminosos e de rigorosamente nenhum agravante a pesar na decisão (nem o facto de os violadores serem funcionários no local do crime, nem a coordenação entre eles, nem a ausência de arrependimento). É tornar quase irrelevante um crime que tem repercussões traumáticas e potencialmente insuperáveis para a vítima. É saber que enquanto um dos funcionários da discoteca em questão "se servia" do corpo de uma mulher indefesa o outro estava ausente e, em coordenação com o primeiro, a esperar a sua vez para também usufruir do mesmo "direito" e ainda assim decidir que o crime foi fortuito e sem premeditação. É desconsiderar a violência do não socorro a uma pessoa desmaiada, a violência que provocou múltiplos hematomas, a violência da inexistência de consentimento, a violência da exposição a uma gravidez indesejada e fruto de estupro, a violência da exposição a inúmeras doenças sexualmente transmissíveis, a violência do trauma potencialmente permanente e devastador imposto à vítima. É a permissividade da pena suspensa para que estes criminosos, considerados culpados, permaneçam em liberdade e possam reincidir neste crime, que não foi considerado grave o suficiente para que os seus autores estejam a cumprir pena efectiva. É com este exemplo apaziguar todos os violadores que permanecem em liberdade, e incentivar outros potenciais violadores, desprezando o impacto dos seus crimes. É normalizar, não punindo com prisão efectiva, dois homens que tiveram relações sexuais não consentidas com uma mulher desmaiada na casa-de-banho do local de trabalho dos violadores. É culpabilizar a vítima, atribuindo a uma suposta “sedução mútua” a ideia de que a expressa vontade da mulher não tem importância, tão pouco a sua consciência aquando dos actos sexuais. Esta projecção da ideia de mulher como um objecto a serviço dos impulsos e desejos masculinos está presente, transversalmente, em toda a sociedade. Da mesma forma, o desejo e prazer sexual das mulheres é algo secundário, como confirma um outro acórdão da justica patriarcal: "aos 50 anos, a actividade sexual não tem a importância que assume em idades mais jovens" e "à medida que a idade avança, a importância do sexo vai diminuindo". Cultura do estupro é também naturalizar o medo incutido desde que somos meninas de andar sozinhas à noite, de expôr o corpo com roupas curtas, decotadas ou justas, de irmos onde quisermos, quando quisermos e com quem quisermos porque assumimos que somos presas que têm de se acautelar contra os predadores. Cultura do estupro é ver a esmagadora maioria da sociedade portuguesa (nomeadamente as "feministas" liberais brancas e burguesas, o Presidente da República e o Primeiro-ministro) a sair em defesa do seu herói nacional, homem cis, branco, poderoso e milionário, quando ninguém sabe ao certo o que se terá passado naquele quarto de hotel em Las Vegas e é ver essa mesma maioria sem qualquer pudor de fazer um linchamento público sobre a alegada vítima, acusando-a de oportunismo.


Neste país em que o número de mulheres assassinadas em contextos de violência doméstica, às mãos de companheiros e ex-companheiros, aumenta ao invés de diminuir, em que a violação é o único crime violento que regista aumento, em que a esposa espancada após uma derrota do clube de futebol do marido faz parte do anedotário nacional, em que a discrepância salarial representa, em média, 58 dias de trabalho sem salário para as mulheres, em que a discriminação de género continua a não ser levada a sério sequer pela franja política que se diz dedicar a lutar pela igualdade,
vigora a cultura do estupro sim. Vigora um paternalismo medieval que reproduz e reforça o desequilíbrio de poderes entre géneros. Vigora a forma refinada de capitalismo em que os pobres, oprimidos e silenciados favorecem o patrão e sobrepõem o poder do dinheiro a qualquer valor ou integridade. Vigora a moral acusatória do dedo apontado, sem hesitação, à vítima, porque vestida daquele jeito, a beber daquele jeito, a dançar daquele jeito, a sair sozinha à noite, a ousar querer ser uma pessoa de plenos direitos, “estava a pedi-las”.


Não pode ser aceitável, não pode ser nada menos do que gritantemente chocante, que com a maior naturalidade se atire a palavra "puta" como uma condenação a uma vítima de violação ou violência sexual. Ela é uma puta porque foi dançar, é uma puta porque bebeu, é uma puta porque usa mini-saia, é uma puta porque traiu o marido ou namorado. É uma puta, logo, estava a pedi-las. Pôs-se a jeito. Mas um homem que faça exactamente o mesmo é só um homem a ser homem. Ele, o que a perseguiu, o que a intimidou, o que a tentou comprar, o que a silenciou, o que a descredibilizou, o que lhe bateu, o que a espancou com uma moca com pregos, o que a regou com gasolina e lhe pegou fogo, esse é só, na pior das hipóteses, um filho da puta. E é, demasiadas vezes, só um homem a ser homem, a fazer o que se espera dele.


Os responsáveis somos todos nós, que permitimos que a misoginia esteja tão imbuída e normalizada. Estamos, colectivamente, a promover a cultura do estupro e somos muito culpados. De cada vez que juízes machistas deixam violadores em pena suspensa, estão a dar o seu aval para que estes continuem a violar impunemente e a transmitir a outros potenciais violadores que violar não é um crime assim tão grave, que se tiverem emprego e família mas beberem uns copos estão perdoados. De cada vez que se culpa e enxovalha uma vítima de violação, com mais ou menos eufemismos para dizer que "estava a pedi-las", diz-se a milhares de outras vítimas que o melhor para elas é não denunciar, sofrer em silêncio, sozinhas, e que foram alvo de um crime hediondo porque, no fundo, mereceram. De cada vez que corre uma corrente virtual para "as mulheres demonstrarem o seu apoio a Cristiano Ronaldo" está a dizer-se que os homens brancos, famosos, ricos e com bom ar serão sempre inocentes ou perdoados e que valem mais do que qualquer mulher. De cada vez que se chama puta a uma mulher que vai dançar ou que usa um vestido curto está a dizer-se que o corpo da mulher é pecaminoso e deve ser coberto, porque o desejo sexual dos homens é perigoso, incontrolável, e não deve ser atiçado, porque não são os homens que devem controlar os seus impulsos, são as putas das mulheres que não devem tentá-los. De cada vez que se chama oportunista a quem tem a coragem de enfrentar o mundo para denunciar uma ofensa sexual por parte de um homem poderoso está a dizer-se que o dinheiro vale mais do que a integridade física e emocional. De cada vez que um homem diz "ela disse que não mas não se mostrou indisponível" está a dizer que se acha no direito de abusar sexualmente de quem quiser e que a responsabilidade de o evitar é da vítima, ainda que, como quase sempre, do lado mais fraco da relação de poder ou da força física. De cada vez que alguém faz uma piada (de péssimo gosto) a dizer que por trezentos mil euros não se importava de ser violado(a) está a ser ignorante e cruel e a dizer que o dinheiro isenta qualquer crime. Tudo isto é reforçar a opressão, a misoginia e o machismo. Tudo isto são golpes duros na luta pela igualdade.

 

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Quando digo que o momento é mais de depuração do que de clivagem, o que significa é que assumo a derrota. Significa que quando vejo tantas pessoas que em outras situações lutam pela igualdade entre todas as pessoas, e que até se afirmam como aliados do feminismo a vociferar autênticas barbaridades, na senda do "até pode ter sido violada, mas (...)", não estamos a conseguir passar claramente a mensagem. E a mensagem é que NÃO É SEMPRE NÃO. Sexo sem consentimento é crime. É violação, ponto final. Significa que o que é óbvio, que estes discursos reflectem a cultura do estupro e a reforçam, não é reconhecido. Significa que muitos dos supostos aliados na causa da igualdade são também parte do problema.


Num país (e num mundo) em que é aceitável pensar que o dinheiro compra tudo, até a compensação por uma violação, o feminismo interseccional tem de ser objectivamente repensado, à luz da luta de classes e vice-versa, assumindo uma derrota estrondosa que force a uma estratégia concertada, ou pelo menos a uma estratégia diferente. O que temos nós, feministas, de fazer para evidenciar e derrubar a misoginia crescente patrocinada pela impunidade legal (talvez o mais forte reduto patriarcal), pela opinião pública, pela inacção política? Como podemos converter agentes perpetuadores da opressão machista, sobretudo nestes tempos perigosíssimos de crescimento e disseminação da extrema direita no mundo? Quem tem a coragem política de pegar nestes temas e os incluir activamente como prioridades nos seus programas de governo, com propostas legislativas e com acções? Quem tem a audácia de convocar uma Greve Geral de Mulheres? Quantas mais de nós, mulheres, terão de ser assassinadas, violadas, espancadas, culpadas e enxovalhadas perante a santa inquisição da moral podre burguesa para se perceber que estamos perante um problema inadiável de direitos humanos?