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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

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Estamos de férias do outro lado do mundo. Internet só no hotel e nem sempre. Demasiadas coisas bonitas para ver e viver, não sobra tempo para blogar. Adoro a Ásia, adoro a Ásia, cada vez mais adoro a Ásia. Devo ter nascido por cá numa vida passada. O homem idem, está farto de ter dejá vus. Nasci para isto, não percebo porque é que ninguém me paga para viajar constantemente. Até breve!

Final do dia. Apanho o meu terceiro transporte público da viagem de regresso a casa. Ao longe vejo que estão três pessoas a distribuir panfletos perto da saída, seguramente de campanha eleitoral. Parecem-me os senhores do Partido dos Reformados e Pensionistas (PURP) - "Outra vez?! Será que ainda têm o e-mail do hotmail como e-mail oficial do partido?", vou interrogando para com os meus botões. Não são. Entregam-me um folheto que olho com curiosidade. "Ah, ainda não tinha este cromo na caderneta!" É do PDR.

 

Até aqui tudo bem. (Bem mal, mas isso agora não vem ao caso.) Foi quando me aproximei da carrinha de apoio com os megafones que a coisa descambou. Era esta a música de campanha que fluía da carrinha com os cartazes do Marinho E Pinto (de onde veio o "E", caramba?!):

 

 

 

 

Juro! Isto é real, isto é Portugal, isto é a campanha eleitoral! 2015, senhores!

 

(Peço desculpa às pessoas que seguiam à minha frente a quem assustei com os guinchos, mas eram risos abafados que não aguentei conter.)

Um paquete dourado com o sol da manhã rasga o rio como se o lambesse. Ninguém olha o rio e isso dói-me como me dói sempre que há desperdício, sobretudo de poesia, que sabemos que existe sob milhentas formas, até na forma de poemas - que perco cada vez mais. Dói-me a ignorância, dói-me a solidão, sobretudo a injustiça (libriana sou e não há como renegar).
Sempre o tempo, o perdido, o que não volta nunca para trás, cada segundo precioso, se for o último não será desperdiçado. Olha o rio e o mundo a girar.



 

Mas qual debate? Não estavam os dois a dizer o mesmo?

 

Os óculos do Passos são cosméticos, para lhe darem um ar mais maduro e menos trafulha, certo?

 

O Costa andou claramente a ter lições de como controlar a linguagem corporal. E andou a estudar um discurso vagamente inspirado na esquerda, mas que só convence os idiotas e amnésicos.

 

Ninguém se quer comprometer com nada de muito concreto. Há políticas para isto e aquilo, mas ficamos sem saber quais.

 

Ninguém fez perguntas realmente fracturantes e importantes.

 

Passos não se arrepende de nada. Eu gostava de perguntar aos que votaram PSD e CDS se já se arrependeram do voto ou o que mais é necessário para que se arrependam.

 

A Judite começou bem mas depois enrolou-se toda no seu costumeiro ridículo.

 

O jornalista da RTP devia estar com sono, pareceu-me.

 

A Clara de Sousa foi a vencedora da noite. Está cada vez mais gira e nova.

Só uso a Fertaus (o "comboio da ponte", do Grupo Barraqueiro) quando tem mesmo de ser e hoje foi um desses dias. O homem ridiculariza este meu ódio de estimação, a maior parte das pessoas acha que é o máximo passar na ponte de comboio e tal, mas eu não vou nisso. Qual velha(das) do Restelo, bato o pé e não me demovo. Não por teimosia, mas porque as razões para este ódiozinho não faltam:



    • As estações são geladas: mesmo nos dias de Verão, meus amigos, as estações que eu tenho de usar, quando calha um desses dias, na margem certa, são um absoluto gelo! A 500m pode estar calor, mas nas plataformas das estações o grizo é impressionante!

 

    • Os horários deixam muito a desejar. Faz sentido que a ligação entre a capital e uma das maiores cidades do país, Setúbal, só se faça de hora a hora?

 

    • O espaço, ou melhor: a falta de espaço. Não sei se quem fez as carruagens estava a desenhá-las para Liliputianos, mas caramba (!), o povo português até é baixinho e tem pernas curtas (no geral), como é que o espaço entre lugares obriga a que os joelhos dos passageiros se toquem?! (Sim, sou cheia de não-me-toques, e depois?!)

 

    • O preço é absurdo! As viagens de comboio são das mais caras da Europa se observarmos o preço médio do Km. O valor mais baixo é 1.40€ para trajectos de uma paragem e vai até aos 4.35€ para a ligação Setúbal e Lisboa. Se eu for dos Foros de Amora para Lisboa pago 2.50€, mas se apanhar o comboio na estação anterior (Fogueteiro) são mais 0.40€ por uma distância de 3.3 Km (4 min de Fertagus).

        • Sulfertagus, o serviço de autocarros da empresa, não se fica atrás. A tarifa mais baixa para bilhetes simples é de 2.70€ (um trajecto de uma estação, por exemplo, de Corroios ao Pragal ou do Fogueteiro a Coina) e pode ir até aos 4.55€ (do Pragal a Setúbal). Não admira que tanta gente continue a preferir usar o automóvel. Falando em automóveis...

        • Se levarmos carro para um parque de estacionamento Fertagus, eis mais uma bela forma de arrombar o orçamento: 1.50€ ou 1.90€ (consoante se trate do parque exterior ou do auto-silo), ou em versão "passe": 25€ ou 30€. Amigos do Porto que vão ver a SCTP privatizada, utentes da TAP (sim, Grupo Barraqueiro, estou a olhar para vós!), si prepara!

        • Fazendo as contas, se eu substituísse o meu actual passe L12 (59.45€) por este magnífico serviço privado, pagaria sensivelmente o dobro. E chegava exactamente à mesma hora ao trabalho, e a casa. E ia / vinha provavelmente de pé ou com joelhos de estranhos a roçarem-se nos meus.

Já perdi a conta a quantas vezes escrevi sobre a Festa. Não tenho a respeito da Festa opiniões isentas. Sou comunista convicta desde muito antes de saber que as minhas ideias (sempre, desde criança sem saber ler nem escrever, me pareceu tão óbvio, não havia como não concordar) tinham este nome, por decisão própria e absolutamente isenta de influências familiares ou outras. Nem sempre estou totalmente de acordo com o Partido, mas isso não vem ao caso, porque a Festa não é só para comunistas nem só do comunismo, é a Festa de todos!

 

Fui à minha primeira Festa do Avante ainda habitava o útero de minha mãe. Não fui todos os anos (falhei duas por me encontrar fora do país, falhei outra por estar em recuperação de uma cirurgia e estar impossibilitada de caminhar), mas fui muitas vezes, e muitas mais irei, conquanto esteja viva e capaz. Já fui com namorados, com amigos e amigas (de todos os quadrantes políticos, note-se), com família, com menores, já fui com calor infernal, com frio e com muita chuva e trovoada também. Foi no Avante que comi o meu primeiro kebab, que enjoei cerveja (calma, só durante uns tempos, já passou), que vi os Xutos tantas vezes (e no Domingo verei novamente), que encontrei amigos e conhecidos que só já encontro no Avante, que lhes conheço a prole e as voltas da vida.

 

 

 

 

Sou daquelas pessoas que em Outubro já têm saudades da Festa, que sonham com ela o ano inteiro e que basta ouvirem a Carvalhesa para que o espírito de encha de ânimo, alegria e confiança. Emociono-me muitas vezes ao som da Carvalhesa, com lágrimas nos olhos e tudo. Estes três dias são, para mim, uma amostra de como um mundo podia ser: não perfeito, mas tão bom, tão melhor do que o que enfrentamos diariamente. Não há formalismos, somos todos iguais, sem cor nem credo nem género nem idade. Milhares de pessoas reúnem-se naquele espaço belíssimo, com interesses diferentes, com tradições e gostos diferentes, com histórias diferentes, cada uma com um universo dentro de si. E há lugar para todos. Há música (de todos os géneros), cinema, teatro, dança, desporto, debates, feira do livro e do disco, há gastronomia de todos os cantos do país, há representações internacionais (muitas delas também com gastronomia ou venda de artigos típicos), há debates, há política, há ciência, há espaços e actividades para as crianças. Há alegria. Tanta alegria. Há realmente camaradagem. Há famílias inteiras, há uma tão grande paz entre toda a gente, os grupos de adolescentes com as hormonas aos saltos e os reformados que trazem farnel de casa sorriem uns para os outros, mete-se conversa na fila para as bifanas com desconhecidos como se fossem amigos do peito, se porventura entornas o teu copo nos pés de alguém, levas uma palmadinha nas costas e dizem-te "tudo bem, amigo, não há azar, boa festa!" Ninguém olha de lado para ninguém. Não há desacatos. Não há mesmo Festa como esta!

 

Talvez seja orgulho de estarmos todos a respirar o aroma a baía misturado com aroma de pinhal, talvez seja por dançarmos todos ao som da mesma Carvalhesa. Há qualquer coisa de mágico, de indescritível, que se passa no Seixal no primeiro fim-de-semana de cada Setembro. Não sei se o Mestre (Jorge Palma, para os amigos) estava inspirado pela Festa quando escreveu o refrão da Terra dos Sonhos, mas é para lá que sou transportada sempre que oiço esta canção.

 

 

 

Na terra dos sonhos, podes ser quem tu és, ninguém te leva a mal
Na terra dos sonhos toda a gente trata a gente toda por igual
Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas, ninguém se pode enganar
Abre bem os olhos, escuta bem o coração, se é que queres ir para lá morar


Há pessoas, que serão representativas duma secção importante do eleitorado, calculo eu, que tentam desculpar o voto ignóbil chamando-lhe "voto útil", que consiste em votar num grande partido ou coligação para que outro grande partido ou coligação não "ganhe" eleições. Defendem-se com o ainda mais ignóbil argumento de que os pequenos partidos nunca irão "ganhar".

 

Quando às legislativas, não só essa interpretação se esquece de que o CDS, a quarta força política do país, conseguiu constituir (des)governo com os laranjas, como - muitíssimo importante - se esquecem de que as eleições legislativas servem primeiramente para eleger os deputados representantes dos respectivos círculos eleitorais. E só depois para o(s) partido(s) mais representado(s) ser(em) convidados pelo P.R. para constituir governo. Trocando por miúdos, gostava que ninguém pensasse que no próximo 4 de Outubro tem de escolher entre a dupla Passos + Portas (= ❤?) e o Costa. Gostava que ninguém tivesse dúvidas que não é disso que se trata. (Até porque, aqui entre nós, entre uma e outra opções, venha o Diabo e escolha.) Um deputado honesto e competente pode fazer uma enorme diferença. Cada voto conta. Conheçam as listas de todos os partidos a votos no vosso círculo eleitoral, pesquisem sobre o seu trabalho se já foram eleitos ou ocuparam cargos públicos anteriormente.

 

Perdoem a expressão, mas não se limitem a escolher entre a merda e o cagalhão (rima e é verdade). Façam-se representar!

 

 

 

Em relação ao meu post abaixo e em jeito de resposta ao certeiro comentário da Maria... Não, nem todos merecemos o país e o (des)Governo que temos, porque nem todos contribuímos para a sua eleição. Cruzes, canhoto!

 

Mas a verdade é que vivemos em democracia, com todas as suas falhas e virtudes, e que, não sendo perfeita, é a melhor tentativa de estado justo* que conhecemos. E nesta democracia, temos um (des)governo eleito com a maioria dos votos da população eleitora, a representação parlamentar que os eleitores escolheram, o "Presidente da República" (desculpem mas não consigo escrevê-lo sem as aspas) também democraticamente eleito.

 

Eu nunca votei em nenhum deles, nem nos partidos que representam, nem nos últimos nem em nenhum acto eleitoral. Mas não concordar com o sentido de voto da maioria não nos desresponsabiliza, não nos iliba da culpa do "estado a que chegámos", como dizia Salgueiro Maia. Além de considerar que o voto é um dever fulcral à cidadania, também acho que a mobilização, a incitação ao voto e à participação, o são ou devem ser. Não basta mandar umas chalaças no café e nas redes sociais, faz falta agir em concreto. Faz falta sair à rua para fazer ouvir a nossa voz, dar a cara e o nome e o corpo ao manifesto, assinar as petições, discutir abertamente com quem nos rodeia, apontar sem medos o que está mal feito, confrontar. Contra mim falo, que confesso ser uma péssima militante, com um imenso défice participativo e interventivo. E também por isso me incluo nesta primeira pessoa do plural quando digo e repito: temos o país que merecemos.

*Talvez o melhor método fosse um despotismo justo, como diz um grande amigo meu. Talvez. Mas sem garantias de imunidade à corrupção que o poder encerra, sem garantia de pluralidade e sem o aval popular, deixe-se estar a democracia.