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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

 

Wish I could, I could've said goodbye
I would've said what I wanted to
Maybe even cried for you
If I knew it would be the last time
I would've broke my heart in two
Tryin' to save a part of you
Don't wanna feel another touch
Don't wanna start another fire
Don't wanna know another kiss
No other name falling off my lips
Don't wanna give my heart away
To another stranger
Or let another day begin
Won't even let the sunlight in
No, I'll never love again
I'll never love again, oh, oh, oh, oh
When we first met
I never thought that I would fall
I never thought that I'd find myself
Lying in your arms
And I want to pretend that it's not true
Oh baby, that you're gone
'Cause my world keeps turning, and turning, and turning
And I'm not moving on
Don't wanna feel another touch
Don't wanna start another fire
Don't wanna know another kiss
No other name falling off my lips
Don't wanna give my heart away
To another stranger
Or let another day begin
Won't even let the sunlight in
No, I'll never love
I don't wanna know this feeling
Unless it's you and me
I don't wanna waste a moment, ooh
And I don't wanna give somebody else the better part of me
I would rather wait for you, ooh
Don't wanna feel another touch
Don't wanna start another fire
Don't wanna know another kiss
Baby, unless they are your lips
Don't wanna give my heart away
To another stranger
Don't let another day begin
Won't let the sunlight in
Oh, I'll never love again
Never love again
Never love again
Oh, I'll never love again

"Quando penso em nós dois, lembro-me sempre do dia em que, sentados no sofá, comecei a chorar de felicidade, porque nunca me tinha sentido tão feliz, tão amado."

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Meu amor.  Para sempre, amor.

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Começaram a subir a Travessa do Maldonado, devagar, atados com laços de vontades um ao outro, e um senhor que passava, observando-os contra a luz que se esbatia com o fim da tarde, derramou uma exclamação que soou bonita e sincera: "Vocês parecem anjos!"

Sorriram ambos. Ele, calado e talvez menos espantado. Porventura, já lhe terão chamado anjo, seria uma mera constatação do óbvio. Não trazia as asas postas, mas empurrava à mão duas rodas.

Ela respondeu com um sorriso largo e convicto: "E somos!"

O senhor agradeceu e acenou: “Bem-hajam!” Talvez tenha sido ele a presença angelical que lhes abençoou a noite de veludo, que a partir daquele momento, deslizou como nuvens empurradas no horizonte de lilases, a desafiar as definições do que é sonho, do que é perfeição.

Despenteados, desenquadrados da normatividade que não os incomoda nem consegue deter, têm o dom de passar invisíveis nos largos e ruas. Talvez os pés sejam silenciosos ou levitem um pouco, que sempre parecem situar-se num plano etéreo, num intervalo de esguelha entre planos de realidades duras, feias, doridas. Talvez os risos sejam cândidos ou talvez sejam realmente anjos incorpóreos a cirandar, com risos de cócegas na barriga e bochechas rubras.

Os despenteados caminham lado a lado, partilham-se, abrem sem pressa as portas rangentes do que encerram em si e deixam o outro entrar um pouco no íntimo do que os incomoda, o que os preocupa, o que os motiva. Não há sentimentos de posse, não há lugar para o ciúme. As sombras começam a espalhar-se nas paredes e janelas, os gatos vadios miram e escutam as conversas, interessados.

Sempre brotam sorrisos sinceros quando se encontram, feitos de luz, sorrisos inteiros, dos olhos ao queixo, leves e musicais. O mundo todo às costas não é um fardo, é uma aceitação de que há uma missão maior a que não se pode fugir. Os lábios tocam-se de mansinho, como harpas, em fôlegos macios e vítreos, translúcidos. Os dedos encontram-se e aninham-se, vestidos de carícias e cumplicidades, ainda que o calor de um Outono que lembra Junho peça nudez. Os narizes navegam, afoitos, por montes e vales, tacteando superfícies e odores. Os caracóis rebeldes são afagados, apertados e baralhados uns nos outros como cartas do mesmo naipe.

O cheiro do bairro, da casa, da roupa e da pele, que já fora estranho de desconhecido, tornou-se confortável e sinal de boa companhia, de sorrisos pendurados nas peles mornas, tão doces. Cheira a conforto e a aventura, a vontades e planos de mudar o mundo. Como uma manta protectora de ternura espessa que mantém tudo no lugar e à prova de agressões externas, um casulo em que faíscam inícios, germinam revoluções e entre parênteses se vão escrevendo páginas de um passado estendido, abrangente, certo como a idefinição do futuro.

A lua acende os sorrisos como narcisos, que existem só para se trocarem e rebentarem os limites da beleza que não tem tradução, os olhos dançam perdidos nos universos de si próprios. Ela jura que ouve poesia no sorriso dele, que a abraça com dedos, língua e asas, que lhe escuta segredos.

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Os anjos não precisam de nomes ou verbos, vivem materializados nos momentos de mãos dadas na sua rua, nos abraços prometidos, às vezes adiados, às vezes calados com lábios húmidos ou em queda livre no azul maior que o mundo.

Há quem engula coisas estranhas, como moedas ou giz ou penas de pombos. Há quem mastigue livros e cabelos. Os anjos engolem intervalos de coisa nenhuma, engolem músicas e um ou outro amor que encontrem encostado numa esquina suja e esquecida. Às vezes digerem memórias e partem-nas em milhentos pedacinhos, de forma a sobrarem só fragmentos desconexos das recordações dos seus encontros. Fazendo o esforço, só sobram salpicos e a certeza de que é tão bom, como o aroma de um licor de ginja forte e puxado à canela entre lábios meigos que falam sem sílabas.

Há quem mergulhe de cabeça em mar alto, há quem surfe comboios em movimento, há quem se enterre em afazeres e obrigações e lutos. E os anjos, esses lambem os dias e as noites e as estrelas, coçam silêncios para os ajustar à roupa em jeito de conforto, tricotam ideias ousadas e poéticas em letras de lã macia e encostam-se nos quintais frescos, de asas estendidas, despenteados, a ver passar meses ao longe e a recolherem um pouco mais perto, entrelaçados no sono, aninhados.

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Há mais de duas décadas a escrever insistentemente sobre o amor, colecciono mais questões do que certezas, mas em ocasiões fortuitas surge-me uma ou outra epifania. A mais recente foi esta: o amor nasce da liberdade. Nasce da aceitação e admiração de outra pessoa, na ousadia máxima de ser exactamente quem se é. O amor não tolhe vontades ou desejos, aceita-os e dá-lhes alento. O amor não obedece a fórmulas ou a listas de requisitos, acontece por alguma espécie de cocktail misterioso de hormonas, neurotransmissores, instintos e uma insubstituível pitada de alguma coisa indefinida a que podemos chamar, a bem do romantismo, magia. O amor faz-se, cresce e cimenta-se na verdade, na nudez de ver o outro sem máscaras, sem subterfúgios ou dissimulações, no seu todo. Isto inclui os maus-humores, as doenças, fragilidades, crises existenciais, surtos de raivas e erros, palavras mal ditas, insensibilidades e arranhões no ego. Abarca a discórdia, a diferença, a oposição, o “lado lunar” de outra pessoa, ser-se por vezes ferido pela outra pessoa, e ainda assim não saber como impedir ou controlar avalanches de ternura na sua direcção, a vontade incontrolável de proteger com a própria pele a pele de outro para que nada lhe doa.

Amar pode nunca ser muito fácil, mas parece ser mais fácil (ou comum, vá) amar o semelhante, aquele com quem se partilham gostos, opiniões e formas de estar. É mais fácil se concordar for algo natural, se o destino desejado for o mesmo. É um conforto apaziguador não nos sentirmos sós no mundo, aves raras e enjeitadas, quando encontramos uma “alma gémea”, que nos compreende e comunga de prismas idênticos, com quem se comunica com fluidez, em sintonia.

Apaixonamo-nos por duas coisas: ou pelo que se vê no outro, do outro e de cada um de nós com o outro, ou pelo que o outro consegue ver em cada um de nós. Acrescento, se o que nos atrai noutra pessoa é só a forma como nos vê, o espelho aumentado que faz festas no ego, isso é apenas vaidade e não amor. Facilmente se poderia extrapolar daqui para verdades de bolso como "todo o amor é egoísta" ou "ninguém ama senão a si próprio". Esse amor do semelhante não será realmente uma espécie de amor virado para dentro, de gostar do que se vê reflectido do próprio em outra pessoa? Amar alguém igual a nós, em quem nos revemos, é aconchegante. Há o sentimento de identificação, de partilha, de comunhão, de aceitação. Há entendimento. Não há discrepâncias, não há extremos opostos, não há antagonismos.

Pelo lado reverso, as expectativas de nos vermos sempre espelhados na outra pessoa, quando saem goradas (porque ninguém é sempre e exactamente igual a ninguém), são usualmente fontes de atrito e de cisão.

É injusto corroer um amor pelas diferenças, pois são precisamente estas que completam o que falta a cada um, que trazem equilíbrio às dinâmicas, que apaziguam tumultas interiores. É claro que todos erramos, é claro que todos arranjamos maneira de perdoar as maiores cretinices, é claro que a perfeição é um mito e é óbvio que a gestão das relações pessoais é sempre complexa, complexos que são os sentimentos dos seres humanos. Naturalmente, há divergências intransponíveis e que tornam o amor impossível, mas essas são as que se dão a nível de valores, de carácter, de pilares fundamentais. Perdi a conta às relações que vi terminarem ou nem chegarem a começar por conta de diferenças superficiais, de um ser a noite e outro o dia, como se não fossem ambos essenciais e complementares, como se pudessem de algum modo existir sem o seu oposto.

Amar em tensão entre visões, idealizações e caminhos opostos sem a pretensão de alterar o ponto de vista do outro, sem aquilo a que Saramago chamava colonizar a vontade do outro, será a teimosia de fazer frente aos opostos que se anunciam como amores impossíveis, ou será um amor mais puro, mais indefinível, mais maduro, isento de razões com laivos onanistas e imbuído de uma aceitação e admiração que transcendem em muito o comodismo da partilha fácil?

Se não se admira a outra pessoa no próprio avesso e no contraste, se não é um espanto maravilhado com a lucidez ou poesia ou mundividência das coisas que pensa e diz ainda que nos choque, ou precisamente porque nos dá a conhecer o inverso do que é a nossa norma, se não se rebenta de orgulho desmedido no que a outra pessoa é, se não se lhe acha qualidades únicas em tanto do que faz, gosta-se do quê afinal? Da ausência de risco, de atritos e desafios? Da serenidade das conversas sempre concordantes? Da estagnação de sempre seguir o caminho mais batido? Da conformidade com os limites conhecidos, sem ímpeto para avançar, crescer e ousar mais além?

Amar a diferença é um desafio íntimo e talvez uma forma purificada e autêntica de amar. O mais verdadeiro amor. Dizer ao outro “amo-te, apesar das nossas diferenças” é amar condicionalmente, com constrangimentos e fragilidades. É uma constatação de que as diferenças são um factor negativo e que desgasta o afecto, uma espécie de aviso, como se uma agudização das divergências colocasse o amor em risco. É tolerar a oposição que o outro constitui. Dizer a quem está nos antípodas de quem somos “amo-te, exactamente como és” é amor incondicional. O amor nasce da liberdade porque o amor é, só pode ser a liberdade extrema de não necessitar de escudos protectores, regras ou limites. Tão simples. Tão complexo. Tão perfeito.

Pequenina, transparente, invisível. Diluída por entre o que brilha faustosamente, por entre a exuberância que te ofusca, sou grão de areia que parece só incomodar, causar desconforto, quando finalmente me sentes debaixo do calcanhar. Um empecilho, uma moléstia, insignificante até magoar.

Acenam-te com luzes, palcos, plumas, folhos e cetins e eu faço questão de não me esconder sob nenhuma dessas máscaras. Não tenho argumentos de monta, atractivos estéticos ou chamarizes sociais, nem sei bem como te detiveste, ao engano, na névoa invernosa que nos atirou para a mesma dimensão. Não tenho glitter nem purpurinas, não cresço em saltos altos nem te lanço escadas para te fascinar com uma inatingibilidade que é irreal. Não sou feita de magias ou perfeições. Sou de carne e sou de osso, de erros e defeitos mil, de cicatrizes e nódoas negras sentimentais. Estou no plano do real, em que o tempo passa, as distâncias doem, as palavras ferem e os silêncios dilaceram. Tropeço, zango-me, faço cara feia quando as lágrimas me apanham de soslaio, babo-me de raiva e de melancolia. Nem a distinção nem a elegância que gostas de ter a emoldurar a tua face visível, mas também ninguém me fez adorno ou bibelot.

Não sou uma mera personagem do teu romance, não deixo de existir quando fechas o livro e passas ao próximo, não me poderás conter em páginas que não te valem a resenha. Não sou a entrada vinte e três na colectânea das poetisas do tule e de coisa nenhuma que escrevem, deslumbradas, desfocadas, sobre o que acham que és tu. Não me contento com definições em versos desconexos sempre na primeira pessoa, extravaso em cada letra das palavras que me deste a custo. O que sou, valho e mereço escapa-te ao entendimento, como escapo eu das tuas teias, dos teus formatos quadriculados cheios de grades e margens e prisões.

Não nasci para ser princesa em contos de fadas, sou proletária, incendiária, de punho sempre erguido, tochas nos olhos e no coração, mestre tanto das fugas como dos choques frontais que te ofendem e te afastam. Não pertenço a este mundo onde cada um é só por si, das sombras e aparências com o verniz a estalar. Talvez deva agradecer-te as desfeitas, evidências inequívocas das palavras em que nunca quis acreditar.

Contra factos não há argumentos.
Não é comigo que celebras vitórias, não é a mim que ofereces convites ou mimos, com quem esbanjas adjectivos e superlativos. Não me ouves quando te grito, na sofreguidão desesperada de querer salvar-te de ti. Não te mereço os sorrisos festivos, as fotografias ou os abraços sentidos, que o meu lugar é na sombra, nos intervalos do que é importante, nos espaços intermédios da vida real que corre em direcções sempre transversais a mim. Nunca me citaste as palavras nem recordas os gestos, que essa sedução em mim não colhe, mas sou eu quem te vê inteiro e em primeiro plano, aqui do alto do meu lugar que é nenhum. A quem iludiste desta vez, quem te preenche as frestas na ilusão de não estares só?

Não sendo jamais urgência nem prioridade, fui (e serei) sempre a que aplaude com mais força cada feito teu, a que na penumbra te ouve e conforta, a que cola os pedaços que outros racharam, com cuspo e com cola de bem querer. Na certeza cimentada de nunca deixar de te incentivar quando perdes a fé, de ir quando chamas, de dar o que não tenho e dar-te tudo, até à última gota do que sou, esgotei o plafond. Um tripé mantido na penumbra para sustentar o truque de magia que és tu. Cansei de só existir enquanto suporte, desnecessária quando te acompanham camaradas das horas boas, dos risos rasgados e festins.

A cada segredo que te adivinho, é sem medo nem pudor que me deixas do lado de fora. O gigantismo do teu coração não se compadece com os meus temores e ainda teima em gelar. Jamais serei animal abandonado que mendiga uma festa de quem não se detém para o olhar. Esbanjas a palavra amizade com quem só te conhece o mel, só para mim despes a capa, atiras a espada, berras e cospes fel.

Colho gargalhadas jocosas onde outros passeiam com excesso de corações pendurados nos bolsos, esquecida e ignorada, silenciada. Alheio às minhas dores e lágrimas colhidas por comboios frios, continuarás o teu trilho, seguro e firme; em cada degrau um grão de areia esquecido. Atrás da cortina onde me cansei de esperar, sozinha, sem tempo de antena, sem direito a nota de rodapé, demorou, mas percebi. "O meu lugar não é aqui." 

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Magnetismo inevitável, talvez. Premonição, dificilmente. Mas um instinto aguçado, do qual duvidavam demasiadas vezes, dizia-lhes quase tudo o que precisavam saber. Ele captou-lhe os aromas de desafio na voz pequenina de veludo e chilreios; na talhada de verdades em betão, a promessa de transpor, de punho em riste, os seus muros e arames farpados para o encontrar do outro lado, inteiriço e solto, liberto no remoinho de que se vai cansando de ser. Ela cumprimentou-o com a familiaridade de quem galgou os séculos a seu lado, vendo-lhe tudo sem nunca o olhar, sem saber que cada um existia de verdade e na certeza estridente que é a dos argumentos de romances perfeitos que se colam à alma e a moldam, a definem como um destino. Ele soube que no seu colo de rola encaixavam os risos e os medos pendentes de permissão, que as suas tempestades, alvoroços e calmarias etéreas cabiam todos entre os braços e pernas tão caseiros daquela morena de olhos turvos, que lhe afagaria todos os gritos emaranhados nos cabelos e que ao sangue dela pertencia, líquido e solúvel por todo o corpo. Evitou os atalhos e disparou um arsenal de flechas ao epicentro do alvo, seguro e certeiro. Ela só estremeceu; fez algumas tentativas de expulsar as setas inquinadas do coração calejado, insistiu até se render à enormidade da cratera que a engolira inteira, de dentro para fora. O vestido remendado da vidente mística, guardadora de segredos e artesã de narrativas redondas, não resistia a cair num só sopro, gesto resoluto e acérrimo, perante o olhar encantado e as mãos gulosas daquele estranho que lhe nascera em rompante de cravos a florir no peito blindado, qual bomba atómica que arrasa os tempos do antes e do depois, semeia só poesia e beijos prometidos em mares chão. Ofegavam, ambos, tingidos por um desejo desastroso de escapar aos contornos castradores das dimensões reais e palpáveis, das impossibilidades que os continham quedos, mudos, agrilhoados.

Passaram duas vidas inteiras a fugir da palavra Amor, como verbo de amar em surdina contínua, como sentença em pena suspensa, como almas penadas a quem os paraísos de passear de mãos dadas e de abraços demorados estão interditos para a eternidade. Depois das fugas com pés descalços nas rochas escarpadas de lâminas cruéis ou nas areias escaldantes dos mais áridos desertos, pulavam para tapetes de bonança e aconchegavam-se com cobertas de ternura e mantos de promessas de nunca mais.

Não conseguiam evadir-se juntos para a terra dos sonhos, cativos que estavam de galáxias apartadas e unidas pelo éter em que se soltavam nomes como âncoras definitivas, pesadas, graves. Boiaram numa jangada imaginária, à tona do mundo, com sonhos por leme, até serem despedaçados por procelas e tormentas grotescas, ignescentes distâncias e ausências.

As palavras às vezes feriam como relâmpagos arremessados contra o casulo de aço e gelo em que ele se encolhia, impotentes mas ruidosas, ecos dos enigmas que ele largava em molduras ferrugentas de paisagens oníricas nunca palpáveis. Ela enlouquecia e arfava de dor com as reticências passivas e os silêncios que lhe lia nos olhos, os beijos retidos, só desenhados no ar. Uma vez achou-se perdida no sorriso de luz que crepitava no lado oposto da sala e sentiu-se a queimar, dissipada, prostrada em cinzas. Terminou naquele instante a sua liberdade de ser outro alguém, de emergir noutra pele renovada, de aprender a viver de outra forma que não nas palavras que ficaram sempre por dizer.

Ouviram as mesmas canções no ombro um do outro até serem consumidos pelo tempo e pela erosão da finitude. Exorcizaram as distâncias soluçadas em sílabas a gotejar em par e permaneceram enleados de verbos e adjectivos, sempre parcos, insuficientes até para delinear os contornos mais desmaiados de um Amor desfocado, a dois tempos, duas faces umbilicais e contrárias da mesma lua destemida e desfigurada. Cumprindo a profecia, permaneceram até ao fim dos dias unidos, um dentro do outro, e isolados, separados pela vida.

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(texto submetido ao Concurso "Até que a vida nos separe", promovido pela editora Papel D'Arroz)

 

Não me agradeças o amor. Não é um embrulho finito e contido, delimitado e enfeitado com um laço. O amor que te tenho não cabe em envelopes ou caixotes, sequer nas palavras todas do mundo, sequer em todas as canções que batem ao ritmo do coração, ou nas chuvas ou ventos ou mares que não conhecem contestação. O amor que te tenho é o momento do Big Bang, do nada de que nasceu o tudo, o infinito, a perpétua expansão. É o fragmento de tempo em que o colibri de asas frenéticas parece imóvel e é o néctar que o alimenta. O amor que te tenho inunda galáxias e condensa-se em cada beijo que fica por dar, em cada página em branco, em cada resposta que espero de coração nas mãos como bomba-relógio e nunca chega.

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O amor que te tenho não to dou. Não assim, com uma etiqueta a chamar-lhe amor de mim para ti, que não me revejo nem me quero acreditar. Não to ofereço em bandeja de prata junto com o meu coração ressequido embrulhado em picos de cacto e de arame farpado, que esse já é teu desde que o tocaste e te feriste nele - com as farpas entaladas nas carnes, nunca mais o quiseste nem me deixaste retirar as farpas, que manténs para que me doa mais a mim, penitência retorcida. Se to dou, ao amor, a meias palavras divagadas, em esquissos insinuados no ar, é por saber que não o retribuis, que não podes, ou não sabes, ou não o tens dentro de ti com o meu nome. É por morrer na espiral vazia e turva em que me afogo quando não chega um sinal, quando me fechas a porta no "obrigado" que quer dizer "já chega", "não é preciso, que o inverso não é verdade". Não consigo respirar no excesso de ar que colocas nas frases vagas que me atiram secamente para longe, com força, mas sempre presa no fio da navalha. Se to dou em avalanche bruta e devastadora é para te manter à tona, para te resgatar, é para eu não me perder quando são os teus lábios que me queimam em bocas que não a tua, quando o teu calor ausente da memória, que nunca senti, me assalta de olhos fechados na procura que tacteio à flor da pele nos outros homens.

O amor que te tenho dói por me rebentar cada célula em que não cabe, é excessivo, é lascivo, é ácido que me consome por não o poder derramar em ti, destrutivo, redutor do íntimo, só o esqueleto a segurar o que as tripas criaram. Pudesse eu salvar-te, roubar-te para mim, levar-te para longe quando chove dentro de ti... Pudesse eu chorar todas as tristezas por ti, pudesse eu completar o que te falta, recolher-te as cinzas do restolho, fazer-te inteiro e viçoso, ainda que para de novo me escapares verde por entre os dedos, para os braços de outra mulher mais tua, mais serena, simples, amena. Pudesse eu fazer cola deste amor que não se diz para te despegar de mim e deixar-te a navegar coeso nos mares altos, de vela rasgada ao vento sem saudades de mim.

O amor que te tenho é todo de maiúsculas escritas por todo o lado a tinta invisível e permanente. Podes lê-lo na minha voz muda, nos meus gritos de desepero por terror de te perder, em qualquer esquina de desejo, nos poemas que te envio em aviões de papel, nos braços vazios com o teu encaixe perfeito à espera, nos sorrisos pequenos que me geras, nas torrentes de lágrimas que nunca me apaziguas.

O amor que te tenho é sujo, é sangue, é esperma, é vernáculo profano gemido aos teus ouvidos na pureza dos nossos corpos que já não se lembram de se tocar. É um amor pristino, virgem, cândido como o riso cheio de uma criança que desconhece o mal. É um amor elástico, que se expande e alcança também os teus amores, frutos e raízes de ti, sem razão ou explicação outra que não seja o amor honesto por procuração, por encontrar-te espelhado e projectado nas sombras em que és inteiro.

O meu amor quer lamber-te as feridas e sossegar-te as inquietações, quer ser farol para as noites de tempestade e colar os cacos que foste perdendo por entre as gavetas empoeiradas de segredos vis. Este amor que te tenho não existe sem perdão. Nem existe sem um sonho tantas vezes subentendido de fugas sem amarras, rumo a uma liberdade de certezas absolutas, de cravos sem âncoras, de poesias excessivas, de doçuras e meiguices, de risos estapafúrdios.

Suspeitamos, tu e eu, que neste amor danoso não vai vingar uma estória feliz, que nenhum de nós se permite tamanha benesse. Insistimos em contornar os passos em falso, agarrados à improbabilidade das palavras que não são ditas um dia se materializarem em cadência, a arrumar o mundo e a devolver cada amor ao seu devido lugar.

É que este amor que te tenho não tem margens, não tem tamanho ou duração, não tem travões nem condições nem senãos, é uma presença física, opressora, que se respira e expele, que me cansa e me gasta. O meu amor persegue-me e encontra-me sempre que me escondo ou finjo não o vislumbrar pelo canto do olho, sempre que o tento negar. Este amor que não te digo para não te ouvir um não, este amor que é meu é teu também. Este meu amor que existe, que manda recado a dizer que resiste, pede uma fagulha incendiária que o termine, que o arrase, que me solte desta prisão. Mata-me, meu amor, mata este amor antes que morra na negação.

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As paredes meias são intransponíveis, frias, espessas, rudes. Gritam distâncias, cilindram qualquer aproximação luminosa. É difícil, é longe, não se consegue fazer ouvir do outro lado do muro. São franjas de alegrias francas penduradas nas molduras tortas, lá longe no tempo de fogueiras e sorrisos, de encontros e beijos furtivos, são mágoas penduradas nas esquinas, a lascar a tinta, a fazer sombra.

E é o castigo de ter tão dentro quem está longe e os dedos quase se aquecerem, entrelaçados nos sonhos e nos dilúvios da alma a desabar. Os abraços semeados nas entrelinhas, que fogem, com as letras todas menos algumas. 

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Balbuciaram duas ou três sílabas quando ele entrou. Teve de tocar à campainha, já havia entregue as chaves da casa no dia em que formalizaram a escritura e a casa passou a estar só em nome dela. O gato preto, Malaquias, espreguiçou-se e levantou-se pachorrento da pedra do parapeito da janela do quarto, que deixava de estar fresca com a incidência do sol do início de tarde. A última coisa que os unia, além do filho que fizeram juntos uma década antes, estava por fim a ser arrumada, devolvida ao seu lugar. Ele estendeu o livro de páginas amareladas e capa gasta, num tom de laranja que sugeria já ter sido vermelho. 
- Desculpa, parece que foi à guerra... Deixei-o ao sol muitas vezes, levava sempre na mochila quando ia... Quando saía por uns dias.
- Não tem importância, Miguel. – mentiu ela em voz pequenina e despachada.
Esticou o braço e pegou rapidamente no romance sem interesse que ele lhe havia oferecido pelo seu décimo oitavo aniversário, receando que um movimento mais lânguido denunciasse o tremor eléctrico que sentia por todo o corpo. Largou com suavidade na cadeira próxima o volume que lhe entregava aquele homem estranho que tinha sido seu amigo, confidente, namorado, depois noivo e marido durante alguns anos, até se tornar apenas uma cara familiar, que reconhecia das fotografias que ainda mantinha, por respeito ou solidão, nas cómodas e paredes. Sabia tudo deste homem, onde nascera, os nomes completos dos irmãos e pais e tios, a cor da porta da casa onde viveu na juventude, os pratos preferidos e a aversão que tinha ao sabor da hortelã, o jeito como coçava a testa quando tinha sono; porém, não o conhecia. Já não o conhecia nem sabia nada dele. A desabituação de um quotidiano que deixa de ser partilhado pode ser fatal quando a distância se instala, mais do que entre endereços, entre duas vozes caladas. O fosso entre aquelas duas vidas antes entrelaçadas tinha-se tornado fundo demais, sem pontos de contacto, todas as pontes ruídas, deterioradas pelo tempo e por bafios acumulados.
- Bom, então vou andando, não é? Na sexta-feira venho buscar o Pedro para o fim-de-semana, como combinámos.
- Então vá, não te atrases. Na sexta-feira, digo. O menino está ansioso por ver o quarto novo lá na tua casa. Não fala de outra coisa.
- Sim, eu sei. Tu também podes lá ir ver, pintámos o quarto de verde, está giro.
Iniciou um sorriso quase entusiasmado e depois pareceu-lhe despropositado. Que ideia tão descabida, convidar a ex-mulher para ir à casa onde vivia já com a namorada. Pausou.

O cabelo dela recebia da janela raios transversais de sol que nele acendiam um fogo alaranjado a emoldurar o queixo fino, escorrendo em fiapos pelo pescoço e pelos ombros encolhidos. Por um fragmento de instante, ele vislumbrou a miúda apagada com quem tinha dado o primeiro beijo na adolescência. Franzina, de voz aguda e débil como o corpo, cara sardenta e olhos mortiços. Viu-a então e agora como uma boneca de trapos que precisava de ser salva duma espécie de abandono, que se não fosse trazida à vida definharia prostrada, amarelecida e crespa como o Outono fazia às folhas das árvores, num banco de jardim ou em qualquer outra plateia de onde os picos de acção só são observados e aplaudidos, ancorada aos receios ou a uma qualquer irrealidade paralisante.
Ela passara toda a sua vida na hesitação, não experimentando a água até ser puxada para o mar, à espera que alguém lhe desse permissão para rir, para existir. Sentia que nunca tinha feito nada para conquistar o direito de ser dona de si, caminhava esgueirando-se dos obstáculos, como se a pedir licença para ser feliz, em bicos de pés, para não incomodar. Quando ele a olhou nos olhos antes de a beijar pela primeira vez, não resistiu, nem saberia como. Até a respirar o fazia de mansinho, ligeiro, quase sem se notar. Ele tinha salvo a menina tímida que não sabia quem era, injectou-lhe um fôlego fresco e encantado com os seus beijos e planos a dois. Mostrou-lhe que o mundo era dela se ela o quisesse, e ela ia sempre com ele para onde ele a levasse. De mãos dadas, ela tinha a direcção e o rumo que ele indicasse. Sem a mão dele a guiá-la, sentia-se perdida e sem propósito novamente. Naquele instante que sentia fatal como um ponto final, sentia que tinha falhado na sua única missão de vida: ser uma mãe exemplar, uma esposa dedicada. Só tinha de se ter mantido no plano. Quando, seis anos antes, ele tinha aceite uma proposta profissional a dois mil quilómetros, ela fez o que achou que esperavam dela. Aceitou a decisão que ele comunicou, sem mostrar sequer a mágoa que a roía de nem ter sido consultada. Afinal, era um bom dinheiro que entraria no orçamento, e não havia de demorar mais de dois ou três anos. Ficou, a bem do menino, da estabilidade, sozinha com ele. A vida não era fácil lá para onde o marido ia, as ruas eram inseguras, havia crime e dificuldades. "O pai foi ganhar dinheiro para nós, já está quase a vir ver-te", explicava sempre que o miúdo perguntava ou chamava pelo pai. As birras em que gritava desalmadamente pelo "papá" foram reduzindo e eventualmente foram sendo substituídas pelos pequenos actos de rebeldia, respostas tortas. "Aposto que se o pai aqui estivesse deixava." "Eu quero ir viver com o meu pai!", rosnava decidido para desconsolo da mãe. Ela também queria ter o pai dele ali, presente, a partilhar decisões e responsabilidades. E queria ter o marido ali, presente e a completar o pedaço que lhe faltava. Falavam ao telefone quase todos os dias, no início; ele contava os exotismos que o espantavam, ela dava conta do que se passava na escola do menino e das banalidades que lhe compunham os dias. Às vezes riam-se muito das estórias caricatas que guardavam para despoletar gargalhadas no outro, quase um simulacro das noites gostosas e serenas no sofá, em frente à TV, depois do miúdo estar deitado. Outras vezes ela confessava as saudades que tinha dele, para de seguida se sentir culpada por deixar no ar aquela fraqueza, por lhe infligir uma culpa da ausência dos papéis de marido e de pai, afinal ele estava a fazer o melhor que sabia e podia, a ganhar dinheiro - porque tudo se resume sempre ao dinheiro, porque a renda da casa não se paga sozinha, porque há contas para pagar, há a creche do menino, há as consultas e as vacinas, só em material escolar para cima de um dinheirão! "O pai foi ganhar dinheiro para nós", repetia-se por vezes em surdina, sozinha no quarto, de noite, a meio das insónias. Esticava o braço para o lado dele na cama e os lençóis frios e imaculados confirmavam a ausência, a distância, a falta de materialidade das memórias e o peso de chumbo das saudades. Tinha medo de estar em casa sozinha com o pequeno Pedro. Poucos meses depois da emigração de Miguel, o pequeno já dormia sem sobressaltos e bichos papões, e decidira passar a luz de presença para o seu quarto, com a desculpa de que o miúdo podia precisar de chamar a mãe durante a noite e assim ficava com o caminho iluminado. Desculpa pobre, a única pessoa que ali tinha medo do escuro e de dormir sozinha era ela. 

Sabia racionalmente que a culpa que sentia naquele final era descabida, mas nem por isso a sentença lhe parecia mais leve. Não tinha sido ela a quebrar os votos que tinham feito um ao outro. Tudo na vida dela a fazia sentir em dívida para com o mundo, inferior aos exemplos da mãe e da irmã, super-mulheres, fadas do lar, tolerantes para com as falhas dos seus maridos. Sentia os olhares condescendentes e jocosos quando, no trabalho, no refeitório partilhado com colegas confessava que se esquecera novamente de colocar sal na comida ou quando perguntava por alguma receita ou procedimento culinário muito básico. As outras mulheres faziam tudo parecer tão simples e natural. Divorciadas que orientavam sozinhas a casa e dois e três filhos, solteiras que namoravam e saíam com amigos e viajavam, decididas e sem hesitações. Invejava cada uma, não pelo que tinham, mas pela força que imprimiam em cada decisão, em cada argumento. Quando lhe perguntavam em conversa sobre uma polémica qualquer da actualidade, remetia-se quase sempre à mesma resposta: “não sei, não percebo nada disso” ou “não me meto em política, para mim são todos iguais.” 

Recorda-se das recomendações maternas antes de se casar, aos 22 anos. Sobre a lida da casa, as poupanças, e outras inutilidades que, grosso modo, lhe passaram ao lado. Ninguém lhe tinha dito como lidar com a solidão. Nenhum conselho falava do que fazer quando se sentia oca, sem força para nada, perdida. Sobre quais os passos correctos que podia tomar, sem manchar a reputação ou ofender o marido, quando queria dizer-lhe que tinha falta dele, que tinha vontade dos abraços nocturnos de antigamente, em surdina para não acordar o menino, que a preenchiam e lhe mostravam o mais próximo que conhecia da plenitude por alguns instantes. Não sabia, nem sabia que podia perguntar, por isso continuou sempre, obstinadamente, a fazer o que sabia fazer bem: calar. Viver em fuga. Passo ligeiro. Não incomodar. Quando a relação começou a ver as lonjuras distendidas, os silêncios prolongados, continuamente a ser esmagada com o peso da ausência, sabia que provavelmente devia ter feito alguma coisa, devia ter dito alguma coisa. Nunca o questionou sobre os dias em que ficava incontactável, supostamente a sul, nem mesmo quando lhe chegaram rumores que era por vezes visto com uma mulata muito bonita, de mãos dadas, ou quando viu uma fotografia de um almoço de amigos a que ele a levou. Pensou muitas vezes que o silêncio tinha sido sinónimo de conivência, de permissão até. Não que lhe fizesse uma enorme diferença que houvesse outra mulher, ela nem era dada a ciúmes ou sentimentos de posse, só não queria perder o suporte de que dependia. Nunca lhe disse “preciso de ti”, apesar de ser essa a maior questão. Talvez se tivesse estado disponível para passar algum tempo com ele na vida lá longe, fazer-se corpo presente. Talvez se mostrasse mais entusiasmo pelos relatos dele, se tivesse feito mais perguntas, perguntas diferentes. Talvez se naquele dia em que ele estava a passar umas férias forçadas em casa, à conta do calendário do trabalho, ela não se tivesse esquecido que podia ter sido ele a ir buscar o menino à escola quando ligaram a dizer que estava com vómitos e febre. Como é que ela podia ter-se esquecido da presença tantas vezes desejada do marido e pai do filho? Tinha-se habituado a ser mãe e pai. Tinha-se habituado a depender só dela, a contar só consigo própria, a largar tudo quando fosse preciso. Foi nesse dia que, desnorteada, soube que estaria sempre sozinha. Percebeu que afinal era sozinha que estava já há alguns anos, e até tinha sobrevivido. Privada de muitas coisas, com a solidão por única companhia todas as noites, mas sem precisar tanto de muletas como acreditara até então. Os regressos têm destas coisas. Por vezes passa-se tanto tempo a desejar recuperar uma fotografia difusa do passado que, quando o regresso se dá, reparamos que toda a harmonia que se pretendia recuperar deixou de fazer sentido e deixou de ser, afinal de contas, desejado. A saudade do que tinha, outrora, sido, não pode ser apaziguada senão com uma saudade do que está para vir, novo a estrear. Naquela tarde, depois de fechar a porta, surpreendeu-se quando suspirou de alívio. Não fazia a menor ideia do que se seguiria, mas tinha finalmente a certeza inabalável de que havia um caminho a percorrer e que o faria, passo a passo, com maior ou menor segurança, em qualquer direcção por que optasse. Já não havia ninguém que lhe puxasse a mão, mas também nunca mais admitiria uma outra mão que a travasse.

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O conto "A Mãe sem nome", da minha autoria, foi publicado este ano na colectânea "Ei-los que Partem! - Vol II", da Papel D'Arroz.

De que valem os contratos se o coração fica cego, não consegue ler ou tão pouco obedecer?! De que servem as anilhas se em vez de laços que unem são amarras que prendem?

Liberdade é não ter donos nem amos, é não amar por obrigação, é não tolher sentimentos bonitos porque o papel diz que se é propriedade de alguém. Não sou de ninguém senão minha e dou-me a quem queira se me souber aceitar.

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Dói-me o Rossio todo. A cada passo, cem mil vidas ali escolhidas. Em cada pedra da calçada, uma miséria. Cada memória é uma vida.

Desde a plataforma do metro ao topo das escadas, do banco de pedra ao D. Maria, do Largo à estação de comboios. Doem os primeiros beijos, e também doem os segundos. Os olhos verdes, os castanhos e os azuis, o joelho no chão, o convite que recusei. Dói todos os dias, à ida, à chegada, e sempre sem hora marcada. Doem as varandas por serem cúmplices, pois se não me impediram!... Testemunhas ausentes, caladas, de todo o enredo condensado em tantos actos, iguais sem nada em comum.

Podia ser uma curta, toda filmada ali. Cenário perfeito, a chuva, o drama, tapetes lilases. Doem os olhares dos taxistas e dos turistas, dos amigos habituais e inimigos pontuais. Dói o sem-abrigo que favoreço com os trocos que me destroçam. Também me dói a Rua do Ouro, a Rua da Prata, os Restauradores que serviram para fingir que se restaurou o que permaneceu na mesma, a Praça do Comércio e a Av. Ribeira das Naus. Dói-me a Praça da Figueira, dói-me o Largo do Intendente em que aos poucos as dores vão sendo reparadas, entre beijos novos e abraços antigos com cheiro a casa. Dói-me o Largo de São Domingos, em que sempre recordo entre uma e outra ginja um pedido de casamento à chuva, continuamente negado. Doem-me os encontros perfeitos, todos, a vigia de Dom Pedro IV, altivo e seguro, e os enredos que escorrem apartados até ao Cais das Colunas, até Santa Apolónia, comigo espalhada um pouco por todos os barcos ao largo, em fuga até à margem mais que certa onde posso esconder-me atrás do rio.

Dói-me tudo até ao Cais do Sodré, cais do meu fim.

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A palidez das emoções é-me insuportável, as palavras suaves e delicadas, névoas vazias de fogo, de pujança e de vida. Rendas debruadas a ouro, com minúcia na forma e vazias de conteúdo, não me servem, repelem-me o toque. São desperdício, diluem-se nos tempos rotos e nas costas voltadas, na erosão das lonjuras. São ofensivas as delicadezas que pairam sem se atravessar, por gentileza, a mendigar raspas do ar que é necessário para viver.
Não sei ser dos murmúrios a meia luz, das meias verdades e das paixões mornas, em lume brando, hesitantes. Sou inteira de tudo ou de coisa nenhuma; dos dilúvios no deserto que ofusca, árido, ou do granizo no verão alagado. Não sei ser sem sal que me tempere, sem gritos que me calem, sem orgasmos que me abandonem à deriva em mim. Sem apertar demais os tais nós que se eternizam ou quebram, ou sem soltar os laços já lassos, para que fique só quem queira estar, de corpo presente, invasão possante e pertinente. Não quero ser um quarto, um terço ou metade. Sou todos os avos minha e partilho-me toda em sobressalto, em enxurrada, avalanche de verdade; não dou migalhas, restos ou aperitivos, ou o banquete é farto de lamber os pratos ou é jejum. O amor em part-time não é o meu lugar. Amo-te nas ausências e nas fugas, nas pausas e nos silêncios e mesmo quando tapas, com força, os olhos e ouvidos à passagem da minha sombra, mesmo quando me procuras noutras bocas e nos colos que não te chegam, que não te calam, não te sabem matar por dentro, de fome, de choque, na vertigem do toque. Deixo-te ir e nunca corro atrás porque te quero sempre comigo, porque de ti não fujo mais, subo a paredes caiadas em vácuo que caem no mar, arrasto redes na ilusão de te captar as sedes, num cheiro, num sopro, quase num estrondo o verbo que desisto de contornar.
Uma vida sem sal, de contenções e convenções, de limites e regras, de cuidados exacerbados, a que sabe? Sabe a coisa nenhuma, a frustração, sabe a dúvidas e receios, a espartilhos e a cintos de castidade. Sabe a papel velho e mortiço, sabe a planos engelhados, a brasas apagadas e esterilizadas emoções. Que não se poupe no sal da vida, no sentir e mostrar. Modere-se tudo menos os sentimentos em erupção, a apatia insossa nunca será opção. Mesmo que a sede se instale, que assim se multiplicam os prazeres, o do sal e o da água fresca em resposta, a acicatar. Qualquer doçura com uma pitada de sal ganha volume e delícia, espessura, a sensualidade dum pó de malícia. Sejamos volúpia de línguas e de lábios, sejamos oceano na imensidão, peito aflito da cor opaca do infinito. Sejamos protagonistas de beijos sedentos, gelados, na pele salgada, nas bocas carnudas de paixão.
Não me peçam para ser brisa obediente e contida. Sou vendaval, sou Ventania. Sou alvoroço sem rédeas nem gaiolas. Sou aquela que abre todas as jaulas e que liberta os prisioneiros dos grilhões de si próprios. Não me peçam a paz enquanto houver tiranos, eu serei a que degola os amos. Não esperem que consigam domar ou dominar-me, só eu sou dona de mim. Sou a mais doce que vira fera, com tanto de calmaria como de revolução, com igual dose de mel e de bagaço, embriagada e ática incógnita à toa na imensidão. Sei que tanto é demais, incomportável, que todos preferem açúcar puro, veneno maduro oculto, embrulhado em algodão.
Sou sal, sou cristal de vida e fogo, saio fora dos riscos e ignoro os mandamentos. Mesmo sem aqueles a quem pertenço ainda sei voar; sigo sozinha se preferem ficar, mas sigo triste, órfã de lar. Sou o fumo de que troçam, o carvão que os ensombrece, sem vaidade, o chiste que ninguém soube decifrar. Sou o supérfluo excesso dispensado, à cautela, para não entornar. Sou aquela que derrete o gelo, aquela que nunca esquece, a que arde nas feridas, cardápio de dores da alma. Sou a impossível de amar.

 

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Sabes que não quebras. Se ainda nada te partiu, depois de tantos embates, cortes, ataques no escuro, golpes de catana e explosões de vulcões no teu peito, se os venenos passam por ti como refrescos, não quebrarás. Querias fazer uma metáfora com cacos e estilhaços, mas essa figura de estilo não cumpre com a honestidade que é fronteira, porque nada se quebrou em ti. Não quebras porque o que há é e será sempre inquebrável. Não são cacos. É titânio. Com algumas mossas de tanto bater no mesmo sítio, com sintomas de rejeição de próteses porque de repente te surge um pedaço a mais, grande, incontornável, que ocupa um espaço só seu e empurrou para o lado o que estava em excesso. Como nas cirurgias, a adaptação não é imediata. Tens de reaprender a levantar-te, a caminhar, a deitar. Vês o mundo de uma perspectiva diferente, porque ficaste maior. Tens dores. São dores fortes, mas tu és mais, aguentas com ajuda de um ou outro opiáceo nos momentos insuportáveis. Também ficaste dormente num ou outro pedaço, que esse enxerto cortou uns nervos. Leva tempo, a adaptação. Leva tempo a sarar o corte e a cicatriz fica como lembrete externo do pedaço alheio que te invadiu e tomou conta de ti. O titânio é frio, mas não é um monstro. Dói, mas melhorou muito a tua vida. Ainda te raspa o coração, ainda se atravessa nas costelas e não te permite respirar, ainda te faz pensar muitas vezes que sem ele terias sido poupada a tanta dor. Mas agora já é tarde. Remover um pedaço que já é parte de ti é inconcebível. Nos dias como hoje, em que dói tê-lo ali estagnado e imóvel, só a comprimir o peito em jeito de ausência, tentas afogar as mágoas no fundo da garrafa ou na poesia desconexa, sabendo de antemão que as putas sabem nadar e não dão tréguas. Vomitas palavras sem cuidado, deixas sair o que te corrói sem prestar atenção à forma. A solidão amiga leva-te em ombros e embala-te o sono e esperas que, desta vez, não se solte o nome errado, que é tão certo, a meio do sonho.

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A perfeição do céu lilás e laranja enquadra um cargueiro ao largo e algumas gaivotas embriagadas, seguramente vindas de um tasco que lhes permitiu o serviço de tinto em copos de três pela noite fora, vêm dizer "bom dia", estridentes, troçando dos que não têm asas, ou desconhecem que as asas, não podendo crescer-lhes das omoplatas, podem ser criadas com o engenho recto e simples de cortar as amarras que não se vêem, e portanto acreditam que não podem voar. Os passageiros dormentes e condenados à vida rasteira de horizontes míopes deslizam rumo à cidade que amanhece, fresca e solta, sem darem conta de viverem num cenário pintado a óleo com a minúcia delicada e a realidade difusa dos mestres impressionistas. Figurantes de um todo desinteressante, com receio de assumir protagonismos em cada um dos seus filmes, consumidos pelo desígnio da sobrevivência, da subsistência dos seus, chamuscados por paixões interrompidas, por sonhos de que os outros riram, por asas que foram arrancadas com violência logo à nascença, seguem de arrasto, mudos em cacofonia. 

A comoção pela beleza que um apaixonado encontra em cada flor murcha é um luxo de quem não tem úlceras dolorosas no coração. Olhar um momento pela janela dos olhos dos outros, adivinhar os sabores que lhe amargam o palato e os que incendeiam um sorriso, um privilégio de quem não se deixou cegar pela brancura falsa e suja da espuma dos dias que rodam, em sucessão estonteante, até à náusea. Deixar cair uma lágrima roliça de saudade é quase um pecado na cartilha moral. E a inércia, essa puta que desgraça epopeias com borrões de tinta seca, que dá o braço à pálida coragem que se traz de origem e finca os pés na terra, minando qualquer impulso, qualquer pequena fagulha que prometa lábios colados a quem se quer, é movida a medos insuportáveis. De onde se conclui, a cada abordagem, que o medo é o próprio inverso do amor.

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[Amor de prateleira (parte I)]

 

Ouço-te as lágrimas que escondes, recolhido, embalado em canções que picam e arranham esse coração frágil, de papel, amachucado e vincado das palavras que foram apagadas e reescritas, dos nomes e sinais e rabiscos nas margens. Estendo-te a mão, enxugo lamentos ácidos que sempre vertem em corrosão para o meu colo, que vou-te amparando como posso, com silêncios e os abraços apertados que não te tocam a pele para não melindrar, para não deixar marca - não como queria, com abraços sufocantes, com lágrimas e saliva e contigo embrulhado num novelo pendurado ao meu pescoço, colado ao meu umbigo, os meus ossos escudo protector, os meus cabelos manto de solidão. Envelheço, às escuras. A espera tornou-se uma constante sem incógnita, tudo às claras, mas nem a luz preenche o vazio da antecipação do que está condenado a não chegar. Hoje sou cinzenta, esmorecida. Bordei letras com minúcia, inscrevi-te em mim, dei-te o tempo e espaço de privilégio no peito, onde te cravaste com pregos, na cruz de te querer. Dei-me por inteiro e sem reservas, atirei-me de cabeça e sem pára-quedas, esperando que me acolhesses sem medo de nos crescerem asas negras. Estatelei-me no chão. Quebrei ossos, lombada, as letras amontoadas ficaram espalhadas em rios, pelas nuvens e nas dobras geladas de cada suspiro, nas cavernas longínquas de segredos sem legendas que se lêem nas bocas mudas. Não te mereço palavras meigas, não me sopras poesia, guardas os abraços para quem não queima. Lamentas, não mais do que eu. Dás-te em luz ao mundo, nas não a mim, que já te vi por dentro; não poderias dar-te sem ser por inteiro, em loucura, lava viva sem travões a reformular as verdades, céu abundante de estrelas em vôo picado para o infinito. Talvez tenha de te encerrar de vez num velho livro morto, onde nenhuns dedos curiosos se entretenham a investigar quem fomos nos tempos de andorinhas e de fogo-de-artifício sobre o rio. Olhas o espaço vazio em que eu morava na tua colecção, como se não soubesses ao certo quem o ocupara, talvez já esquecido do sabor dos meus beijos de baunilha e canela picante. Aproximas-te num pulo, em urgência acesa pela ausência, o queixo escorrega em choque, os lábios derretem. Acaricias o intervalo vazio com dedos de fantasma, delicados e etéreos. Caída no mesmo soalho onde jazem também os outros nomes sem título que dizes ter amado, em monte que aguarda a purificação pelo fogo e esquecimento, desvaneço, página por página, ignorada, virgem de ti, desperdiçada. Se existisse ainda inteira poderia ter testemunhado o som áspero de um soluço, ou visto em câmara lenta o momento em que te contorcias no chão, serpente de sangue quente, gemendo a saudade em golfadas. Mas o conto segue desenfreado, na mesma rota. As pálpebras encerram capítulos como quem gira ponteiros e em breve já nenhum espaço sobra naquela prateleira, repleta de romances descartáveis sucessivos, consumidos em série, sem que algum te consuma o fôlego ou te apazigue o gelo estonteante do coração.

 

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