Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Li algures no blogomundo que as mulheres perdoam mas não esquecem. E identifico-me plenamente com a afirmação. Não guardo rancores. É por isso que digo logo, sem sequer pensar (o que é errado) tudo o que me vai na alma. E fica dito, não fica nada a remoer e a azedar cá dentro. E como tenho a sensibilidade emocional duma florzinha de estufa, magoo-me com mais frequência do que devia. Tenho a "pele rija" e aguento, mas dói. E quando dói, digo: "Olha, isto doeu-me. Não morri, mas sangrei." E sangro, até sair o veneno. Pode demorar mais ou menos, depende da profundidade da mazela. E recuso-me a fingir que já sarei se ainda sinto picadas. Mas eventualmente, deixa de doer. Lambo as feridas (frequentemente, com ajuda de outros, dos meus, que mas lambem também) e ganho crosta. É o perdão. A cicatriz fica, que a pele emocional (como a outra, aliás), é muito sensível e tudo lhe deixa memórias marcadas. E eu gosto, como gosto de cicatrizes, porque cada cicatriz me ensina alguma coisa. Com todas elas eu aprendo, com cada uma fico a saber que aquela ferida, profunda ou nem tanto, não me derrubou. E a ferida fica fechada, fica perdoad@ @ ofensor(@). Não fica esquecido o golpe, porque isso seria a negação de tudo o que me conheço. Talvez não volte a expor aquele pedaço de pele às unhas de quem já ali arranhou, porque é assim que funciono, salvo as excepções que me desnorteiam (que as há).

 

Não odeio ninguém. Não creio que alguma vez tenha odiado. Raiva, injustiça, ira, sim, essas assolam-me quando em vez. Ódio, não. Neste momento, tenho a aura branca e pura e a cheirar a limpo.

 

Estão perdoadas todas as ofensas, mesmo as maiores, mesmo os boicotes e as traições de confiança, os abusos, as injustiças. Ide em paz. Perdoo-te.

 

 

 

 

 

Durante duas semanas não chorei. Fui largando camadas e camadas de pele, de mágoas, de tristezas. Fui abrindo lugar a novas emoções, a descobertas, a bocadinhos de mim que andavam esquecidos num qualquer labirinto escuro aonde não pertenço, que eu sou da Luz e da Vida, do Ar e da Música. Mas as lágrimas têm de ter lugar. Não podem ficar entaladas na garganta, a ressequir as emoções. Saem, como as palavras, cada vez mais. Sem pressa nem peso, saem quando é tempo, quando é verdade. Saem por tudo e por nada, que as emoções se transpiram em mim, por todos os poros. É por isso que a armadura de ferro é obrigatória.

 

Porque tornei a chorar por ele, a minha saudade, num abraço imaginado.

 

"Sorriso, diz-me aqui o dicionário, é o acto de sorrir. E sorrir é rir sem fazer ruído e executando contracção muscular da boca e dos olhos.

O sorriso, meus amigos, é muito mais do que estas pobres definições, e eu pasmo ao imaginar o autor do dicionário no acto de escrever o seu verbete, assim a frio, como se nunca tivesse sorrido na vida. Por aqui se vê até que ponto o que as pessoas fazem pode diferir do que dizem. Caio em completo devaneio e ponho-me a sonhar um dicionário que desse precisamente, exactamente, o sentido das palavras e transformasse em fio-de-prumo a rede em que, na prática de todos os dias, elas nos envolvem.

Não há dois sorrisos iguais. Temos o sorriso de troça, o sorriso superior e o seu contrário humilde, o de ternura, o de cepticismo, o amargo e o irónico, o sorriso de esperança, o de condescendência, o deslumbrado, o de embaraço, e (por que não?) o de quem morre. E há muitos mais. Mas nenhum deles é o Sorriso.

O Sorriso (este, com maiúsculas) vem sempre de longe. É a manifestação de uma sabedoria profunda, não tem nada que ver com as contracções musculares e não cabe numa definição de dicionário. Principia por um leve mover de rosto, às vezes hesitante, por um frémito interior que nasce nas mais secretas camadas do ser. Se move músculos é porque não tem outra maneira de exprimir-se. Mas não terá? Não conhecemos nós sorrisos que são rápidos clarões, como esse brilho súbito e inexplicável que soltam os peixes nas águas fundas? Quando a luz do sol passa sobre os campos ao sabor do vento e da nuvem, que foi que na terra se moveu? E contudo era um sorriso."

 

José Saramago

Não me venhas espiar as sílabas, não. Continua a fingir que cessei de existir e segue sem o entrave que fui eu. Segue rápido e feliz e vive tudo o que procuravas na fuga de mim. Não me venhas tomar o cheiro quando em vez, saber se já morri ou me tornei em quem não reconheces. Não me visites amiúde, não te quero aqui. Não sintas a temperatura a ver se está frio o suficiente para não queimar, ou morno o suficiente para te tirar o gelo do coração. Não te escondas debaixo desse manto de invisibilidade presunçosa que, sabes, não funciona comigo. Não vás retirando sanções até te julgares no direito de apagar o passado. Não. Deixa o tempo passar devagar. Quando me sentires a falta, não de quem preencha a minha vaga nas funções, mas de MIM, virás. Nesse dia, ler-me-ás de rajada e recordarás cada momento como um tempo que cristalizou. Far-se-á Luz na caverna escura de ti e o degelo será um flash. Nesse dia, se o dia chegar, entornarás significados antigos que evitaste e tudo será claro e límpido como a verdade que te vai ensurdecer. E nesse dia vais procurar por mim. Em cada rosto, em cada palavra, em cada um dos pequenos vazios dentro de ti, em cada saudade que descobrires. Vais ensaiar aproximações, negociá-las com o medo da rejeição. Eu não sei onde vou estar. Só sei que não estarei onde me deixaste, naquele sítio onde cabiam o teu mundo e o meu, onde tudo estava por ser. Não vou regressar a esse sítio nunca mais. Não acredito em regressos. Só acredito no infinito e em mim.


 





Não te vejo há meses. Não te oiço há meses. E continuo a sentir-te tão perto de mim. Aí, do outro lado do mundo, ouço-te pensar que já nada é exactamente como dantes. As prioridades, a importância que o antigo sonho tem. Aí, na solidão de ti para ti, consegues confessar-te. Ouve o que o coração diz e cala os clichés rituais. O meu conselho é o mesmo de sempre. Faz o que te fizer feliz. Sem medo, que a felicidade não mata nem mói. Deslumbra-te nas diferenças. Sente a minha falta. Fala comigo e dorme com os braços em mim. Acorda na saudade e persegue a tua verdade.



Já aqui tenho falado na minha necessidade extrema de verdade. Mesmo sabendo que posso estar a magoar alguém, ou a mim própria, mesmo vendo nitidamente as vantagens de me deixar ficar calada, mesmo sabendo que dar opiniões quando ninguém as pediu pode ser um abuso que coloca pressões nas liberdades alheias. Ferve-me sob a pele tudo o que penso e tenho de expulsá-lo, na hora, nem consigo deixar para depois e dar espaço e tempo para as ideias assentarem, amadurecerem e quiçá mudarem. Porque esta obsessão com a verdade e a fidelidade tem consequências e faz estragos. Quando decido alguma coisa, nada, mas é que mesmo nada, me faz demover. Posso ter todas as provas reunidas à minha frente a dizer que aquela decisão não é a melhor, que vai dar n problemas, que é simplesmente má ideia. Mas sou tão obstinada e faço tanta questão de ser sempre, sem excepção, mulher duma palavra só, que ainda dando a mão à palmatória e admitindo que estou redondamente enganada, não volto atrás. Se digo que irei por aquele caminho, que ninguém duvide, irei. Se me comprometo a fazer uma coisa, venha o que vier, razões, argumentos e obstáculos, farei. Morta de vontade de ir, dizer e fazer, se usei a palavra nunca, nunca irei, nunca direi e nunca farei.


 



 


Sofro, deixo passar oportunidades, e deixo lágrimas a escorrer. Mas de alguma forma, consola-me saber que esta sentença de carácter faz de mim uma Mulher grande, Honesta e Pura. Ostento, com orgulho (que os pecados capitais são para os crentes), um coração límpido e transparente, onde cada falha é obviada. E falhas, tenho muitas. Mas qualidades tenho muitas mais.






 

Já pensei um milhão de vezes em pedir desculpa. Mas não peço. Não posso pedir só porque lhe sinto a falta e lamento as consequências. Pedir desculpas de quê? Se não fiz nada que não fosse exactamente o correcto, aquilo em que acredito e se assumi sempre todas as minhas opções e opiniões. Não peço desculpas por ser quem sou, pensar e sentir como penso e sinto. Orgulhosa? Sim. E sobretudo segura de estar certa, pura e em paz com a consciência.


Ele tem muitos motivos para me pedir desculpas a mim. E eu fui sempre desculpando, sem os pedidos. E continuo a magicar desculpas para negar que uma pessoa que tanto idealizei pode ter falhas daquela dimensão.


Já pensei um milhão de vezes. Como um meio para atingir um fim. Mas teria de passar por cima dos meus princípios. E ele pode até merecer quase tudo, pode até ser tão especial que eu (ainda) ache que valha a pena os sofrimentos, as mágoas e as lágrimas. Mas nada, nem mesmo o grande amor da minha vida, vale mais que os meus princípios.


 


Há tempos pensei ter feito uma amiga. Uma feliz coincidência, daquelas que não se quer acreditar que o sejam, trouxe-me de encontro às palavras dela. Fui lendo e atentei que a desconhecida não era incógnita. Sosseguei o espanto e sorri. Percebi dimensões de sentimentos que não foram os meus, solidarizei-me com a candura destes e com as dores que neles se enraizaram.


A ternura foi-se instalando, foram trocadas confidências e selados pactos de confiança. Meio a medo, tanto me diziam para ter cuidado, que as pessoas não são todas como os meus olhos as vêem. Agora que penso nisso, a minha antiga-nova-amiga disse-me o mesmo sobre outra pessoa. "Tem cuidado, não te magoes." "É boa pessoa, mas..."


Mas quando os sentimentos são puros e desinteressados, os cuidados são deixados de parte. Achamos que não precisamos de ter cuidado, aqueles a quem queremos bem jamais poderão querer-nos mal. O resultado parece que não foi famoso. Magoei-me, magoaram-me. O broto de amizade desinteressada e genuína que achei que tinha encontrado foi decepado. Pior, perdeu-se a confiança. Pior ainda, as consequências, se quisermos condensar mil razões num bode expiatório chamado "mentira (?)", foram trágicas e ardem-me na pele, todos os dias, arderão sempre. Não querendo encapsular todas as raivas e angústias neste engano, que as culpas não são só de quem erra, são também de quem acata o erro e vira as costas à verdade, dói. Sinto-me defraudada. Sinto-me ultrajada e profundamente decepcionada. Como me tenha sido prometida uma amiga com quem trocaria poemas e memórias e, quando abri o pacote lindamente embrulhado, me tenha saído uma reles e bidimensional fotografia desfocada, uma sombra fria de tudo o que se anunciou. Afinal, foste apenas mais uma desilusão, mais uma pessoazinha ofuscada com o brilho do orgulho, bem no centro do umbigo.


Não sei, de facto, que tipo de pessoa serás.




E quanto mais lhe tentavam fechar a boca para que não se escapassem verdades, mais as ideias replicavam, maiores os gritos que o seu olhar plantava.


As palavras não valem nada, já sabemos, são ocas. Mesmo as ditas com vigor e verdade, tendem a trespassar-nos e a não deixar memória. A não ser que magoem muito. Essas tendem a ficar tatuadas na memória, são as mais difíceis de lavar, persistem, languidamente, puxando todas as outras para si mesmas, como um buraco negro.

 

As palavras não valem nada. Como nos permitimos dar-lhes tamanha importância, acreditar em quaisquer sílabas que alguém se lembra de juntar? As mentiras não são mais do que palavras, palavras na ausência e na distância de factos. Ainda que sejam, concedo, interpretações retorcidas duma verdade desfocada. E as mentiras são abomináveis. Abomináveis amontoados de palavras insignificantes, que não valem nada, mas que têm um inigualável poder corrosivo, destruidor mesmo. E como as palavras não valem nada, nada podemos contra essas mentiras maléficas que alguém plantou de soslaio, nas sombras, às escondidas. Na sombra lá germinam o seu putrefacto caminho e lá se vão apoderando de corações outrora puros.

 

E quando alguém que pensamos amar nos mente? Ousamos acreditar, porque quem julgamos amar roça a perfeição e vamos engolindo mais ou menos a seco. Vou confessar: alguém que amei mentiu-me, há muito tempo. E eu sabia, tentava não ver, e o amor foi criando rachas. Quando a pressão rebentou o amor desfez-se em cacos e desapareceu na maré. É que os amores construídos sobre mentiras são ocos e fraquinhos.

 

As mentiras são hediondas e as bocas que as proferem ou os dedos que as escrevem deviam um dia ser condenados ao silêncio, para que não mais magoassem. Deviam, mas não são, porque as palavras não são provas nem testemunhas, as palavras não valem nada. O que se diz hoje desdiz-se amanhã, os sonhos caem por terra, os planos fingem que nunca terão existido nem na imaginação. Afinal, é tão fácil mentir! Dizer que se ama, se odeia, se pretende ou se deseja. Dizer para sempre, dizer nunca mais.  São só verbos, sinónimos e pronomes misturados com pouca mestria e olhos baixos.

 

Devia aprender a mentir um dia destes. Talvez me fosse menos tumultuoso conviver com as mentiras alheias. Isso e ficar de boca calada quando as verdades andam ao soco para se libertar. Um dia destes...

 

Acho que fiz outrora o elogio do verbo. Tão fundamental que ele é. Com verbos as mentiras são mais fáceis de articular. E as verdades também. Valem o mesmo. Nada.

 

 

 

Às vezes apetece-me sair por aí a espetar verdades em paredes e em postes, a pendurá-las ao pescoço das pessoas. Parece que é rude e que tenho de aprender a ser menos impulsiva. Parece que se espera que as meias palavras abafadas produzam o mesmo efeito, ou se deixe fermentar o que se tem de dizer até que se digira tudo antes de ser dito. Mas deve provocar azia e tanto dispenso as azias que nem me recordo de alguma vez ter sentido esse ácido fenómeno.





(pausa para inspirar e expirar)





Trata-me bem, com justiça e com carinho. Sabes que perdoar não é sinónimo de deixar de doer... E que, mesmo doendo, endereço-te todos os carinhos que consegues suportar. Experimenta aceitar em vez de repudiar, uma vez por outra. Faz-te falta ser amado, mimado. Para compreenderes como é bom e porque é importante dar estes pedacinhos de nós aos outros.





Beijo na têmpora e um xi-coração. ;)

0palavras.jpg

Quem me conhece um pouquinho já terá percebido que não sou poupada nas palavras. Tenho a feliz coincidência de viver com os pensamentos soltos entre o cérebro e a laringe. Sem rédeas nem cintos nem travões, escorregam massa cinzenta abaixo. Se calha serem em número, arrepiam caminho mesmo que não tenha vontade de soltá-los. (Deve ser por causa da gestão de tráfego, quando há engarrafamento os sacanas desviam caminho pelo atalho mais próximo.) Isto significa que mesmo quando durmo, a boca abre-se e as palavras, os risos e suspiros, todos vão escorrendo sonos e sonhos fora.

Não padeço de grandes males que afectem o discurso, nem tenho já a grande timidez verbal que durou até ao fim da adolescência. Talvez porque o mundo se tenha tornado maior e mais ruidoso, algures pelo caminho devo ter percebido que, se não fizer escutar a minha voz, ninguém a poderá detectar por magia, telepatia, ecos no silêncio, ou o que lhe quiser chamar. E tenho conhecimento de mim própria o bastante para saber que, se explorar bem as palavras, mais as escritas que as faladas, sei ser suave e diplomata, sei ser assertiva e ríspida, sei ser poética quando os humores colaboram, sei ser concisa e restringir-me a linguagem límpida e técnica. Infelizmente, para mim e para os que me rodeiam, a impulsividade cresceu-me tão à flor da pele quanto a verbalidade. Isto traduz-se em reacções a quente, muitas vezes desproporcionadas e, concedo, exageradas. Se a situação me traz os sangues à ebulição, aumenta o ritmo cardíaco, vasoconstrição, os pensamentos são mais ágeis no sprint, sinapse acima, sinapse abaixo, o espaço mais e mais apertado e “sem estômago” para os fermentar, são disparados à velocidade da luz. Chegam a atropelar-se, atabalhoados na língua, que não consegue ser tão lesta. E assim, seja onde for, não há vultos que intimidem, venha quem vier, a (minha) verdade sai em socorro dos “pobres, oprimidos e injustiçados”. Manifesta-se amiúde também o advogado do Diabo, sempre disposto a defender o indefensável, com os mesmos pesos e as mesmas medidas.

Tudo isto para constatar e advertir, advertindo a constatação, que por mais que saiba que devia ter tento na língua, pensar bem e limar arestas antes de libertar discursos com os punhos a bater no ar ou nas mesas, não o consigo ter. Ou talvez não tenha grande interesse nisso e me permita esta indulgência com até algum prazer. Acérrima defensora da Verdade, sempre, para todos, creio que o seu potencial de deferir golpes tem a benesse de não ser passível de repetição. Ao passo que as mentiras e meias verdades se somam, se multiplicam, se prolongam, se obscurecem cumulativamente, a Verdade quando é encontrada não tem marcha à ré. Dói, ou pode doer, como um punhal enterrado por entre vísceras e costelas. E pode infectar, dar febres difíceis de curar. Mas cria-se uma imunidade. Outras verdades podem doer, outros males podem estilhaçar. Mas aquela verdade descoberta, nua, encandeia no momento, mas aos poucos aprende-se a viver com ela, a Ver. E jamais tornará a doer.

Os homens não são todos iguais. (Nem as mulheres, for that matter.) Mas lá haverá uns traços comuns no cromossoma Y (o da perninha a menos), aos quais poucos escapam, por motivos que agora não interessam nada. Porque o que interessa agora é o que me chateia, que é aquela tónica comum ao Machus ignorantus, que hoje podemos chamar de falta de ousadia. Vejamos: (quem se identificar ou a alguém que conheça ponha o dedo no ar! Ou, vá, no teclado. É aproveitar que hoje o consultório sentimental é grátis.)


- ele há o gajo que tem medo da mudança, seja ela qual for: casar, juntar trapinhos, comprar casa, procriar, divorciar-se, assumir os filhos que tem com a amante perante a família… Tudo o que implique definir as situações “preto no branco” dá-lhe arrepios, pelo que quando chega a hora H baza da praia sem mais nem ontem, finge que não é nada com ele e vai ali comprar tabaco… Ou seja, no tiene cojones para o que faz falta.


- ele há o engatatão que é podre de bom e as gajas, não resistindo ao seu sorrisinho de galã, sentem os joelhos a tremer e desfalecem nos seus braços. Este tipo não concebe a ideia de estar sozinho e um dia sai-lhe a sorte grande: o engatatão encontra uma semelhante do género oposto que lhe leva a melhor. E leva a melhor porque o facto é que as mulheres são matreiras, frias e calculistas (criaturas horrendas, na verdade e, não sendo todas farinha do mesmo saco, as excepções confirmam a regra). Quando dá por si, já o Don Juan está a trabalhar para sustentar uma qualquer badalhoca e os seus filhos (de outros pais, naturalmente, mas se ele tiver guito suficiente, a gaja embucha dele também, que há que garantir a herança).


- ele há também o outro engatatão, mais low profile, que é sensível, intelectual e modesto, mas depois do primeiro desgosto/par de cornos/grande tampa, chora baba e ranho, diz que nunca mais se vai dar a ninguém porque, coitadinho, sofreu tanto nas mãos daquela megera, e começa a utilizar esse argumento simultaneamente, como chamariz de novas vítimas (que as mulheres adoram um bom dramalhão e homens profundos e problemáticos) e como pretexto para o rol de flirts ir aumentando sem nunca se prender a ninguém. O que é isto, para além dum oportunismo frio? Falta de ousadia: “aiai que pode cair”, “aiai que pode doer”… Quem não arrisca não petisca, pá!


- depois temos os príncipes encantados, loiros e de olhos azuis (para quem aprecie o género, que não é o meu caso), super-queridos, românticos, estáveis, dos que oferecem flores e cozinham jantares à luz das velas, galanteiam, tocam piano (e saxofone e guitarra, já agora), galateiam mais, insinuam, mais um arrastar de asa achocolatado, galanteiam mais um pouco, e demoram taaanto tempo a manifestar claramente os seus sentimentos que uma gaja aborrece-se de esperar, começa a ter dúvidas se afinal o tipo está interessado ou armado em parvo, e entretanto “já foi”. Caramelos sem noção do timing: ou ‘coiso’ ou sai de cima, não?!


- Ele há o ‘melhor amigo’, criatura sempre dedicada, em quem se confia a vida e tudo o mais, o que ama platonicamente (muitas vezes em segredo) e sofre porque ela gosta de outro; ela confia no amigo para todos os desabafos, usa e abusa do ombro dele. Este protótipo de macho consegue esperar anos a fio, não arreda pé, está lá em cada momento mau, em cada lágrima, afaga-lhe o ego, dá apoio e cola os pedaços de coração partido com fita-cola, se for preciso. Mas não tem tomates para agarrar a gaja pela cintura e lhe dizer que está desesperadamente apaixonado, que assim não consegue viver e que ou ela lhe dá uma oportunidade ou ele vai fazer uma desintoxicação amorosa para outro canto do hemisfério e nunca mais a quer ver. Há que fazê-la optar, porque se a deixarem ela vai querer o melhor dos dois mundos e toda a gente sabe que não se pode ter tudo (pelo menos para sempre): o foleirão* que a trata mal mas lhe dá calores e o amigo que suprime as carências emocionais do anterior.


- last, but not least, temos os anormais traumatizados com o passado, que se acham o máximo, profundos e intrincados, mas são no fundo obsessivos e psicóticos. Noutras palavras, uns colas. Alguém faz o favor de lhes explicar que não é por baterem muitas vezes na mesma tecla que ela vai soar de forma diferente? “Desgruda, meu!” Não resultou no inverno da mesma forma que não vai resultar no verão. Ela escorraça-o da melhor maneira que sabe (insultos, pontapés, indiferença…) porque até quer que ele seja feliz. O tanso perde o tempo dele a sufocar a moça e a humilhar-se, em vez de viver a vida e reparar que a rapariga do lado, por acaso, até seria perfeita para ele. A isto chamo eu falta de sensatez para lidar com as perdas e aprender com os erros. Talvez porque seja confortável e tão mais fácil andar para trás e para a frente no único caminho que se conhece em vez de se fazer à Vida e ousar desbravar terreno inóspito, arriscar novas rotas.


 


Adenda a pedido de leitor que facilmente poderia encaixar-se em duas ou três das categorias acima descritas, em simultâneo:


- o parvalhão é único e irrepetível; é o tipo que tem personalidades múltiplas (consoante o continente em que se encontra), é preconceituoso, descarado, atrevido, capaz da maior sucessão de atitudes infelizes de que há memória, insensível, acha que é enigmático (mas no fundo é um livro aberto) e especial e acredita que o gelo não derrete; tem sotaque saloio, bate na mulher... Um docinho (de figo), portanto.



 


 



A parca idade e experiência nestas coisas das relações inter-sexo podem ter causado lacunas gravíssimas ou erros profundos nesta análise feita em cima do joelho (literalmente). Apesar de eu ter sempre razão, advirto que será pouco saudável alguma vez tomar alguma das minhas palavras como verdade absoluta. É, contudo, a minha verdade e quem discordar é livre de se manifestar (desde que não atirando ovos podres… que esses podem fazer falta para atirar aos ministros).


 



 


 


 


 



*este foleirão pode ser qualquer um elemento das restantes ‘categorias’


 


 


E quando um dia perceberes que esse pensamento já tinha sido pensado sem nunca as vossas existências se terem tocado? Quando comparares lado a lado ambições, ideais e pragmatismos? Quando medires intensidades e coincidências? Insistirás em perseguir um futuro que definhou num passado distante? E se em vez de teimares em suspiros do que poderia ter sido te fizeres à VIDA e agarrares com fome voraz o que ela tem para te oferecer?



Trust me on this one: a vida é aqui e agora!