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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

No teu corpo de abrigo

Sou inteira

Sem filtro

No desejo de ti todo

Encontro

O que é selvagem

Perdido

Procuro um casulo

Refúgio

Meu lar

Escondido

Nossos peitos abertos

Sofridos

Esmagados e comprimidos

Colados

De par em par

A sede que te tenho

Inebria

Teus beijos

De oásis

Estremecem

As mãos nos quadris

Padecem

Línguas que se abraçam

Dormentes

Peles que se roçam

Brilhantes

O embalo melódico do coito

Gemidos 

Nomes que se soltam

Volúpia

Cantam tesão

Teu corpo de abrigo

Contido

Meu porto amigo

Secreto

Final em vibrato

Explosão

Começa-te em mim

De fogo

Alma aberta

Paixão

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As mãos duras abrigam poemas

Escorrem agruras em teias de nós

É violenta a ausência de quem se perdeu

E é bruta a força dos anos que passam

E nem por isso pesa o sorriso

Falhado, orgulhoso

Perfeito

Que ri por cima da história

Da ditadura, dores,

De fome, trabalho,

De desprezo, traição,

De abandono, injustiça

Ri com liberdade

Com o descanso de ser e ter sido

Fortaleza invicta

Fera, amazona e tecto

Punho erguido e colo, cobertor

Ossos fracos, varizes

Rugas e cabelos brancos

Rude como a terra arada

Fértil, analfabeta e sábia

Camarada e amiga

Amada

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Por entre corredores sujos
Trapos e vidros rachados
Oiço o arranhar das lágrimas
Esqueletos de melros na gaiola
Atestam a beleza insuficiente da morte
Não se sacode o pó, que magoa
Só as pegadas marcam vestígios
Nas paredes de musgo
E gavetas perras
Ruínas de nós
Cadeiras coxas, a cama rota
Molduras quebradas
Fotografias baças do que nunca fomos
Os filhos que não nos nasceram
Dos corpos que não se trocaram
E o cheiro que se entranha
Cartas antigas, amarradas, amarelas
Encerram poemas e guerras
E tanto
Amor

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Não digo que te amo
Não posso dizer
Não posso quebrar
Torturo um piano
Faço-o cantar
As coisas tão bonitas
Que colho no teu olhar
Só tu me dás poemas
Que apertam o peito
Que fazem chorar
Barcos à vela que voam
Aviões de papel que naufragam
Beijos passados, sofridos
Corvos atentos no ar
Procuro-te no fundo
De mensageiros tintos
Réstias do pedaço teu
Que completava este lugar
Faltas à chamada
Segues cego sem me ver
Segues só por não querer
Não digo que te amo
Porque este amar faz doer

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nos teus olhos não vejo
céus azuis, bonança eterna
nos teus olhos não bebo
rimas dulces, promessa efémera
nos teus olhos vejo tormentas
labaredas de ternura
orgulho cerrado e tanta força
punho esgotado de lutar
socos pra dentro, facadas num peito
em que todos cabem menos tu
que sempre cedes o teu lugar
vejo o sorriso da solidão
desgarrada, a provocar
irresistível, bem sei
namorada de colo cheio
braços e pernas abertos
casulos de gente como nós
que nunca se soube amar
não sei quem foste ou querias ser
quem és sobeja, nada há a mudar
vejo humildade e respeito
culpa órfã de indulgências
e um caminho de fatalidade
de que prometo não me apartar
vejo-te beijos sem reservas
verdades da carne em erupção
e o cansaço do falhanço
medido nessa bitola
que sempre teimas em desviar
ouço-te a voz que é só tua
consagração maior dos poetas
pejada de espinhos a arranhar
e mil mágoas que pesam
por não as saberes largar
também te vejo nos silêncios
o que deixas por adivinhar
nos teus olhos vejo músicas
que ainda estão por inventar
vejo uma alma tresmalhada
e chamo casa a esse olhar
corrida em frente, em fuga
cega, na ânsia de chegar
aonde sempre és esperado
só não vejo o teu perdão
por escolher sem pecado
o que mandar o coração
não sei o que te chamam
sou invisível, não existo
na sombra do teu lugar
mas sei bem quem vejo e amo
posso ensinar-te a não calar
não creias no que dizem meus lábios
ou os meus olhos cansados
de ver sem olhar
sei-te de cor, tal qual te mostras
face contida de planícies e mar
sei-te melhor no avesso da lua
touro bravio, miúdo perdido
todo de escuro e estrelas a latejar
não me perguntes o que te vejo
vejo tão mais do que ouso contar
vi-te por dentro, sabe-lo bem
olha-me tu e promete ficar
segura-te, sozinho não ficas
confia - não te deixo cair
a repetição das dores enterradas
aqui já não tem lugar
dou-te tudo o que tiver
o que não tenho irei buscar
enfrentaremos os dias maus
de capa e espada, como heróis
garanto que irão passar
com sol ou lua, luz ou negrume
o tanto que te vejo e que
às vezes me faz chorar
dói e arde, mas faz crescer
agarra a minha mão, grava o meu nome
aquela que não te vai abandonar

Para dar as boas-vindas ao mês de Agosto, em plena silly season, inicia-se aqui uma rubrica de autores convidados, que tenho o orgulho de arrancar com a poesia de uma amiga querida que nunca vi, nunca abracei (ainda), e que nada tem de silly. Queria começar assim, pelo puro prazer das palavras, sem mais amarras, sem expectativas e sem compromissos. Gosto da poesia da Susana Nunes porque é realmente isso mesmo: pura. Despretensiosa, descomplexada, leve, às vezes leviana, nunca oca. Quando a Susana escolheu este poema tive ainda mais certeza de seria o momento ideal para esta casa vestir as estrofes alheias, medidas às cegas, e que assentam que nem uma luva. Nem por encomenda seria mais adequado. Vão conhecer a Susana e deliciem-se! 

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Se calhar

Se calhar, não tive voz que chegasse
e por isso, tu não ma ouviste
Se calhar as letras deviam ter sido escritas a negrito
ou então as palavras estavam esbatidas
não foram de todo, as suficientes
e talvez por isso
mas não sentiste

Quando por fim
consegui proferi-las claras
cheias de frases sonoras
e de versos audíveis em ecos de montanhas
... estavas longe
e nas horas abertas
em que juntei os meus poemas
e os desfolhei nos livros aos ventos
... tinhas curvado a esquina
e claro, não mas encontraste

Agora...
Tenho sal a mais nas lágrimas
tenho paladar amargo p'ra mim
e p'ra mais uns centos
e só me apetece gritar alto
e voltar ao início
em que a minha voz era rouca e pouca
mas ainda conservava a esperança
que te voltasses dessa terra dos silêncios
sem morada
sem caminho
sem estrada que eu soubesse...
... e mesmo de longe que fosse
me dissesses...
- Espera pela minha voz, morena
vou dar-ta, meu amor, de uma assentada
espera... que já não demora...
nada mais há, que eu queira tanto...
... e ai, como vai... valer a pena

Susana Nunes 12 / 6 / 2018

Açaima a verdade como se a poesia doesse

Como se não fosse a dor que nos garante a vida

O mundo segue ignorante e rude, sem escutar. Tece

estilhaços de vidros varridos para onde não se vê

trancados no cofre aberto de aprendiz de banalidades

Recusa as letras sujas do sangue que bebemos em festim

Foge das rodas dentadas que mastigam ferro sem idade

e das palavras que escorrem beiços abaixo, peito acima

Cala uma voz como quem cala um amor maldito

De açucenas nos dentes e coração de granito

 

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Há anos, muito antes de ter aprendido uma lição que custa a aprender, que nem sempre temos a importância para os outros que lhes damos na nossa vida, que nem todas as amizades são recíprocas, fiz um avião de papel com este poema, coloquei-lhe um beijo por companhia e atirei-o sobre o Tejo.

Hoje faz mais sentido do que nos outros dias. Hoje sem avião de papel, só silêncios e nevoeiro sobre a tua serra, frio húmido entranhado nos ossos, omnipresente, a fazer doer como as ausências e a arder como a tristeza. Gosto-te, aqui ao longe, discretamente para não te ofender ou incomodar. Gosto-te. E tenho sido feliz, por nunca ter seguido os trilhos que me quiseram destinar. O meu trilho, não mudo por ninguém, nem mesmo por ele ou por ti. Não me atravesso no caminho de ninguém nem permito que me desviem do meu. E sei que não sei mentir.

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POEMA PRIMEIRO

... Gosto-te. E desta certeza
se abre a manhã como uma imensa
rosa de desejo indestrutível. O futuro
é o próximo minuto, para além
da infatigável religião dos meus versos,
em cuja luz me acendo, feliz e nu.
O meu sorriso conhece a bondade
dos animais, o poder frágil das corolas,
e repete o nome feminino dos arcanjos de
peitos redondos, perfumados
pelas giestas dos caminhos
do céu.
Gosto-te. Amarrado
pelos meus braços de beduíno do sol,
pobre senhor dos desertos,
profeta da distância que há dentro das palavras,
onde se alongam sombras
e o sofrimento se estende até à orla
da mais inquieta serenidade.
Gosto-te. E tenho sido
feliz, por nunca ter seguido os trilhos
que me quiseram destinar. Aqui
e ali me pergunto, despudoradamente. E sei
que não sei mentir. É por isso,
que recolho na face a luz imprescindível
ao orgulho dos peixes
e dos frutos.
Gosto-te. Na-na-na, na-ô...
Na-na-na, na-ô... na-nô...
Canta o espírito do caminho,
canta para mim e canta para ti, eleva
o coração das grandes árvores, coração
de seiva e de coragem,
sangue fresco e verde, apaixonado
e doce,
de tanto contemplar o perfil das tardes.
Gosto-te. Mas "longe"
é uma palavra húmida, grávida,
onde os sinos da erva tocam
para convocar as sílabas. E,
ao procurar-te, tremo apenas
de ternura
para que nem mesmo a inteligente brisa
da manhã
possa dar por mim.
Mais discreto que isto
é impossível.

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Nasceu-me a liberdade
Onde tinha encerrado a dor
Um rio atravessou-me a meio
Comportas abertas
de espanto, talvez amor
Teus olhos naufragados
Tomaram conta de mim
Fui teu farol, bússola e mar
Foste-me cravos, poesia, motim
Num terminal de chegadas
Na tarde baça em que pari
Fatalidade ancorada
Bolsos vazios, sem regresso
Nem promessas nem metáforas
Mudou o ano, virou o jogo
Poemas mortos, secos, gastos
Papel borrado, desperdício
Jogada a um canto, no lixo
Carta anónima, profana, rasgada
Sem resposta ou lugar, sem nada

Poet: Charles Bukowski The Laughing Heart; Roll the Dice Narrated by: Tom O'Bedlam

 

Go all the way - Charles Bukowski

“If you're going to try, go all the way. 

Otherwise, don't even start. 

This could mean losing girlfriends, wives, relatives and maybe even your mind. I

t could mean not eating for three or four days. 

It could mean freezing on a park bench. 

It could mean jail. 

It could mean derision. 

It could mean mockery--isolation.

Isolation is the gift. 

All the others are a test of your endurance, of how much you really want to do it. 

And, you'll do it, despite rejection and the worst odds. 

And it will be better than anything else you can imagine. 

If you're going to try, go all the way. 

There is no other feeling like that. 

You will be alone with the gods, and the nights will flame with fire. 

You will ride life straight to perfect laughter. 

It's the only good fight there is.”

 

Fizeste-me mil maldades 
e uma maldade muito grande 
que não se faz 
acho que devo ter sido a pessoa 
a quem fizeste mais maldades 
nem deves ter feito a ninguém 
uma maldade tão grande 
como a que me fizeste a mim 
não sei se tens remorsos 
tu dizes que não tens remorsos nenhuns 
porque dizes que és um vil criminoso 
para mim 
eu também sou uma vil criminosa 
mas não para ti 
desconfio que tens o remorso 
de ter alguns remorsos 
por me teres feito mil maldades 
e uma maldade muito grande 
a maldade muito grande está feita 
e não se faz 
acho que essa maldade muito grande 
nos aproximou um do outro 
em vez de nos afastar 
mas para mim é um drôle de chemin 
e para ti também deve ser 
mas com um vil criminoso nunca se sabe

 

Vídeo

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Num dia de São Pedro um vil criminoso trocou-me as voltas todas, fez-me uma maldade. Como vil criminoso que é, não descansou até me tornar numa vil criminosa. Eu não tenho remorsos de nada, só do que não fiz, porque deixei trocarem-me as voltas de novo, e o vil criminoso fez-me uma maldade muito grande, que não se faz, que nos aproximou em vez de nos afastar. O vil criminoso tem remorsos de ter remorsos mas nem por isso deixa de ser um vil criminoso. Escreveu a Adília Lopes e podia ter escrito eu. A diferença é que a vida seguiu depois do poema, o vil criminoso não sabe fazer senão maldades, as piores e mais cruas maldades e eu vou ter de ser a maior e mais vil (e brava) criminosa, porque há maldades que não se fazem e caminhos que se não se caminham lado a lado terão de ser para sempre apartados.

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Por ti já perdi a timidez

Transgredi

Uma ou outra vez

Mesmo alguns lamentos líquidos verti

Podíamos ser uma canção

Balada melódica e insana

Dois loucos às cabeçadas

De vidas avessas

Mãos entrançadas

Tão pouco tocadas

Algumas promessas

Beijos magros

Abraços tão fundos

Estilhaços e farpas

Na fronteira dos mundos

Coração de ventania

Não sabe aterrar

Ergue os dedos de mansinho

Feitos só para te abraçar

Devagarinho, sem amachucar

Teu coração de papel em chamas

Em cada subtileza um nó que afasta

Se não sabes se amas, não amas

Em cada deixa à deriva uma tristeza gasta.

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Yo tuve un hermano - Julio Cortázar
 

(Al Che Guevara)

No nos vimos nunca
pero no importaba.
Yo tuve un hermano
que iba por los montes
mientras yo dormía.
Lo quise a mi modo,
le tomé su voz
libre como el agua,
caminé de a ratos
cerca de su sombra.
 
No nos vimos nunca
pero no importaba,
mi hermano despierto
mientras yo dormía,
mi hermano mostrándome
detrás de la noche
su estrella elegida.
 

 

Aos treze anos da sua morte, qualquer homenagem continua a ser pequena perante a pureza magnífica da sua obra poética.

eugenio_de_andrade_-_manuscrito_do_poema_retrato.j

 

No teu rosto começa a madrugada.
luz abrindo,
de rosa em rosa,
transparente e molhada.

Melodia
distante mas segura;
irrompendo da terra,
quente, redonda, madura.

Mar imenso,
praia deserta, horizontal e calma.
Sabor agreste.
Rosto da minha alma.

http://www.estudioraposa.com/poetas/eugenio_andrade_retrato.mp3

 

Meu coração doido é pólvora, explode em festim desregrado à ignição certeira.

Meu coração despedaçado, espalhado em granulado pelo mundo,

não tem poiso quieto nem caminhos pavimentados em que deslizar.

Meu coração gelado, pingado a cada ebulição,

contido em caixas estanques para não evaporar.

Coração bravio, valente e solto, ousa desafiar regras que ninguém ditou.

Meu coração pachorrento, encostado a cada lugar,

derretido em poemas e canções de embalar.

Coração perdido, vagabundo e trôpego, embriagado de sal e de vinho a sangrar.

Coração vadio, disputa com o vento a leveza e não sabe aterrar.

 

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Cansada de pedir mais poesia por onde passo, reconhecendo as fugas injustificadas, decidi cortar amarras e navegar sem rumo, de encontro ao que por mim esperasse na outra margem. A imagem antagónica do outro lado do espelho rachado roça a perfeição. O tinto escorregava pelas canecas infantis, soltava línguas tímidas demais para se cruzarem nos silêncios em que os dedos apartados queriam chamar os outros, mas esperavam por algum momento certo que parecia não chegar. Os livros mais que correctos, a música certeira. Tudo o que importa a corresponder a cada expectativa mais ousada. Espanto por todo o lado, como só podia ser neste filme, como em todos os filmes com registo especial. Conheci um poema de olhos azuis, frugal, feito de suavidade, de sorriso puro e persistente. E quando um poema te olha nos olhos e não desarma o sorriso, como se visse um arco-íris materializado em gente, abraças a poesia ou foges feita vadia...

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