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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Não é caso único. Aqui há uns 7 ou 8 anos, tinha começado a namorar com o "falecido", começávamos a conhecer os amigos um do outro, e ele insistia para que eu conhecesse quem seria "uma das melhores amigas". Naturalmente que sim. Pois que a primeira impressão (e todas as seguintes) não só não foi a melhor como detestei a rapariga. E depois o dilema... Como dizer ao namorado que detestei a melhor amiga (ou uma das, whatever) e preferia nunca ter qualquer tipo de proximidade com aquela pessoa? Quando no dia seguinte ele me coloca directamente a questão que queria evitar, "Então, o que achaste da S.?" ainda tentei rodear, mas eu sendo eu, tenho pouco talento para não dizer tudo o que me passa pela cabeça e acabei por disparar um diagnóstico nada abonatório. Mas nesta situação em concreto, tinha motivos reais...


 


Acho que foi pouco antes do Natal, e combinei encontrar-me com eles depois dumas compras que ia fazer com uma amiga minha. Lá seguimos, eu e a minha amiga, para o ponto de encontro, já lá estava o "falecido" e outro amigo, todos bem dispostos e em amena cavaqueira, quando chega a sujeita, atrasada e esbaforida. Apresentações, etc., e os amigos começam a colocar algumas novidades em dia. A S. era amiga do meu namorado na altura e do amigo dele, mas nunca me tinha visto a mim e muito menos à minha amiga. Mas nem isso pareceu inibi-la de nos pôr a par, detalhadamente, da aventura que estava a ter com um rapaz que era namorado duma sua 'amiga'. (What?! Sim, isso mesmo.) E então não se sentia muito bem, porque estava a enganar uma amiga (se fosse uma desconhecida, não havia problema?!), e o seu dilema era se continuava a encontrar-se com o rapaz às escondidas ou dedicava-se só ao amante casado do trabalho... E assim mesmo, sem pudores, sem nos conhecer, foi esta a primeira imagem que me foi oferecida.


 


Na minha juventude ingénua de então isto foi uma pedrada no charco. E mesmo hoje, depois de ter visto e ouvido de tudo (and I really mean DE TUDO), e quase nada me espanta, ainda penso frequentemente que vivo num mundo muito distante do "mundo real"...


 


Meia noite, deixar texto a meio com medo dos sentimentos que recorda.

 

Arrumar cozinha, deixar mais algumas coisas preparadas para fazer a mala.

 

Ir a cambalear de sono para a cama. Dar voltas e voltas, antecipando fantasmas que virão, culpar as dores nas costas.

 

Duas e qualquer coisa, eventualmente adormecer.

 

Seis e trinta, ouvir vozes de dentro dos sonhos que são o despertador, carregar no botão errado e adormecer até ao próximo berro.

 

Duche, lavagens e esfreganços vários, cremes e básicos a correr. Primeira desilusão da manhã, o cabelo ficou uma merda ("Porque é que nada funciona comigo?"). Porra, esqueci-me que hoje não posso ir de calças de ganga, o que vou vestir? A primeira mancha negra que apanho no roupeiro terá de servir. Já não há tempo de comer, abrir janelas e voar escadas abaixo. Repôr nas caixas de correio a correspondência dos vizinhos que o carteiro insiste em deitar na minha caixa. Corrida para os transportes públicos, atrasados de novo, fantástico. Pelo meio uns minutos para adiantar mais umas páginas e anotar na agenda o que faz falta comprar (pão, leite, detergente para roupa). "Faz-me falta o doseador..." e pensamentos que tomam a curva errada. Metro cheio, vai-se de pé. Chegar ao trabalho já com pensamento nas mil coisas que têm mesmo de ficar finalizadas hoje. Caras ensonadas que chegam a conta-gotas. E-mail de colega a pedir que ligue com urgência. Precisava de colo e de desabafar, e pelo caminho pedir que se pense nela quando houver uma vaga. Vou ver o que posso fazer. Colo uns slides que o chefe enviou numa apresentação importante, afinal aquilo estava tudo engatado. Chefe chega de trombas, da cefaleia e mais uma noite mal dormida, tenho de lhe dizer que o que enviou está uma bosta, de ouvir as suas justificações (porque chefe pode errar, índio é que não) e quando me farto, agarrar naquilo, que não é trabalho meu, e fazer bem. Amiga em crise larga notícias bombásticas, desesperada, e depois não atende o telefone. Ufff! Outra colega pede ajuda, eu ajudo. E mais uma pede um formulário duma área que não é a minha há mais de um ano, também envio. Esqueceu-se de agradecer, porreiro. Despacho mais umas coisas, respiro fundo, vejo que uma das Professoras a quem pedi para tentar mudar datas de exame (porque calham 3 num dia e mais 3 noutro), diz em termos fofinhos "temos pena". Reclamo com a cabeleireira, quer uma 2ª oportunidade, tudo bem. São quase 11 quando consigo tomar o pequeno-almoço em 10 minutos. Não chego a sentar-me no regresso porque o chefe quer a minha aprovação numas alterações que está a fazer. Vejo textos meus serem apagados, para voltarem a ser escritos sem regras gramaticais ou ortográficas, em palavras diferentes que soam mal e voltam enfim a ser as que eu tinha colocado.  Inspiro, expiro. Corrijo os erros, trabalho encerrado, passo ao próximo. Lembro-me que ainda não tomei os medicamentos, vão com 5 horas de atraso. Mais urgências, segue o baile. Reunião com chefe. Hora de almoço, ainda na reunião com chefe. Almoço com colegas, conversas da vida, da morte, de trabalho e dinheiro, palavras corriqueiras e palavras fulcrais, entre guardanapos descartáveis.

 

De volta ao PC, colega de curso reclama que não atendi a chamada, queria dizer que saiu mais uma nota. Porreiro, outro 19. Mais trabalho sob pressão, outra ajuda a uma colega. Querem ver que andei a adiantar bagagem p'ro galheiro?! A puta da espanhola deve estar a gozar comigo, a cena marcada e confirmada há 8 meses e agora, dias antes, diz que se enganou no ficheiro!?! Sai disparada uma reclamação e em português, acabou-se-me o stock de diplomacia. Ligo para avisar quem de direito, sai-me do outro lado uma má notícia na pior altura. Disfarço, com a brutidão habitual. "Ai viram qualquer coisa na mamografia? Deixa lá vir o relatório, isso deve ser um gânglio inflamado, não sejas piegas." São poucas as vezes que me apetece dizer palavrões, e é a única coisa que consigo verbalizar depois de desligar o telefone. "Outra vez não, outra vez não." Não posso ir abaixo. Penso num filho da grandessíssima puta que tanto prometeu que sempre que eu precisasse estaria lá para mim e sempre que precisei nunca esteve, agora ainda menos. Ao menos esse já não me suga as energias, pelo menos de forma consciente. Acabo o trabalho, saio mais cedo do que é costume (só uma hora depois da 'minha hora'). Encontro-me com amiga, rumamos à inauguração da exposição de outra amiga, finalmente liberta e a perceber que é capaz de tudo quando se liberta de grilhões. Algumas caras conhecidas, a primeira coisa que oiço é que estou mais gorda. Obrigadinha, não tinha ainda reparado, os espelhos lá de casa partiram-se todos com o horror. Discurso de ir às lágrimas, ou sou eu que ando demasiado sensível. Tenho de sair, que os transportes duplicaram o preço e reduziram a frequência para metade. Bonito, metro interrompido. Esperam retomar em 15 minutos, a espera acaba por ser mais de 30. Cereja em cima do bolo, de quem é aquela cabeça ali ao fundo? Porra, só faltava mais esta. Enterro a cabeça no livro e viro as costas, deixando ficar só a dúvida, "se calhar era só alguém parecido". Não sei, nem quero saber.

 

Olha, o chefe tentou ligar. Deve ter aparecido uma merda qualquer para lixar os grandes planos de amanhã. Pergunto o que se passa. "Só queria dizer que a apresentação está perfeita." Isto é raro, note to self: "guardar mensagem para referência futura". A seguir acrescenta que o filho está doente, afinal parece que os planos vão mesmo pelo cano.

 

Nove da noite, só mais um transporte. Amiga a meio de crise existencial combina conversarmos na net, não pode ser ao telefone.

 

Nove e meia da noite, chego a casa. Ligo o PC enquanto os restos para o jantar aquecem no microondas. Falo para o boneco. Respondo a uma das raras mensagens. Engulo qualquer coisa com aspecto de comida, mas tenho é sede. Trouxe uma coisa para fazer em casa, do trabalho, mas já não tenho forças. Tenho estudos em atraso, menos forças encontro. Começo a escrever este post, o PC morre a meio. Os fios estão a descarnar. Talvez se não estivesse há 3 meses à espera que me devolvam a merda dos parafusos. Até os parafusos, porra, não tinhas melhor recuerdo para guardar que parafusos, o doseador de detergente, os panos de pó e os meus guaches? Porra, desaparece do meu pensamento, idiota. Onze e meia, a outra já não aparece, eu já dou cabeçadas na atmosfera.

 

Meia-noite outra vez.

 

 

 

Que post vazio, que vida vazia. Tantas palavras desperdiçadas.

 

 

 

Tantas voltas para um dia vazio, mais um. Tão cheio de nadas, tão pobre.


 


 


I gave up on you a number of times. Each one, you stopped me. You made promises and begged me not to walk out the door. A few times, I was just so tired of the loneliness, of the emptyness, of the distance, that Ireally did walk out the door. And you came and get me later on. And again, the promises. I tried, so very hard, to believe you. I did for a while. Then I just kept waiting for a miracle. And the miracle never happened. I was so tired, so hopeless... I tried every way to make you stop me from giving up on you.


And then you gave up on me and opened the door.


 


Someday, when I'm strong enough, I'll write everything and call it a screenplay. A mad woman will play me and a shallow man will play you.


 


 

Regra geral. Tal como não repito viagens, regra geral.

 

Apoquenta-me constantemente a consciência da finitude, da perenidade, do tempo que só escoa num sentido. Preocupa-me não conseguir chegar a tudo quanto sonho (quem manda sonhar demais?), não ter tempo para concretizar. Arrelia-me pensar que estou a repetir um caminho conhecido, um parágrafo já saboreado. A segurança das rotinas faz-me espécie e por isso evito as evitáveis. Ir jantar aos mesmos restaurantes, ouvir playlists na mesma ordem, entrar sempre pela mesma porta, cria-me uma espécie de desassossego de estar a perder alguma coisa de novo que se passe do outro lado.

 

Igual com os livros, igual com os sítios. Reler o mesmo romance é tirar o lugar (ou o tempo, esse tirano) a outro que ainda não li. Voltar ao mesmo sítio, quando são tantos mais os que ficam por visitar.

 

Claro que há excepções que confirmam a regra. Sítios que foram visitados com pressa e ficou a sensação de que a experiência não ficou completa, ou que de outra perspectiva as sensações seriam tão distintas. A "alma de cientista" (não fui eu que disse) que me habita obriga-me a tirar a limpo as dúvidas, tenho de saber, e lá vou eu. A companhia (ou ausência dela) transforma uma viagem, isso está comprovadíssimo. Tal como entre ir em "excursão" (blhargh, ptui) é o oposto de ir numa aventura independente.

 

Os livros, por sua vez, assumem significados distintos consoante o ponto da vida em que nos encontramos, também não tenho dúvidas. Reler os livros que na adolescência nos marcaram e nos 'mudaram o mundo', em que nos sentimos espelhados ou chocados ou deslumbrados, ou que nos acompanharam em momentos particulares, em fases da vida mais ou menos viradas "para dentro", é uma experiência que não se repete, por forçosamente não se poder repetir.

 

 

 

E depois há as obras-primas. Há os autores geniais. Aqueles que, quanto mais lemos outros, quanto mais aprendemos, quanto mais sabemos apreciar, mais e mais gostamos, mais e mais admiramos. Aquelas palavras em que em cada esquina de página descobrimos uma nova verdade de bolso, uma reflexão mais certeira, um presságio mais afinado. Aqueles que nunca se esgotam. A literatura que faz parte do nosso íntimo e ao nosso ritmo, que se cola às sinapses e nela se canoniza. Os sublimes.

 

 

 

 

 

De onde se conclui que, para o Saramago, meia dúzia de Nobel não teriam sido demais. E que o Zé Luís caminha a passos largos para este destino.

A minha amiga tem uma amiga de quem não gosto. Por nenhuma razão em especial. Não gosto da forma como me olha, não gosto do modo como fala, o próprio tom de voz da moça irrita-me sobremaneira. Talvez seja da postura algo snob, talvez me faça, inconscientemente, lembrar alguém, mas não confio nela nem um pedacinho, tudo o que diz me soa a falso e a segundas intenções.


Tantas vezes me digo que tenho de dar mais crédito aos instintos que desta vez me vou deixar ficar assim. Noutros tempos, faria um esforço por ignorar esta sensação, por racionalizar e achar que estou apenas a implicar sem razão. Agora, estou-me nas tintas. Não gosto dela e ponto.


 


Foi preciso chegar aos 30 para reconhecer que deixei de ser uma miúda a tempo inteiro. Passei a ser mulher, pelo menos às vezes.


Foi por isso que os rapazes que nunca são capazes de ser homens deixaram de ter a mesma piada naquele instante. Aliás, muito antes, mas foi ali que me caiu a ficha.


Foi um homem que me viu como mulher que me ensinou a ver o mesmo que ele via. Ele via muitas coisas, mas também deixou escapar algumas importantes. Ele era um Homem a sério, que às vezes era rapazola.


 


Por isso, aquele choque que te disse ter sentido quando te conheci, por pareceres um "homenzão" mas seres afinal um miúdo, não foi um elogio.


Nunca deixaste de ser o miúdo para seres, ao menos por um bocado, homem. E eu já não sou só uma miúda.


 


As provas de amor não são jóias, não são ramos de flores sem fim, não são carros nem férias de luxo. As provas de amor nunca são presentes que se pedem ou que se avaliam pelo valor transaccional. As provas de amor são sempre actos de dedicação, de carinho, são surpresinhas que espantam e deliciam. As provas de amor valem pela atenção com que se ouve o outro, pelo quão bem se demonstra conhecê-lo, pelo cuidado de o mimar. O amor não tem preço, não se pode comprar nem vender. Por isso não se pode (não se deve) querer dizer com um presente "gosto tanto de ti que gastei duzentos euros"; é ofensivo, a sério. Se eu nem uso relógio, como posso achar que um Tissot xpto seria uma prova de amor?!


 


As melhores provas de amor são pequenos detalhes, são momentos instantâneos e actos tangentes. São pequenos nadas como ele levar o formulário de inscrição à piscina para ela não ter de lá ir de propósito, ou convidá-la para o acompanhar à Biblioteca porque ela mencionou que tinha de renovar o cartão. São lembranças como deixar-lhe a mesa posta e uma flor na jarra quando ele chega cansado à meia-noite, ou abdicar de três horas de sono só para lhe dar um beijinho. São ir esperá-lo à estação a meio da noite para o ver sorrir, perguntar como correu aquela coisa no trabalho, ter sempre um pacote das bolachas que ele gosta, ou deixá-lo escolher um filme aborrecido. São poemas que ele escreve a pensar nela e prosas que ela escreve a pensar nele, são fotografias em que se vê uma beleza que os outros nem vislumbram. Provas de amor são improbabilidades como ela levá-lo a um jogo de futebol da equipa que abomina ou compilar uma playlist das músicas que ele gosta. São, por vezes, sacrifícios como assumir as culpas por um erro do outro, tolerar o cheiro pestilento a tabaco emaranhado nas roupas e cabelos, e são as súplicas para que se páre de fumar. São voluntarismos como antecipar as tarefas domésticas que a deixam de rastos antes dela pedir ajuda, ou dar-lhe uma massagem nas costas doridas. São cuidados como perguntar a opinião antes de tomar decisões que afectam o outro, levantar a horas para que não atrasar quem tem mais pressa, não fazer barulho para não acordar o outro, oferecer uma torrada se se vai fazer outra ou perguntar se também quer vir dar um passeio pela rua. São elogios às pequenas particularidades, ao pequeno sinal na bochecha, ao penteado ou ao cheiro bom da pele.


As provas de amor são silêncios de concordância, são espaços de partilha, são diálogos com o olhar, risadas cúmplices e margem para erros. São perdões, são tolerâncias, reconhecimento e agradecimentos, são meter o orgulho de parte, tomar riscos e enfrentar contrariedades. São entregas de corpo e alma, são intimidades no sexo e para além dele, atender sempre o telefone, ter sempre um ombro amigo e nunca virar as costas.


 


As provas de amor são as mesmas que as provas de desamor. Umas estão lá, as outras não.


 


Que giro, a mesma pessoa que diz aos colegas que ganham pouco mais de um salário mínimo para não se queixarem, porque mau era não terem emprego nenhum, é a mesma que faz o maior choradinho, como se tivesse partido uma perna, só porque lhe roubaram umas havaianas.


 


Amiga, não estamos em tempos de pieguices, não ouviste dizer?!


 



 

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