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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Feliz aniversário, doce S. 

Quero ser só, 
Quero ter só algo mais, 
Que eu nada sou sem companhia. 
Diz-me quem eu sou como se o não fosse. 
A rua quebra-me a força negativa. 

 

Sorrir, 
Não é pêra doce! 
Diz-me quem eu sou como se o não fosse. 
Matei o monstro da monagamia, 
e a minha vida parou na letra S. 
A minha mão não quer, 
Que eu mate agora, 
Eu mesmo nunca sei. 
Eu posso dar, 
Posso dar mundo, 
Tal fosse um copo grande embora sem o fundo. 
Eu não entendo mas amo quem tu és, 
E que assim sendo padeço a teus pés. 
Matei o monstro da monagamia, 
e a minha vida parou na letra S.

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Quando era miúda, costumava dizer que não tinha terra. Quando todos os amigos e colegas iam "passar férias à terra", eu sentia que não tinha essa outra terra além daquela em que vivia (e vivo). Tanto pais como avós, todos do mesmo distrito, nunca tive esse património distante das raízes familiares. Sentia-me um bocado triste por não ter as histórias de regressos com conversas à volta do forno a lenha da cozinha, sobretudo triste por não ter as experiências da ruralidade dos animais, apaixonada que sou desde sempre por tudo quanto é bicho, do mato ou doméstico, por qualquer pardal ou lagartixa, burro ou perú, minhoca ou ratazana. Mas ao mesmo tempo sentia-me afortunada por não ter que esperar pelas férias para ter os avós por perto, os meus avós faziam parte da minha vida diária e apesar de disfuncional (não são todas um pouco?), a família não era uma entidade com camadas e fronteiras geográficas, era só aquele núcleo fundamental (porque laços de sangue são uma coisa diferente de família).
O gosto pelas viagens e passeios, muitas vezes sem destino definido, despontou muito cedo. Ansiava por aqueles dias de verão em que partíamos os cinco num automóvel, pelas estradas de Portugal, às vezes Espanha, sem nada marcado, ao sabor da aventura. Chegados a um cruzamento, o meu pai perguntava à minha mãe: "esquerda ou direita?". Que é como quem diz "Norte ou Sul"? Das inúmeras memórias e ensinamentos que o meu pai me deu de herança, essa é uma das melhores. Essa pequena rebeldia de ir para onde quiser ou me apetecer, sem regras ou planos definidos. Nunca sabíamos bem por onde iríamos estar, ou quantos dias íamos ficar. O limite óbvio era o orçamento, que nunca permitiu exuberância de nenhuma espécie. Outra coisa que aprendi com estas viagens foi que nem todas as pessoas gostam ou lidam bem com a ausência de estrutura, horários e planos. O meu avô e a minha mãe, se não estavam sentados para comer "à hora de almoço" ficavam com birra de fome. A minha avó, com muito mais resiliência, também, mas não resmungava, guardava-se para a birra de sono quando de noite ainda não tínhamos alojamento. Muitas, muitas foram as vezes em que almoçámos às quatro da tarde ou à meia noite ainda não fazíamos ideia de qual a residencial de beira de estrada onde podíamos dormir. Assim se faz uma aventureira, com muita descontracção e capacidade de lidar com imprevistos, muito mais fascinada pelos recantos curiosos das aldeias, pelos riachos ou searas, do que interessada nessas coisas mundanas e corriqueiras como comer e dormir.
Foi assim que conheci Portugal de lés a lés e parte de Espanha por dentro, com mil histórias caricatas, incidentes e tropelias para contar. Descobri que a cultura tem diversidades regionais imensas e fascinantes, aprendi que as pessoas não vivem todas com os mesmos confortos ou prioridades, e também aprendi que não importam as diferenças, a língua ou sotaque, a cor, o tamanho ou as roupas que vestem: as pessoas são essencialmente iguais. Nunca mais parei de viajar, tornou-se uma sede incontrolável de aprender, ver e viver na primeira pessoa. Mania burguesa, dirão (não sem razão) os meus camaradas mais puristas. Seguramente que é um privilégio burguês poder viajar para o estrangeiro várias vezes por ano. A seguir ao privilégio é também uma escolha consciente, que implica abdicar de muitas outras coisas que não valorizo tanto. Não planeio abdicar deste privilégio, enquanto o puder manter. Viajar traz-me riquezas que ninguém me pode tirar. Aprendi que um sorriso no olhar é capaz de ultrapassar qualquer barreira linguística e que o mundo, na sua aparente pequenez de distâncias encurtadas e da comunicação imediata, é tão grande quanto estivermos dispostos a ver mais longe.

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"Mostra-me que o sol não brilha negro" pediu ele, despido. Ela apontou e mostrou-lhe o Sol de todas as cores, mas também lhe mostrou a Lua em gratidão pela noite e céus estrelados. Ela admira a persistência do Sol mas trata por tu a inconstância da Lua, que sempre a acolhe nas dúvidas e desejos. Ele não sabe que é ele quem traz o Sol no sorriso e é sempre ele que ela vê no horizonte quando namora o rio. Ela sabe que se vai queimar mas foi buscar um pedaço ao Sol para lho entregar.

Ela roubou um pedaço do Sol e, com dedos de carvão, atirou-o para ele apanhar, lá longe onde sempre está. Ele viu o pedaço de Sol a voar na sua direcção. Era fogo puro. Era quente como os abraços que ela tinha no caixote dos amores negados com o nome dele. Ele teve medo de queimar os dedos e os cabelos, ou talvez só tenha constatado que aquele pedaço singelo de Sol não lhe merecia o esforço, e não esticou um braço, não ergueu os olhos, só se agachou e deixou o Sol queimar outro lugar. Quando a Lua veio espreitar, ela já era só cinzas e ele chorava por não ter sol a brilhar.

O Sol continuou a nascer e a brilhar, às vezes atrás de nuvens. Ela tinha perdido o respeito pelo Sol, como sempre acontecia com os conformistas da vida, com quem encolhe os ombros, com quem se acostuma a viver pela metade. Como se atrevia o Sol a não protestar terem-lhe retirado um naco, a continuar como se o mundo seguisse igual, a sempre surgir onde era esperado, sem atrasos? Ia resignar-se a ser para sempre a constância fiável que dele se esperava? Tanto fogo, tantas explosões de alma e poder de fazer girar planetas à sua volta, e afinal era um imprestável, uma ovelha seguidista, incapaz de mudar de rota um dia, de girar ao contrário um instante, de fazer uma greve, uma birra que fosse. Que liberdade é essa de nunca sair dos eixos, nunca contestar, nunca exigir o que é seu? A liberdade de permanecer agrilhoado sem sequer agitar as correntes de aço que seguem dominando o universo e minando as Revoluções? Desprezo, só conseguia ter desprezo por uma estrela coxa que continua servindo cegamente os mestres, curvado a regras e a bons costumes.

Ele já há muito não a procurava. Marcava presença quando e só se ela o chamava. Na verdade, ele só a procurara quando ela o negava, quando ela ainda tinha medo das palavras, de se queimar, de ficar retida. Era o seu único medo e sempre se confirmava que era absolutamente fundamentado. Por muito que tentasse lutar contra as vontades do coração, acabava sempre por ficar colada às resistências, qual mosca electrocutada pelo fascínio da luz. Ele tinha ficado encantado com a sua liberdade e as suas ganas, com o seu vestido de ventos e vontades. Disse-lhe, afoito e apavorado, que ela tinha partido a muralha, apenas para passar quase todo o resto da vida a tentar erguê-la de novo, pedra a pedra (ás vezes atirava uma ou outra, ela não se desviava), com frieza gélida e musgos húmidos que não servem de cola.

Ambos sabiam que as mensagens crípticas que se dedicavam a largar no mar, sem garrafas a garantirem a integridade da mensagem, ou em aviões de papel toscos, destinados ao colapso, só batiam de frente no peito do outro.
Ela deixou de o chamar. Cansada de nunca ser a sua vez de colher as palavras mais bonitas, os elogios mais abertos, de ter tempo de antena ou um mínimo de visibilidade. Nunca era ela nas fotografias, nunca era ela a aplaudida, para ela nunca mais houve risos tolos ou piropos mal disfarçados. Sim, também ela se revoltou contra si e a sua impassividade na espera de alguma coisa incerta que nunca vinha. Deixou de aguardar a sua vez para ser oportuna, admirada, desejada. Jamais se sujeitaria novamente ao papel da amigalhaça de coração destroçado na fila das migalhas de afecto. 

Talvez tivesse chegado sem aviso o dia em que os recomeços se viam cansados de o ser. Talvez a distância ganhasse espaço para arrumar um ou outro vislumbre da paz do abraço que nunca chegou, como fiapos de cabelo a esvoaçar ao vento, rebeldes, apesar das mil estratégias para os domar. Talvez navegar fosse só isso, sem rumo ou destino, só embarcar e deixar ir, devagar, onde a corrente nos quiser levar. Talvez um dia a luz não seja hipócrita e não se deixe usar para esconder à vista de quem souber ver o que é tão simples e puro. Talvez nesse dia não seja necessário fingir.

 

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Não digo que te amo
Não posso dizer
Não posso quebrar
Torturo um piano
Faço-o cantar
As coisas tão bonitas
Que colho no teu olhar
Só tu me dás poemas
Que apertam o peito
Que fazem chorar
Barcos à vela que voam
Aviões de papel que naufragam
Beijos passados, sofridos
Corvos atentos no ar
Procuro-te no fundo
De mensageiros tintos
Réstias do pedaço teu
Que completava este lugar
Faltas à chamada
Segues cego sem me ver
Segues só por não querer
Não digo que te amo
Porque este amar faz doer

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Trudging slowly over wet sand
Back to the bench where your clothes were stolen
This is the coastal town
That they forgot to close down
Armageddon, come Armageddon!
Come, Armageddon! Come!

Everyday is like Sunday
Everyday is silent and grey

Hide on the promenade
Etch a postcard:
"How I Dearly Wish I Was Not Here"
In the seaside town
That they forgot to bomb
Come, come, come, nuclear bomb

Everyday is like Sunday
Everyday is silent and grey

Trudging back over pebbles and sand
And a strange dust lands on your hands
(And on your face)
(On your face)
(On your face)
(On your face)

Everyday is like Sunday
"Win yourself a cheap tray"
Share some greased tea with me
Everyday is silent and grey