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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

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Eu e uma pessoa da minha equipa estivemos dois dias fora do escritório, em reuniões com uns parceiros (a resolver merdas que outros criaram e me largaram na mão).

 

No dia seguinte, de regresso ao escritório: "Olá, olha quem voltou. Então, divertiram-se?"

 

Divertiram-se?! Como assim, divertiram-se? Acaso estivemos em alguma festa ou evento, ou em passeio, ou de férias? Acho muita piada a estes comentários. Tanta, que nem os digno com respostas.

Aqui há tempos, não foi agora, mas hoje é ainda mais nítido. Dantes, a altura da reuniões de avaliação dava-me cabo dos nervos. Era eu a defender o chefe perante os outros índios, era eu a defender os índios perante o chefe, era a esquecer-me que dissesse o que dissesse, quem mandava naquela merda toda havia de nos tramar, fazer um manguito ao prémio que devia ser uma cenoura em frente ao nariz e era mais um castelo em cima duma nuvem (como se as parcas centenas de euros lhes saíssem das carteiras, caraças!), e ainda de baixar administrativamente 2 valores à avaliação que o nosso chefe fazia. A não ser que se fosse família ou amigo de algum administrador, caso em que a notinha se via inflacionada. Ficava desgastada, de orgulho ferido, exausta e sem a mais pequena motivação para entrar no antro (acreditam que o passo desacelerava, involuntariamente, em directa proporção da proximidade da porta?). Agora? Agora tenho violentos ataques de riso no gabinete da chefia (depois de questionar como é possível que tudo seja deturpável sem aviso prévio, mesmo o que está acordado e firmado entre as partes), mas diz que faz bem aos abdominais. A matemática criativa dá cabo de mim e a imaginação de uma aula de matemática com queijinhos aos senhores dos RH (para lhes ensinar sobre intervalos e equitatividade) abriu-me o apetite. Bom, ganhei uma receita de mousse de avelã, não foi uma perda total.

Eu: Boa tarde colega, hoje não estou no escritório, estou na sucursal tal, mas amanhã já estou aí. Já vi que o [assunto de trabalho que estamos a tratar em conjunto] já está pronto a avançar. Avanço agora ou espero por amanhã para vermos isso juntos?


Colega: Pois, fui eu que inseri o [assunto de trabalho que estamos a tratar em conjunto] no [local devido]. Podemos avançar para ver como corre.


Eu: Então mas [cenas e detalhes]?


Colega: [Cenas e detalhes], convém avançar com a coisa, mas tenho de validar [outras cenas].


Eu: OK, então depois de validar, diga que eu avanço.


Colega: Como está de férias, se quiser eu avanço.


Eu: [WTF?!] Não estou de férias, estou na sucursal tal. (Subentende-se que, portanto, posso avançar com a cena.)


Colega: Ah, e amanhã, já está cá? Avançamos amanhã.


 


Really?! Toda a gente fala muito da escuta activa, mas na atenção e literacia, nicles.

Alguém explique às criaturas ignorantes do código do trabalho, da constituição portuguesa, e do bom senso em geral que quem paga as baixas médicas e subsídios e licença de maternidade é, por ora, a segurança social e não a pobre entidade empregadora sem orçamento para contratar mais do que uma pessoa e, por isso, se acha no direito de questionar as mulheres se planeiam engravidar numa entrevista de recrutamento (ou em qualquer outra situação, by the way). E que a lei do trabalho permite a contratação de trabalhadores temporários para suprir as ausências de trabalhadores em licença de parentalidade. Duh! E também me podiam explicar onde estão esses médicos porreiraços que passam baixas só por lhes pedirmos. Deve ser no mesmo sítio onde as mães portuguesas preferem ficar tanto tempo quanto possível a receber só uma %do salário, porque a malta trabalha mesmo é para aquecer, o salário é irrelevante. Yeah. Num mundo imaginário habitado em exclusivo por patrões e jotinhas.

A mentira continua a ser aquilo que mais me magoa e mais me lixa. Em todos os âmbitos.

 

Mesmo as little white lies. Nenhuma mentira é tão inofensiva assim.

Por exemplo, o chefe diz a 50% dos seus colaboradores que são os melhores e os maiores e sem comparação. Pretende motivá-los e escolhe fazê-lo pela positiva, mas excede-se. Em vez de apontar e reforçar os pontos positivos de cada um, diz-lhes, a todos estes 50%, "és o melhor de todos". (Como um tipo dizer às 3 namoradas "és o maior amor da minha vida".) E os colaboradores ficam contentes, todos inchados, de ego cheio. Até ao momento da verdade. Sim, que a verdade descobre-se sempre. E os colaboradores vêm-se preteridos, ou prejudicados, ou passados para trás. E percebem que havia mais meia dúzia na mesma situação, convencidos que seriam a primeira escolha do chefe, ou o braço direito, até os factos o desmentirem categoricamente. (Ou as namoradas apanham o tipo em flagrante a pedir outra em casamento.)

 

Este "balde de água fria" dói sempre muito mais que a verdade nua e crua. Porque mais do que acreditarem em algo irreal, os colaboradores (ou as namoradas) foram feitos de parvos durante um bom bocado. Não só não são os melhores nem os mais bem vistos pelo chefe, como ainda ficam com a certeza que o chefe os acha burros e totós ao ponto de acreditarem... (Ou, não só as namoradas foram todas encornadas como o tipo ainda acha que são tão parvas que nunca iriam descobrir.)

 

Acredite-se, a verdade é mesmo a melhor política.