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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Portugal tem um dos novos hotspots da Europa, e muito graças às companhias aéreas lowcost, que tornaram o que era, há uns anos, uma viagem de meia semana por 500€ ou mais, numa escapadinha acessível a quase todas as bolsas. Viagens de ida e volta por 50€ ou menos (ou mais, tudo depende das datas e da antecedência com que se faz a reserva) é um factor essencial que faz todos os portugueses (ou próximo disso) conhecerem ou revisitarem aquele que é, provavelmente, o arquipélago mais belo do mundo.


Como só posso falar do que conheço, e só conheço São Miguel (por enquanto), cá ficam as minhas dicas para quem ainda não conhece, e para os que hão-de regressar.


 


Como ir:
- Easy jet
- Ryanair
- SATA
- TAP

Como visitar:
Carro alugado (essencial para chegar a todo o lado e não perder pitada do tanto que esta ilha tem para oferecer)
- A pé pelo centro
- Trilhos nas serras



O que visitar:
Lagoa das sete cidades


Lagoa do Fogo


- Lagoa das Furnas


- Ponta Delgada, centro e não só (ver mais aqui)


- Mercado da Graça, Ponta Delgada


Teatro Micaelense


Furnas


Poça da D. Beija (3€, todos os dias das 07:00 às 23:00 - saída das piscinas às 22h45)


Ermida de Nossa Senhora da Paz


- Vila Franca do Campo


- Povoação


Fábrica de Chá Gorreana (visita gratuita, com oferta de um chá no final)


Mosteiros


Parque Terra Nostra (5€)


- Lagoa


- Santana


- Rabo de Peixe e as obras de Vhils em homenagem aos seus habitantes


- Ribeira Grande


Nordeste


Estufas de ananases

O que fazer:


- Observação de cetáceos: várias companhias actuam nesta área, com embarcações que saem de Ponta Delgada. A actividade está sempre dependente das condições meteorológicas, por isso convém informar-se antecipadamente sobre os dias de saída e conjugar com os seus planos. Não é uma actividade barata, mas é inesquecível.


- Trilhos na serra


- Ir à praia (eu não sou fã de praia, mas recomendo a Praia do Pópulo, bandeira azul)


 


Onde comer:
Associação Agrícola de São Miguel, Santana (o queijo com pimenta da terra ou doce de ananás para entrada e depois, a extraordinária carne dos Açores)


Cais 20, Ponta Delgada (o pão de alho, os cubos de tamboril, peixe, petiscos, as gambas, as lapas... o restaurante também fornece transporte grátis de e para os hotéis, e tem um bar)


- Mariserra, Ponta Delgada


- Borda d'água, Lagoa (lapas, peixe assado fresquíssimo e o cheirinho a maresia à porta)


- O Jaime, Vila Franca do Campo (matança com todos, peixe assado)


Gáscidla, Mosteiros (polvo, bacalhau, lapas, e a única opção em Mosteiros)



Onde ficar:


Hotel do Colégio: no centro de Ponta Delgada, pequeno e perfeito para quem quer explorar a cidade a pé, com um serviço de qualidade.


Quinta de Santana, do outro lado da estrada em relação à Associação Agrícola, económico, tem apartamentos bem equipados (alguns mais modernos e alguns mais tradicionais), de 2 pisos, com jardins muito bem cuidados, uma piscina simpática, muitos gatos!, a opção ideal para quem prefere self-catering de algumas refeições (nomeadamente o pequeno-almoço, que não está incluído na tarifa normal).


Hotel Vip Executive: longe do centro, mas tem a vantagem de, se estiver com um carro alugado, ter estacionamento. É um hotel grande, talvez grande demais, normal para o standard das 4 estrelas, com um bom pequeno-almoço.


 


Compras:


- Queijo da Ilha (no Rei dos Queijos, à entrada do mercado da Graça, ou supermercados - essencialmente aos mesmos preços que encontra no continente)


- Queijadas de Vila Franca (na fábrica, em Vila Franca do Campo, ou nos supermercados)


Queijadas da Graciosa


Bolo lêvedo (receita no link)


- Doce de Ananás (nos supermercados Sol Mar, entre outros), perfeito para conjugar com queijo fresco ou queijo da ilha


Licor de Maracujá do Ezequiel ou Mulher de Capote (nos supermercados ou, se viajar sem bagagem de porão, no aeroporto, em que os preços não são muito diferentes do resto da ilha)


- Chá Gorreana (na fábrica ou nos supermercados, na variedade que preferir)


 







 Boas viagens!

A minha wishlist das coisas materiais (que não é a wishlist a sério) é curtinha e tem há anos e anos seguidos (mais de 20, garanto) os mesmos itens*.


Não pelo valor material ou preços proibitivo (que não têm), não que sejam assim tão raros de encontrar. Pelo significado que têm, em crescendo.


Globos terrestres, mas de quando ainda existia União Soviética, Jugoslávia, de quando Myanmar ainda era a Birmânia.


 


Da outra wishlist, de imaterialidades que até podem ser conseguidas com cartão de débito, não vale a pena escrever, eu aponto no globo.


*Já risquei da lista o Monet e o Klimt. Venha um Dali.

Quando era pequena, adorava ir ao zoo, e tudo o que envolvesse estar perto de animais. Dar pão aos patos no pequeno lago do jardim, observar formigas e lagartixas também. Há várias fotos de mim, no zoo, agarrada às redes, sem ser perceber bem se preferiria que os bichos estivessem livres ou que eu estivesse do lado de lá. Creio que me era indiferente, eu queria era estar com eles, comunicar com eles. Recordo-me de ter a sensação de não me sentir diferente destes animais e achar que comunicava de forma algo telepática com eles. Na verdade, ainda acho um pouco.

 

O que vem nos livros de conservação da natureza e biodiversidade, e com o que eu concordo, é que os zoos têm uma importantíssima missão de educação e sensibilização. É verdade que não se gosta daquilo que não se conhece, e do que não se gosta não há vontade de preservar. Toda a gente está sensibilizada para o perigo que correm os pandas e o seu habitat porque os pandas são giros, são fofos, são engraçados. (As espécies menos fofas também precisam de atenção e é bem mais difícil captar atenções e mobilizar meios de estivemos a falar de répteis com ar feroz ou de peixes feiosos.) Acrescento ainda o papel que os zoos tem em múltiplos programas de preservação de espécies em risco, também pelo aspecto da reprodução em cativeiro, e programas de salvamento e mesmo de reintrodução de animais no seu habitat natural. Tudo certo. Há todo um trabalho muito bom e muito meritório de todo o meu respeito e veneração, mesmo.

 

Mas depois há a realidade. Eu pensava que aguentava e que tinha saudades de ir a um zoo, toda a minha racionalidade alerta confirmava cada palavra que repeti para conseguir convencer o homem, que odeia zoos tanto quanto odeia touradas e animais no circo (como eu), metendo tudo no mesmo saco. Eu tinha de ver os pandas no Zoo de Pequim, tinha mesmo. Lá fomos. O homem sob protesto. Ainda por cima tão barato. E foi duro. Muito duro. Não que as condições fossem más, para zoo, que não são. Mas não só não matei saudades de zoo como até acho que enquanto me lembrar daquele urso não volto a pôr os pés num zoo.

 

Sacana do urso, tão longe da sua casa (ainda que nunca tenha conhecido outra), com aqueles olhos a falarem comigo, a pôr-de de pé quando viu o homem, com ar de súplica, como quem pede ajuda ou só conversa. Os acrílicos entre nós. Outros ursos a vaguear. Os olhos daquele urso a perguntarem "porquê". Os meus olhos desfeitos em sal, os olhos dele a soluçarem. Mesmo a recordação daqueles minutos me dói com o peso de todo o mal que fazemos ao planeta, a nós.

 

Não mais, por favor. Não mais.

A Carolina admite, tem medo. 

 

Não sinto o mesmo.

 

Posso dizer-vos que já se tornou quase uma anedota cá em casa e entre as pessoas mais próximas, sempre que vou para algum lado, parece suceder-se uma desgraça em grande escala pouco depois. Quase me apanhando de raspão. Desde atentados terroristas (nunca me vou esquecer que as imagens que foram divulgadas dos atentados em Mumbai, na estação de comboios Victoria Station, tinham um plano da cadeira onde estive sentada na cafetaria, dias antes), golpes de estado (Tailândia), explosões violentas, aviões a cair, sismos, you name it. Costumo dizer, como uma graçola, que a CIA deve andar a vigiar-me há anos, mas que sou absolutamente inocente (e sou!).

 

Não tem graça. Claro que já me cruzou o pensamento umas dúzias de vezes "e se (...)?". E se eu estivesse naquele avião, e se eu estivesse ali naquele dia, e se fosse comigo? Seria hipócrita dizer o contrário. Mas isso muda alguma coisa do que faça? Não. Claro que há riscos que podemos, e devemos, evitar. Mas só se vive uma vez, até prova em contrário. E todos morremos. E é quase sempre imprevisível o quando e o como. E não temos grande controlo sobre o curso das coisas.

 

 

 

 

Não tenho medo. A verdade é essa. Pode acontecer qualquer coisa, em qualquer canto do mundo. Tudo é um risco. Deixar de viajar seria uma morte lenta. O que não admito, jamais, é deixar de ir onde posso e quero por medo de qualquer coisa. Seria como deixar de viver, por ter medo de morrer

Estamos de férias do outro lado do mundo. Internet só no hotel e nem sempre. Demasiadas coisas bonitas para ver e viver, não sobra tempo para blogar. Adoro a Ásia, adoro a Ásia, cada vez mais adoro a Ásia. Devo ter nascido por cá numa vida passada. O homem idem, está farto de ter dejá vus. Nasci para isto, não percebo porque é que ninguém me paga para viajar constantemente. Até breve!

Só uso a Fertaus (o "comboio da ponte", do Grupo Barraqueiro) quando tem mesmo de ser e hoje foi um desses dias. O homem ridiculariza este meu ódio de estimação, a maior parte das pessoas acha que é o máximo passar na ponte de comboio e tal, mas eu não vou nisso. Qual velha(das) do Restelo, bato o pé e não me demovo. Não por teimosia, mas porque as razões para este ódiozinho não faltam:



    • As estações são geladas: mesmo nos dias de Verão, meus amigos, as estações que eu tenho de usar, quando calha um desses dias, na margem certa, são um absoluto gelo! A 500m pode estar calor, mas nas plataformas das estações o grizo é impressionante!

 

    • Os horários deixam muito a desejar. Faz sentido que a ligação entre a capital e uma das maiores cidades do país, Setúbal, só se faça de hora a hora?

 

    • O espaço, ou melhor: a falta de espaço. Não sei se quem fez as carruagens estava a desenhá-las para Liliputianos, mas caramba (!), o povo português até é baixinho e tem pernas curtas (no geral), como é que o espaço entre lugares obriga a que os joelhos dos passageiros se toquem?! (Sim, sou cheia de não-me-toques, e depois?!)

 

    • O preço é absurdo! As viagens de comboio são das mais caras da Europa se observarmos o preço médio do Km. O valor mais baixo é 1.40€ para trajectos de uma paragem e vai até aos 4.35€ para a ligação Setúbal e Lisboa. Se eu for dos Foros de Amora para Lisboa pago 2.50€, mas se apanhar o comboio na estação anterior (Fogueteiro) são mais 0.40€ por uma distância de 3.3 Km (4 min de Fertagus).

        • Sulfertagus, o serviço de autocarros da empresa, não se fica atrás. A tarifa mais baixa para bilhetes simples é de 2.70€ (um trajecto de uma estação, por exemplo, de Corroios ao Pragal ou do Fogueteiro a Coina) e pode ir até aos 4.55€ (do Pragal a Setúbal). Não admira que tanta gente continue a preferir usar o automóvel. Falando em automóveis...

        • Se levarmos carro para um parque de estacionamento Fertagus, eis mais uma bela forma de arrombar o orçamento: 1.50€ ou 1.90€ (consoante se trate do parque exterior ou do auto-silo), ou em versão "passe": 25€ ou 30€. Amigos do Porto que vão ver a SCTP privatizada, utentes da TAP (sim, Grupo Barraqueiro, estou a olhar para vós!), si prepara!

        • Fazendo as contas, se eu substituísse o meu actual passe L12 (59.45€) por este magnífico serviço privado, pagaria sensivelmente o dobro. E chegava exactamente à mesma hora ao trabalho, e a casa. E ia / vinha provavelmente de pé ou com joelhos de estranhos a roçarem-se nos meus.


É verão. Os dias deviam ser, ou pelo menos parecer, mais longos e capazes de nos multiplicarem a vontade e a energia. Não sinto nada disso. Os dias são cada vez mais pequenos para lhes encaixar tudo o que quero fazer, nos intervalos do que tem mesmo de ser. Há o terrível desperdício da noite, que me embala como canto de sereia e me derruba as pálpebras exaustas. Num minuto estou cheia de planos para os minutos seguintes, começo um texto, uma pesquisa, um mimo (para ele, para outros ou para a alma - são a mesma exacta coisa), e no minuto seguinte já estou sob um transe profundo em que não oiço nada, não sinto nada, toda eu personagem dum sonho invariavelmente distante.


 


Além da tendência inata para a invisibilidade, devo ter uma cara que se enquadra em todos os sítios e em sítio nenhum. Vejamos: quando estou no estrangeiro os locais (ou turistas nacionais) pedem-me indicações de mil e uma coisas, não obstante muitas vezes nem sequer me dar ao trabalho de não parecer uma turista (isto significa andar com a máquina fotográfica ao pescoço, e por vezes com um guia ou mapa do sítio que estou a visitar na mão). Em Portugal também, mas isso é bastante mais natural do que tentarem vender-me passeios no Douro em castelhano ou darem-me menus em inglês - o que também vai acontecendo amiúde.
Não sou pessoa de falsas modéstias, eu sei que tenho um jeito nato para línguas e sotaques, que apanho muito fácil e instintivamente entoações e toda a linguagem não verbal. Isso facilita a comunicação em qualquer sítio do mundo e, se quisesse, podia enganar alguns (lembro-me do colega checo que ao fim de 10 minutos de conversa em inglês me perguntou quantos anos eu tinha vivido nos States - nunca lá pus os pés).
O que me aflige é eu constatar, dado o à-vontade com que me pedem indicações e informações mas mais distintas línguas, que: em Marrocos, que devo ter cara de marroquina; em Itália, que devo ter ar de italiana (e além dos italianos, serem portugueses a perguntar e eu arriscar, pelos trejeitos e sotaque, ou só mesmo porque sou muito boa a ler as pessoas, a responder em português); na Rússia, que devo ter cara de russa; na Malásia, que devo ter cara de malaia; na Polónia, que devo ter cara de polaca; no meu terceiro dia em Barcelona houve uma senhora que me disse que o meu catalão era quase perfeito e perguntou há quanto tempo estava ali a trabalhar, depois de lhe dar dicas sobre os supermercados e mercado da zona. Enfim, estas histórias repetem-se por aí fora. Não me lembro dum país em que tenha estado mais de um dia (e já lá vão umas dezenas) em que não tenha vindo alguém pedir-me indicações na língua nativa. Os episódios mais cómicos devem ter sido e o da Rússia (acabadinha de desbravar o suficiente do alfabeto cirílico para conseguir ler os nomes das estações de metro e vem uma russa perdida perguntar muitas coisas que não faço ideia; mas lá apontei para uma das senhoras que estão nas casinhas de vigilantes ao fim das escadas rolantes como uma melhor alternativa informativa) e o polaco: mesmo não falando mais de meia dúzia de palavras de polaco, isso nem impediu uma velhinha de me fazer um autêntico questionário e mantemos uma espécie de conversa, nem de eu dar uma decompostura a uma feira armada em chica-esperta que achou que podia passar à frente de toda a gente num consultório.

 

 

 

Nunca conheci um verdadeiro viajante (não confundir com o turista ocasional ou profissional) que não gostasse de ler. E ler, sobretudo, literatura.

 

 

Não se trata de um acaso. O verdadeiro viajante, o que viaja por paixão, o que viaja porque TEM de viajar para se sentir completo, tem esta compulsão de IR, sempre que pode, aonde não foi ainda, de se demorar mais em cada rua, absorver todos os cheiros e cores do céu, cada imagem com uma miríade de luminosidades e ângulos. E os livros permitem isso, uma experiência única, íntima, pessoal e intransmissível a cada um dos que viajam nas suas páginas. Fugas, pensarão alguns, os que desconhecem que, no tempo que se passa longe, o encontro com os que nos moram debaixo da pele estreita-se tanto. Começando pela imagem no espelho.
Há viagens deliciosas que só os livros permitem, porque os livros permitem tudo, em qualquer tempo, lugar ou universo. E permitem fazer o mesmo trajecto vezes sem conta, sem que alguma vez seja exactamente igual ao que já foi. E permitem, como as viagens, que a variante maior seja o mundo interior do viajante, e quantas mais páginas de quilometragem tiver, melhor será a percepção que tem da sua própria diferença, logo, identidade.
A bagagem, quanto mais se viaja, mais densa, mas leve, se torna; sabe-se ao que se vai cada vez com mais precisão, deixam de importar os destinos, como as capas dos livros, e cada partida à aventura sabe ao que aos outros sabe o conforto do regresso a casa.

 

    • Quem fala de política sem medo de divergir da maioria.

 

    • Quem é fiel aos seus princípios e defende até ao fim aquilo em que acredita.

 

    • Quem trata bem os animais.

 

    • Quem sorri quando fala e ouve falar de viagens boas.

 

    • Quem leu pelo menos dez vezes mais livros do que teve namoros.

 

    • Homem com barba.



Che Guevara sexy barba comunismo política

 

 

 

Disclaimer: as minhas definições, a vocês (os três) que me lêem, estejam à vontade para discordar.

Eu tenho uma confissão a fazer. Que só é confissão neste fórum, porque na minha "vida real" toda a gente sabe, há décadas, do que é que a casa gasta. O meu vício, o único, é uma paixão desmesurada, uma vocação inusitada, um chamamento. Viajar. É o que consegue dar-me ânimo se tudo o resto correr mal, alegria genuína, excitação, orgulho de estar viva e a aprender tantas coisas, restaura-me uma inocência pueril, inunda-me de ambições gigantes.


Se morresse agora, neste momento, levava fantásticas memórias de aventuras em muitos lugares, que guardo como se de amigos se tratasse, daqueles íntimos, com quem partilhámos alguma coisa profunda, mesmo que durante pouco tempo. E levava comigo uma angústia sufocante de não ter embarcado em mais aventuras, de não ter feito amigos entre outros sítios que me povoam os sonhos desde sempre.


O mundo é tão esmagadoramente grande e intenso, infinito, e tão pequenino. Do mundo que carrego comigo, não como um fardo, mas antes um tesouro fechado na palma da mão, o meu mundo, egoistamente só meu, faço biografia com mapa de memórias. Este mundinho infinito provoca-me, seduz-me. - caraças, que privilégio estar viva e ser testemunha de tanta e tão extraordinária beleza! Que bom, estar apaixonada pela vida.



 

Na verdade, perguntaram-me durante um vôo curto, minutos antes da aterragem, ainda o trem de aterragem não tinha descido:


 


 


- "Desculpe, estava com os «fones» e não ouvi, passou-se alguma coisa?"


- "Não se passou nada, estamos prestes a aterrar, é só isso."


- "Ah, é que me pareceu que o avião estava parado."


Ainda não tinha dito: isto é capaz de vir a ser, em parte, um blog de viagens - a mais antiga das paixões, arrisco a dizer a maior, porque reúne as outras dentro de si.

 

 

 

A maior diferença foi acordar com o nascer do Sol, com o Corão a ser cantado alto e bom som pelos megafones da mesquita que ficava ao fundo da rua, a invadir os ouvidos, os sonhos e a espantar as pestanas. Estores corridos e portadas fechadas, numa vã tentativa de superar a questão e ganhar mais duas horas de sono... mas, afinal, não é o sono que me restaura energias quando se trata de viajar, o melhor alimento para a alma que conheço. O que me cansa é a rotina, a agenda com horas marcadas, os deadlines, as reuniões, a ausência do inesperado e aquela adrenalina que só sinto aprendendo coisas novas, conhecendo lugares novos, conversando com pessoas dum mundo diferente.

 

 

 

Começo pela antiga Constantinopla, não por ser a mais vívida na memória, não por ser a mais marcante, ou a mais recente. Talvez porque, ao mesmo tempo que marcou uma etapa de independência, foi um sítio em que senti emoções deveras estranhas para uma hiper-racional como eu. Senti que aquele sítio era meu, que despertava memórias submersas na minha memória. Juro por tudo, nunca lá tinha ido antes (pelo menos nesta vida), muito embora tenha saído de lá com a mesma certeza que mantenho hoje: voltarei.

 

 

 

Agarrada ao cepticismo, procurei explicações enquanto fotografava barcos de pesca no Bósforo que me faz lembrar o Tejo, com o chinfrim das gaivotas por banda sonora. São as pontes, o aqueduto, as calçadas que fazem lembrar Lisboa, é isso. Aqui deste ângulo, esta mesquita bem que podia ser a Torre de Belém, a vista e os cheiros são idênticos. Além os eléctricos, a luz branca reflectida nos edifícios, mesmo que seja Novembro e ameace chover. Dotada com um péssimo sentido de orientação (perco-me no Centro Comercial Colombo, senhores, ainda!), dei por mim a passar a Universidade e a apontar com a máxima segurança as direcções para aqui e acolá, sem mapa, sem nada. O Grand Bazaar (que não é grande, é imenso: cerca de 5.000 lojas e entre 250.000 e 400.000 visitantes diariamente!), labiríntico e cheio de indicações para os turistas seguirem setas ou um eventual guia, cheirava-me a terreno conhecido, amistoso, tudo numa mescla de descoberta com déjà vu. Curiosamente, mais tarde viria a reencontrar estas sensações noutro ponto do globo, mas confirmando uma inexplicável afinidade com a cultura otomana (fica para outro texto). Os padrões hipnóticos, os incensos purificantes, as pessoas duma espontaneidade deliciosa, esta é uma das paragens obrigatórias para quem visita Istambul.

 

 

 

Tive a sorte de ver parte da cidade na companhia duma rapariga local, amiga de outra amiga com quem viajava, que nos levou a restaurantes típicos, que regateou preços (turista paga mais, claro) e que nos levou a uma magnífica celebração do fim do Ramadão, com música, artesanato, uma bebida quente de leite doce e espesso com canela, cujo nome não fixei, entre outras delícias para os sentidos.

 

 

 

Gosto de Muçulmanos, sempre gostei, são respeitadores e educados, crenças à parte. As ruas de Istambul (de um ou do outro lado do rio, num ou no outro continente) são europeias, ou "ocidentalizadas", vá. A maior parte das pessoas, sobretudo jovens, dispensam as vestes tradicionais, véus e djelabas, e também não é muito frequente ver-se os tapetes de oração a serem desenrolados às horas assinaladas, interrompendo as rotinas. Há mais mesquitas do que igrejas católicas, e os ex-libris da cidade, a Hagia Sofia e a Mesquita Azul, por si só, valeriam a viagem, faltassem outros bons motivos. Mas não faltam, muito pelo contrário. Naturalmente, em locais de culto, é requerida modéstia e vestuário adequado, pelo que é boa ideia levar uma écharpe para o caso de ser aconselhável cobrir os cabelos e deixar os tops e mini-saias para outras andanças.

 

 

 

A cidade é tão segura como qualquer outra, há que manter um comportamento atento e responsável, proteger devidamente dinheiro e bens valiosos, nada de novo, portanto.

 


Um dos aspectos que mais impressiona em toda a Turquia é o nacionalismo exacerbado. Não há rua sem alusão ao "herói" Ataturk, há fotografias suas nas casas, paredes, lojas, restaurantes, tudo quanto é sítio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O talismã preferido é o "olho azul", em variadíssimas formas e tamanhos, em pulseiras, espanta espíritos, amuletos de retrovisor, porta-chaves, brincos, you name it. Supostamente, afasta más energias e protege de mau olhado, etc. e tal.

 

 

 

 

O café turco é... singular... (deve haver quem goste, mas cuidado para deixar assentar as borras - que depois podem ser usadas para "ler o futuro".) Eu fiquei fã do chá de maçã (sabe a maçãs verdes, ácidas, nham!), mistela instantânea e açucarada que os turcos bebem aos litros, bem quente. Outras iguarias passam pelos deliciosos iogurtes (umas colheradas servidas com frango assado e arroz simples fazem a diferença, para melhor), os kebabs, espetadas e afins, e os baklavas (demasiado doces para o meu palato). Como sabem, os muçulmanos tradicionalmente não bebem álcool, mas há bons vinhos turcos, e o aperitivo raki, intenso e de sabor anisado (idêntico ao ouzo grego), é normalmente misturado com água, passando de transparente a um aspecto leitoso. Não apreciei o único que experimentei, mas creio que o defeito era ter água a mais (fica enjoativo), prefiro as bebidas mais pungentes. ;)

 

 

 

Em tempo de aperto económico para a maioria dos portugueses, fica a sugestão para usar bem um subsídio de férias razoável (para quem o tem...). As viagens são relativamente baratas, o custo de vida bastante acessível, é um destino cultural e humanamente muito enriquecedor, e que eu recomendo vivamente.

 

 

 

Deixo um exemplo actualizado à data de hoje*: na logitravel, vôos directos + hotel 7 noites + pequeno-almoço em hotel 3 estrelas, em quarto duplo, 388€ por pessoa, com partida a 10 ou 26 de Setembro (no Inverno é ainda mais barato, claro).

 

 

 

 

 

*Não, ninguém me paga para publicitar nada, com alguma pena minha.

Estou longe de ser uma pessoa estável. Sou até bastante temperamental, de fases, consoante a lua, a hora, o interlocutor, o tempo ou as cores… Sou errática e desequilibrada, de extremos e peremptória nas escolhas que faço. Detesto rotinas e a ausência de estímulos novos: conversas, locais, desafios, ideias. Talvez por isso não esteja nunca demasiado cansada para embarcar em programas que me digam algo às sinapses. O que me cansa é exactamente ter limites pré-definidos, saber antecipadamente como vai ser um dia de trabalho, uma refeição, tudo com horários e regras. Detesto conhecer de cor as pedras da calçada e os buracos no alcatrão, a acomodação de usar sempre o mesmo caminho só porque é o mais rápido… Do que eu gosto mesmo é do inesperado, de surpresas, de aventuras de e em todos os sentidos. Gosto de passear a pé, em cidades desconhecidas, no meio da serra ou na planície. Gosto de encontrar velhos amigos em locais inesperados. Gosto das rajadas de vento que deixam a verdade a descoberto. Gosto de arriscar mudar só porque sim. No caos em que a minha vida se encontra neste momento, achando-me até ineditamente desanimada, encontro alento no amanhã por descobrir. Tenho a absoluta certeza que a próxima semana será diferente desta, e conforta-me não ter a mínima pista de onde estarei ou a fazer o quê.

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Quando era miúda não conseguia imaginar-me com mais de 18 anos. Até aí a vida seguiria certamente de acordo com o planeado, em torno da escola e pouco mais. A partir dos 18 não conseguia sequer visualizar uma sombra de futuro. O que até é estranho, porque sabia exactamente que curso queria tirar e onde (e foi isso mesmo que fiz), mas esse é outro capítulo, o da obstinação desmedida (que quando meto uma ideia na cabeça não desisto até a ver concretizada; mas é que não desisto MESMO!). Nunca tive planos muito concretos a longo prazo, nunca imaginei como seria a minha vida aos 20 ou aos 30. Sabia, grosso modo, o mesmo que sei hoje: que o que me dá prazer é aprender e viajar pelo mundo, que amar é imprescindível e que a felicidade não reside nos bens materiais. Tenho confiança em mim, e isso basta-me, por ora, para não ceder à resignação.

Regra geral. Tal como não repito viagens, regra geral.

 

Apoquenta-me constantemente a consciência da finitude, da perenidade, do tempo que só escoa num sentido. Preocupa-me não conseguir chegar a tudo quanto sonho (quem manda sonhar demais?), não ter tempo para concretizar. Arrelia-me pensar que estou a repetir um caminho conhecido, um parágrafo já saboreado. A segurança das rotinas faz-me espécie e por isso evito as evitáveis. Ir jantar aos mesmos restaurantes, ouvir playlists na mesma ordem, entrar sempre pela mesma porta, cria-me uma espécie de desassossego de estar a perder alguma coisa de novo que se passe do outro lado.

 

Igual com os livros, igual com os sítios. Reler o mesmo romance é tirar o lugar (ou o tempo, esse tirano) a outro que ainda não li. Voltar ao mesmo sítio, quando são tantos mais os que ficam por visitar.

 

Claro que há excepções que confirmam a regra. Sítios que foram visitados com pressa e ficou a sensação de que a experiência não ficou completa, ou que de outra perspectiva as sensações seriam tão distintas. A "alma de cientista" (não fui eu que disse) que me habita obriga-me a tirar a limpo as dúvidas, tenho de saber, e lá vou eu. A companhia (ou ausência dela) transforma uma viagem, isso está comprovadíssimo. Tal como entre ir em "excursão" (blhargh, ptui) é o oposto de ir numa aventura independente.

 

Os livros, por sua vez, assumem significados distintos consoante o ponto da vida em que nos encontramos, também não tenho dúvidas. Reler os livros que na adolescência nos marcaram e nos 'mudaram o mundo', em que nos sentimos espelhados ou chocados ou deslumbrados, ou que nos acompanharam em momentos particulares, em fases da vida mais ou menos viradas "para dentro", é uma experiência que não se repete, por forçosamente não se poder repetir.

 

 

 

E depois há as obras-primas. Há os autores geniais. Aqueles que, quanto mais lemos outros, quanto mais aprendemos, quanto mais sabemos apreciar, mais e mais gostamos, mais e mais admiramos. Aquelas palavras em que em cada esquina de página descobrimos uma nova verdade de bolso, uma reflexão mais certeira, um presságio mais afinado. Aqueles que nunca se esgotam. A literatura que faz parte do nosso íntimo e ao nosso ritmo, que se cola às sinapses e nela se canoniza. Os sublimes.

 

 

 

 

 

De onde se conclui que, para o Saramago, meia dúzia de Nobel não teriam sido demais. E que o Zé Luís caminha a passos largos para este destino.

Esta rapariga não só escreve "p'ra caraças" como tem o condão de tocar em pontos que me são tão especiais...


 


Centenas cruzam-se por lá, uns apressados outros numa espera que se torna longa. Palco de lágrimas de despedida, abraços fortes. Palco de correrias para os braços de quem volta. Aeroportos. Criei uma aversão a aeroportos.
Passo lá muitos dias. Uns dias à espera de ver alguém partir, outros à espera de quem chega, na sua maioria estranhos para mim. Muitos de vocês não se apercebem da profundidade das despedidas, de quem não conhecem, juntos às partidas, até porque vocês mesmos estão de partida e com pressa. Eu passo lá horas, sem partir. Conto as famílias que se separam, os namorados que vão "morrer" de saudades. Vejo as lágrimas das mães dos filhos que vão para longe e ouço as juras de amor eterno dos amantes. Apercebo-me da profundidade das relações entre pessoas que me são estranhas.
Nas chegadas vejo as correrias. Os sorrisos assim que se avista quem os espera. As crianças no sentido contrário a quem chega para alcançarem os braços dos pais. Os namorados com flores, as namoradas saudosas. Os abraços, os beijos. O saltar para o colo. E os abraços outra vez, e mais beijos. E as silhuetas lado a lado, unidas pelas mãos, a abandonarem o que para mim é o lugar mais solitário do mundo.
Não sei quantas vezes já viajei. Já foram bastantes. Poucas comparadas às horas que passo em aeroportos a ver os outros irem e virem. Mas sei que mergulho por momentos na solidão. Eu e os aeroportos. Talvez esta aversão tenha a ver com o facto de nunca ninguém se ter ido despedir de mim ao aeroporto, ou sequer levar-me. Ou porque nunca ninguém me esperou à chegada. Nunca tive as despedidas, nem as juras de amor eterno, nem ninguém a "morrer" de saudades, ou uma mãe saudosa antes de eu partir. E nunca à chegada correrias, nem um colo para onde saltar, nem flores, nem saudades, nem abraços. Nunca ninguém à espera. Eu e os aeroportos. O lugar mais solitário do mundo. Aeroportos. É a minha silhueta sozinha a abandonar o palco dos abraços e beijos e correrias dos outros.

Eu e a minha bagagem a caminho do táxi de cabeça baixa. Ao longe, na minha mente, o som de violinos tristes, como nos filmes. A miúda que nunca tem ninguém à espera. A de quem ninguém tem saudades, daquelas que não podem esperar por não fazerem "morrer" ninguém. A minha silhueta unida à da bagagem, e os olhos no chão para não ver os abraços e beijos dos outros. Para não contar os casais e nem as famílias. Nem as correrias, nem as crianças. Eu e os aeroportos. O sítio mais solitário do mundo.

Se eu voltasse a nascer, e
as minhas mãos me ensinassem o caminho
que vai do coração ao mundo, e
os meus olhos me abrissem o círculo
que o mar desenha no horizonte,
e o meu nariz respirasse a luz que a manhã
solta de dentro da névoa, e os meus lábios
pedissem o pão de estrelas que as aves
trocam entre si, e os meus passos me conduzissem
para onde ninguém precisa de voltar,
o tecido da minha vida seria transparente
como o vidro da janela que não abro,
o fio que vou puxando seria eterno
como os números que contam os dias de um deus,
a tesoura da noite ficaria na caixa
que não precisei de abrir. Se eu voltasse
a nascer, e as velas do sonho me envolvessem
com o linho do seu vento.