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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

O cineasta português falecido em Abril, com 106 anos, deixou uma obra extensa e aplaudida a nível mundial (sobretudo por quem nunca aguentou um filme dele até ao fim). Convenhamos, goste-se ou não, a sua assinatura de marca passa pela pouca, poucochinha, vagarosa acção e cenas longas, muito longas e paradas. Tal e qual as filas na caixa do Pingo Doce. Sobretudo as que têm como protagonistas personagens da altura do Aniki Bobó.



Explico: acabei de assistir a uma cena digna de um filme de Manoel de Oliveira ao vivo e a cores, e uma cujo argumento vejo vezes sem conta, mudam só os personagens e os detalhes do cenário. Velhinhas com a maior calma do mundo, a contar todas as moedas que têm na carteira antes de entregar algumas para pagar as suas compras, que já foram registadas e aguardam lânguidamente no pequeno balcão da caixa do supermercado. Estas velhinhas frequentemente arrastam carrinhos e troleys de compras, só começam a arrumar os artigos quando já o cliente seguinte está a pagar. Curiosamente, estas velhinhas gostam de frequentar os super e hipermercados na hora de maior afluência. Se querem testemunhar com os vossos olhos estes fragmentos cinematográficos em jeito de ode ao Manoel de Oliveira, recomendo particularmente o Pingo Doce do Cais do Sodré, que é provavelmente o mais estreito e confuso de todas as lojas Pingo Doce (para quem não conhece, é uma experiência sociológica imperdível), sobretudo a partir das 19:00.

E as pessoas que dizem "*prestácções*" em vez de prestações? E as pessoas que dizem (sempre!) "*condónimos*" em vez de condóminos?

O meu alarme despertador consiste em boa música (a intenção é começar o dia com algum ritmo e boa disposição): o Frank Sinatra a cantar-me uma das minhas canções de sempre.


A actual é I've got you under my skin.


Até aí, tudo óptimo. O assustador é que, ultimamente, o senhor fica a cantar quase meia hora ali mesmo ao meu lado (o homem mete-o praticamente em cima da minha mona) e eu não acordo. Nem o suficiente para fazer snooze, nada, népia.


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Há mesmo casais que partilham tudo. Muito para além de casa comum, carro, conta bancária. Há casais que partilham até a conta de Facebook. Vocês também os conhecem, andam aí pelas redes sociais com nomes maravilhosos como "José Carla" ou "Vítor Sónia" ou "Mónica Paulo". E isso deixa-me com profundas questões filosóficas.

 

A privacidade, para começar, onde fica? Será que duas pessoas abdicam da sua individualidade, da sua identidade, e não lhes parece nem um pouco estranho? Acham mesmo que a partilha sem limites é sinónimo de amor e de cumplicidade? Para mim vai tudo culminar na perda de liberdade, de autonomia. Não vale tudo, por excelente que seja uma relação, tem de existir uma linha (mais flexível ou mais rígida) a partir do qual o outro deixa de ter de saber ou tem uma palavra a dizer. Isto também é respeito. Já para nao falar dos "amigos" na rede social que têm todo o direito de só pretender manter uma relação virtual com um dos elementos do casal, ou partilhar certos conteúdos com apenas um e, por arrasto, ter de o fazer com mais uma pessoa.

 

E quais as razões para nascerem estas aberrações de duas cabeças? Será para poupar alguma coisa - porque não sabem que as contas são gratuitas? Será que um dos elementos do casal insistiu muito para fundirem as contas pessoais com meio milhão de argumentos válidos, do tipo "é mais giro assim" ou... hmm...  (Não me ocorre rigorosamente nada!) Isso parece-me, claramente, que arrasta um certo grau de desconfiança ou necessidade de controlo da outra pessoa. E já devíamos todos saber que o ciúme desmedido e outros comportamentos obsessivos numa relação de casal são um caminho muito perigoso...