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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

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O amor não tem prazo de validade; ou está e existe e é um manto que cobre a existência - por cima como um calor enrubescente de que não se pode fugir, por dentro a inundar de arrepios desnorteados, cortantes, que dilaceram cada célula com a ânsia absurda de estarem noutro lugar - ou não está, é alheio a sugestões e esforços e requerimentos. Ou arrasa o espírito com urgências de tumultos irracionais, partilhas e sexos aos gritos ou será um afecto morno e terno, ponderado, responsável e contido - o oposto do que é o Amor.

Aqui do lado esquerdo dos livros que já leste, condenados a não suscitarem mais desejos sôfregos por estrear, e à direita dos que aguardam, pacientes, a sua vez para serem lambidos pelos teus olhos, folheados pela tua delicadeza, para se sentirem importantes e acarinhados e magníficos, resido eu, caderno em branco, por estrear, com excesso de letras a aguardarem sentido que as una. Ganho pó, vou-me esquecendo do que faço aqui enquanto olho as estações a passarem, os reflexos da lua nas sombras líquidas que tecem mistérios alheios. Chovia e fazia frio quando o teu nome me derreteu, na luz baça de uma aventura soluçante e escarpada. Reconhecemo-nos no primeiro instante por entre um fio condutor que havia de nos unir um dia, em alguma arquitectura mestra e profana, numa tecelagem de palavras e vidas por desfolhar.

Não passa um dia sem que me olhes, de relance ou pela alma adentro; por vezes tocas-me a medo (apavorados, ambos) - quase a sugestão de querer aproximar o teu hálito morno do meu, quase uma caneta a tatuar-me na coxa as tuas verdades, quase uma fuga de olhos vendados, um salto pelo escuro dentro, noite estrelada fora, salpicos de maresia nos pés descalços. Logo sacodes as intenções e me colocas mais alinhada com os restantes volumes que acaricias sem pudor. Pancada seca a romper uma melodia gémea, a remeter-me de volta a este lugar que não me pertence, sem promessas, em suspenso, sem data marcada de partida ou de recuo. Amareleço os cantos outrora albos, sedenta de um corte de papel que te faça notar-me, que te faça sentir-me. Enrugo os planos por inaugurar que criei só para os teus braços, com o propósito exclusivo de te abrir o sorriso, esse que encanta, esse em que viveria aninhada e impoluta enquanto a tentação do fogo líquido e puro não me vencesse.
 
(continua...)
 

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Odeio o medo que te finca ao chão, odeio o meu medo da rejeição, odeio o medo de sermos loucos juntos, odeio o medo que tens de cair se te levar a voar comigo, odeio as amarras que nos prendem, povo de submissões e de ombros encolhidos.

Odeio que os verbos te oprimam, odeio que não saibas de ti, odeio que não saibas onde me encaixar a mim.

Odeio a indefinição, odeio a imprecisão, odeio as regras que não sigo, odeio que não queiras estar comigo.

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Ouvi dizer que o nosso amor acabou.
Pois eu não tive a noção do seu fim!
Pelo que eu já tentei,
Eu não vou vê-lo em mim:
Se eu não tive a noção de ver nascer um homem.
E ao que eu vejo,
Tudo foi para ti
Uma estúpida canção que só eu ouvi!
E eu fiquei com tanto para dar!

 

E agora
Não vais achar nada bem
Que eu pague a conta em raiva!
E pudesse eu pagar de outra forma!

Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã,
E eu tinha tantos planos pra depois!
Fui eu quem virou as páginas
Na pressa de chegar até nós;
Sem tirar das palavras seu cruel sentido!
Sobre a razão estar cega:
Resta-me apenas uma razão,
Um dia vais ser tu
E um homem como tu;
Como eu não fui;
Um dia vou-te ouvir dizer:
E pudesse eu pagar de outra forma!
Sei que um dia vais dizer:
E pudesse eu pagar de outra forma!

A cidade está deserta,
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte:
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas.
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura!
Ora amarga! Ora doce!
Pra nos lembrar que o amor é uma doença,
Quando nele julgamos ver a nossa cura!

Por ti já perdi a timidez

Transgredi

Uma ou outra vez

Mesmo alguns lamentos líquidos verti

Podíamos ser uma canção

Balada melódica e insana

Dois loucos às cabeçadas

De vidas avessas

Mãos entrançadas

Tão pouco tocadas

Algumas promessas

Beijos magros

Abraços tão fundos

Estilhaços e farpas

Na fronteira dos mundos

Coração de ventania

Não sabe aterrar

Ergue os dedos de mansinho

Feitos só para te abraçar

Devagarinho, sem amachucar

Teu coração de papel em chamas

Em cada subtileza um nó que afasta

Se não sabes se amas, não amas

Em cada deixa à deriva uma tristeza gasta.

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Saúde das Pessoas Trans, Autodeterminação e Respeito – Medicina sem Preconceito | MANIFESTO 2018

Passados 7 anos da implementação da lei que criou o procedimento de mudança de sexo e nome próprio no registo civil, foi aprovada, em Parlamento, uma lei que garante a autodeterminação de género legal. Porém, com o veto do Presidente da República, tememos que estas garantias não nos sejam dadas num futuro próximo. Continuamos a marchar para que a autodeterminação seja um direito consagrado para todas as pessoas. Para que as pessoas intersexo vejam os seus corpos protegidos. Para que todas as pessoas tenham direito à autonomia do seu corpo.

Yo tuve un hermano - Julio Cortázar
 

(Al Che Guevara)

No nos vimos nunca
pero no importaba.
Yo tuve un hermano
que iba por los montes
mientras yo dormía.
Lo quise a mi modo,
le tomé su voz
libre como el agua,
caminé de a ratos
cerca de su sombra.
 
No nos vimos nunca
pero no importaba,
mi hermano despierto
mientras yo dormía,
mi hermano mostrándome
detrás de la noche
su estrella elegida.
 

 

Baía de Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza

Em Maio de mil setenta
Numa casa clandestina
Com campanheira e a filha
Caiu nas garras da CIA

Diz Alípio à nossa gente:
"Quero que saibam aí
Que no Brasil já morreram
Na tortura mais de mil

Ao lado dos explorados
No combate à opressão
Não me importa que me matem
Outros amigos virão"

Lá no sertão nordestino
Terra de tanta pobreza
Com Francisco Julião
Forma as ligas camponesas

Na prisão de Tiradentes
Depois da greve da fome
Em mais de cinco masmorras
Não há tortura que o dome

Fascistas da mesma igualha
(Ao tempo Carlos Lacerda)
Sabei que o povo não falha
Seja aqui ou outra terra

Em Santa Cruz há um monstro
(Só não vê quem não tem vista
Deu sete voltas à terra
Chamaram-lhe imperialista

Baía da Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza