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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

As lágrimas cansam, cansam tanto... Desde que fui roubada dum pedaço de mim que não as consigo conter. Não as sei evitar, porque não sei contornar os pensamentos que me levam até à memória dele. Sempre ele, os momentos bons, os melhores do mundo, não obstante terem sido sempre agrilhoados. Continuo a querer saber como seria se fosse de verdade. Durante o dia, vou obedecendo às regras, como cumpro com os horários de medicações forçadas. As regras da psicoterapeuta que me impele a lembrar o mal que ele me fez (e eu a mascarar tudo com desculpas que poderiam esconder um amor por assumir). As regras dos amigos que não perguntam como estou para não lhe ouvir novamente o nome (o calar, e dentro de mim sempre um chamamento). As regras dos amigos que perguntam e querem com tanta força exorcizar esta presença em cada face da minha tristeza (e solto a raiva que tenho, com a saudade a martelar mais alto). As regras de mim própria, mulher de armas que se recusa a ser absorvida pela dor (e que se recusa a bater em retirada enquanto houver sangue a pulsar, dores por doer e silêncio por sacrificar). Quando estou a sós comigo, refugiada em quaisquer linhas para ler, na tv ou no sono, dou por mim a correr. A fugir das recordações, dos sonhos que caíram por terra e dos outros que ainda não desistiram de me assediar. Corro, por entre golos de chá, de sinapse em sinapse. Mas as lágrimas apanham-me, são mais velozes que eu. Antes de conseguir materializar uma imagem ou pensamento, já lá estão elas a denunciar que voltei a cair. Tristeza em estado líquido. (Ou o coração a derreter ali, como ele disse um dia enquanto amparava uma com o dedo.) Só a Lua testemunha cada uivo alagado e este impotente cansaço. Já não espero pelas improbabilidades. Mas tenho esperança nelas, desejo-as com paixão ofegante. As lágrimas já não me comovem, são apenas um sintoma, um desgastante sintoma, contínuo, persistente, como uma dor nas cruzes. E do que eu preciso é duma cura.



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