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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Há muito boa gente que depois da separação continua a usar a anilha aliança. As motivações, temos duas à escolha, consoante estejamos numa de cinismo e descrença no amor - sentimento de culpa pela merda que se fez - ou numa nuvem cor-de-rosa onde a paixão cega - o amor não morreu.


 


Descendo à terra, convenhamos... Toda a gente ama e toda a gente erra, não me venham com merdas. Nem há pessoas incapazes de amar, nem há príncipes e princesas encantados que sejam um modelo de virtude e rectidão sempre e em tudo. Nem há um herói e um vilão em cada relação que falha. Dentro da casa (e da cabeça, e do coração) de cada um, mais ninguém sabe o que se passa. Uns são mais resistentes, outros esforçam-se menos, cada um é como cada qual, mas nada disso significa que não haja amor de ambos os lados, ou até que o amor não persista depois do fim do casamento. Eu continuo a acreditar, e com cada vez mais certezas, que o Amor, quando é mesmo Amor, nunca morre, ponto. "Till death do us part", com ou sem alianças.


 



 


Portanto vamos tentar não julgar os outros sem conhecimento de causa, sim?







Para se ser faroleiro não basta gostar do isolamento. É preciso não ter medo das tempestades e manter as peças afinadas, respeitar o dever e não tirar os olhos do horizonte. Caso contrário, a luz perde a força e apaga-se. Mesmo quando os faróis são promovidos a estrelas, porque até as estrelas se apagam um dia.


É bom ter cúmplices, longe da banalidade das palavras e dos rituais cansados, ter quem nos conheça um pouco sem os estereótipos cara-nome-morada, ser quem se é só porque se pode, sem expectativas a corresponder, sem cobranças nem juízos.
É muito bom.
Devia ser sempre assim.


 


A realidade devia continuar os sonhos, não castrá-los. É uma pena... 


Mas enquanto sonhar for possível, aproveitemos para ir sorrindo os sorrisos que a vida vai roubando.


 


Sair à rua com uma sede imensa
de te esqueçer
sentar-me num lugar com indiferença
por não te ver
e de repente sei que é isto que eu não quero
olhar à volta e saber que ainda te espero
sentir a sensação de quem não está no seu lugar
não quero lá estar
assim...


nha cretcheu
nha cretcheu...


voltar a casa com um sentimento
de solidão, 
fingir que estás no pensamento
sem razão
e de repente sei que é isto que não quero
voltar a casa e saber que ainda te espero
fazer de conta que já estou no meu lugar
mas não quero lá estar
assim...


nha cretcheu
nha cretcheu...

Consegui contigo, como nunca antes tinha conseguido, visualizar o futuro das imagens que me plantaste. Nós dois a correr mundo de mãos dadas e sorrisos ao alto, a chegada dos bebés que tanto me pedias, os nossos abraços cada vez mais estreitos, os sorrisos cada vez mais cúmplices, envelhecermos juntos no campo, na quietude que tanta falta nos faz. Visualizei netos a ouvirem embevecidos a nossa história, a mais linda de todas, passeios de bicicleta com aquele perfume do nosso rio, milhares de disparos de obturador a perpetuar o que foi nosso desde sempre, os passos gigantes nas promessas que nos fizémos.


Vi claramente todas as imagens.


E acreditei que seria assim. Tu fizeste-me acreditar. Tinhas a certeza, repetias. Era o nosso destino, que escolhemos de entre todos por ser o mais bonito, o mais certo, o único feito de luz.


 





Se já nem na minha cabeça podia confiar, se o nosso filme foi cortado e a bobine quebrou, que mais podia eu fazer?


No, you weren't for real. You should have told me.

Dizem que a História tende a repetir-se.


Do alto de toda a minha racionalidade, sempre achei que isso é uma redução bacoca, uma daquelas generalizações que se tornam cliché sem fundamentos que o justifiquem. Acho que o que é lógico é que as relações causa-efeito se repitam, porque assim sucede tanto nas leis físicas como nas outras todas, mesmo as que não conseguimos isolar em "laboratório". Desde a maçã que mudou o mundo* que assim é e será.


Mas nem artilhada de ciências e lógicas até aos dentes consigo traduzir as repetições das minhas estórias. Às vezes tenho a sabedoria de reconhecer as pistas e não repetir as minhas acções (porque já sei que vai dar asneira e aprendi da primeira vez), noutras vezes não dou por ela até ser tarde demais e caio vezes e vezes sem conta exactamente da mesma maneira, no mesmo sítio. As nódoas negras aparecem exactamente nos mesmos sítios, estou até capaz de jurar que algumas se tornaram permanentes.


Das duas, uma: ou o que eu acho que são os insólitos que se me repetem não são tão insólitos quanto isso, ou as repetições são sinais que o Universo me esfrega na cara, mas claramente não falamos a mesma língua. Probabilísticamente, as coincidências são tão irrelevantes que nem as admito enquanto possibilidade.


 


Portanto, com a vossa licença, vou ali para o único abrigo blindado anti-catástrofe que conheço e deixo aqui apenas uma sombra do que estava guardado para o amanhã.


 


 



 


* Para os mais distraídos, trata-se da maçã que caiu na tola do Isaac Newton.

 

    • em que o P.M. nunca teve curso ou profissão para além de actividade partidária até quase aos 40 anos (depois logo passou a administrador duma série de tachos empresas);

 

    • em que grande parte do eleitorado não é digno desse nome, e sofre de amnésia selectiva;

 

    • em que os ministros não precisam de ter uma sombra de qualificação nas áreas das pastas a que presidem;

 

    • em que houve pelo menos um (ou serão 3?) P.M. que fez o mesmo que o comandante do Costa Concordia e ainda foi promovido;

 

    • em que são os mais pobres a ter de fazer maiores sacrifícios para pagar dívidas que não contraíram;

 

    • em que o P.R. se atreve a queixar-se das "pequenas" reformas (de vários milhares de euros) que ele e sua esposa auferem - qualquer das minhas avós poderia ensiná-lo a sobreviver dignamente e sem quaisquer dívidas, apesar de depois de vidas inteiras de trabalho árduo desde crianças, auferirem reformas de duzentos e picos euros; e não, as minhas avós nem sequer são professoras catedráticas de Economia;

 

    • em que o P.M. sugere a emigração como alternativa para os desempregados;

 

    • em que o património natural e cultural é sacrificado em nome do capital;

 

    • em que o brio profissional é mais raro do que o chico-espertismo;

 

    • em que a educação está subvertida para servir taxas de sucesso e não para efectivamente educar;

 

    • em que a maior parte dos jovens licenciados está no desemprego, em que se instiga a que estudantes cuja formação é um investimento (grande) do Estado vão produzir riqueza para o estrangeiro;

 

    • em que os criminosos não são punidos, em que os corruptos são reeleitos, mas nada disso mexe muito com o ânimo da malta, que o importante é ver a bola e beber as "mines".



Querem que goste de aqui viver? Desculpem lá, não gosto. Não sou particularmente patriota. Gosto de muitas coisas deste país, abomino outras tantas.

 

As minhas expectativas foram frustradas.

 

 

 

Fui (bem) educada, no pressuposto de que é o mérito e o esforço que faz avançar cada um e, por conseguinte, o colectivo. Investi muito, quase todo, o meu tempo, e muito dinheiro, na minha formação. Sempre fui a aluna mais aplicada, disciplinada e bem-sucedida no ensino obrigatório. Segui o meu sonho, porque estava convicta de que teria todas as oportunidades ao meu dispôr, se trabalhasse muito e bem. Trabalhei, muito e bem. Formei-me. Trabalhei muito, naquilo que gostava, em condições ridículas. Era mal-paga, não tinha benefícios sociais, estive a recibos verdes, mas acreditava que as coisas podiam mudar. Especializei-me. Fiz mais cursos extra-curriculares. Trabalhei de borla (porque nunca chegaram a pagar-me) para um instituto público. Continuei a trabalhar muito, a insistir, à procura dum emprego digno desse nome, que praticamente não existe na minha área. Vi quem tinha boas ligações políticas e familiares saltar muitos degraus à frente, independentemente do mérito. Depois duns anos a frustração aliou-se a problemas de outras ordens e bati com a porta. Arregacei as mangas. Fui à luta, disposta a fazer o que fosse preciso. Comecei a trabalhar numa área absolutamente estranha e diferente para mim. Ao fim de 3 meses apenas surgiu um convite para algo melhor dentro da empresa. Ao fim de uma semana no novo projecto fui convidada a liderá-lo. Correu bem. Trabalhei muito. O vínculo continuou a ser muito precário, mas a superação de objectivos valeu-me remunerações mais simpáticas. Quando surgiu o convite para um part-time na minha área agarrei com as duas mãos. Tive 3 empregos em simultâneo, 2 oficiais e mais um biscate numa terceira área completamente diferente. Consegui pagar a entrada duma casa com o fruto do meu trabalho. Quando acabaram aqueles projectos os convites renovaram-se se ambos os lados, mas com um crescente nível de responsabilidades; tive de optar, só podia ficar com um. Optei, provavelmente mal. Joguei pelo seguro, preferi ganhar (muito) menos e trabalhar na área oposta à da minha paixão com um contrato que me garantia estabilidade e paz, em vez de trabalhar numa área do saber próxima da minha, em algo que me deu muito gozo e teve óptimo feedback de todas as partes, pertinho de casa, a ganhar mais do dobro, mas era um emprego que só estava assegurado por seis meses, a seguir ninguém sabia. Escolhi a "promoção" do outro lado, o que implicou passar a trabalhar o triplo e ganhar metade. Também podia ter ficado no desemprego a ganhar o dobro, mas isso seria impensável para mim. Trabalhei muito, imenso. Fiz um mestrado. Tirei outro cursinho, comecei outra licenciatura. Sempre com resultados muito bons.  Este emprego, que ainda mantenho, não me valoriza, não me recompensa, não me satisfaz. Gosto de 80% do que faço; não tenho é perfil para as implicações que este meio acarreta, o graxismo, a falta de transparência, os "yes men"; não gosto que a qualidade do trabalho e o esforço não sejam reconhecidos. Não há perspectivas de evolução na carreira, não há hipótese alguma de promoções ou aumento salarial. Cheguei a um ponto morto.

 

 

 

Vivo num país que me maltrata e que não me aprecia. Como numa relação de violência doméstica, não pode ser o hábito a manter a relação. A paz de espírito vale muito mais. E eu preciso de paz, desesperadamente.

 

 

 

Não, não gosto de aqui viver. Para além de tudo o mais, e acreditem-me, há muito mais, é Portugal que me desgasta.

 

Este ciclo tem de ser encerrado. Duma maneira ou de outra.