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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem





"Tu és uma flor silvestre e eu sou um cacto..."



Gosto de cactos, resilientes, gosto do metabolismo conservador, gosto da austeridade. Gosto de dar-lhes a abundância quando estão preparados para a escassez, de levá-los para fora da zona de conforto, de lhes abraçar os picos. Sabes tão bem que é assim, que gosto de ti.

Me, what you see is what you get. Silvestre, frágil, garrida, de purezas abraçadas ao vento. Volátil, flesh and blood, apaixonada.

Por ti.


Antes de ti não havia nós. Havia eu e ele, eu, ele, eles. Antes de nós o rio piscava o olho, mas raramente sorria ao brilho da Lua. Antes de ti o telemóvel não tocava às quatro e meia da manhã a trazer saudades e carinhos. Nem havia abraços nus enrolados nos braços. Antes de ti eu perguntava-me para onde tinha ido a poesia. E agora sei que ela vive em ti.


 




Tudo parece novo, quase oiço o papel de embrulho a rasgar imediatamente antes de cada frase, de cada beijo, de cada vez que as mãos se tocam. Não, as palavras não estão gastas, Eugénio. Apenas já foram ditas vezes sem conta. E de cada vez que és tu a dizê-las, abre-se uma exclamação espantada dentro de mim. Na voz deslizam notas de mel e verdade, e isso é arrepiantemente inédito. Os dedos quentes que me seguram sussurram promessas secretas sempre renovadas.




Inesquecível, quando largaste tu as palavras de surpresa, para mim e para ti. Sabes que gosto de surpresas, e essa tirou-me o fôlego. Não consegui responder-te, não sabia como, de tão atarantada que fiquei. Nem sequer acreditei durante algum tempo que isto fosse tudo real. Ainda sou assolada quando em vez por uma ou outra dúvida atrevida, daquelas que sabes que cultivo e rego com devoção.


Tardam as respostas que não carecem de confirmação. Porque sabemos bem quem caminha a nosso lado, precisamente porque é a nosso lado que caminha. E essa é toda a certeza de que necessitamos.


 




Mossas pequeninas. Que por serem pequeninas não valem à maior parte das pessoas o desgaste de as trazer ao assunto. E vão continuando a acumular-se. Muitas mossas. Começas a parecer um wok dos bons, artesanais. Até que um dia te lembras que não vieste ao mundo para saltear vegetais. Provavelmente nessa altura já não há talento bate-chapas que te acuda. E eu gosto de ti sem mossa alguma, brilhante e imaculado, luzidio, renascido, a iluminar-me.


Eu grito a quem me faz qualquer risco no pára-choques de plástico. Pode ser foleiro, mas é o MEU pára-choques. Ou ego. Tanto faz. Quando se parte dá uma trabalheira do catano para substituir, demora tempo demais e custa balúrdios (em psicoterapia e lenços de papel). Nem penses em ameaçar riscar-me a pintura, não vou deixar que chegues perto o suficiente. E já disse que não tenho seguro.


 




look inside the shell


 


*Sou tão culta, não sou? Não, só subscrevo o Facebook do Priberam.


Pronto, não é sóóó para isso. Já era, desde sempre, antes de me tomares de assalto o coração e seria sempre, contigo ou "sentigo". Mas contigo é melhor. Quero. Anda.




 


Imagem roubada descaradamente à Maria.

Num dia de Verão em que o frio existia lá dentro, no peito, escuro e húmido como uma gruta, ela impôs-se diante do espelho: não mais! Destino ou coincidência ou um acaso daqueles que ficam atrás da orelha, o retorno da vida não se fez esperar. Uma achega da Yoko Ono e sem ninguém perceber, foram lançados os dados. Começou assim, de mansinho, uma porta cerrada a destrancar-se. E depois bateu, empurrada pelo vento e pela Luz, e ela deixou-se inundar com a torrente que lhe levantou os pés do chão.

 

Ela sonhava com um primeiro olhar no silêncio sepulcral da Lua, sonhava com mãos que se reuniam depois das promessas, num encontro de velhos amigos. Sonhava com olhares lânguidos e sorrisos a brotar por detrás. Sonhava com ideais avessos e com realidades mais cruas. E todo ele foi surpresa, choque, demorou-lhe um pedaço a digerir a distância entre a imagem criada e a real, que ali se apresentava sem fraquejar. A digerir também alguma decepção, que o início não teve silêncios nem mãos entrelaçadas. Nenhum silêncio, aliás, que a conversa fluiu como cerejas maduras no pico do Verão, como aliás o tinha sido antes. Ela tremia, rodeada das mil e uma dúvidas que tanto acarinha e que parecem sempre estar presentes nos instantes decisivos. A cabeça a mil à hora, apesar de tornar sempre à mesma questão “o que é isto que me está a acontecer?”.

 

Ele, sempre a superar o nível de irrealidade.  Poesia, sempre a poesia tão azul.