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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

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Bom, bom, é poder ser quem se é sem entraves, sem limites, etiquetas ou hesitações. É rir dez horas seguidas, é aprender com os de sessentas e com os de oitentas, é a delícia dos disparates dos pequenos, amparar os planos dos teens, as estórias dos outros e sonhar amanhãs.


É bom dizerem-me que pareço ter uns 25 (é óptimo!), ouvir rasgados elogios aos pastéis de nata que nunca tinha feito ("dos melhores cremes que já provei na vida" - o ego rejubila), é mesmo bom fazer gazeta à medicação e mimar o palato com o lambrusco, o Muralhas rosé e o tinto do Douro reserva 2010 que me deslumbrou tanto que esqueci o nome. É bom estar com amigos que escolhem a nossa companhia na "lua-de-mel" e um mimo estar na companhia dum Paula Rego, um Maluda, três Cargaleiros e outros que tais.


 


Venham mais dias bons, que os neutros não ficam na memória.


 



Mesa de Luz, Paula Rego

Dramáticos e roxos, os pés não mexem. Enterrei-os fundo, sob vários centímetros de neve, que me tolhem a sensibilidade das barrigas das pernas. Os joelhos, engelhados, parecem os dum elefante morto, deixado ao abandono das suas perpétuas memórias. Os braços abertos, palmas das mãos viradas para fora como se dum crucificado se tratasse, presas por correias de angústia à pobreza nua duma cruz sem traves nem pregos nem madeira nem cor. Os cabelos, uma bandeira, sem pátria nem conquistas, apenas a dançar revoltos com a geada. Cobre-me desde os seios até meio das coxas uma velha e rota casca de sobreiro, cortiça mortiça, enrugada, carcaça duma vida outrora suculenta e audaz. Oca, lambida por húmidas putrefacções, oculta reflexos de si própria no vazio instalado. No rosto apenas traços muito grossos: dois cerrados no local onde deviam brilhar os olhos, mortos e abandonados faróis enferrujados de mares imensos, salgados e que escorrem para dentro; outro, mero agrafe do sorriso, para sempre toldado, impedido mesmo de dar espaço a cantos chorados, uivos de solidão.
Assim sou eu, hoje, sem vontade de avançar ou de recuar, sustendo-me do ar e da força que me mantém, firme, de pé, contra tudo e todos. Que posso achar-me vazia, oca, num absurdo desespero, sem apoio de nenhum dos pontos cardeais; posso ter perdido a razão, a emoção, o abraço que me embalou ou o beijo que me amou, mas não deixarei de Ser, sombra talvez do que fui, mas cá estou, de pé, como os bravos. A rendição é inequacionável. Hoje, sobreviver, com os sangues que ainda correm, para nunca deixar de Ser e amanhã, talvez, Voar.
 

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