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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Antes de ti não havia nós. Havia eu e ele, eu, ele, eles. Antes de nós o rio piscava o olho, mas raramente sorria ao brilho da Lua. Antes de ti o telemóvel não tocava às quatro e meia da manhã a trazer saudades e carinhos. Nem havia abraços nus enrolados nos braços. Antes de ti eu perguntava-me para onde tinha ido a poesia. E agora sei que ela vive em ti.


 




Os meus melhores amigos são aqueles que me conhecem tão bem, sabem de cor o meu lado lunar, e ainda assim gostam de mim. São os que se abraçam a mim a chorar de saudades porque há mais de 2 meses não me viam. São os que me fazem chorar baba e ranho quando sei que não os vou ver meses a fio. São aqueles com quem discuto de madrugada a milhares de Km de casa e na manhã seguinte me fazem rir à gargalhada. São os que partilham comigo segredos das suas maiores alegrias e das maiores desilusões.


São aqueles que estão lá quando tudo o resto desaba, mesmo que não estejam, e me dão a certeza que haverá sempre alguém a gostar de mim. São ao meus alicerces. São insubstituíveis.


 


 





 


Para ti, que procuraste durante tanto tempo. Encontraste.




A boca,



onde o fogo
de um verão
muito antigo

cintila,

a boca espera

(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)

espera o ardor
do vento
para ser ave,

e cantar.


 






Procura a maravilha.

Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.

No brilho redondo
e jovem dos joelhos.

Na noite inclinada
de melancolia.

Procura.

Procura a maravilha.


 





À breve, azul cantilena
dos teus olhos quando anoitecem.


 






Quase nada


O amor


é uma ave a tremer
nas mãos de uma criança.
Serve-se de palavras
por ignorar
que as manhãs mais limpas
não têm voz.


 

Sim, continuo a sonhar acordada com uma cena digna de filme, vista de bem perto, mas ao lado.


Ela chega a casa mais tarde do que o costume, desejosa de um duche e do conforto do sofá. Está alguém de pé, junto à porta, de costas. Ela sobe os degraus com a chave na mão e prepara-se para evitar contacto visual com o suposto vizinho ou visita de vizinho. Ao aproximar-se, reconhece a posição, as pernas, o casaco. O coração tenta saltar pela boca no momento em que esta ia começar a balbuciar um “boa noite” tímido e incógnito. Não chega a dizer nada. Ele vira-se e os olhos dele encolhem, de surpresa, alívio e terror. “Pensava que não me querias abrir a porta. Boas noites.” “O que estás aqui a fazer?” – responde ela com o tom mais seco que consegue e a chave ainda imóvel a meio caminho da fechadura. E são as últimas palavras que trocam naquela noite.


 


A Princesa vai falar de si própria na 3ª pessoa. A ver se se distancia o suficiente para racionalizar melhor.





A Princesa acordou cheia de calor, com vontade de procurar um ombro fresquinho ali ao lado. As pálpebras relutantes eventualmente despegaram-se. Só a almofada.





A boa notícia. Respirar fundo. Vontade de correr a contar. Calma, já dizes.





Nevoeiro em redor. A visão turva com o nevoeiro que fazemos. O calor dissipa o nevoeiro, mas calor demais também deturpa a imagem. Outra vez a importância da temperatura certa. A Princesa lembra-se de muitas coisas boas, mas essa talvez fosse a melhor qualidade do Princeso. O que pensará ele agora? No meio do nevoeiro, certamente. Deixá-lo...





Corpo dorido. O dia de ontem foi exaustivo, a cidade em zig-zag com responsabilidades e pesos às costas, com cordéis a roerem os dedos, mais pesos pendentes. Emoções várias, a rodopiar, os medos, as ansiedades, prazos, tic tac.


 


Relativização. A boa notícia pode ser afinal a pior. Esperar é tortura... Aproveitar a falha nas precisões alheias para arranjar coragem e espreitar. Tivesse a Princesa dois corações e estaria um a pular pela boca.

Se viesses fazia-te um chá. Mostrava-te o quadro que quero pintar. Se viesses perfumava a casa toda com aroma de maçãs verdes e dava-te um abraço para te receber. Se viesses verias os meus olhos a brilhar, e sorrias a confirmar todas as certezas. Se viesses dava-te aquela romã, adoçada. Far-te-ia uma festa na cara e no cabelo. Se viesses eu ria muito e tu também. O tom de voz estaria mais elevado e agudo e o sol brilharia com mais força, até de noite. Se viesses mostrava-te a lua a reflectir no rio e as copas das árvores prateadas. Se viesses ficava contigo na varanda, a combater o teu frio. Dava-te a mão e o resto, pela alma fora.


Se viesses, eu ia gostar e tu quererias ficar.


Quando vieres, não vou deixar que te vás.


 




 Estou com problemas de expressão. Ora porque me faltam as palavras, ora porque sobram as tantas coisas que queria dizer-te. É que as palavras são pequenas, são poucas e indignas do que te quero dizer. Queria dizê-lo com olhares e sorrisos pendurados ao peito, queria que os lesses com avidez e te lambuzasses em cada sílaba. Nem todas doces, algumas mais amargas, como o tempero que nos traz de volta ao inverno, que te permite comparar as realidades que tens e os sonhos que podem ser teus, nossos.

A incerteza move-me, sabes que adoro aquela adrenalina da descoberta pela descoberta, a dúvida e as possibilidades exponenciais que me significam sonhos sem rédeas. Pesadelos e dores, também tenho encontrado. Mas não me queixo senão quando a escuridão não me permite ver mais além. E tu és a luz. Iluminas e arrepias, calor doce e pura ventania.

Queria dizer-te que sei. E que estou dentro de ti. Que quando te sentes a perder o fio condutor, sou eu. Que quando a lógica impera, também sou eu. E que quando sentes a minha falta, não sentes apenas a falta da companheira de aventuras. Queria que fosses tu a reconhecer a capacidade que tens de fazer alguém feliz. Queria que te entregasses ao sabor dessa maré que tens dentro, que pousasses esses remos obstinados. Os planos antigos que traçaste eram bonitos, eu sei. Aconteceu como não devia. Faz as pazes com o passado, com os erros e as razões. Começa de novo, planos novos, que nunca poderão ser iguais... mas serão planos onde cabes tu por inteiro, onde nenhuma dimensão tem de ser vergada. Onde possa caber todo um mundo além do teu.

Queria dizer-te que gostava que me desses flores. Que cometesses uma daquelas loucuras anunciadas, tão tuas. Que me convidasses para um passeio. Queria contar-te da vontade que tenho de te oferecer presentes de Natal todos os dias, de levar-te sumo de laranja à cama e de nunca mais ter saudades tuas.

Queria que pudesses apagar algumas palavras, que as quisesses retirar para sempre. Queria que pedisses desculpa.

Queria dizer-te para perderes esse medo. Queria ensinar-te a amar de novo, melhor. Queria mostrar-te o que me comove no nascer do sol e queria aprender todos os teus risos e olhares. Queria caminhar lado a lado contigo, de dedos entrançados nos teus.

Sei que te encontras nas minhas palavras, sei que a perturbação também chega a esse lado. Queria dizer-te para não resistires... Para arriscares. Para experimentares. Queria que, se no futuro houvesse lugar para arrependimentos, que os houvesse pelo momento em que valeu a pena e não pela ausência duma estória.

Queria dizer-te que há dias em que um beijo vale tudo. E que há beijos que me dão vontade de chorar.

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Dizia-me alguém um dia da semana passada, por entre as sombras da cidade a anoitecer, que no alcatrão também nascem flores. Não duvidei, como nunca duvido que a força da vida seja maior que tudo e que vença quantas camadas de vis obstáculos se lhes surja.


Não me recuso a florir sob um Sol menos quente, estejam as nuvens alinhadas de modos apetecíveis. Nem me resigno a estagnar e empedernir. As grandes certezas que me sustentaram a vida toda estão a ser substituídas por dúvidas. Os dogmas abalados, um por um. O tom imperativo a ser substituído por reticências. Estou a suavizar-me, e bem precisava, que as cascas ásperas não repelem só os toques indesejáveis e não têm de ser sempre os outros a desbravar terreno por entre o mau feitio para chegar ao núcleo de mim. Estou, devagarinho, a deixar de ter vergonha de ser quem sou, a expôr-me, a deixar cair o pano. Sim, sou ultra-sensível e comovo-me facilmente, tenho feridas que doem quando se lhes põe sal, tenho complexos de sobra, gosto mais de pessoas do que admito, sinto saudades de quem já não está, sou de carne e osso, falível e fraca, talvez venha até a descobrir alguns medos. Nem sempre tenho os pés assentes na terra e sonho acordada com as coisas mais simples, gosto de atenção masculina e de ser mimada.





Obrigada, R., por tentares com tanta convicção tirar-me o resto da casca. E pelo gelado numa noite fria. Por me fazeres sentir que não sou sempre à prova de bala. Mas entende que eu serei sempre eu, nunca quem queres e imagines que seja. Sou diferente de quem imaginas, sou pautada por sentimentos, princípios e convicções maior que a tua e a minha vontade juntas. E da minha vontade já falei. O que será de nós amanhã ninguém sabe. Mas eu sei que o meu lugar não é aí.



Gosto de gelados no inverno e de chás quentes no verão. Gosto de fazer rabo-de-cavalo e totós. Gosto de dar beijinhos. Gosto de usar lenços ao pescoço. Gosto de fotografias a preto-e-branco. Gosto do Algarve quando chove e da Serra da Estrela sob um Sol abrasador. Gosto de aventuras grandes e pequenas. Gosto de pessoas genuínas e transparentes. Gosto de surpresas. Gosto de negro total. Gosto de aprender e de ensinar. Gosto de botas e de sapatos de plástico. Gosto de rugas de riso nos cantos dos olhos. Gosto de pão mal cozido e nada estaladiço. Gosto de velocidade. Gosto de nuvens densas e chuvadas de granizo. Gosto de açúcar amarelo e edulcorantes artificiais. Gosto de cicatrizes. Gosto de aguardente e de nescafé, de leite magro e iogurtes naturais. Gosto de ruas escuras e estreitas. Gosto do mar sem ondas nenhumas. Gosto de alturas. Gosto do som do violão e da gaita-de-foles. Gosto de comer chocolate de culinária. Gosto de cabelos brancos e grisalhos. Gosto de andar descalça e de peúgas grossas. Gosto da Lua e do céu estrelado. Gosto de tactear texturas. Gosto de ter as unhas muito curtas e sem cor. Gosto de limpar e arrumar. Gosto de estar completamente perdida no meio de nenhures. Gosto de arte surrealista. Gosto de me esconder atrás dos óculos escuros. Gosto de extremos. Gosto de ouvir pessoas a rir. Gosto de sal e de picante. Gosto de lápis macios e escuros e papel liso. Gosto de peles mulatas e de olhos em bico. Gosto de roupa interior preta e básica. Gosto de malmequeres brancos e desalinhados, de lírios e de túlipas. Gosto de passear de mão dada e de abraços. Gosto de cheirar a frutas e gomas. Gosto de ver filmes de terror e romances de fazer chorar. Gosto de miminhos na alma.


 


Muitas ideias para quando eu fizer anos e está quase, quase!



Às vezes apetece-me sair por aí a espetar verdades em paredes e em postes, a pendurá-las ao pescoço das pessoas. Parece que é rude e que tenho de aprender a ser menos impulsiva. Parece que se espera que as meias palavras abafadas produzam o mesmo efeito, ou se deixe fermentar o que se tem de dizer até que se digira tudo antes de ser dito. Mas deve provocar azia e tanto dispenso as azias que nem me recordo de alguma vez ter sentido esse ácido fenómeno.





(pausa para inspirar e expirar)





Trata-me bem, com justiça e com carinho. Sabes que perdoar não é sinónimo de deixar de doer... E que, mesmo doendo, endereço-te todos os carinhos que consegues suportar. Experimenta aceitar em vez de repudiar, uma vez por outra. Faz-te falta ser amado, mimado. Para compreenderes como é bom e porque é importante dar estes pedacinhos de nós aos outros.





Beijo na têmpora e um xi-coração. ;)

O fim-de-semana chegou mais cedo e com ele as melancolias, contidas há muito por entre pilhas de papéis, reuniões e projectos que tais, soltaram-se de alívios.


Ela abana a cabeça em troça de si mesma, sente uma compulsiva tristeza lacrimejante. Ela sabe que está a afundar e confessa-se toda de fragilidades quando não está ninguém. E ninguém tem estado há já muito tempo.


Ontem recebeu um presente, o primeiro. Embrulhado em flores e um coração vermelho dedicado em exclusividade. Só hoje reparou e em menos de nada afastou a hipótese daquele pequeno saco ter feito muitos quilómetros com um significado. Continha uma atenção, uma saudade delicada. A vida pode nunca passar destas pequenas significâncias, sem maiúsculas e exclamações, e isso apavora-a. Ela nunca almejou a normalidade, estabilidade, robustez. E corre, não sabe se para longe se em direcção duma embriagada complacência.

Desejo-te perto e vens buscar-me, levas-me de urgência escadas abaixo para contemplar o rio à beira-chuva. Descalços, ambos, por relvas e troncos e pardais. Sensualidade molhada de seios e umbigo, arrepios, do frio e da proximidade da tua pele. Não sorris, sequer vocalizas o que quer que seja. Os teus dois olhos escurecidos, carregados de verdade. Pegas-me nos pulsos e olhas-me de frente como se me fosses anunciar um fim de mundo. Sério, grave. Os lábios entreabrem-se como que a desenhar palavras no ar, como que a tomar coragem. Toda eu um ponto de interrogação, exclamação, reticências… O cabelo molhado, sem ordem, a enganar. Um fingido cansaço desarma e a respiração acelera. Pingos grossos acariciam a cara, lambem os ombros, deslizam matreiros pelas costas. A névoa que sempre separa os meus olhos dos teus dissipa-se num bafo. Procuro ler-te, ansiosa por pular para dentro dum sonho. Murmuras: “E se disser que gosto de ti?” Conheço bem esta espiral, que sempre impões diante de mim, sem portas nem refúgios, apenas o infinito, aberto, à espera de ser colhido. “Quando o pensamento de mim te siga a todas as horas, quando souberes que a vontade é maior do que só a de ter o casulo do ego acarinhado; Quando reconheceres muito mais que uma doce empatia. Quando sob pálpebras cerradas o coração chamar o meu nome. Só nesse dia voltarás a ter-me tua.”


Solto uma mão e com um polegar afago a tua face desmascarada. Apertas-me contra o peito, não te importas de confessar uma lágrima, espessa, outra. Carinho, dor, amor, identidade. Estes que somos.


Por te amar, mudei. E decidi tornar a amar só quando esse dia chegar. Naquele abraço permanecemos, sem tempo, enquanto a chuva molhar.