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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Orçamentos, contas, negociação. Decisões. Caixotes. Banheiras e sanitas no chão, viradas ao contrário. Sacos de cimento. Telhas empilhadas. Tijolos. Andaimes, andaimes everywhere. Pó entranhado em todo o lado. Portas desmontadas, janelas cortadas. Móveis ao molho. Cheiro a tinta. Montes de terra. Caixas de mosaicos, caixas de chão, caixas de torneiras. Latas vazias, latas com água, latas com tinta, latas com primário. Pedras. Lixas. Brocas. Fios pendurados, fios descarnados, tubos e canos por todo o lado. Ferramentas pelo chão, buracos no chão, chão sem chão. Entulho, contentores. Tudo é estaleiro, tudo é projecto, nada terminado. Arquitectos, canalizadores, pedreiros, serventes, carpinteiros, pintores, electricistas, estucadores, fiscais, a culpa é do empreiteiro.


Estado de sítio, nervos, pânico, contas à vida, compras, mais decisões.


Que eu estava sentada no sofá da sala, depois do jantar, ao lado do meu pai. Tínhamos jantado na sala, porque havia futebol na televisão, que já não me lembro se era a cores ou a preto-e-branco. Estava à espera que terminasse o jogo, para irmos à praia. Precisava de trazer um saquito de areia da praia para um trabalho que íamos fazer na escola no dia seguinte. íamos fazer umas cartolinas com desenhos e colagens, e íamos colar areia na cartolina. (Cola UHU e areia da praia fazem uma grande porcaria, só para que saibam.)


Nessa altura ainda gostava de futebol, ia aos jogos da equipa da terra aos domingos, às vezes ia ver treinos de manhã, e o meu clube era esse. Havia alguma pressão familiar para que eu fosse do Sporting, tomando o exemplo da mãe e dos avós, mas eu apesar de não contrariar, não ligava rigorosamente nada aos verdes.


Foi durante aquele compasso de espera em que não havia mais nada para fazer que estava atenta à televisão. Era um jogo de futebol. E caramba, uma das equipas jogava bem, notava-se que era um jogo importante, pelas emoções ao rubro - na televisão, não na sala, porque o meu pai era muito contido a ver futebol, tinha aprendido a ser contido e imparcial, por obrigação auto-incutida ligada ao seu hobbie, a arbitragem. [Ninguém sabia o clube dele, apesar de sempre o ter dito com clareza: Amora Futebol Clube. Era verdade, ainda é. O Amora primeiro, antes de tudo o resto. A minha mãe adivinhava qual era o seu outro clube, dos "grandes", mas nunca, enquanto foi árbitro, o meu pai confirmou ou desmentiu.] Instintivamente, comecei a torcer pelos que me deslumbravam a cada passo, e que por acaso eram os portugueses. O sentimento nacionalista nunca me assistiu por aí além, até hoje continuo a ter o Barcelona F. C. como um dos "meus" clubes do coração, sobre quase todos os portugueses, só porque gosto, pronto, não é uma coisa racional. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa - e o clubismo é tudo menos racional. E foi nessa noite de 27 de Maio de 1987 que me tornei adepta do Futebol Clube do Porto. No final, já não tinham sido eles a ganhar o troféu da Taça dos Clubes Campeões Europeus, já tínhamos sido nós a ganhar. Por muitos motivos, hoje em dia o futebol já não me diz muito; acho tudo excessivo, desenquadrado, levado demasiado a sério e abomino toda essa faceta que já não tem nada a ver com o jogo, o jogo que podia ser um espectáculo bonito, emocionante, e saudável, mas que passou a ser de uma falsidade e podridão iguais aos meandros mais escuros da política. Não gosto de quase nada no futebol de hoje em dia. Mas "o meu coração só tem uma cor: azul e branco".


Jacaranda mimosifolia, árvore de grande porte, semi-perene, originária da América do Sul e presente um pouco por todo o mundo, nomeadamente em Lisboa. Floresce em cachos, lilás intenso, a anunciar o Verão. Transforma largos, praças e avenidas em postais ilustrados, românticos, de impressionismo francês lambuzados.

 

Aconselho a apontar o queixo para cima e deixar inundar os olhos deste azul meloso e perfumado, respirar a primavera e sorrir, num exercício de gratidão pela beleza e optimismo.

 

Carpe diem!

 

 

 

 

Adoro, é o meu padrão preferido, intemporal, cheio de classe sem ser monótono... Enfim, é uma paixão aqui da menina.
Olhando de soslaio ali para o cabide de pé onde está (des)arrumada a roupa passada, vislumbro seis peças de bolinhas. Temos branco com bolinhas pretas, temos preto com bolinhas brancas, temos azul escuro com bolinhas brancas (em maioria) e temos bordeaux com bolinhas brancas.
No dia em que encontrar um vestido que me agrade (sou muuuuito esquisita com os vestidos) com bolinhas pretas ou brancas em cinza, terei de marcar casório para o usar. Just sayin'.



 



Não me chames linda. Chama-me combativa, independente, inteligente, revolucionária. Chama-me intransigente, irritante, arrogante. 

Não me chames simpática. Chama-me guerreira, vingativa, carismática. Chama-me idealista, utópica, parva, ou chama-me pelo nome. 

Se não tens nada de positivo para dizer de mim, diz à mesma o que pensas. Só não me digas mentiras, não uses clichés para me descrever, que me agonias.

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Isto é o que acontece quando se acredita na música, na poesia, na arte.
Isto é o que acontece quando se põe de parte o complexo de inferioridade que nos leva a imitar os demais, com a mesma fórmula já batida e enorme disparidade de meios.
Isto é o que acontece quando se tem orgulho no que se é, sem tentar ser outra coisa qualquer. É também o que acontece quando se vai a um festival de canções com uma canção, não com apenas uma imagem, ou com apenas uma exibição vocal, ou apenas efeitos especiais ou apenas uma boa voz com uma canção colada com cuspo.


E isto é também o que acontece quando se assume um discurso real, coerente, genuíno, sem embaraço ou pudor de dizer o que deve ser dito.
Isto é apenas o que temos de melhor.


"Music is not fireworks, music is feeling!"


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Todo ele coração. Todo ele música.


Um animal musical.


Extraordinário. Fora de série!


Salvador Sobral é um portento. É muito mais que a lindíssima "Amar pelos Dois" que venceu o Festival Eurovisão da Canção 2017. Escutem aquela que é a minha canção favorita do primeiro álbum do Salvador, Excuse Me - Change.



 


Obrigada, Salvadorzinho. Além de se ter agravado a vontade que tenho de te dar beijinhos e fazer festinhas, tenho agora dois novos sonhos na vida:


1 - Ouvir-te no palco 1º de Maio, ou mesmo no palco 25 de Abril, na Festa do Avante.


2 - Ouvir-te em dueto com o Jorge Palma.


Seria a felicidade suprema, o êxtase total.


Ah, e ainda me fizeste ganhar uma aposta, um almoço num sítio muito catita - se quiseres podes vir também, não sou eu que pago!

O argumento que vou apresentar de seguida já tive de defender anteriormente, era eu estudante universitária.

 

Havia um prazo para um trabalho importante e que valia uma boa parte da nota de uma disciplina, que não era comum a todos os estudantes (depois dos anos comuns tínhamos vários ramos da licenciatura e as disciplinas eram optativas de entre um variado leque). Calha que foi agendado um evento social de relevo para o dia antes do fim do prazo para entregar o trabalho. Os alunos daquela disciplina dividiram-se entre os que abdicaram do evento social para se dedicarem a ultimar o trabalho lectivo, e os que decidiram não abdicar do evento social e confiar que após muito choradinho o professor iria estender o prazo de entrega do trabalho. O professor não estendeu o prazo. Eu e vários outros colegas entregaram o melhor trabalho possível dentro do prazo. Os colegas que foram ao evento social entregaram o trabalho após o prazo. O professor aceitou os trabalhos de todos e classificou-os com os mesmos critérios. Foi justo?
Não. Esta foi, é e será sempre a minha posição, que discuti exaustivamente com o professor na defesa do trabalho em questão. O professor, por outro lado, defendeu que não beneficiou ninguém, apenas não penalizou os colegas que entregaram o trabalho fora de prazo. Ora, sob este entendimento, é claro e objectivamente comprovado que alguns alunos tiveram efectivamente mais tempo para concluir o importante trabalho, de resto em igualdade de circunstâncias, já que não existiu penalização pelo atraso.
A meu ver, o não prejuízo dos infractores traduz-se num prejuízo dos cumpridores, que completaram o trabalho num período mais curto sem qualquer benefício na avaliação. Para mim isto é bastante claro e nem seria passível de discussão, de tão óbvio. O professor, que era quem tinha o poder de decisão no caso, defendeu que estava a ser justo para todos, e manteve a sua decisão.

 


No caso da tolerância de ponto do dia 12 de Maio passa-se exactamente a mesma coisa.

 

Nem falando no absurdo que é um estado (supostamente) laico dar tolerância de ponto a todos os funcionários públicos porque o Papa vem dar um pulinho a Fátima (onde uns chavalos inventaram uma peta que parece que esteve na causa de uma outra alucinação colectiva a outros tolinhos, mas isso são outros quinhentos), na prática temos os funcionários públicos a terem uma folga adicional não planeada, e o resto da população a ter de arranjar solução para lidar com este "imprevisto": crianças sem escola, consultas, exames, julgamentos e demais afazeres em organismos públicos adiados.

 

Em suma, um benefício atribuído a uma parte da população e que prejudica directamente o resto da população torna-se numa injustiça. Se a ideia era manifestar o respeito por uma maioria católica numa data aparentemente significativa, faça-se ao 13 de Maio o que se faz a 15 de Agosto (e tantos outros) - feriado nacional. Os motivos continuariam a ser deveras questionáveis, mas pelo menos o feriado seria para todos

 

Não é demais repetir até à exaustão porque há muito mais para dizer, para viver, ouvir e sentir.


É oficial, estou apaixonada pelo Salvador Sobral. Pela voz, firme e cristalina, pela alma, pelo ritmo, pela simplicidade, pela espontaneidade, pela postura perante a exposição mediática, pela rejeição do aproveitamento da doença, pela brutal honestidade, pela graça do seu jeito despreocupado. Pela imensidão do talento concentrado num só ser humano. Arrebatador.


O Salvador é um dos grandes, dos maiores, dos fora de série. Todo ele música, todo ele sentimento. Tão bom que chega a ser dramático, doloroso até. De ir às lágrimas, literalmente. "Voz de anjo", dizem. Coração de anjo, digo eu. Frágil, sofrido, leve, e com a força de uma trovoada. Não deixa ninguém indiferente, ama-se ou odeia-se. Só com a voz e a capacidade de reinventar cada canção em cada actuação, simples ou gutural, nada nesta criatura é normal, medíocre ou morno. Tudo é beleza pura.


(Posso ser parcial, e sou, que quando gosto sou exagerada, tudo-ou-nada kind of love, mas para mim o Salvador está hoje ombro a ombro, mano a mano, com o Benjamin Clementine. Acima deles, de entre os vivos, só o Mestre Jorge Palma, único e inigualável e para sempre o melhor do mundo.)


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Não me canso de ouvir o disco (Excuse Me), não me canso de repetir o maravilhoso concerto a que tivémos o privilégio de assistir ao vivo, no Fórum Municipal do Seixal, e que passou na madrugada de sábado passado na RTP 1. Com a agravante de toda a febre da Eurovisão estar ao rubro, com uma enorme expectativa e mediatismo em torno da canção portuguesa, sorvo os vídeos dos ensaios, das entrevistas e das opiniões. E isto tem de ser dito com ênfase na real distância que me separa de todo o fenómeno eurovisivo. Eu, que já fui daquelas pessoas para quem o Festival da Canção era um "happening" musical todos os anos e que até já estive para compôr uma canção com uns amigos para participar (há 7 ou 8 anos), nos últimos tempos tenho ignorado o evento e, lamento constatar, apenas como consequência da pobre qualidade das canções escolhidas. Portanto, para deixar bem claro: que eu acorde com o Nada que esperar ou o Change a tocar dentro da cabeça é mérito integral do génio do Salvador Sobral; e é perturbador e é uma explosão de alegria.



Em dia de semifinal lá na Eurovisão, não deixa de ser curioso observar alguns fenómenos tão "tugas" - dos tugas que vivem de redes sociais, de CM TV, que se exaltam com as vitórias e derrotas futebolísticas, os que acham que Fátima é um lugar sagrado que serve para fazer e pagar promessas, e a volatilidade das suas marés. Como as pessoas passam de bestas a bestiais num sopro!...
Os que torceram o nariz à canção "Amar pelos dois", seja por não percebem um caracol de música ou por acharem que a canção não é "festivaleira" o suficiente, parece que agora andam ansiosos e em vias de mudar de opinião porque a canção que representa Portugal na Eurovisão está bem cotada e tudo parece indicar que vai ter um bom desempenho em termos de classificação. Passeando um pouco pelo YouTube é fácil de perceber a quantidade de gente, de todas as nacionalidades, arrebatada pela canção e pela interpretação. Não é para menos, a canção é realmente perfeita. Per-fei-ta.



Mas nada disso interessa, o resultado da Eurovisão pode ser o que for, que já ganhámos. O Salvador Sobral ganhou projecção internacional e nós todos ganhámos um portento musical. Um dos grandes, dos maiores, dos fora de série.

Da primeira vez que estive em Amesterdão, fui sozinha. Estava um frio de rachar. Não percebi todo o deslumbramento generalizado com a cidade. Achei gira e tal, mas suja e completamente sobrevalorizada.
Da segunda vez, fui com uma amiga. Estive mais tempo, o tempo estava frio e chuvoso, e conheci mais coisas, mas continuei a ter uma opinião morna. Tudo caro, algo sujo, sem nada que fascinasse.
Desta vez, fui contigo. Não choveu, mas também estava bastante frio. Só que, desta vez, tudo me pareceu bonito, sereno, em sintonia. O Sol brilhou. Realmente um raio de sol faz toda a diferença na Luz, nos reflexos, no estado de espírito, nos sorrisos das pessoas na rua.
Passeámos muito de mãos dadas, fizemos piqueniques improvisados nos parques, apanhámos estafas nos museus. E a cidade ganhou outra cor, outro encanto adocicado, suave e afável como a superfície do Amstel num dia de Primavera.
Já viste como pode apenas o Sol mudar tudo em nosso redor e dentro de nós?

Quando estivemos em Paris também senti o mesmo, as ruas dos subúrbios encantadoras, cada detalhe fortuito engraçado e simpático, e até a língua, de que nunca gostei, me pareceu menos presunçosa e mais aberta e interessante. Também deve ter sido o Sol a fazer a diferença, tão grande diferença em cada momento. A cidade abraçou-nos, estendeu o tapete vermelho e convidou a ficarmos para sempre numa pintura de Saint-Lazare.


Só que em Paris não vimos o Sol, choveu o tempo todo.