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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Adoro ver o Masterchef! O australiano é, claramente, o mais bem conseguido; o americano vive muito das rivalidades e torna-se aborrecido por isso; o neo-zelandês tem as regras todas maradas; o inglês é ainda mais insípido do que a comida britânica; e o português é - custa-me dizê-lo porque eu gosto mesmo do programa, e do Goucha, e do Miguel Rocha Vieira - amador, no mínimo


Além da mega-bronca com o casting do Restelo, de raramente vermos as masterclasses (disponíveis online) e de, na maior parte das ocasiões, os desafios serem muito pouco ambiciosos e os resultados idem aspas, quer-me parecer que a produção tentou seguir a fórmula americana e meter entre os concorrentes uns cromos para gerar paixões (e logo, audiências).


[Haviam de fazer um mash-up do Masterchef e dos Ídolos, isso é que era!]


Na edição anterior estava lá o Luís Portugal, hoje já com vida dedicada aos produtos regionais transmontanos (e dentição melhorada), com uma postura entre o autoritário e o caricato. Nesta edição de 2015, esmeraram-se... Conseguiram encontrar uma personagem que, se na fase eliminatória parecia que ia assumir o papel de coitadinha (indicou ter sido vítima de violência doméstica), pouco mais tarde se percebeu que seria a "víbora" do programa (sem ofensa para as víboras!). Falo da Marta Gomes. Imodesta, conflituosa, de língua destravada (mais frequentemente do que é costume, quando a Marta fala saem-lhe "piiiiiiis" boca fora, "piiiiiiiiiiiiii que pariu"), não poupa críticas aos colegas. Mas cozinha geralmente bem e é das poucas que tem jeito para desmanchar bichos rápida e correctamente. Fez um sushi destrambelhado (o empratamento é o seu ponto fraco) mas safou-se outra vez no último episódio.


Na sua página de facebook, a postura é coerente com a imagem que temos dela cá por casa. E a ortografia também é um mimo. Não que isso interesse para os seus dotes culinários e, naturalmente, não temos nada de pessoal contra a senhora. Mas questionamos a opção da produção do programa em dar destaque e protagonismo às cáusticas intervenções da Marta, que não acrescentam nada (bem pelo contrário) à qualidade televisiva. É o tipo de entretenimento que se dispensa neste tipo de programas (para isto já não há as casas dos degredos, ou lá o que é?), mas enquanto a Marta não for eliminada, lá farei o esforço de aguentar os seus "piiiiiiis" e os seus labores com facas (seja em carnes, peixes ou costas de quem se puser a jeito).


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Numa manhã limpa de Janeiro, Tomé nasceu. Não chorou, sequer por ceifar, na mesma hora, a vida de Flor, sua mãe. Negro como a noite, quebradiço de tão fino, olhos pretos clarividentes, onustos de vida. Por nove anos não se lhe conheceu o choro. Garoto frágil, sempre descalço, dois palitos por pernas. Num desmoronamento perdeu o dedo menor do pé esquerdo. Mordeu com força os lábios carnudos e rosados, susteve a respiração o quanto pode, mas sucumbiu. Rolaram lágrimas espessas e pesadas. Foi a primeira vez que saboreou o sal metálico do choro e a única em que foi uma dor física que o fez chorar. Nos sessenta e quatro anos seguintes chorou mais três vezes, contadas como aparições da Senhora do Rosário. Dizem os antigos da aldeia, sem saber, que é promessa; que é por penitência que rapa barba e cabelo de cada vez que chora. Um pouco menos raras foram as ocasiões em que quebrou o silêncio; mas Tomé podia ser feito de palavras, de tanto que diz sem falar. Diz com os olhos, com o ritmo da respiração, com os sorrisos com que brinda os de quem gosta, com o embalo dos ossos secos sob a roupa sempre muito branca. Hoje, Tomé falou pela última vez. Tem a pele baça das rugas e das décadas, a dentição de marfim já com falhas, duas voltas no carrapito grisalho e pés, como sempre, descalços, mas o olhar é fresco, por estrear, ainda com tanto por dizer.