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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

 É outono, desprende-te de mim.

 

  

 

 Solta-me os cabelos, potros indomáveis

 

 sem nenhuma melancolia,

 

 sem encontros marcados,

 

 sem cartas a responder.

 

  

 

 Deixa-me o braço direito,

 

 o mais ardente dos meus braços,

 

 o mais azul,

 

 o mais feito para voar.

 

  

 

 Devolve-me o rosto de um verão

 

 sem a febre de tantos lábios,

 

 sem nenhum rumor de lágrimas

 

 nas pálpebras acesas.

 

  

 

 Deixa-me só, vegetal e só,

 

 correndo como rio de folhas

 

 para a noite onde a mais bela aventura

 

 se escreve exactamente sem nenhuma letra.

 

 

 

 

 

Apercebi-me, enquanto dormias de olhos cerrados, que a paixão era muito mais que paixão. Passámos metade da noite a conversar como se não houvesse amanhã. Foi a primeira vez que passámos tantas horas juntos e estávamos deliciados com as descobertas. Eu tinha dormido no avião, tu acordaste-me com um fio de água. Tu e o teu sono, resilientes, só chegados ao destino sucumbiram ao cansaço. Dormias a meu lado, tranquilo, como uma criança de colo no conforto da sua mãe. Eu observava-te, imóvel, com tanta vontade de te passar a mão pelo rosto e dar-te os mimos que nunca dei, como nunca ninguém deu, não com tamanho carinho, com tanta doçura.

 

Resignei-me à confirmação do que já sabia: tinha-me apaixonado irreversivelmente por ti, pela pessoa que és. Um ano depois, só desejo que te desprendas de mim. Ou que não queiras desprender nunca mais.