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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

É engraçado, não é? Podia estar aqui do topo dum pedestal a dizer que é bem-feita, que ela merecia o que teve, por ter sido falsa, por me ter mentido (e provavelmente não só a mim), por se ter feito desinteressada quando o ego clamava por atenção. Se calhar é uma daquelas formas de justiça do universo em que às vezes escolho acreditar, não sei. Preferia que tivesse sido feliz para sempre. Lamento que não esteja ainda nesse trilho. Vasculhei os cantos, e nada. Nem vestígios de rancores, nem de sede de vingança, nem de prazer de saber que o amor também morre nas mãos de quem apunhala amores alheios. Pena, só. Pena da pessoa que imaginei ter existido e pena mesmo da pessoa que não sei quem é por trás das aparências.


Eu não a conheço, não sei que tipo de pessoa será. Foi isto, ipsis verbis. Ninguém merece certas dores.

Os anjos não existem, as sereias também não. Já princesas, ainda há uma ou outra, bem reais. Que vivem (mais ou menos) na terra, às vezes pelas copas das árvores, às vezes na Lua. Mas não te obrigam a abdicar do ar, nem da água. Não usam iscos, nem têm escamas. Não são criaturas mitológicas nem imaginárias. Eu não sou. Sou tão real como tu sabes. Tão real que faço doer, tão real que persisto.


 


Decidi que 2010 seria um ano de melhoramentos. Agarrar em mim e alterar aquilo de que não gosto, na medida do possível. E isto é abrangente p’ra caraças, desde o corte de cabelo a traços vincados de personalidade, vai um mundo inteiro e metade de outro. Mas com persistência e motivação, faz-se. Com uma piccola excepção... O meu calcanhar de Aquiles, a maior (ou pronto, uma das maiores) dificuldades que se me deparam. Deixar de fazer frases multilingues? Esquecer duques e cenas tristes? Mudar de emprego? Qual quê! Difícil, difícil, é andar de saltos altos. Como é que conseguem, gajas, como?!? Já nem falo da odisseia que deve ser enterrar, passo sim, passo não, os saltos na calçada portuguesa. Assim, em solo lisinho (como o chão do quarto)... Como é que se anda sem parecer uma pata choca com uns saltos de 6 ou 7 cm? (Os de 3 cm já domei!) Deve ser um talento inato, mais um que me falhou. É que nem tenho coragem de sair à rua (até à esquina que seja) nesta triste figura. Estarei condenada para sempre a ser Gata Borralheira nas ocasiões de gala, ou começo a procurar umas havaianas de cristal?


 


Eu - Lembras-te do C.?


Amiga - Esse estúpido! Era um bocado parvo, não era? Que idiota! Grande pancada, esse cretino! Não perdeste nada...


Eu - Fizémos as pazes.


Amiga - [silêncio]


Eu - [...]


Amiga - Quando se encontram outra vez? Devias ir ter com ele.


 


 


Eu - Lembras-te do C.?


Amigo - Sim. O que se passou?


Eu - Fizémos as pazes.


Amigo - Boa, fico feliz!


Eu - :)

Perguntaram-me “porquê ela”? “De tantas pessoas no mundo, estás a ficar amiga logo dela?!” Porque não? Se é uma pessoa como outra qualquer, se afinal até temos tanto em comum, se há confiança. E foi-me ganhando. Fizémos pactos, logo no início, porque lhe pedi, para que não houvesse promiscuidade nas palavras que escorrem duns para outros ouvidos, porque quis separar a pessoa-para-mim da pessoa-para-outros. O que me interessa numa amizade é quem aquela pessoa é para mim. Não me interessa o que dizem que é ou foi ou fez. Se amigos comuns estão de costas voltadas, não tomo partidos. Tendencialmente, as opiniões ficam marcadas pela primeira versão do que se ouve, não necessariamente verdadeira ou falsa, mas uma versão, um ponto de vista. Prefiro não ouvir versão nenhuma. Ou se ouvir, lembrar que as realidades dependem do ângulo de observação e relativizar. Mas isso sou eu, que já sei os terrenos que piso.


Adiante. Fui alertada, mas nunca vi sinais de perigo. Costumo dizer que tendemos a julgar os outros pela nossa própria bitola. Apenas duas raparigas com poesia e sonhos a correr nas veias, com filosofias antagónicas e irmãs. Fazíamos planos juntas, que nunca passaram disso. Íamos viajar juntas, aqui, ali e além. Sonhei uma vez com ela, a prever-lhe o enlace que me confirmou pouco depois. Antes de confirmar a muitos outros. Perguntou se gostaria de ser convidada para a festa. Guardei a discrição que nem foi preciso pedir. Sempre, mesmo quando quis amparar as lágrimas de alguém, guardei para mim o que me tinha sido confiado. “Conversas entre nós duas, são entre nós duas”, era o pacto, pelo qual zelei sempre. Mesmo no fim, quando senti uma punhalada nas costas que me atingiu bem no centro da confiança. Que me levou a perder a única coisa que importava. Podia ter-me munido de armas e provas e evidências, mas o mal estava feito e não ia voltar atrás. Se houvesse volta, que não fosse por aí. Quem abraça rancores sem fundo nem fundamento não é digno de encontrar a verdade que não pelo seu próprio pé, a custo, para lhe ser mais verdadeira do que o que vem escrito nos livros da escola.


Para mim, os valores da amizade passam pela confiança, pela partilha, pela honra. Mesmo que a amizade seja incipiente, mesmo que seja uma “promessa” como outrora lhe chamei. Para mim, estes valores são lineares, incontornáveis, não têm espaço para subjectivismos. É por isso que não me perco no labirinto da identidade. What you see is what you get. Não sou uma projecção de quem gostaria de ser, não sou uma imagem diferente de mim a que tenha de corresponder. E é, também por isso, que gosto de ser quem sou.

Baseado num conto de fadas irreal entre a Gata Borralheira, o Capuchinho Vermelho e a Branca de Neve, com nomes fictícios, sem maçãs nem Lobo Mau. O que farias se recebesses uma carta assim? Porquê? Qual dos três porquinhos tem o sapato de cristal da rainha de copas? A sério, ajudem-me lá a perceber...


 



Cinderela,


 


não queria fazer um monólogo porque não quero que me interpretes mal. Não tenho o direito nem de me intrometer nem de opinar coisa nenhuma, e podes bem mandar-me meter-me na minha vida, aceito.


Tenho este mau hábito de dizer tudo o que penso e sinto-me mal se não o fizer.


Acho que os teus contactos com o Príncipe Sapo são prejudiciais para ele. Acho que é injusto sequer meteres conversa se ele não te procura. Faz-lhe mal. E eu sei porque sinto o mesmo na pele. É óbvio que ele prefere um pouco de contacto a contacto nenhum, nunca vai ser ele a dizer-te que é mais fácil não pensar em ti se não te vir/ler/falar. Até pode não ser. Mas decididamente não ajuda em nada.


Se não queres nada dele, se não queres dar-lhe um fio de esperança, não dês. Não uses a sempre-presença e sempre-amizade dele. Esse fio de esperança pode suster uma pessoa durante anos, até sufocar.


Eu tenho a certeza que não fazes por mal, que queres que ele seja feliz. Liberta-o. Abre mão dele. Deixa-o onde pertence, nas recordações do passado. O teu caminho e o caminho do Príncipe Sapo já se cruzaram, mas hoje são distintos, nem sequer paralelos. Ele sofre muito com a “recodação da tua ausência”, com o remorso. E está a passar ao lado duma juventude feliz, por estar preso. Perdoa-o e liberta-o, corta-o pela raiz. Ele não sabe fazer isso sozinho, mesmo quando (diz que) quer.


Claro que não lhe passa pela cabeça que eu te diga isto. Do mesmo modo que não te passa pela cabeça as coisas que ele me diz a mim ou eu a ele.


As dores de quem amo também me doem a mim...


É só a minha opinão, faz com ela o que quiseres.


 


Bruxa Malvada

Há tempos pensei ter feito uma amiga. Uma feliz coincidência, daquelas que não se quer acreditar que o sejam, trouxe-me de encontro às palavras dela. Fui lendo e atentei que a desconhecida não era incógnita. Sosseguei o espanto e sorri. Percebi dimensões de sentimentos que não foram os meus, solidarizei-me com a candura destes e com as dores que neles se enraizaram.


A ternura foi-se instalando, foram trocadas confidências e selados pactos de confiança. Meio a medo, tanto me diziam para ter cuidado, que as pessoas não são todas como os meus olhos as vêem. Agora que penso nisso, a minha antiga-nova-amiga disse-me o mesmo sobre outra pessoa. "Tem cuidado, não te magoes." "É boa pessoa, mas..."


Mas quando os sentimentos são puros e desinteressados, os cuidados são deixados de parte. Achamos que não precisamos de ter cuidado, aqueles a quem queremos bem jamais poderão querer-nos mal. O resultado parece que não foi famoso. Magoei-me, magoaram-me. O broto de amizade desinteressada e genuína que achei que tinha encontrado foi decepado. Pior, perdeu-se a confiança. Pior ainda, as consequências, se quisermos condensar mil razões num bode expiatório chamado "mentira (?)", foram trágicas e ardem-me na pele, todos os dias, arderão sempre. Não querendo encapsular todas as raivas e angústias neste engano, que as culpas não são só de quem erra, são também de quem acata o erro e vira as costas à verdade, dói. Sinto-me defraudada. Sinto-me ultrajada e profundamente decepcionada. Como me tenha sido prometida uma amiga com quem trocaria poemas e memórias e, quando abri o pacote lindamente embrulhado, me tenha saído uma reles e bidimensional fotografia desfocada, uma sombra fria de tudo o que se anunciou. Afinal, foste apenas mais uma desilusão, mais uma pessoazinha ofuscada com o brilho do orgulho, bem no centro do umbigo.


Não sei, de facto, que tipo de pessoa serás.




E quanto mais lhe tentavam fechar a boca para que não se escapassem verdades, mais as ideias replicavam, maiores os gritos que o seu olhar plantava.


Esse sinal de interdição é para manter as distâncias? É para sublinhar quão inalcançável és (ou pretendes ser)?


Que sabes tu de mim ou da minha vida? Perdes tempo… Perdes-te em suposições, focas e desfocas as lentes das proximidades consoante o que queres retirar, sempre; nunca consoante o que queiras dar, porque não dás nada, só poeira. Não te iludas, eu não sou manipulável como os restantes. Quando chegas, já sei o que trazes nos bolsos. Não te fica bem dissimular, fingir que não trazes nada. Nem sequer tens muito jeito para disfarçar. Pensas que tens as respostas, contudo ostentas as perguntas, como que a fazer um teste de 9º ano. Não gosto de testes nem de jogos. Não me apetece dar ao trabalho de perceber o teu. Diz o que queres, se é que queres. Se não, desampara(-me, -nos) a loja. Os súbitos interesses, pausados em compassos ansiosos por revelações que não o são. Não gosto dessas artimanhas, gosto que as pessoas sejam directas e façam as perguntas que têm de forma objectiva.


Suspeito que de mim não queiras mais do que apaziguar a ordem do pódio. Relaxa, nunca gostei de medalhas, muito menos de protagonismos. Tenho aqui tudo o que preciso. Dispenso alimentar-me de bajulações a identidades imaginárias. O que tenho, é meu. Tenho-o guardado no peito, não preciso expor na vitrina para que todos vejam como é grande e belo e cheio de sacrifícios. O que tenho, pouco ou nada, é meu por inteiro, só meu, é verdadeiro e não sucumbe aos frívolos atentados. Não digo que me queiras mal. Só digo que já não acredito numa só versão da mesma estória. Ainda te quero bem. Mesmo conhecendo mais de ti e percebendo esses ardis.


A necessidade de atenção pode ser doentia. Compra muitos espelhos, ver-te-ás sempre no centro duma roda de gente fascinada por ti. Mas não me verás a mim, que eu, já te vi.


 

Gosto de ser mulher, disso que ninguém duvide. Mas há características que são comuns à maior parte das mulheres que me desgostam profundamente com este nosso género. Algumas chegam a incomodar-me a níveis viscerais. Deixarei as restantes para outras ocasiões, falarei hoje apenas duma característica que é, tristemente, frequente nas fêmeas e que tenho por certo que em nada contribui para que o mundo seja mais sereno. Possivelmente existirão tantos homens como mulheres com este peculiar jeito de estar, mas destes últimos não conheço um, do universo de seres humanos cuja essência eu possa afirmar que conheça minimamente.


A que se deve tão comichoso incómodo? Pois bem, deve-se ao facto de as prateleiras não servirem para armazenar pessoas. Estas mulheres de que vos falo, tendo ou não problemas de auto-estima, guardam os homens em prateleiras. Explico: eles acham-lhes piada (numa escala que se estende do achar a miúda engraçadita até à obsessão doentia pela criatura), mas elas não estão para aí viradas (numa escala que se estende do ter namorado ou companhia que tal até ao “sou demasiado erudita e especial para ter tempo para homens”); Eles fazem investidas, o melhor que sabem e podem, e elas fazem-se desinteressadas, pouco impressionadas, mostram-se pouco disponíveis, mas sem nunca fechar a porta. Deixam sempre uma gretinha de possibilidade aberta, noutro tempo, noutro espaço. Empertigadas, apregoam aos sete ventos que o tipo é um chato, que não as deixa em paz, que passa a vida a fazer insinuações; mas elas vão piscando um olho à oportunidade e até aceitam os convites. Hoje um cinema, para a semana um concerto, noutro dia um passeio perto do mar. Não os querem todos os dias, não os querem de todo, mas recorrem a estes tristes voluntários quando precisam duma boleia para o shopping, quando lhes apetece ir ver aquele filme e lhes falta a companhia, quando os sacos do supermercado são pesados demais, quando faz falta que alguém resolva aquele problema nos canos lá de casa. Pior, recorrem a estes tristes voluntários quando o ego está em baixo, quando o outro de quem realmente gostam lhes deu uma tampa, ou simplesmente para se recordarem que são giras ou boas ou que lá terão qualquer coisa que faz os incautos seres movidos a testosterona suspirar por elas.


Ora para um rapaz perceber que esta miúda não está interessada o que será necessário, pergunta ela às amigas, um sinal luminoso? Não, respondo eu, basta agir de acordo com o discurso apregoado. Basta dizer não quando não se está interessada.


Não se trata de gostar e até ter uma certa vaidade em ser-se desejada ou amada ou querida - que disso todos gostamos, certo? É fazer sobrepor ao bem-estar de outra pessoa este seu craving da atenção da mesma, polimento do ego. Que tal guardar nas prateleiras uma consciência limpa, uma honestidade na gestão de sentimentos, uma transparência nos actos, em vez de rapazolas com falta de horizontes e excesso de tempo para dar, ordenados por ordem alfabética e com os joelhos pacientemente dobrados? E não o digo sem o tom reprovador: “rapazolas” sim, que se fossem Homens abriam a pestana e jamais se prestariam a tais papéis.


Mau feitio assumido, com achas de sobra para alimentar esta sempre ardente fogueira, deixo o conselho para estas minhas congéneres: deixai de ser cabras, deixai.