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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

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Este post está em rascunho na minha mente há meses. Aliás, há anos. É um assunto que ainda é um pouco tabu, sobre o qual ainda há muita desinformação e preconceitos, e por isso mesmo é raro falar disto - mesmo entre amigos próximos.

 

Conhecer pessoas (romanticamente falando) pela internet. Sinto que chegou a hora de dar o meu testemunho, aproveitando que a SIC chamou o tema ao prime time com a sua reportagem especial de domingo.

 

Talvez o meu testemunho seja relevante, até porque as relações amorosas importantes da minha vida passaram todas (as 3) pela internet. A primeira por acaso e há demasiados anos para que coisas como o Facebook ou o Tinder sequer existissem, e numa altura em que havia uma grande dose de cepticismo (de minha parte, pelo menos) no que seria a realidade do outro lado. Passados tantos anos, concluo que ainda há muitos preconceitos e disparates na cabeça das pessoas. Tudo o que digo aqui é, naturalmente, apenas a minha perspectiva, mas acreditem que eu sou qualificada para falar do assunto. Está na hora de desfazer equívocos e dogmas. Vamos a isso!

 

Ninguém é na realidade o que diz ser na internet. Mentirosos há em todo o lado, e convenhamos: quando conhecemos alguém que nos interessa romanticamente não começamos por desvendar os nossos piores defeitos, certo? Depois de muita reflexão sobre o assunto, achei na altura em que conheci o meu primeiro namorado a sério na internet que era mais fácil as pessoas serem transparentes na internet, mais genuinas, do que ao vivo e a cores. E isso traz óbvias vantagens no campo amoroso. Quanto à minha forma de estar na internet, seja em que contexto for, isto sempre foi incontornável - consequência da introversão natural, da auto-estima esfolada, do à vontade com a expressão escrita e da protecção que o monitor traz.

 

É perigoso. Claro que pode ser muito perigoso, especialmente se em vez de pessoas adultas e responsáveis estivermos a falar de jovens com pouco conhecimento dos riscos que correm em fornecer informações pessoais a estranhos. Isso jamais se faz! E se chegar a hora de marcar um encontro, deve escolher-se sempre um local público, bem iluminado, com bastantes pessoas à volta e, de preferência, policiamento e câmaras de segurança. Adicionalmente, e eu sempre fiz isto com as pessoas que conheci da internet, dizer a um amigo próximo o que vamos fazer e o local do encontro, combinando uma hora para dar notícias. "Se às x horas eu não disser nada e não me conseguires contactar, chama a polícia e dá estes dados" (incluindo n.º de telefone da pessoa com quem nos vamos encontrar, etc.).

 

É difícil! Encontrar o amor é, realmente, difícil. Pode ser desesperante e pode ser uma busca infrutífera. Mas também pode surgir quando e onde menos esperamos, e nesse momento todos os desgostos, toda a solidão anterior, passa a ser apenas uma névoa sem importância. Eu já tinha deixado de acreditar no amor e desistido completamente quando ele me encontrou, monitor adentro. Quando me inscrevi no site que me deu a conhecer o meu babe, a verdade é que ia sem expectativas. Aliás, dizia explicitamente no meu perfil que não procurava um namorado, estava mais interessada em encontrar um companheiro de viagens. Lá está, não havia nada a perder. Na pior das hipóteses conhecia virtualmente algumas pessoas que poderiam ou não transitar para a "vida real". E fazer uma incursão exploratória é tudo menos difícil, é inserir uns dados num site e voilá. Hoje em dia a maior parte de nós simplesmente deposita a maior parte da energia e do tempo no trabalho, trabalhamos horas a fio, que nem loucos, e quando não estamos a trabalhar estamos a caminho do trabalho ou a cumprir rotinas. Não sobra muito tempo para socializar na rua, em bares e cafés, sobretudo depois dos trintas, quando a disponibilidade das companhias naturais (os amigos) vai também escasseando. O telemóvel está sempre connosco, o computador está ali, e é muito mais fácil e rápido conhecer alguém, ou pelo menos "explorar o mercado" por estas vias.

 

Quem se conhece pela internet só está interessado em engate. Não é verdade. Temos que contextualizar as coisas. Os factos são que há muita gente sozinha, muitas pessoas que não conseguiram recuperar depois de relações falhadas e ainda os que nunca encontraram alguém especial. Também há (e não são poucos) os que só procuram sexo, um engate de uma noite, ou mesmo um caso extra-conjugal. [Recordo-me de um rapaz que jogou insistentemente a carta do "coitadinho de mim, só conheci uma mulher na vida e tenho curiosidade de saber como é estar com outra pessoa" - a sério, isto resulta com alguém?] E então? Há em todo o lado pessoas que procuram o amor verdadeiro, pessoas que procuram apenas uma companhia, pessoas que procuram apenas encontros sexuais. Basta dizer frontalmente ao que se vai. Se encontramos quem queira o mesmo, muito bem, se não, dizemos que não e passamos p'ra outra. 

 

Dar tampas e o medo da rejeição. Pois, lamento, temos de estar preparados para levar tampas e também para as dar sem grandes demoras. É simples dizer que não. É muito mais simples dizer que não pela internet, em que podemos simplesmente não responder, bloquear alguém ou dizer, honestamente "não estou interessada". Acredito que quem está do outro lado também não terá grande interesse perder tempo em bater na mesma tecla, afinal, há muitos peixes no mar.

 

Mas só há falhados e gente esquisita nesses sites! Gostos não se discutem, quem feio ama bonito lhe parece e todos os provérbios populares aplicáveis têm o seu fundamento, ok. Nos sites de matchmaking, como na tua rua ou lá no emprego ou em qualquer discoteca, há exactamente o mesmo tipo de pessoas: todas diferentes umas das outras. Nada como experimentar, não há nada a perder, certo? Da minha experiência pessoal, posso dizer que estive uns tempos registada em 2 sites de matchmaking. Num deles, maioritariamente dominado por pessoas de meia idade e com uma perspectiva mercantilista (o site oferecia x mensagens de borla, para aceder a mais era preciso pagar), não encontrei qualquer interesse. Terá sido azar, mas só me contactavam pessoas cujo perfil simplesmente não me interessava minimamente. Já no outro site, o OK Cupid, posso dizer que conversei com várias pessoas e encontrei pessoas realmente interessantes, inteligentes, cultas, com interesses semelhantes aos meus e sistemas de valores compatíveis com o meu, que poderiam facilmente ser minhas amigas. Aliás, foi precisamente aqui que encontrei o amor da minha vida. O OK Cupid faz uns questionários e cruza os resultados, apresentando uma percentagem de compatibilidade entre 2 pessoas, e recomendando pessoas (próximas geograficamente ou não, segundo me lembro esta é uma opção editável) com elevada compatibilidade. Só tenho a dizer o seguinte: resulta!

 

Não conheço casos de sucesso. Talvez conheças mais do que pensas. Acontece que, como disse acima, as pessoas ainda têm receio de falar abertamente sobre o tema, para evitar comentários parvos e preconceituosos, bem como perguntas tontas e indiscretas. Há muitos, mesmo muitos, casos em que a coisacorreu francamente bem. Conheço um casal que não só se conheceu pela internet, como começaram oficialmente a namorar apenas através da internet (tinham todo um oceano a separá-los), e ficaram noivos sem nunca antes se terem tocado. Hoje, passados uns 12 anos, vivem juntos e felizes, têm um filhote, e confirmam que foram feitos um para o outro, mas sem a internet dificilmente se teriam cruzado. 

 

E os blogues?! - perguntar-me-ão. Os blogues são janelas privilegiadas para a alma das pessoas que os escrevem. Com todas as vantagens e desvantagens que isso pode trazer, eu acredito que podemos realmente conhecer algumas pessoas simplesmente lendo aquilo que escrevem. Tenho bons amigos que os blogues me trouxeram ao longo dos anos. Tenho um grande amigo que me perguntou há anos, quando tinha um blog anónimo e muito pouco conhecido, se era eu a autora, porque reconheceu a minha escrita. Tive um namorado que se apaixonou por mim conhecendo apenas as palavras que depositava num blogue.

 

 

A conclusão que retiro de tudo isto é apenas uma: a internet é apenas mais um lugar onde as pessoas se podem conhecer, apaixonar, fazer amigos, criar ódios viscerais, dizer e fazer disparates, perder tempo ou encontrar a felicidade. Ou seja, exactamente como uma extensão do resto do mundo.

Eu viajo algumas vezes a trabalho. Esta semana é uma dessas, e estarei fora a partir de amanhã. Por isso mesmo, hoje tive de trazer comigo uma série de coisas além das habituais (mala, marmita e afins), nomeadamente o computador portátil (a que chamo, carinhosamente, "o trambolho", porque é pesado como o raio), o carregador, o rato, mais umas coisas necessárias ao sítio para onde vou. Ainda não preparei a mala, não me posso esquecer de uma série de coisas que tenho de preparar esta noite, nomeadamente pintar as unhas, que o verniz do chinês é mesmo excelente, mas as minhas unhas crescem tanto que já se vê a parte branca e não posso passar o resto da semana nestes preparos.


Entretanto, o gajo decidiu ir ao futebol, ver o Tondela (Tondeeeeeelaaaaa!) contra não sei quem. E lembrou-se de me pedir para levar a mochila dele para casa. Hoje. Porque já vou pouco carregada. E só apareceu mais tarde do que partiu o transporte que eu devia ter apanhado. Porque eu hoje até nem tenho pressa nenhuma. Grrrrr!


Se isto não é amor, não sei o que será.

Os nossos vizinhos eram terríveis. Várias vezes estive para chamar a polícia, tal era a animosidade das coisas. Um casal e um puto. A senhora tinha ataques histéricos e gritava, do fundo da sua capacidade torácica, gritava muito. Às vezes gritava com o filho, normalmente um gutural "caaaaaala-te!". Outras vezes gritava com o Universo, ou assim me parecia, só um grito de horror, ou desespero, ou se calhar cansaço. Sei que a primeira vez que ouvi um destes gritos pensei que estava a ocorrer um crime, ou que tinha sido encontrado alguém morto. Quando uns segundos depois o grito se repetiu, com uma intensidade menor e mais umas palavras a acompanhar, percebi que afinal era algo bem menos dramático e larguei o telefone (já estava a ligar para a PSP). Mas os gritos piores eram os gritos dirigidos ao marido, pela frequência, intensidade e sobretudo pelas frases horríveis que veiculavam. Desde "és o pior pai do mundo" a "espeto-te uma faca na cara" ou mesmo, para o filho, "o pai odeia-nos, odeia a mãe e odeia-te a ti", com uma palavrões pelo meio, tudo era possível.


Depois as coisas acalmaram bastante. Tanto que chegámos a pensar que se tinham mudado. Mas não. Tiveram mais um filho.



 

Estou com uma carraspana à antiga, com direito a dores de garganta, a estar semi-afónica, febre, dores no corpo e mal-estar generalizado, e ainda a uma fosse profunda, cavernosa mesmo.


Pedi (sim, foi preciso pedir) ao homem um chá de limão e gengibre, para beber quentinho com uma colher de mel. De todas as mezinhas caseiras, será provavelmente a mais eficaz para desobstruir as vossas respiratórias.


Como o jovem não é, de todo, a criatura mais expedita no que diz respeito a todo quanto sejam tarefas relacionadas com a cozinha, dei-me ao trabalho de explicar o que deveria ser desnecessário.


"Metes a água a ferver, pões a casca de limão - só a parte amarela - e como já não temos gengibre fresco, gengibre em pó."


Dez perguntas depois (Copo ou chávena? Lavo o limão antes? Etc e tal...), lá me aparece o jarro de vidro com uma água baça. Lá dentro, toda uma casca de limão, num só pedaço, cheia da parte branca (e amarga).


Disfarcei a careta e provei.


- Olha lá, puseste sumo de limão aqui dentro?


- Sim, foi para fortalecer o efeito.


- Ah, tá bem. E o gengibre?


- Esqueci-me... Vou lá buscar. Como é o frasco mesmo?


Após repetir as indicações 3 vezes, lá encontra um frasco idêntico.


- Acho que achei. Diz lemongrass?


- Não! Diz gengibre! É um frasco igual, mas não é esse, nem o do piripiri. É GENGIBRE!


Lá trouxe.


- Já agora, não te importas de trazer o frasco do mel? E uma colher?


- Ah, desculpa amor, esqueci-me.


- Não faz mal, amor, obrigada. És o namorado mais fofinho do mundo. :-)


 


Just for the record: limonada diluída e morna com gengibre em pó e mel não faz absolutamente nada à constipação.

Nós também não temos carro, não nos faz grande falta. Usamos os transportes públicos diariamente, para as deslocações casa-trabalho-casa e, se muitas vezes reclamamos do tempo que demoramos e do preço dos passes, logo nos recordamos dos dias como o de ontem, em que tivémos boleia de carro para casa - e chegámos mais de uma hora (!) mais tarde em relação à hora habitual. Mas se um dia decidirmos que podemos e devemos, vai ser uma coisa parecida com esta*. 



 * Não é à toa que digo isto, já há um Leaf na família (modelo actual e não o protótipo do vídeo, naturalmente) e o balanço é muito, muito positivo. As vantagens são imensas, a começar pela poupança incrível e pelos ganhos ambientais. Eu já era fã da Nissan, foi um Sunny o único carro com que tive uma daquelas relações emocionais meio tolas (era conhecido na família como "o melhor carro do mundo", para terem uma ideia), mas o Leaf foi mais longe e as "emissões zero" conquistaram-me completamente.


 

Não falecemos nem fomos de férias, mas temos andado ainda mais baldas no que concerne à actualização do blog. Acho que o motivo principal é não termos nada de especial a relatar e a eterna desculpa de não ter tempo para nada também assenta aqui bem. Para terem uma ideia da pasmaceira da vida na margem certa, relato o meu dia até agora.


 


Acordei à hora do costume, apesar de hoje ser dia de folga (a malta reclama, mas a empresa ainda tem umas coisas porreiras). Arrastei o homem da cama (a empresa dele é menos porreira). Tomei o duche da praxe, vesti-me, coiso e tal. Arrumei quase toda a roupa passada. Fui à cozinha reclamar com ele porque deixou a loiça suja espalhada pela mesa e pela bancada e ameacei matá-lo ou acabar tudo com ele (já não sei bem porque são os argumentos que vou alternando conforme o tempo e/ou a disposição das facas do pão, sujas, em cima da superfície visível). Saímos os dois juntos, como de costume, mas hoje cada um para sua direcção. Fui (finalmente!) cortar o cabelo. Corte valente (os olhinhos da cabeleireira até brilharam quando lhe disse isso mesmo). Disse-me que sou parecida com a minha mãe, cliente habitual. Não é verdade, mas aceito. Deve ser por causa da cara de bolacha. Regressei a casa ainda não eram 8 horas. Tirei selfie para enviar ao babe (para o preparar e minimizar o choque, na verdade). Troquei a roupa pelo outfit de dona-de-casa-abençoada. Lavei uma montanha de loiça, arrumei duas montanhas de loiça lavada. Meti roupa na máquina para lavar. Acabei de levantar a mesa de jantar (porque para ele "levantar a mesa" é mover a loiça suja de uma mesa para outra e mesmo assim consegue ficar loiça por mover - é uma luta com anos, mas jamais irei facilitar ou ceder à visão falocêntrica do "ele até ajuda", comigo não funciona!). Abri a mesa da sala para caber tudo logo à noite, a toalha não é grande o suficiente, torna a fechar uma parte da mesa. Pus a toalha e o centro e umas taças com mimos. Lembrei-me das flutes, torna a lavar mais loiça. E mais umas taças e umas chávenas, é aproveitar a embalagem. Separei uns papéis para a reciclagem. Porra, o vaso da varanda tombou outra vez com o vento. Fiz a lista de tarefas com que vou brindar o babe quando ele chegar. Limpei o chão da casa toda, mesmo sabendo que logo vou ter de repetir a limpeza da cozinha e da sala.Tomei o pequeno-almoço e as drogas do costume. Passei a base nas unhas ("garra de leão"), que estão estranhamente fracas, e a merda da tiróide que não atina. Vim ler uns posts e deixar a quem por aqui passar um abraço sem promessas nem listas de objectivos para 2016, mas com boa vontade, gratidão e esperança genuína num mundo melhor amanhã do que é hoje. Vou decidir o que vou cozinhar e voltar ao serviço à cozinha. E logo vou brindar à saúde, à paz, à justiça e aos espumantes brutos. May the Force be with you!


 

Quando era pequena, adorava ir ao zoo, e tudo o que envolvesse estar perto de animais. Dar pão aos patos no pequeno lago do jardim, observar formigas e lagartixas também. Há várias fotos de mim, no zoo, agarrada às redes, sem ser perceber bem se preferiria que os bichos estivessem livres ou que eu estivesse do lado de lá. Creio que me era indiferente, eu queria era estar com eles, comunicar com eles. Recordo-me de ter a sensação de não me sentir diferente destes animais e achar que comunicava de forma algo telepática com eles. Na verdade, ainda acho um pouco.

 

O que vem nos livros de conservação da natureza e biodiversidade, e com o que eu concordo, é que os zoos têm uma importantíssima missão de educação e sensibilização. É verdade que não se gosta daquilo que não se conhece, e do que não se gosta não há vontade de preservar. Toda a gente está sensibilizada para o perigo que correm os pandas e o seu habitat porque os pandas são giros, são fofos, são engraçados. (As espécies menos fofas também precisam de atenção e é bem mais difícil captar atenções e mobilizar meios de estivemos a falar de répteis com ar feroz ou de peixes feiosos.) Acrescento ainda o papel que os zoos tem em múltiplos programas de preservação de espécies em risco, também pelo aspecto da reprodução em cativeiro, e programas de salvamento e mesmo de reintrodução de animais no seu habitat natural. Tudo certo. Há todo um trabalho muito bom e muito meritório de todo o meu respeito e veneração, mesmo.

 

Mas depois há a realidade. Eu pensava que aguentava e que tinha saudades de ir a um zoo, toda a minha racionalidade alerta confirmava cada palavra que repeti para conseguir convencer o homem, que odeia zoos tanto quanto odeia touradas e animais no circo (como eu), metendo tudo no mesmo saco. Eu tinha de ver os pandas no Zoo de Pequim, tinha mesmo. Lá fomos. O homem sob protesto. Ainda por cima tão barato. E foi duro. Muito duro. Não que as condições fossem más, para zoo, que não são. Mas não só não matei saudades de zoo como até acho que enquanto me lembrar daquele urso não volto a pôr os pés num zoo.

 

Sacana do urso, tão longe da sua casa (ainda que nunca tenha conhecido outra), com aqueles olhos a falarem comigo, a pôr-de de pé quando viu o homem, com ar de súplica, como quem pede ajuda ou só conversa. Os acrílicos entre nós. Outros ursos a vaguear. Os olhos daquele urso a perguntarem "porquê". Os meus olhos desfeitos em sal, os olhos dele a soluçarem. Mesmo a recordação daqueles minutos me dói com o peso de todo o mal que fazemos ao planeta, a nós.

 

Não mais, por favor. Não mais.

Uma moira pessoa (eu) está fora, em trabalho. Uma pessoa liga para o esposo, cheia de saudadinhas e mimo para dar - e receber. O estronço esposo não ouve. Nem à primeira, nem à segunda, nem à terceira. Acorda para a vida quando a pessoa está a jantar com colega de trabalho, fala-se sem grandes intimidades nem cutxi cutxi porque colega está presente (e porque bater no Cavaco é a prioridade). Final de conversa:


Pessoa (eu) - "A gente já fala mais, quando chegar ao hotel ligo-te."


Estronço esposo - "Ah, eu a seguir vou ver os zombies, portanto não me incomodes."



(Ainda ponderei alterar-lhe a password do WiFi, mas sou um coração mole...)

Chegou mais uma edição da Restaurant Week (em Lisboa e no Porto em simultâneo). Nós, pobretanas com gostos de ricos, não desperdiçamos a oportunidade de comer bem por 20 euritos cada. Fãs que somos do Volver de Carne y Alma do Chef Chakall, aproveitámos desta vez para experimentar o Blend Bairro Alto, o restaurante do Ricardo Quaresma, liderado pelo Chef António Amorim e ao qual o Chakall, infelizmente, só dá o nome.


A não repetir. E a comida nem era má.


Começou a chuviscar enquanto já andávamos pelo Bairro, pelo que fomos direitos ao restaurante, uns dez minutos antes da hora da reserva. Reserva essa que eu tinha feito em nome do Tímido, mas que algures no sistema de reservas ou no restaurante perdeu o primeiro nome do homem - ficou com o segundo nome e o apelido, aparentemente. Não importa, lá entrámos, com os casacos e malas e guarda-chuvas - não há local visível para os guardar, by the way, e também ninguém se voluntariou para os guardar num local mais cómodo do que encostado entre a mesa e a parede. Também não interessa.


O espaço é agradável, simples, não muito grande e o forno branco ao fundo, na cozinha, domina a atenção de quem entra. À direita, na entrada, está a mesa de mistura, porque mais tarde o espaço transforma-se num bar com DJ a animar as hostes.


Pouco depois de nos sentarmos é-nos entregue uma pequena carta de bebidas, em que notámos a ausência de mais do que duas escolhas de vinhos a copo (um branco e um tinto, salvo erro, a 6,5€). Ouvimos uma empregada a perguntar a outra se sabia o que era o menú Restaurant Week, e esta questinou-nos se sabíamos qual seria a ementa. Eu disse que tinha uma ideia, mas já não me recordava exactamente. Igual ao litro, em nenhum ponto do jantar alguém apresentou os pratos, explicou os ingredientes, nada. 


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Pedimos um refrigerante (3€) para ele e uma água de 0,5 L. A água (2€), provavelmente da torneira, é servida numa garrafa de vidro com o logotipo Blend.


O couvert consistia numa pequena taça com azeite e balsâmico no fundo e um pequeno recipiente com pedaços de 3 ou 4 pães diferentes, que não chegámos a terminar porque pouco tempo depois de chegar a entrada a empregada de mesa chega-se perto, diz apenas "com licença" e retira-o. E que falta que fazia um pedacito de pão para rapar a tacinha de esparregado, em ardósia, sobre uma outra tábua de ardósia, como durante todo o jantar, e que não dá jeito nenhum para comer com garfo!


O tataki de atum veio salvar a situação, porque estava realmente muito bom, no ponto, sem cozinhar demasiado o peixe (ou então sou eu que, como sou absolutamente fanática do atum fresco, sabe-me sempre divinalmente), bem como a palha de alho fracês, bem salgada e suculenta. Já o esparregado não se distinguia do de compra, daquele congelado. Serviu para suavizar os aromas fortes do atum e alho francês, e só.


Terminada a entrada, lá se vai a ardósia e nós ficamos sem saber bem o que fazer aos talheres, ali em cima do cartão (pois, não há toalha de pano, só um cartão cinzento, qual barraca de fast food), o que incomoda as pessoas mais picuinhas e a atirar para o obsessivo-compulsivas (presente!).


Chega o prato principal: risotto de pato com redução de laranja, numa tigela de ardósia ladeada por sal grosso e pedacinhos de cebola frita desidratada (fez lembrar uma que costumo comprar em caixas de plástico no Ikea). O risotto estava bastante bom, adocicado da laranja, cremoso e gordo, com lascas de pato em cima. Pena ser pouco: pouco pato e o tamanho da dose simplesmente insuficiente. Fazia falta algo mais ácido para desenjoar, uma salada ou um legume verde.


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Outra empregada, mais polida que a primeira, pergunta se a comida estava do nosso agrado, anuímos, deseja que o doce também seja do nosso agrado. E é aqui que a pior surpresa da noite veio terminar o jantar. Reserva-se e paga-se um menú de 20€ para cada pessoa e, chegada a hora da sobremesa, colocam dois pratos, duas colheres, e entre os dois uma única sobremesa. Mousse de chocolate crocante, que é uma base demasiado espessa de bolacha com uma rodela de mousse demasiado seca para o meu gosto pessoal, de chocolate amargo e com um pouco de sal por cima. No lado vago da ardósia ficam umas migalhas da bolacha, mais sal e - pareceu-me - amendoim torrado. Digo pareceu-me porque, ainda estávamos a compôr-nos do choque de termos de dividir uma sobremesa e lá vem a empregada de mesa do início, "com licença", e lá se vai a arsósia com as nossas migalhas e/ou amendoim (eram migalhas mas eram nossaaaas!!!). Incompreensível! Havia mesas vagas (mesmo a nosso lado, a mesa dupla nunca foi ocupada enquanto lá estivémos), mas parecia claramente que nos estavam a despachar. Assim sendo, fizemos-lhes a vontade, nem pedimos cafés, pagámos e saímos, a interrogar-nos onde podíamos ir jantar a seguir. Vá lá que tínhamos lanchado tarde, porque se tivéssemos poupado o apetite teríamos mesmo saído com fome do restaurante.


Só porque fiquei na dúvida se o menú teria ou não a indicação de haver uma sobremesa a partilhar por cada dois é que não fiz uma reclamação escrita (das que eu gosto tanto!). Arrependi-me. Quando a empregada menos carrancuda repetiu a pergunta se as sobremesas estavam do nosso agrado ainda retorqui "A sobremesA", mas a reacção não deu lugar a mais questões. Um outro empregado que apresentou a conta (com simpatia e à-vontade) ainda perguntou se estava tudo bem, e eu disse que sim mas continuava a preferir o Volver. Explicou que o conceito era diferente (bastante, confirma-se) e que o Chef Chakall aqui era apenas um consultor, ia lá de vez em quando ver se estava tudo bem... Realmente, não há termo de comparação. O Volver dá mil a zero ao Blend, seja no espaço, na simpatia do atendimento, na variedade da carta, na atenção aos detalhes e, sobretudo, na comida.


Chegados a casa confirmo que no menu da Restaurant Week não existe qualquer menção à partilha de uma sobremesa (pelo contrário, a indicação é de que o menu inclui Entrada + Prato + Sobremesa) e questiono directamente a organização (cuja resposta ainda não nos chegou), bem como o restaurante, através do seu facebook. Pergunto: se o número de convivas fosse ímpar, quantas sobremesas teriam servido? O restaurante responde com meias palavras e aparente surpresa por mais ninguém ter reclamado. Really?!


A surpresa, meus caros, é minha, e tão grande quanto a certeza: a mim não me enganam mais!


 


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Esta manhã, enquanto nos vestíamos.


 


(Eu) - Xiii, há que tempos que não conseguia meter-me nestas calças!


 


(Ele) - Ai é, amor, estás a engordar?


 


(olhar fulminante enquanto constato que para ele dá igual que eu fique mais ou menos obesa)


 


(Ele) - A emagrecer, eu queria dizer emagrecer. Mas olha lá, as calças devem estar apertadíssimas, não?


 


A dúvida é: mato-o com porrada ou com veneno na sopa?

Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça! 


Aplicações para smartphones (algumas exclusivas para iOS mas muitas também para Android) desenhadas a pensar nos casais!


 


Há de tudo, desde aplicações que funcionam como redes sociais privadas, como a Couple, a qualquer coisa que funciona como um walkie-talkie (HeyTell), outras que ajudam a organizar eventos, tarefas e memórias da vida em comum (Simply Us e Avocado), jogos marotos (Dirty Game - Hot Truth or Dare) e até uma app que ajuda a resolver as discussões do casal.



 


Em breve, review das apps Between e Couple.


 


Fonte

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Podia ser o final da história, como tantas outras noites. Mas não, o babe quis ser mauzinho e deixou a donzela a dormir no sofá até perto das 3 da manhã, quando ela acordou espontaneamente e foi a cambalear para a cama enquanto lhe chamava nomes entredentes.

Quase nove da manhã. Ela acordou com dores na coluna recauchutada e nas cruzes e em todo o lado, e nem sabe para onde se virar. Ele deu massagem e beijinhos? Não. Ele ronca.

Que não haja sombra de dúvidas: o mais querido e especial dos homens é o meu, é o meu tudo, o Grande Amor da minha Vida. Entendemo-nos lindamente e raramente temos uma zanga ou discussão. E, quando as há, o motivo é, invariavelmente, um: a desarrumação. O tipo é desarrumado, desorganizado e desleixado à quinta casa. E eu sou um tudo-nada obsessiva-compulsiva com as limpezas e arrumações. Mas também sou defensora acérrima da divisão equitativa das tarefas domésticas. Portanto, nada de fazer o que lhe compete a ele só para evitar gigantes crises de nervios. Respiro fundo, conto até 100 e penso em azul, aponto-lhe calma e delicadamente as tarefas que está a negligenciar, uma e outra e outra vez. E depois lá virá uma vez em que não consigo contar nem até três e estala-me o verniz, e fico com a crise de nervios, e ele bufa e resmunga e lá vai fazendo uma parte (porque fica sempre qualquer coisa no esquecimento!) e eu evito fazer as fitas que ouvimos nos vizinhos do lado (tenho de arranjar tempo para vos vir relatar, que é melhor que novela mexicana).

 

Somos uns privilegiados, porque temos ajuda uma vez por semana, não temos de nos preocupar com passar a roupa a ferro e uma parte das refeições. E tudo o resto será muito mais fácil se arrumarmos depois de usarmos, se limparmos depois de sujarmos, o óbvio e básico - para mim e para vocês. Mas para o homem está difícil de entender...

 

Sabem aquelas mulheres que dizem que é melhor os maridos não fazerem isto ou aquilo porque não têm jeito nenhum, e ainda deixam pior do que estava? Aqui essa conversa não pega. Isso é o que eles querem ouvir, estimadas leitoras! Assim, vão sempre agarrar-se a esse argumento e passam a vida toda sem mexer uma palha! Eu acho precisamente o oposto. Se não sabe fazer, entra em fase de estágio e vai fazer quantas vezes for possível para aperfeiçoar a técnica. De modos que o eterno estagiário já domina certas competências, outras ainda estão numa fase muito rudimentar, mas o problema maior parece ser a epidemia que afectou personagens como Cavaco SilvaZeinal Bava, Pedro Passos Coelho, Vítor ConstâncioHenrique Granadeiro ou Ricardo Salgado: a fraqueza da memória.

 

Um flagelo, a amnésia selectiva! Vejam bem que, sem a minha voz a lembrar docemente que "dá o mesmo trabalho levar a loiça suja da sala e colocar em cima da mesa da cozinha ou colocar na máquina de lavar", que "não são necessários 10 pares de sapatos à porta, podem bem estar dentro do armário" e outras coisas parecidas, estes pormenores escapulem-se da cabeça do gajo.

 

Ao contrário do que é normal, o homem hoje saiu de casa 2 horas depois de mim e eu cheguei muito antes dele. Contava, portanto, encontrar a casa minimamente arrumada. Em vez disso, encontrei:



    • o toalhão de banho dele enrolado em cima da cama;

 

    • roupa suja dele na mesa-de-cabeceira (o quê, não é o melhor sítio para a colocar?!)

 

    • a roupa passada que pedi para ele pendurar no roupeiro, exactamente no mesmo sítio;

 

    • um rasto de migalhas na cozinha (tábua de corte e faca de pão onde? em cima da mesa, claro);

 

    • um pacote vazio de manteiga e respectiva faca suja em cima do balcão;

 

    • o saco do pão aberto, com um naco de broa de milho (de que ele não gosta) a enrijecer para mim;

 

    • loiça suja espalhada entre o lava-loiças e a mesa da cozinha;

 

    • o resto do jantar no frigorífico... dentro da panela... destapada.



Por isso, e porque amo muito o meu homem, vim descarregar um bocadinho para o blogue e vou já de seguida dedicar-me à cozinha, a pensar nele. :)

 

Há mesmo casais que partilham tudo. Muito para além de casa comum, carro, conta bancária. Há casais que partilham até a conta de Facebook. Vocês também os conhecem, andam aí pelas redes sociais com nomes maravilhosos como "José Carla" ou "Vítor Sónia" ou "Mónica Paulo". E isso deixa-me com profundas questões filosóficas.

 

A privacidade, para começar, onde fica? Será que duas pessoas abdicam da sua individualidade, da sua identidade, e não lhes parece nem um pouco estranho? Acham mesmo que a partilha sem limites é sinónimo de amor e de cumplicidade? Para mim vai tudo culminar na perda de liberdade, de autonomia. Não vale tudo, por excelente que seja uma relação, tem de existir uma linha (mais flexível ou mais rígida) a partir do qual o outro deixa de ter de saber ou tem uma palavra a dizer. Isto também é respeito. Já para nao falar dos "amigos" na rede social que têm todo o direito de só pretender manter uma relação virtual com um dos elementos do casal, ou partilhar certos conteúdos com apenas um e, por arrasto, ter de o fazer com mais uma pessoa.

 

E quais as razões para nascerem estas aberrações de duas cabeças? Será para poupar alguma coisa - porque não sabem que as contas são gratuitas? Será que um dos elementos do casal insistiu muito para fundirem as contas pessoais com meio milhão de argumentos válidos, do tipo "é mais giro assim" ou... hmm...  (Não me ocorre rigorosamente nada!) Isso parece-me, claramente, que arrasta um certo grau de desconfiança ou necessidade de controlo da outra pessoa. E já devíamos todos saber que o ciúme desmedido e outros comportamentos obsessivos numa relação de casal são um caminho muito perigoso...

 

Quero um homem que não tenha medo. Que não tenha medo de se dar, de arriscar, de ser magoado, das consequências e dos erros. Quero um Homem com H grande, mais que um miúdo. Quero que não tenha pudores em entregar-se às emoções, que não seja mesquinho e não considere que abandonar uma ideia é negar-se a si próprio. Quero um homem que me acorde a meio da noite com beijos de desejo e que se enebrie no perfume dos meus cabelos. Quero um homem que não tenha receio de falhar e que queira sempre mais e melhor. Quero um homem que me cante à janela e me escreva poemas para me conquistar, que me diga sempre toda a verdade que lhe dita o coração e a alma. Quero um homem que saiba ler os meus olhos mas não se assuste com as minhas palavras. Quero que tenha palavras iguais às minhas e as coloque todas a uso. Quero um homem que me fotografe à socapa e me deixe bilhetes pela casa. Quero um homem artista, que encontre beleza onde os outros não a vislumbram. Quero um homem muito inteligente, que resolva equações de cabeça e que me dê enigmas para decifrar. Quero um homem poeta, bem resolvido consigo e com o passado, ansioso de abrir as asas e voar. Quero uma companhia para tardes de cinema, que goste de pipocas salgadas e de mãos dadas no escuro. Quero um homem que procure as minhas mãos com as dele enquanto dorme. E que goste de mãos dadas de dia, de abraços e beijos no meio da estrada, que se apaixone de cada vez que eu lhe salte para as cavalitas ou faça um ataque de cócegas. Quero um companheiro para todas as viagens, que oiça música nos carris de ferro e com quem possa partilhar silêncios. Quero um homem despreocupado, independente e rebelde, quero um homem com mau feitio, opinativo e determinado. Quero um homem sem fé mas com esperança, que veja nas improbabilidades oportunidades de magia. Quero um homem que adore perder-se em mercados e nos aromas das frutas frescas, que ande descalço na relva e me escreva o nome na areia. Quero um homem culto e honesto, bondoso e sensível. Quero um homem que cheire a lavado e que se arrepie quando lhe roçar os dentes na barba. Quero que me olhe com uma expressão de adoração, paixão, tesão. Quero um homem que saiba beijar como eu gosto, com doçuras, que saiba tocar-me a pele com a ponta dos dedos. Quero um homem que não me faça promessas, que me descubra tesouros e me abrace com força. Quero que partilhe o sono, os sonhos e pesadelos comigo. Quero um homem para rir em gargalhadas inconvenientes e com quem chorar a tristeza. Quero um homem sem dúvidas e que veja para lá do óbvio. Quero um homem educado e gentil, instruído e criativo. Quero um homem que me surpreenda. Que me vende os olhos e que me dê a provar à boca a comida dele. Quero um homem que me proteja sempre com a verdade. Quero um homem que me respeite, que me coloque acima de todas as coisas e que tenha orgulho em mim. Quero um homem com estrelas no fundo dos olhos. Quero que me dê flores só quando o momento não seja de comemoração, quero que se esqueça das datas mas que recorde todos os momentos. Quero um homem que nunca fique comigo contrariado. Quero que compreenda que às vezes, preciso de estar sem ele e que não o amo menos por isso. Quero um homem fiel a mim e sobetudo, a si próprio. Quero um homem que não diga “talvez” se sabe que a resposta é “não”. Quero um homem despenteado, das ideias. Quero um homem sem planos para amanhã, um companheiro de aventuras e traquinices. Quero um homem que me ame desalmadamente, com toda a alma, até que a alma doa se não me tem.

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