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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Os meus Sábados também já foram diferentes, os Domingos sempre um pouco mais tristes; continuam a ser. Também comigo tudo mudou de repente. Dum sábado para um domingo, precisamente, fiquei sem chão, o tecto desabou e com ele pensei que a minha vida toda. Achei que os planos deixaram de fazer sentido, achei que nunca mais poderia rir com gosto e que tinha ficado uma cratera no local onde antes guardava o coração.


Sim, fui feliz, como se é feliz quando se pensa que se alcança o topo do mundo e das sensações, quando se quer tanto uma coisa que se chega a acreditar que ela existe sem ela estar lá. Como uma ‘gravidez psicológica’, talvez tenha sido este amor tão perfeito, que não tinha perfeição em lado nenhum. Foi parido a dois, com ternura, amizade, paixão, - e sim, porque não chamar as coisas pelos nomes? – amor. Durou demasiado tempo, demorou-se demasiado tempo em cada uma daquelas fases que se deve sugar com fervor e passar de mão dada para a seguinte. Algo se perdeu. Talvez saiba até esmiuçar o quê e o quando e o porquê, mas já não vejo propósito nisso.


Tirei o tempo necessário para a auto-comiseração. Não tanto assim, que também nunca fui muito dada a olhar para trás. Mas chorei, às escondidas e nos ombros que serão sempre Amigos. Chorei no comboio, envergonhada por mostrar tamanha fraqueza a caras atónitas e felizmente anónimas. Chorei desorientada, chorei magoada, chorei rios que pudessem partir em busca da razão que nunca soube. Ele tinha partido, sem pré-aviso, sem justificação, sem sinais de desamor. Partiu com medo, encolhido, enterrou a cabeça na areia e não mais de lá a tirou.


Não aponto o dedo, não o culpo de nada em que eu não seja também culpada. Estou em paz, comigo e com ele e desejo-lhe (não preciso de vincar que com toda a honestidade, ele sabe que eu só digo o que quer que seja desse modo) que seja extraordinariamente feliz.


É tão mais simples perspectivar à distância, quando as memórias já foram lavadas. Tão mais fácil relativizar quando a escala já não é a mesma.


Não cheguei a reencontrar nada do que perdi. Obviamente também não procurei, porque só procuro o que quero. Nem quero regressar àquele lugar, àquela pessoa que fui, com limitações, sempre presa pelas vontades de outra pessoa, pelos limites, por querer ter o que não podia porque não existia. Vejo agora que o que eu pensei ser o topo do mundo era afinal a rampa de lançamento para outros universos, que ainda nem tive tempo de descobrir! Eu não pertenço a um cantinho, apertada entre dois braços; nunca poderia ser feliz sem as asas abertas! Eu sou do mundo! Tenho fome e sede de viver todas as sensações, mereço rir até me engasgar, mereço todos os medos do desconhecido, mereço os beijos inesperados, mereço os poemas e as músicas dedicadas, as flores colhidas no campo, mereço cada fotografia tremida. A minha ambição é uma apenas, mas tão grande… Eu quero, e vou, ser Feliz! Só ou bem acompanhada pelas grandes planícies da vida, por cima das estrelas e sob os oceanos. Quero tudo, todos os lugares, todos os sabores, sem limites!


 


Descobri tantas coisas que não me havia permitido sequer imaginar... às vezes é preciso deixar arder, morrer para renascer mais forte. Hoje, sinto-me tão mais EU. Ainda que seja Domingo. =)