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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Nem sempre há palavras. Nem sempre se traduz em verbo aquele conforto que se quer ofertar, aquela quentura que reside entre dois braços enrolados. Queria dizer-te este abraço e não soube como. Queria dizer-te de modo quente, sólido, suave, como uma constância, como uma certeza. Queria dar-te o mesmo que te dou quando deixo o nariz divagar na tua barba, com aquela doçura provocadora com que te afago o pescoço. Queria ser eloquente como naqueles beijos intermináveis em slow motion em que nos damos sem nunca deixarmos de ser o antes e o depois. Queria ter o dom de dizer-te as coisas belas que me dizes quando um sorriso se abre, quando as reticências convidam. Nem sempre há palavras. Tenho de esperar que saibas ler-me o olhar.

(publicado originalmente a 07.12.2010)


 


 


I gave up on you a number of times. Each one, you stopped me. You made promises and begged me not to walk out the door. A few times, I was just so tired of the loneliness, of the emptyness, of the distance, that Ireally did walk out the door. And you came and get me later on. And again, the promises. I tried, so very hard, to believe you. I did for a while. Then I just kept waiting for a miracle. And the miracle never happened. I was so tired, so hopeless... I tried every way to make you stop me from giving up on you.


And then you gave up on me and opened the door.


 


Someday, when I'm strong enough, I'll write everything and call it a screenplay. A mad woman will play me and a shallow man will play you.


 


 

Tenho conselhos para te dar. Ofereço-tos de bom grado. Tenho abraços e sorrisos, tenho mimos e ternuras. Tenho a capacidade de encontrar sempre um lado positivo, tenho optimismo, tenho vontade de seguir em frente. Tenho-te uma amizade profunda, um bem-querer que se sobrepõe a tudo, e o tudo é tanto mais do que imaginei.

 

Tenho uma luzinha ou um farol, consoante o que precisares. Tenho as mãos livres. Posso ajudar a suportar a carga, ou só apertar as tuas. Tenho esperanças depositadas a prazo em ti. Sempre tive. Tu sabes, tens contigo todas as evidências.

 

Tenho-te tatuado também.

 

Tenho ideias, projectos, sonhos. Tenho ferramentas. Tenho um filme por viver. Tenho tempo. Tenho soluções para quase tudo, recordações e amnésia. Tenho as convicções de sempre, inabaláveis. Tenho vontade, tanta vontade, e a força de leoa que deixei cair aos teus pés.

 

Tenho pena...

 

 

 

Tenho tudo, só não te tenho a ti.

 

 

 

Na semana deserta entre o Natal e o Ano Novo, chovia o Chiado todo com aquele cheiro de ciclo prestes a recomeçar.


Debaixo do toldo que ainda cheirava ao doce dos crepes ao lado, dois espelhos de frente um para o outro devolvem-se o que são, uma fuga apressada e uma pausa em contemplação.


 


"Se não estivesses caidinha por mim, podíamos ter aqui uma bela amizade." desviou-se o espelho da moldura.


 


 


 


 



 


 


 


Nunca pensaste que falasse a sério quando disse "nunca mais".


Nunca achaste que fosse forte o suficiente, que valesses tanto ou tão pouco.


Nunca me conheceste. Nunca te ocorreu que das palavras se fizesse lei.


Nunca sonhaste que depois do "nunca mais", nunca mais um som, nunca mais uma aproximação, um acidental piscar de olho.


Nunca imaginaste que depois do "nunca mais" fosses tu a esticar um dedo na escuridão.


Nunca acreditaste que fossem os teus olhos espantados a travar e todo o meu gelo a dizer-te o que só nos silêncios se ouve.


Nunca viste o que era mais óbvio.


Nunca mais, ninguém. Nunca mais.


 


 

Encontraram-se sempre e não sabiam. Todo o tempo em que se pensavam separados. Encontravam-se à revelia sem ser notados. Nem mesmo eles se apercebiam. Não era num lugar qualquer, nem da forma mais vulgar. Era um lugar paralelo. Descobriram que ambos não sonhavam, e que era enquanto dormiam que se encontravam. E não sabiam.


Sempre que dormiam, viviam. Um e outro, um para o outro, quebravam as barreiras do visível. Entregavam-se em conversas intermináveis à luz de beijos que os cobriam. Inebriados de saudades antigas, ignorando a vida que do outro lado prosseguia. Confidentes eternos. Amantes impossíveis, enlaçados num só corpo misturado do outro, até ser dia. Embriagados num licor de vida, que espuma o ardor da realidade intransponível.


Encontram-se, à noite, todos os dias. E quando todos pensam que dormem, eles vivem.


 


Closet, 14-11-2010

Num dia de Verão em que o frio existia lá dentro, no peito, escuro e húmido como uma gruta, ela impôs-se diante do espelho: não mais! Destino ou coincidência ou um acaso daqueles que ficam atrás da orelha, o retorno da vida não se fez esperar. Uma achega da Yoko Ono e sem ninguém perceber, foram lançados os dados. Começou assim, de mansinho, uma porta cerrada a destrancar-se. E depois bateu, empurrada pelo vento e pela Luz, e ela deixou-se inundar com a torrente que lhe levantou os pés do chão.

 

Ela sonhava com um primeiro olhar no silêncio sepulcral da Lua, sonhava com mãos que se reuniam depois das promessas, num encontro de velhos amigos. Sonhava com olhares lânguidos e sorrisos a brotar por detrás. Sonhava com ideais avessos e com realidades mais cruas. E todo ele foi surpresa, choque, demorou-lhe um pedaço a digerir a distância entre a imagem criada e a real, que ali se apresentava sem fraquejar. A digerir também alguma decepção, que o início não teve silêncios nem mãos entrelaçadas. Nenhum silêncio, aliás, que a conversa fluiu como cerejas maduras no pico do Verão, como aliás o tinha sido antes. Ela tremia, rodeada das mil e uma dúvidas que tanto acarinha e que parecem sempre estar presentes nos instantes decisivos. A cabeça a mil à hora, apesar de tornar sempre à mesma questão “o que é isto que me está a acontecer?”.

 

Ele, sempre a superar o nível de irrealidade.  Poesia, sempre a poesia tão azul.

 

 

 

 

Uma vez, ele dissera-lhe "escreves bem, deveras". Como se com um espanto de estreia. E o que sabe ele senão do labirinto solitário que habita aquela cabeça? Uma outra vez, chamara-lhe "linda". Por engano, certamente, na escuridão em que se soltam as pálpebras e o pensamento ainda reside no sonho. Uma vez, embrulhara doçuras ácidas num coração. Não era o dele, seguramente, pois nem gelava nem pesava o peso de chumbo em remorsos de ausências.


Gostava da maneira como fotografava a natureza. Achou-a uma excelente conversadora. Viu-lhe potencial para uma bela amizade. Contava-lhe segredos. Tirava dúvidas. Desabafava erros passados e excitações. Era a sua companhia preferida. Quis seduzi-la. Sentiu-se intrigado e enlouquecido. Ria muito e sorria de verdade. Ponderou propostas indizíveis. Não soube respostas. Teve medo e nunca recuou. Magoou-a. Repetiu. Pediu desculpa. Insistiu. Cedeu a todas as tentações. Assumiu o que procurava.


 


Foram mal entendidos, ilusões. Cada beijo uma mentira. Cada convite, a solidão. De mãos dadas, o egoísmo. Apenas momentos. Muitos, durante bastante tempo para haver equívoco.




 










 


É, só eu sei 
Quanto amor eu guardei 
Sem saber que era só prá você


É, só tinha de ser com você 
Havia de ser prá você 
Senão era mais uma dor 
Senão não seria o amor 
Aquele que a gente não vê 
O amor que chegou para dar 
O que ninguém deu pra você


É, você que é feita de azul 
Me deixa morar nesse azul 
Me deixa encontrar minha paz 
Você que é bonita demais 
Se ao menos pudesse saber


Que eu sempre fui só de você 
Você sempre foi só de mim


Que eu sempre fui só de você 
Você sempre foi só de mim

Por Nuno Francisco, no Jornal do Fundão


 


A infelicidade dos dias vencida naquele beijo. Expiação de horas infames, de reflexos ingratos de um despudorado adeus. Tudo esvaziado num frémito naquela insignificância de mesa onde não cabiam quatro cotovelos e duas chávenas de café.


O reencontro deu, agora, ao tempo uma forma de interminável vagar, feito respingo de saudade emergida de um pretérito que, por fim, se vingava. Era a hora da justiça possível com as as armas que se tinha: o amor adiado. E que se considerava perdido, algures. Para sempre.


A ruína da crença começou naquele momento, algures em mil novecentos e noventa e qualquer coisa. Setembro. Sei o mês, mas não sei o ano. Sei, porque uma brisa de Outono encobriu o adeus. Sei que houve um “Adeus” sem choro. O dele e o dela. Fortes, mas transvestidos de mentira.


Era tudo uma mentira!


Éramos mentirosos!


Uma resignação, uma sobressaltada calma acabou por chegar porque ninguém se atreveu a dizer o que quer que fosse. Não fossem as lágrimas saltar. Como saltariam depois e depois e depois e depois e depois. Ao arrepio de testemunhas.


Lá fora, naquela poeirenta estrada, alheada do mundo, um encontro demasiado improvável para este dia que sobrevivia como qualquer outro, insípido, arrastando-se para o ocaso. Também aqui dentro deste café perdido nos desertos da memória, estávamos alheados. Víamos, agora, lá fora os desencantos moribundos de um passado de equívocos, um qualquer tormento que rola por entre tufos embrenhados em vento.


Corre vento, corre.


Repousamos em terra de ninguém, lá fora o carro, a denunciar a emergência do encontro. O acaso chamou a atenção para este cadillac vermelho, sempre descapotado, imutável desde a última vez que nos vimos, ainda felizes, a anteceder o adeus.


Era o carro dela, como se pudesse não parar...


- Ainda tens as mesmas rotinas... enganar a tristeza em grande velocidade, furiosamente de cabelo ao vento por esta estrada feita de pó, tragada pelo deserto...


- E tu? Não te vejo nesta estrada a fintar as tristezas...


- Foi o acaso, ou... não, não sei... precisava de voltar a passar aqui... porque sim...


Era teu o carro, a tua matrícula, era tudo como sempre fora. Menos a idade. Estamos mais velhos. Mais maltratados, mais unânimes e aconchegados à mediocridade. Estamos menos dispostos a mudar o que quer que seja pelo que quer que seja. Mas parei.


Como poderia não parar?


Naquele café à beira estrada, estava o cadillac vermelho que não via há mais de dez anos. Desde que conheci o último dia de felicidade.


- És feliz?


- Como vês, continuo a fazer esta estrada....


- E tu.... És feliz?


- Estou refém da saudade...

Ando a poupar. Sou poupadinha por natureza, mas dei por mim a amealhar, a fazer um pezinho de meia. Ora são fotos, ora palavras, ora pensamentos esvoaçantes, todos guardados numa pastinha, a aguardar melhores dias, ou a ocasião em que os possa oferecer, celebrar, divulgar. Pois é, ando a poupar miminhos para quando o amor me raptar da realidade. E ele virá, eu sei que sim. E quando vier, vou esbanjar tudo o que tenho, que ele merece tudo assim duma vez, nada de contenções nem de prudências. Amar é tudo, é todo.


Ninguém faz ideia do quanto eu quero fazer aquela alma pular de alegria, de felicidade a rebentar pelos ouvidos. Aquela, mais nenhuma.


 


Ele agarrou-lhe a mão, e ela agarrou-lhe as mãos, e ficaram de mãos agarradas, primeiro a olharem para as mãos, depois levantando lentamente os olhos, que por fim se encontraram, perdendo-se uns nos outros, sem já saber quem via ou era visto, os olhos ao mesmo tempo a verem e a serem vistos, nus, sem qualquer pudor.





Pedro Paixão in "Muito, Meu Amor".


 

 Nunca tinha sentido a pele a reivindicar tanto um toque, como um pólo dum íman debaixo dela, da pele, a chamar, a instigar o outro. Duas peles que têm apetite pela outra, que partilham temperaturas e o mesmo cheiro.

É muito mais do que a pele, porque é tudo o mais no seu expoente máximo. Mas é, sem dúvida, toda a pele. Toda a mordaz tentação a que o tacto não consegue resistir.

É a química, as feromonas que se encaixam tão na perfeição. É o fogo líquido que exige ser saciado.

É a textura de leite nos ombros e naquela curva que eu gosto, no pescoço. É um lóbulo da orelha mordiscado, e depois o outro, lambido. É a ponta do meu nariz a acariciar os mamilos, a subir até ao queixo, a aspirar com vagar e dedicação os aromas das maçãs do rosto ali ao lado.

 É a doçura que derreto e faço pingar em cada gesto e o picante dos sentidos atiçados.

É a pouca vergonha com que me toca. É o umbigo perfeito a beijar o meu num namoro provocante. É a ousadia do joelho que me arrepia as coxas.

É a força nos braços que me guiam e os lábios sempre tímidos a revelar segredos monossilábicos. É a masculinidade imponente, a rebentar de vigor. São os dentes esfomeados nos meus seios e os dedos curiosos nas minhas costas. É a língua, deliciosa e exploradora. São os dedos, enterrados na posse dos corpos.

É o arrepio do abraço pela cintura e a audácia do ritmo inconstante.

Dois desejos entrelaçados, num festim de sexos húmidos e de carnes palpitantes.

É o sal de lágrimas e suor.

É o momento em que o tempo pára para contemplar o prazer.

É a expressão dos olhos fechados, límpidos, inegáveis. É a posição em que dorme cansado e a vontade de tornar a cansá-lo.

 

 

 

 

Sim, continuo a sonhar acordada com uma cena digna de filme, vista de bem perto, mas ao lado.


Ela chega a casa mais tarde do que o costume, desejosa de um duche e do conforto do sofá. Está alguém de pé, junto à porta, de costas. Ela sobe os degraus com a chave na mão e prepara-se para evitar contacto visual com o suposto vizinho ou visita de vizinho. Ao aproximar-se, reconhece a posição, as pernas, o casaco. O coração tenta saltar pela boca no momento em que esta ia começar a balbuciar um “boa noite” tímido e incógnito. Não chega a dizer nada. Ele vira-se e os olhos dele encolhem, de surpresa, alívio e terror. “Pensava que não me querias abrir a porta. Boas noites.” “O que estás aqui a fazer?” – responde ela com o tom mais seco que consegue e a chave ainda imóvel a meio caminho da fechadura. E são as últimas palavras que trocam naquela noite.


 


Se viesses fazia-te um chá. Mostrava-te o quadro que quero pintar. Se viesses perfumava a casa toda com aroma de maçãs verdes e dava-te um abraço para te receber. Se viesses verias os meus olhos a brilhar, e sorrias a confirmar todas as certezas. Se viesses dava-te aquela romã, adoçada. Far-te-ia uma festa na cara e no cabelo. Se viesses eu ria muito e tu também. O tom de voz estaria mais elevado e agudo e o sol brilharia com mais força, até de noite. Se viesses mostrava-te a lua a reflectir no rio e as copas das árvores prateadas. Se viesses ficava contigo na varanda, a combater o teu frio. Dava-te a mão e o resto, pela alma fora.


Se viesses, eu ia gostar e tu quererias ficar.


Quando vieres, não vou deixar que te vás.


 




Hoje acordou minutos antes do chilrear que sairia do despertador do telemóvel, pousado estrategicamente no apoio de cabeceira, perto o suficiente da mão preguiçosa que normalmente o calava duas vezes antes de a cabeça despertar na mentalização de que teria eventualmente de sair da cama morna. Hoje deixou-se ficar um pouco, de olhos vagueantes pelo quarto. A cama que sempre ocupa só pela metade esquerda pareceu-lhe mais vazia, como se o seu corpo ocupasse menos espaço e se tivesse intimidado perante a outra metade, cheia de ninguém, lençóis imaculados, sem rugas. Não tinha dona, aquele espaço. Talvez só à figura que ia imaginando, persistentemente; que não queria ocupar aquele vazio, na sua cama e no seu coração, já há bastante tempo. Hoje não esqueceu que desejava ser acordado pela mulher que amava e que se tinha tornado um pano de fundo, quieto e pesado, nos últimos anos da sua vida. Nunca o esquecia; nunca A esquecia. Mas hoje não sentiu a falta dela a dormir em silêncio a seu lado. Hoje esboçava um sorriso por dentro, pensando na possibilidade de vê-la - outra mulher, amiga, que essa sim o amava desde antes de o encontrar. Hoje não calou o som dos pássaros que imaginava patetas e alegres, saltitando no paial da janela; sempre amenizavam mais o despertar de insuficientes horas de sono que o apito estridente de que o resto do mundo parecia ser adepto. Dava-se a pequenos luxos, brinquedos quase todos electrónicos, que lhe permitissem um maior bem-estar. Gostava de si, do seu umbigo e apesar da usual relutância em gastar os cobres que ganhava, com um trabalho de que normalmente gostava e o mantinha entretido várias horas por dia, não se importava de gastá-lo em pequenos mimos, talvez tentando suprimir a falta de aconchegos mais etéreos e emocionais. Telemóvel que nem é de gama muito alta, pensou, mas o som é porreiro. Quase que parecem os sons do acordar do fim-de-semana. Esgueirou-se agilmente de entre os lençóis e rapidamente completou a sua rotina matinal, o banho, a barba. Cantarolou qualquer coisa em frente ao espelho, com o seu jeito de rapazola, abanando tímida e descoordenadamente os ombros e o crânio, enquanto passava a máquina pela cara e pescoço. Deteve-se um segundo e pensou que ela mencionava amiúde a predilecção por barbas de uma ou duas semanas. Tomou cuidado na escolha da camisa, apesar de saber que ela nem repara nesses detalhes. O que ele nem sempre se recorda é que ela gosta dele de qualquer maneira, amarrotado ou roto, de fato e gravata ou descalço, de calções ou despido. Colocou uns borrifos de perfume, viria ela a presumir que para lhe agradar. Ela não tinha pensado nele naquele dia, não na possibilidade dum fugaz encontro, o que lhe causou estranheza quando reflectiu. Talvez se tenha habituado às ausências, sempre presentes.

 


A música que toca quando te vejo

O modo como rimos juntos

Doer no peito cada dor tua, mesmo as que me magoam mais a mim

Sentir que conhecer-te foi das maiores dádivas que o Universo me podia ter dado

Rever o teu sorriso nos poemas do Eugénio

Guardar cada abraço como um tesouro

Colocar todos os males do mundo em “pause” quando a tua mão procura a minha

Partilhar aventuras contigo que mais ninguém partilharia

O código do meu cadeado ser a tua data de nascimento

Os lírios, tristes, de cada beijo

A ternura com que te ajeito o cabelo

Dar-te impulsos para voar em vez de te querer prender

Acordar a sorrir porque estavas a meu lado

Desde o dia em que te conheci, seres um “brilhozinho nos olhos”

Ter-te dito, com o mesmo espanto com que o assumi, quando descobri que a Paixão por ti havia marcado a minha existência

Passares a mão na minha anca e dizeres “assim deixas-me maluco”

Sonhar que o inimaginável é possível, contigo

Atirar-me dum avião contigo

Chorar à tua frente, chorar contigo e por ti

Despir-me à tua frente

Ser-te sempre honesta e verdadeira

Equacionar-te para pai dos meus filhos

O inegável carinho

Partilhar a minha escova de dentes contigo

Ter pedido que te dessem a ti a oportunidade que também te pedi

Ser acordada pelo teu desejo

Fazer um test-drive contigo

Ver filmes indianos contigo

Fazer Amor contigo

Falar contigo de tudo, como se fosse só comigo

Dar beijinhos nas tuas feridas para que sarem mais depressa

Massajar-te os pés

Ter escrito sobre ti num dos jornais mais lidos no país

Adorar o teu rabo, as tuas bochechas e as rugas nos cantos dos olhos

Pedir-te, de coração aberto, uma oportunidade de provar o quão felizes podemos ser juntos

Comermos gelados juntos em três continentes diferentes

Dedicar-te uma música na rádio

Fazer uma aposta no euromilhões por ti, e a chave ser premiada

Tu gostas de doces, eu sou doce e chamo-te docinho

Ter sido tomada por tua namorada ou esposa mais que algumas vezes

Gostarmos das mesmas coisas

Termos o mesmo sentido de humor

Apoiares-me em todas as aventuras tresloucadas, e vice-versa

Defender-te quando um amigo tem vontade de te partir a boca para me defender a mim

Terem-nos desejado "a happy married life"

Dares-me à boca a tua comida para eu provar

Ser a primeira pessoa a quem recorres quando precisas dum favor ou dum ombro

Vermos a Via Láctea e estrelas cadentes de mãos dadas, deitados nas dunas

Amar-te incondicionalmente até que o Sol deixe de nascer

 


 


 


Motivos para te esquecer, sei-os de cor. São mais que muitos. Repito-os todos os dias, sempre que o pensamento resvala para ti. Percorro na memória tudo o que me disseste, cada uma das palavras mais cruéis que se pode ouvir. E oiço a voz da razão, da lógica, de cada amigo que me ampara e aconselha. E sei que consigo, nunca duvidei. Não são as forças que me falham, não é a razão, nem a ausência de esperança, que essa vais destruindo até só faltar um último pedacinho.

Culpar-te, por insistires, por não me deixares morrer em paz na tua vida, por me procurares, depois de eu dizer não mil vezes. Culpar-te, por seres assim, surreal, ideal, perturbado, como eu gosto. Maldizer o dia em que ouvi o teu nome e cada um dos mil acasos que te trouxeram a mim. Não adianta e eu sei que não. Hoje, não. Por muito que o amor seja o sentimento mais forte do mundo, por muito que eu desse tudo, tudo, por ti. Não posso convencer-te que me amas. Nem quero.