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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Este blog devia chamar-se "Rainha do Improvável". Improvável is my middle name...


 


Aquela pessoa que nasceu dum óvulo fecundado quando a sua mãe tomava religiosamente a pílula.


Aquela pessoa que reúne os genes maus dos dois progenitores.


Aquela pessoa que é pontualíssima, mas no dia em que apanha uns 4 acidentes na estrada e, por conseguinte, um trânsito infernal, quando chega ao trabalho está lá a directora a falar com toda a equipa.


Aquela pessoa que não sai de casa (nem sequer vai à janela) antes de tomar o belo do duche, estar arranjada e perfumadinha, no único dia em que precisa de ir num pulinho à arrecadação do prédio (são 20 degraus de distância) e vai mesmo de pijama, não só encontra um vizinho no percurso (pela primeira vez numas 300), como tem de ser o vizinho mais giro e simpático.


Aquela pessoa a quem os médicos dizem que saiu a lotaria 2 vezes, uma porque tem uma doença crónica que normalmente só ataca homens com mais 30 anos que ela, como ainda nasceu torta (e não falo apenas do feitio).


Aquela pessoa que nos dias mais difíceis, esbarra com as últimas pessoas que quer ver.


Aquela pessoa tão bem comportadinha, que na manhã seguinte à primeira directa da sua vida, passada na discoteca com a loucura no volume máximo, é informada de ter uma reunião super-importante com os chefes (e mal consegue manter os olhos abertos).


Aquela pessoa que é pedida em casamento por 5 pessoas diferentes, mas continua sozinha.


Aquela pessoa que se queixa (e vangloria) do álcool não lhe fazer qualquer efeito, porque pode beber litradas e ficar precisamente na mesma, na única bebedeira que apanha, sofre efeitos... nefastos, chamemos-lhe assim, e estão presentes e a assistir todos os colegas de faculdade do seu ano e do seguinte.


Aquela pessoa que conheceu os 3 mais importantes homens da sua vida da mesma forma, todos têm a mesma profissão, dois têm os mesmos nomes próprios e cadelas com os mesmos nomes, e o que falta é amigo de outro.


Aquela pessoa que aceitou boleia dum estranho para andar 3 km e chegar ao sítio de onde tinha partido inicialmente.


Aquela pessoa que planeou uma viagem intercontinental de 3 semanas com alguém que não conhecia, na primeira conversa que têm.


Aquela pessoa que podia ter o Ironic (da Alanis Morissette) como banda sonora da sua vida.


 


Pois, essa pessoa sou eu.


 


E é por isso que eu sei, porque acredito no karma e nos equilíbrio de energias do Universo, que um dia me vai sair um grande jackpot do Euromilhões. Ainda que jogue pelo menos uma vez por semana há mais de 5 anos e só tenha saído, uma única vez, o último prémio.

Estou longe de ser uma pessoa estável. Sou até bastante temperamental, de fases, consoante a lua, a hora, o interlocutor, o tempo ou as cores… Sou errática e desequilibrada, de extremos e peremptória nas escolhas que faço. Detesto rotinas e a ausência de estímulos novos: conversas, locais, desafios, ideias. Talvez por isso não esteja nunca demasiado cansada para embarcar em programas que me digam algo às sinapses. O que me cansa é exactamente ter limites pré-definidos, saber antecipadamente como vai ser um dia de trabalho, uma refeição, tudo com horários e regras. Detesto conhecer de cor as pedras da calçada e os buracos no alcatrão, a acomodação de usar sempre o mesmo caminho só porque é o mais rápido… Do que eu gosto mesmo é do inesperado, de surpresas, de aventuras de e em todos os sentidos. Gosto de passear a pé, em cidades desconhecidas, no meio da serra ou na planície. Gosto de encontrar velhos amigos em locais inesperados. Gosto das rajadas de vento que deixam a verdade a descoberto. Gosto de arriscar mudar só porque sim. No caos em que a minha vida se encontra neste momento, achando-me até ineditamente desanimada, encontro alento no amanhã por descobrir. Tenho a absoluta certeza que a próxima semana será diferente desta, e conforta-me não ter a mínima pista de onde estarei ou a fazer o quê.

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Quando era miúda não conseguia imaginar-me com mais de 18 anos. Até aí a vida seguiria certamente de acordo com o planeado, em torno da escola e pouco mais. A partir dos 18 não conseguia sequer visualizar uma sombra de futuro. O que até é estranho, porque sabia exactamente que curso queria tirar e onde (e foi isso mesmo que fiz), mas esse é outro capítulo, o da obstinação desmedida (que quando meto uma ideia na cabeça não desisto até a ver concretizada; mas é que não desisto MESMO!). Nunca tive planos muito concretos a longo prazo, nunca imaginei como seria a minha vida aos 20 ou aos 30. Sabia, grosso modo, o mesmo que sei hoje: que o que me dá prazer é aprender e viajar pelo mundo, que amar é imprescindível e que a felicidade não reside nos bens materiais. Tenho confiança em mim, e isso basta-me, por ora, para não ceder à resignação.