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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Há tantas coisas curiosas em que tenho vindo a reparar…


 


Há as pessoas com quem sabemos que podemos contar porque já deram provas disso, porque inspiram confiança, porque estão lá sempre que precisamos, para quem estamos também sempre disponíveis. Podemos estar com essas pessoas com frequência ou não, não importa para o caso. Ligam-nos quando têm uma boa nova a partilhar, quando estão em party mood e querem que vamos também, quando se partilha uma insignificância qualquer. E o mesmo quando está tudo péssimo, quando se está em baixo, ou perante uma daquelas amarguras que a vida se vai lembrando de trazer, em maior ou menor quantidade e significância, para uns e para outros. Tudo óptimo, é assim que deve ser a amizade, para a saúde e a doença, nos momentos bons, maus e assim-assim. E depois há os outros. Os que nos conhecem. Os que estão connosco todos os dias e nunca perguntam nada de mais, só small talk, também não partilham nada demais. OK. Ou os que já não estão connosco há algum tempo. Conhecidos de rambóias, ou de trabalho, ou outra circunstância qualquer.


 


Imaginemos um cenário (real, qual é a dúvida?).


Tens andado ausente, por outros motivos, da semi-rambóia semanal a que costumavas juntar-te com o grupo de conhecidos lá do sítio. Uma destas pessoas pergunta-te há uns dois meses o que era feito de ti. Respondes que tens muito trabalho, pouco tempo, o que é a maior das verdades, etc. e tal. A pessoa diz “OK é uma chatice. Então ciao”. Passa-se mais um mesito e constatas que a mesma gaja pessoa vai fazer uma festa de ano novo numa casa de férias, para a qual convida a malta do costume. Constatas igualmente que não foste convidado. Não gostas muito mas não estás para te chatear com merdas dessas. A vida segue e por acaso começa a correr-te mal num determinado aspecto. Eis senão quando a pessoa que aparentemente não se lembrou que existias, passa a ter saudades de conversar contigo. Todos os dias. Quer saber de ti. Porque estás tão em baixo. O que se passou. E o porquê, e o porque não e a coisa da tia. Quer emprestar o ombro “amigo”, combinar cenas e, essencialmente, cuscar todo o ínfimo detalhe da tua vida. É curioso, não é?, como as pessoas que se esquecem de ti durante meses, de repente lembram-se de ti todos os dias.


 


As pessoas não valem um tostão furado.

De frente para a moldura, o branco enquadra a tua ausência. De onde nasce a incoerência da provocação, já te questionaste? Afastas como quem puxa, repeles como quem implora. De tanto esqueceres as palavras, o silêncio passou a dizer tudo. Que rota é a tua, se perdeste o farol, meu naufrágio? A deriva só premeia os bravos... Lembras-te de quando eras bravo? Erguias os braços até às estrelas, se lá me escondesse. Voavas para mim sob tempestades de granizo. Agora tens medo de qualquer corrente de ar... Até a moldura profanada na sombra diz mais que os teus olhos, que vi chorar, que vi amar. É bom ficar com evidências antes que o esquecimento varra as últimas penas, as últimas pétalas.