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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Há dias em que acordo sem saber possível um rumo que se defina desde aqui até ao horizonte. Acredito, nele e em mim, nas minhas pernas como dois barcos alternantes e nas velas que são os braços abertos. E navego sem tréguas, sem âncoras, sem portos. Sem bússula, também, que o meu horizonte é a beira do mundo e não tem coordenadas. Em mar de meninas ou em tempestades, sem medo dos piratas da vida que me assolam, sedentos de me extirpar de purezas e sorrisos, meus bens mais preciosos.


 


 





 

Ela não questiona, só em surdina, porque as questões teimam em ter as mesmas cores das ilusões. E em vez disso, responde que sim, ma non troppo. Prefere chamar-lhes enfatuações, quase uma arqueologia dos sentimentos próprios. Lemos palavras alheias e saltamos-lhes para o dorso, deixamos que nos levem a destinos imaginados e íntimos sem abrir os olhos. E não queremos saber do risco de abri-los e acharmo-nos na escuridão, porque não se trata do que é real. Vamos, porque precisamos de ir. Precisamos de saber sentir uma emoção maior num qualquer vislumbre, para quebrar o vício de nunca mais sentir. Precisamos de provar que até podemos dar mais uma oportunidade às improbabilidades. A isso chamo eu de não ceder aos infames limites do possível, de ter garra de viver. E nós temo-la a pingar de cada poro.


 


 



 

Sorríamos sem saber porquê. Roídos pela dúvida, pela surpresa. Borboletas no estômago, todos os clichés, conferiam. O futuro estava ali no beiral da porta. Tu tinhas medo do confronto com a verdade, sempre tiveste. E eu não conseguia respirar sem a esventrar. Disse-te que só havia uma maneira de saber. Como sempre, atirei-me de cabeça e agarrei-te pelo pescoço no caminho.


Devia ter sabido logo que os teus olhos arderam na minha pele em vez de me invadirem a alma. Fiquei presa nos segredos verdes e indolentes desses teus olhos, anzóis em mim. Devia ter percebido quando seguia à tua frente e queria que estivesses a meu lado. Soube, quando antecipei que as promessas eram só palavras e que as palavras não eram todas. Quando as tuas cartas deixaram de ser folhas toscas arrancadas com paixão a cadernos maltratados e passaram a ser postais com corações. Sabia, e não to disse, quando as flores me desiludiam, o tempo e os momentos nunca chegavam e os beijos tinham hora marcada. E fui eu que tentei fintar as inevitabilidades e substituir magia por esforço, também fui eu que caí das nuvens. E a seguir percebi que sempre quis ir para além das estrelas. ...


 


 



 

Sempre fui uma indecisa crónica. Escolher é-me penoso, talvez porque aos meus olhos sobressaem sempre as possibilidades e pontos positivos aos pontos negativos. Como também o optimismo crónico me faz sempre almejar o best case scenario e é este que coloco no prato da balança. Pouco realista, talvez, mas sonhar, como voar, não faz sentido se for rasteirinho. Se tenho de escolher, meço até onde vai o sonho, e escolho o maior, o melhor que pode acontecer ainda que menos provável.


Se me desiludo muitas vezes? Só com as pessoas, acho. Dou tudo o que tenho em mim quando sonho. E depois dou mais o que não sabia que tinha. Embarco em empreitadas incompreendidas. Tal como os sonhos. Muito poucos compreendem que se pode sonhar para dentro, para se ser, apenas. Para saber, apenas. Porque se gosta, apenas.


E tu sempre compreendeste.


 


 



 

E se todos os milhares de pedacinhos dizem o mesmo que os fez estilhaçar? E se nada muda, se nada nunca mais mudar? Se não houver cola que me valha? Se todas as portas por onde vou fugindo forem dar ao mesmo lugar? E se este amor nunca morrer, nem depois de me matar? Viver com um coração morto não me deixa em paz. Mesmo com tudo o resto, os muitos sonhos, os desafios, a vida que me pulsa, sempre a pedir mais. Seguir o coração, mas e o coração, onde fica, se o que resta dele é pó, cinza? Arrumado num baú e escondido nos antípodas, será longe o suficiente para fugir dele? E porque não ser o coração a seguir-me a mim?