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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

É de estranhar que eu não seja vegetariana. Isto a propósito dos traumas de infância. As rolas que viravam canja sem eu perceber e que deixaram de sair da gaiola para a panela quando percebi. As enguias estripadas que ainda assim fugiam pelo quintal. Os linguados acabados de pescar: “o pequenino é para a menina.” O coelho morto com uma pancada na cabeça e o tenebroso som da pele a ser separada do corpo, enquanto meio metro de mim assistia petrificada por trás da porta da cozinha, de lágrimas a escorrer sem soluços. O conflito interno de ver os meus avós a cometerem aquele crime atroz, o pedaço de respeito que morreu naquele momento. Os frangos e perús a serem escaldados e depenados. Os caracóis e as sapateiras enfiados vivos nas panelas. Tudo tão familiar e natural. Nunca deixou de chocar-me, nem antes nem depois de se instalarem, amadurecidos, ideais mais verdes. Nem nunca chocou o suficiente para recusar as vítimas no meu prato. E eu, que sempre gostei mais de arroz.


 


(E agora, vou meter as mãos na massa, literalmente. Filhós de abóbora!)


 



 

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