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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Poet: Charles Bukowski The Laughing Heart; Roll the Dice Narrated by: Tom O'Bedlam

 

Go all the way - Charles Bukowski

“If you're going to try, go all the way. 

Otherwise, don't even start. 

This could mean losing girlfriends, wives, relatives and maybe even your mind. I

t could mean not eating for three or four days. 

It could mean freezing on a park bench. 

It could mean jail. 

It could mean derision. 

It could mean mockery--isolation.

Isolation is the gift. 

All the others are a test of your endurance, of how much you really want to do it. 

And, you'll do it, despite rejection and the worst odds. 

And it will be better than anything else you can imagine. 

If you're going to try, go all the way. 

There is no other feeling like that. 

You will be alone with the gods, and the nights will flame with fire. 

You will ride life straight to perfect laughter. 

It's the only good fight there is.”

Trocamos poesias e músicas que falam ao ouvido as palavras mil que evitamos, farpas de honestidade ferrugenta por baixo das unhas. Trocamos beijos e sorrisos inseguros sem nos tocarmos, de olhar no vazio, esperanças desertas e vontades casmurras. Recordo o teu discurso cheio de razões quando só queria ver-te sorrir. Devia ter-te calado com um beijo sôfrego nos teus lábios de glaciar impertinente, um beijo apressado, espantado do desejo que me apanhou na curva. É que o teu sorriso arrepia, ainda que viva só num sítio feito por mim, à tua medida, onde ris exuberante, onde os teus olhos brilham em festim guloso e jamais acusam saudade ou desesperança. Os teus sorrisos, difíceis de conquistar, acendem coisas obscuras em mim, sombras lilases de uma ternura sem fim. Juro que podia viver nesse sorriso, podia respirar só esse ar fresco de poesia, de seiva a escorrer do excesso de beleza que trazes ao mundo. Queria tecer-te um casulo de doçura para te ensopar as melancolias, as agressões, as arestas cortantes das noites de solidão, protecção que abraça e te afaga o cabelo, que te embala e promete que tudo vai passar. As paredes rombas da fortaleza que sou eu têm ninho para ti, têm navios cargueiros pendurados do tecto para caberem as tuas fugas, toda a bagagem rota que arrastas nos bolsos da servidão. Sempre te afastas da porta como se fosse a entrada dos infernos, como se a estética dos meus afectos te ofendesse, como se entrar aqui na arcada do meu peito em clamor significasse que descarrilas do rumo que não queres seguir. Recolhe os silêncios na noite espessa, não sabes ainda que todas as palavras podem caber na poesia, que a beleza não se encerra nas palavras chão e flor, nuvens e pardais, que o amor também vive nos desapegos banais que me gritas à janela, em impropérios invernosos e desabafos que a almofada desconhece.

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[Desafio a adivinhar o que me passa na alma, desafio o ordem e a racionalidade a que tenho tanto apego, desafio a lógica das promessas que respeito, culpada sempre de sentir demais o que não se devia sentir, de dizer o que provoca dor, apesar de ser 'apenas' amor, culpada de não conseguir calar, e maior vilã dos silêncios não há.

Ouve o que eu calo, enxuga-me a dor, abdica de mim por amor.

As muralhas também fraquejam.]

 

 

"Às vezes o amor", do Sérgio Godinho, na versão da Márcia. Arrepia.

 

Que hei-de eu fazer
Eu tão nova e desamparada
Quando o amor
Me entra de repente
P'la porta da frente
E fica a porta escancarada

Vou-te dizer
A luz começou em frestas
Se fores a ver
Enquanto assim durares
Se fores amada e amares

 

Dirás sempre palavras destas

P'ra te ter
P'ra que de mim não te zangues
Eu vou-te dar
A pele, o meu cetim
Coração carmesim
As carnes e com elas sangues

Às vezes o amor
No calendário, noutro mês, é dor,
é cego e surdo e mudo

E o dia tão diário disso tudo

E se um dia a razão
Fria e negra do destino
Deitar mão
À porta, à luz aberta
Que te deixe liberta
E do pássaro se ouça o trino

Por te querer
Vou abrir em mim dois espaços
P'ra te dar
Enredo ao folhetim
A flor ao teu jardim
As pernas e com elas braços

Às vezes o amor
No calendário, noutro mês, é dor,
É cego e surdo e mudo

E o dia tão diário disso tudo

Mas se tudo tem fim
Porquê dar a um amor guarida
Mesmo assim
Dá princípio ao começo
Se morreres só te peço
Da morte volta sempre em vida

Às vezes o amor
No calendário, noutro mês é dor,
É cego e surdo e mudo

E o dia tão diário disso tudo
Da morte volta sempre em vida

 

Cerca del mar

Ayer tuve que acercarme al mar
Ayer tuve que rendirme ante la soledad
Necesité ahogar mis penas
Dejarlas llevar por la marea en Luna Nueva

Hoy tuve que gritarle al miedo de cambiar
No persigo destinos si no formas de andar
Como el río su camino
Me desvío para avanzar

Cuando el barco parezca perdido
Recuérdame para qué lo hicimos
Cuando el barco parezca perdido
recuérdame adónde quisimos llegar

Cuando el barco parezca perdido
recuérdame para qué lo hicimos
Cuando el barco parezca perdido
recuérdame adónde quisimos llegar
Cuando el barco parezca perdido
recuérdame para qué lo hicimos
Cuando el barco parezca perdido
recuérdame adónde quisimos llegar

Los barcos llegan a la orilla
El sol se hunde atrás
Con sólo un respiro la niebla se va
Para ver frente a mis ojos que no necesito más.

Vivia na escuridão ia para duas décadas, mirrado e seco por dentro, escudado numa samarra rota que sempre o cobria. Uivava fados tristes na hora das corujas, bramava impropérios quando o dia o ofendia com raios solares. Era na penumbra que se sentia em casa, com as paredes forradas a melancolia e ecos nas gavetas perras. "Desgosto de amores" dizia-se entredentes quando passava cambaleante no largo, ébrio de tristezas sem teor etílico. Numa madrugada fria de um Junho quente, rompida por brilhos cintilantes em silêncio, pensou ver um arraial em distonia, tantas as luzes e música muda. Chegou perto a esbracejar, pirilampos por certo em acasalamento. Caiu o queixo. O céu estrelado havia desabado, logo ali, no seu colo vazio, com ternura e vagareza, para lhe plantar no rosto um beijo macio.

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(Do desafio da Papel D'Arroz Editora.)