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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Ever since I saw you
I want to hold you
Like you were the one

It sees right through me
A bullet it comes and takes me
And I love you I love you
I want you but I fear you

Who are u ?
Who are u?

Ever since I saw you
I want to hold you
Like you were the one

You feet rest on my shoes
I sing this song for you
Just to see you smile

And I love you I love you
I love you but I fear you

Who are u?
Who are u?

For how long
How strong do I
Still have to be?

How come you mean so much to me?

For how long
How strong do I
Still have to be?
How come you mean so much to me?

And I love you I love you
I want you but I fear you

Who are u?
Who are you?

For how long
How strong do I
Still have to be?
How come you mean so much to me?

For how long
How strong do I
Still have to be?

Há que cuidar em tocar com delicadeza, para não raspar. Todo ele coroado com espinhos e farpas, vidros cortantes embebidos em venenos. Toda uma defesa armada para guardar e preservar a solidão, hermeticamente selada, sem entrar um sopro. Quando se tenta contornar de mansinho, com ternuras de beijos lançados ao fim da tarde, sempre resvala num movimento descuidado um braço ou uma perna, a dor chega de repente e o sangue é mais vivo e mais vermelho, a ferida pode até infectar ou gangrenar. Surgem medos, criam-se anticorpos que não preparam para o próximo arranhão, só fazem o toque ser mais evitado, aumentando a distância. Mais duro é agarrar com as duas mãos nuas, com força e sem rodeios. A dor está sempre garantida, mas só com convicção e força se apartam os arames, se derrubam os muros. Gritos guturais, de alma ao léu, ajudam a comportar o embate. Do outro lado, acostumado a estar em silêncio e na penumbra, também vai doer. De repente, as muralhas ruem com estrondo. De repente, o que estava contido começa a espalhar-se sem regras, misturado com sangue e farrapos da carne oferecida em sacrifício. De repente, a liberdade. A catarse. De repente, ser-se quem se é sem contenções ou máscaras e ser-se pleno, aceite. De repente, sorrir desde dentro.

 

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[Alma de tripeira nascida na margem certa confessa-se.]

[Hook: Capicua]
Dou-te com a mão pesada
Quando é carinho ou quando é castigo
Olho de cara lavada
Quando te digo que sou perigo

Eu só tenho uma palavra
Dita na cara, clara como água
Eu agarro, não abraço
Dás o dedo eu quero o braço

[Verse 1: Capicua]
Rosa-dos-ventos no cabelo, estrela polar ao peito
Porte, mulher do norte, forte, ar de respeito
Jeito de quem traça a eito, comanda a valsa
Feito de ter graça, raça é o conceito
Manda na praça e não disfarça que é rainha altiva
Menina matriarca, marca de cidade, diva
Busto de granito esculpido no fio da navalha
Curto é o pavio em rastilho fagulha brava

[Verse 2: M7]
Quem é que encanta com o sorriso de catraia
Tem mão na anca se precisa roda a saia
Lá é levada da breca, se não te curte é directa
Não consegue pôr cara de quem recebe uma caneca
Se o homem não se comporta troca o canhão da porta
E depois sai louca para beijar na boca a carioca
Porque tem pêlo na venta, Kahlo como a Frida
Na vida não se lamenta aguenta de cabeça erguida

[Hook: Capicua]
Dou-te com a mão pesada
Quando é carinho ou quando é castigo
Olho de cara lavada
Quando te digo que sou perigo

Eu só tenho uma palavra
Dita na tua cara, clara como água
Eu agarro, não abraço
Dás o dedo eu quero o braço

[Outro: Capicua]
A prosa que enfeitiça, maga manha que conquista
Dengosa sem preguiça atiça a cobiça à vista
Tem alma cigana, cigarra atarefada
Sem calma, comanda a cidade à desgarrada

[Hook: Capicua]
Dou-te com a mão pesada
Quando é carinho ou quando é castigo
Olho de cara lavada
Quando te digo que sou perigo

Eu só tenho uma palavra
Dita na cara, clara como água
Eu agarro, não abraço
Dás o dedo eu quero o braço

[Verse 3: M7]
Guerreira, arregaço as mangas e chego onde quero
Veio mudar por estas bandas o conceito de mulher
Antes só a fumar charros na banheira
Que ficar a ganhar pó com dó de si na prateleira
Tripeira com muito orgulho
Tripa por qualquer bagulho
Evita dizer "tem calma!" se não assumes barulho
Quando ama é por inteiro, ergue à volta uma muralha
Mas pensa nela primeiro, não se fica por migalha

[Verse 4: Capicua]
Para onde aponta a bússola
"É o azimute"
Para quando a afronta é explícita
"É atitude"
Não iludo, trago música translúcida no clube
O zumbido ao teu ouvido é o efeito da altitude
Grito, sou guerreira, desnorteio, sou nortenha
Impero porque carrego o meu sonho, convicta
Tripo, sou tripeira de ferro sou ferrenha e não nego
Que mantenho o meu trono, invicta

[Hook: Capicua]
Dou-te com a mão pesada
Quando é carinho ou quando é castigo
Olho de cara lavada
Quando te digo que sou perigo

Eu só tenho uma palavra
Dita na cara, clara como água
Eu agarro, não abraço
Dás o dedo eu quero o braço

(Dás o dedo, quero o braço...)

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nos teus olhos não vejo
céus azuis, bonança eterna
nos teus olhos não bebo
rimas dulces, promessa efémera
nos teus olhos vejo tormentas
labaredas de ternura
orgulho cerrado e tanta força
punho esgotado de lutar
socos pra dentro, facadas num peito
em que todos cabem menos tu
que sempre cedes o teu lugar
vejo o sorriso da solidão
desgarrada, a provocar
irresistível, bem sei
namorada de colo cheio
braços e pernas abertos
casulos de gente como nós
que nunca se soube amar
não sei quem foste ou querias ser
quem és sobeja, nada há a mudar
vejo humildade e respeito
culpa órfã de indulgências
e um caminho de fatalidade
de que prometo não me apartar
vejo-te beijos sem reservas
verdades da carne em erupção
e o cansaço do falhanço
medido nessa bitola
que sempre teimas em desviar
ouço-te a voz que é só tua
consagração maior dos poetas
pejada de espinhos a arranhar
e mil mágoas que pesam
por não as saberes largar
também te vejo nos silêncios
o que deixas por adivinhar
nos teus olhos vejo músicas
que ainda estão por inventar
vejo uma alma tresmalhada
e chamo casa a esse olhar
corrida em frente, em fuga
cega, na ânsia de chegar
aonde sempre és esperado
só não vejo o teu perdão
por escolher sem pecado
o que mandar o coração
não sei o que te chamam
sou invisível, não existo
na sombra do teu lugar
mas sei bem quem vejo e amo
posso ensinar-te a não calar
não creias no que dizem meus lábios
ou os meus olhos cansados
de ver sem olhar
sei-te de cor, tal qual te mostras
face contida de planícies e mar
sei-te melhor no avesso da lua
touro bravio, miúdo perdido
todo de escuro e estrelas a latejar
não me perguntes o que te vejo
vejo tão mais do que ouso contar
vi-te por dentro, sabe-lo bem
olha-me tu e promete ficar
segura-te, sozinho não ficas
confia - não te deixo cair
a repetição das dores enterradas
aqui já não tem lugar
dou-te tudo o que tiver
o que não tenho irei buscar
enfrentaremos os dias maus
de capa e espada, como heróis
garanto que irão passar
com sol ou lua, luz ou negrume
o tanto que te vejo e que
às vezes me faz chorar
dói e arde, mas faz crescer
agarra a minha mão, grava o meu nome
aquela que não te vai abandonar

Para dar as boas-vindas ao mês de Agosto, em plena silly season, inicia-se aqui uma rubrica de autores convidados, que tenho o orgulho de arrancar com a poesia de uma amiga querida que nunca vi, nunca abracei (ainda), e que nada tem de silly. Queria começar assim, pelo puro prazer das palavras, sem mais amarras, sem expectativas e sem compromissos. Gosto da poesia da Susana Nunes porque é realmente isso mesmo: pura. Despretensiosa, descomplexada, leve, às vezes leviana, nunca oca. Quando a Susana escolheu este poema tive ainda mais certeza de seria o momento ideal para esta casa vestir as estrofes alheias, medidas às cegas, e que assentam que nem uma luva. Nem por encomenda seria mais adequado. Vão conhecer a Susana e deliciem-se! 

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Se calhar

Se calhar, não tive voz que chegasse
e por isso, tu não ma ouviste
Se calhar as letras deviam ter sido escritas a negrito
ou então as palavras estavam esbatidas
não foram de todo, as suficientes
e talvez por isso
mas não sentiste

Quando por fim
consegui proferi-las claras
cheias de frases sonoras
e de versos audíveis em ecos de montanhas
... estavas longe
e nas horas abertas
em que juntei os meus poemas
e os desfolhei nos livros aos ventos
... tinhas curvado a esquina
e claro, não mas encontraste

Agora...
Tenho sal a mais nas lágrimas
tenho paladar amargo p'ra mim
e p'ra mais uns centos
e só me apetece gritar alto
e voltar ao início
em que a minha voz era rouca e pouca
mas ainda conservava a esperança
que te voltasses dessa terra dos silêncios
sem morada
sem caminho
sem estrada que eu soubesse...
... e mesmo de longe que fosse
me dissesses...
- Espera pela minha voz, morena
vou dar-ta, meu amor, de uma assentada
espera... que já não demora...
nada mais há, que eu queira tanto...
... e ai, como vai... valer a pena

Susana Nunes 12 / 6 / 2018

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