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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Tornou a sentir-se desconsolada. Pediu desculpa por não o ter abraçado, tinha sido essa a sua intenção, mas acabou por ficar meio esquecida, meio sem jeito, entre alguma pressa de subir para o autocarro que chegou cedo demais e uns acenos de cabeça para dissimular o desapontamento perante a distância que as escusas e recusas tornavam mais nítida de quando em vez. Na verdade, pedia desculpa a si própria por não ter agarrado uma pequena oportunidade de fingir que existia simetria onde se sabia não existir. Oportunidade de guardar o calor desse abraço como recordação preciosa que um dia serviria de testemunho de que alguma coisa bonita havia passado por ali. Por vezes necessitava, como de ar, de acreditar que tinha tido, por uma vez na vida, alguma poesia a brotar só porque sim, sem sede de tapar um lugar vago, sem finalidades utilitárias, sem comodismo ou resignação, sem mentiras ou fatalidades a esterilizar o terreno. Por vezes sentia-se mera ferramenta de um propósito estudado, oleada a custo por esporádicos beijos secos, isentos de emoção. Ou um conforto, um doce que não fazia salivar mas lá servia de prémio de consolação, deglutido sem particular entusiasmo, com a frustração inerente de quem suspira por um refinado e leve éclair mas só tem na mesa bolachas Maria moles e sem graça. Ou um penso rápido, descartável logo que a ferida esteja fechada ou novos golpes peçam tratamento fresco.
Sempre acreditou que o que não é necessário é supérfluo, o que não é desejado deve ser descartado, e ia alargando os passos para se afastar antes que já não tivesse como se poupar a uma rejeição.

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Descartada. Desnecessária. Sozinha.

Achou-se novamente sozinha, sem ter quem a tomasse nos braços com vontade de abraçar com força e restaurar o que havia sido quebrado. Não que alguém o conseguisse. Deixou os pensamentos vagabundearem pelos caminhos proibidos que evitava quando embrulhava todas as fragilidades num canto e trancava as portas. Tremia de frio recordando outros abraços que tinham ficado por dar, em dias quentes e suados. Voltou a conciliar as coincidências com uma geografia pouco ousada que conta as mesmas histórias. Ali mesmo, onde o autocarro já havia terminado o seu percurso, as conversas já se tinham demorado no casulo abafado que era o automóvel onde se tinham beijado meses antes, ele ofegante e ela aterrada. A angústia e tensão andavam domadas por aqueles dias, coisa rara. Não quis estragar tudo com uma pequena manifestação da paixão insensata que a perseguia como a própria sombra. Ele falava de viagens, ela via-se a explorar os antípodas com ele pela mão por entre as copas das árvores. Ele contava episódios tristes, ela queria desdobrar o universo em dois para resgatar a infância do menino grande quebrado, romper-lhe a gaiola a que se agarrava. Ele a ecoar a voz grave que sabia que lhe agradava tanto, e ela com ganas de se atirar ao pescoço dele e calá-lo com beijos. Foi a última vez que um abraço podia ter mudado tudo, criado um desfecho inédito escrito por pássaros azuis, tão provável como os comboios mergulharem nos céus em serpentinas de destinos trocados.

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