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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

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Não há quem me dê mais "pica" conhecer, ou com quem goste mais de conversar, do que pessoas que viajaram, que viram sítios e pessoas e modos de vida e paisagens e formas de arte diferentes dos "nossos". Os viajantes (muito diferentes dos turistas de resorts e excursões) são, indubitavelmente, mais tolerantes, menos "judgemental", mais aventureiros, mais curiosos, mais focados no fundamental e menos apegados ao acessório. Eu não gosto de pessoas, mas gosto de pessoas com vida dentro.

Ainda não tinha dito: isto é capaz de vir a ser, em parte, um blog de viagens - a mais antiga das paixões, arrisco a dizer a maior, porque reúne as outras dentro de si.

 

 

 

A maior diferença foi acordar com o nascer do Sol, com o Corão a ser cantado alto e bom som pelos megafones da mesquita que ficava ao fundo da rua, a invadir os ouvidos, os sonhos e a espantar as pestanas. Estores corridos e portadas fechadas, numa vã tentativa de superar a questão e ganhar mais duas horas de sono... mas, afinal, não é o sono que me restaura energias quando se trata de viajar, o melhor alimento para a alma que conheço. O que me cansa é a rotina, a agenda com horas marcadas, os deadlines, as reuniões, a ausência do inesperado e aquela adrenalina que só sinto aprendendo coisas novas, conhecendo lugares novos, conversando com pessoas dum mundo diferente.

 

 

 

Começo pela antiga Constantinopla, não por ser a mais vívida na memória, não por ser a mais marcante, ou a mais recente. Talvez porque, ao mesmo tempo que marcou uma etapa de independência, foi um sítio em que senti emoções deveras estranhas para uma hiper-racional como eu. Senti que aquele sítio era meu, que despertava memórias submersas na minha memória. Juro por tudo, nunca lá tinha ido antes (pelo menos nesta vida), muito embora tenha saído de lá com a mesma certeza que mantenho hoje: voltarei.

 

 

 

Agarrada ao cepticismo, procurei explicações enquanto fotografava barcos de pesca no Bósforo que me faz lembrar o Tejo, com o chinfrim das gaivotas por banda sonora. São as pontes, o aqueduto, as calçadas que fazem lembrar Lisboa, é isso. Aqui deste ângulo, esta mesquita bem que podia ser a Torre de Belém, a vista e os cheiros são idênticos. Além os eléctricos, a luz branca reflectida nos edifícios, mesmo que seja Novembro e ameace chover. Dotada com um péssimo sentido de orientação (perco-me no Centro Comercial Colombo, senhores, ainda!), dei por mim a passar a Universidade e a apontar com a máxima segurança as direcções para aqui e acolá, sem mapa, sem nada. O Grand Bazaar (que não é grande, é imenso: cerca de 5.000 lojas e entre 250.000 e 400.000 visitantes diariamente!), labiríntico e cheio de indicações para os turistas seguirem setas ou um eventual guia, cheirava-me a terreno conhecido, amistoso, tudo numa mescla de descoberta com déjà vu. Curiosamente, mais tarde viria a reencontrar estas sensações noutro ponto do globo, mas confirmando uma inexplicável afinidade com a cultura otomana (fica para outro texto). Os padrões hipnóticos, os incensos purificantes, as pessoas duma espontaneidade deliciosa, esta é uma das paragens obrigatórias para quem visita Istambul.

 

 

 

Tive a sorte de ver parte da cidade na companhia duma rapariga local, amiga de outra amiga com quem viajava, que nos levou a restaurantes típicos, que regateou preços (turista paga mais, claro) e que nos levou a uma magnífica celebração do fim do Ramadão, com música, artesanato, uma bebida quente de leite doce e espesso com canela, cujo nome não fixei, entre outras delícias para os sentidos.

 

 

 

Gosto de Muçulmanos, sempre gostei, são respeitadores e educados, crenças à parte. As ruas de Istambul (de um ou do outro lado do rio, num ou no outro continente) são europeias, ou "ocidentalizadas", vá. A maior parte das pessoas, sobretudo jovens, dispensam as vestes tradicionais, véus e djelabas, e também não é muito frequente ver-se os tapetes de oração a serem desenrolados às horas assinaladas, interrompendo as rotinas. Há mais mesquitas do que igrejas católicas, e os ex-libris da cidade, a Hagia Sofia e a Mesquita Azul, por si só, valeriam a viagem, faltassem outros bons motivos. Mas não faltam, muito pelo contrário. Naturalmente, em locais de culto, é requerida modéstia e vestuário adequado, pelo que é boa ideia levar uma écharpe para o caso de ser aconselhável cobrir os cabelos e deixar os tops e mini-saias para outras andanças.

 

 

 

A cidade é tão segura como qualquer outra, há que manter um comportamento atento e responsável, proteger devidamente dinheiro e bens valiosos, nada de novo, portanto.

 


Um dos aspectos que mais impressiona em toda a Turquia é o nacionalismo exacerbado. Não há rua sem alusão ao "herói" Ataturk, há fotografias suas nas casas, paredes, lojas, restaurantes, tudo quanto é sítio.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O talismã preferido é o "olho azul", em variadíssimas formas e tamanhos, em pulseiras, espanta espíritos, amuletos de retrovisor, porta-chaves, brincos, you name it. Supostamente, afasta más energias e protege de mau olhado, etc. e tal.

 

 

 

 

O café turco é... singular... (deve haver quem goste, mas cuidado para deixar assentar as borras - que depois podem ser usadas para "ler o futuro".) Eu fiquei fã do chá de maçã (sabe a maçãs verdes, ácidas, nham!), mistela instantânea e açucarada que os turcos bebem aos litros, bem quente. Outras iguarias passam pelos deliciosos iogurtes (umas colheradas servidas com frango assado e arroz simples fazem a diferença, para melhor), os kebabs, espetadas e afins, e os baklavas (demasiado doces para o meu palato). Como sabem, os muçulmanos tradicionalmente não bebem álcool, mas há bons vinhos turcos, e o aperitivo raki, intenso e de sabor anisado (idêntico ao ouzo grego), é normalmente misturado com água, passando de transparente a um aspecto leitoso. Não apreciei o único que experimentei, mas creio que o defeito era ter água a mais (fica enjoativo), prefiro as bebidas mais pungentes. ;)

 

 

 

Em tempo de aperto económico para a maioria dos portugueses, fica a sugestão para usar bem um subsídio de férias razoável (para quem o tem...). As viagens são relativamente baratas, o custo de vida bastante acessível, é um destino cultural e humanamente muito enriquecedor, e que eu recomendo vivamente.

 

 

 

Deixo um exemplo actualizado à data de hoje*: na logitravel, vôos directos + hotel 7 noites + pequeno-almoço em hotel 3 estrelas, em quarto duplo, 388€ por pessoa, com partida a 10 ou 26 de Setembro (no Inverno é ainda mais barato, claro).

 

 

 

 

 

*Não, ninguém me paga para publicitar nada, com alguma pena minha.

Estou longe de ser uma pessoa estável. Sou até bastante temperamental, de fases, consoante a lua, a hora, o interlocutor, o tempo ou as cores… Sou errática e desequilibrada, de extremos e peremptória nas escolhas que faço. Detesto rotinas e a ausência de estímulos novos: conversas, locais, desafios, ideias. Talvez por isso não esteja nunca demasiado cansada para embarcar em programas que me digam algo às sinapses. O que me cansa é exactamente ter limites pré-definidos, saber antecipadamente como vai ser um dia de trabalho, uma refeição, tudo com horários e regras. Detesto conhecer de cor as pedras da calçada e os buracos no alcatrão, a acomodação de usar sempre o mesmo caminho só porque é o mais rápido… Do que eu gosto mesmo é do inesperado, de surpresas, de aventuras de e em todos os sentidos. Gosto de passear a pé, em cidades desconhecidas, no meio da serra ou na planície. Gosto de encontrar velhos amigos em locais inesperados. Gosto das rajadas de vento que deixam a verdade a descoberto. Gosto de arriscar mudar só porque sim. No caos em que a minha vida se encontra neste momento, achando-me até ineditamente desanimada, encontro alento no amanhã por descobrir. Tenho a absoluta certeza que a próxima semana será diferente desta, e conforta-me não ter a mínima pista de onde estarei ou a fazer o quê.

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Quando era miúda não conseguia imaginar-me com mais de 18 anos. Até aí a vida seguiria certamente de acordo com o planeado, em torno da escola e pouco mais. A partir dos 18 não conseguia sequer visualizar uma sombra de futuro. O que até é estranho, porque sabia exactamente que curso queria tirar e onde (e foi isso mesmo que fiz), mas esse é outro capítulo, o da obstinação desmedida (que quando meto uma ideia na cabeça não desisto até a ver concretizada; mas é que não desisto MESMO!). Nunca tive planos muito concretos a longo prazo, nunca imaginei como seria a minha vida aos 20 ou aos 30. Sabia, grosso modo, o mesmo que sei hoje: que o que me dá prazer é aprender e viajar pelo mundo, que amar é imprescindível e que a felicidade não reside nos bens materiais. Tenho confiança em mim, e isso basta-me, por ora, para não ceder à resignação.

Já pensei seriamente em fazer aconselhamento a famílias sobre onde poupar. Consulta única, 50 "aérios", eu vejo as contas do mês e digo exactamente onde se pode poupar, e muito.

 

Afinal, sou perita. Vou contar em traços largos porque digo isto e já seguimos o tema.

 

Nasci pobre e a tendência não tem sido melhorar. Nunca fui habituada a luxos em coisa nenhuma mas nunca me faltou nada indispensável. Quando era miúda precisava de pôr aparelho nos dentes, era muito caro e os meus pais trabalharam a vida toda (desde a pré-adolescência) e não conseguiram fazer esse esforço. Tudo bem, aguentei-me à bronca e com o advento ortodôntico low-cost tratei do assunto há alguns meses. Precisava de fazer uma cirurgia enorme, em escala de risco/delicadeza/impacto e idem em escala de preço - no valor de algo como metade dum apartamento como o meu (estamos a falar de várias dezenas de milhar de euro) no privado, que é onde está o "melhor médico". Em tratando-se da minha saúde e da delicadeza da operação, quis o melhor e nada menos que o melhor, uma excepção à minha regra. E também esperei por ter alternativa (leia-se seguro de saúde) para me escapar ao total e pagar a custo a minha parte da coisa (em prestações, o que também é excepcional para a minha conduta económica).

 

Ambos os meus pais nasceram pobres (não é remediados, quero mesmo dizer pobres, do género "há uma sardinha para o jantar de três") e foram escapando a pulso, com muito trabalho e sem grandes chances de estudar. Revolução, etc. e tal, eventualmente conseguem o conforto de alugar um apartamento e procriar. Tudo o que têm foi ganho com trabalho, muito trabalho e eu aprendi o valor do dinheiro. Talvez por isso mesmo, nunca lhes pedi nada. Até porque tinha tudo. Educação, amor e carinho. E isso é tudo. Nunca andei em colégios privados, nunca tive roupa de marca nem nada dessas mariquices. Fui bem educada, incutiram-me valores que continuam a ser os meus pilares, sempre fui aluna exemplar, pelo que não tenho qualquer dúvida que nada disso me fez falta ou pode fazer a alguém. As férias de verão significavam passear Portugal fora, de opel corsa com os 5 lugares ocupados, durante 3 ou 4 dias. E eram belas férias, que me deram a conhecer o meu país de lés a lés e alimentaram o bichinho (que entretanto se tornou um monstro) de sair sem rumo e chegar aonde a estrada levar, de improvisar, de descobrir tascas castiças e gente bonita. Cresci e fui a primeira da família directa a frequentar uma universidade. Segui o coração e calhou ir para o mais belo curso do mundo e o único que poderia encher-me as medidas mas que tem empregabilidade zero.  

E se em Madrid eram as papoilas rojas, em Berlim bananas azuis. Em Amsterdão o loirinho de sotaque british nos piropos.

 

Este post não tem nada a ver com futebol.

 

Mas pelo menos matei saudades do "meu" Porto.

 

Errático, à deriva, deambulei. O sal e o céu por companhia, sem tempo nem azul. Numa manhã de verão, encostei-me a uma sombra. Cansado de naufragar, atraquei-me a um cais sereno. Ali sarei os golpes duma erosão lenta que me havia roubado o brilho. Embalado por promessas, serenatas ao luar. Esqueci as ondas que me davam vida. Diziam então que era belo e reluzente. E fiquei. Atracado, sempre ao mesmo sereno cais. Adormeci. Não me lembro de quando caí no sono, não lembro o cerrar de pálpebras. Sonhava, talvez. Quando acordei, perdido, tempestade! As amarras tinham sido cortadas, talvez corroídas pelo tempo! Assustado, quis fugir, não tinha para onde me virar! Trovoada, golpes no convés, quase me afoguei! Parei... Reconheci o instinto que me mantinha vivo, enchi os pulmões daquele áspero ar. Flutuei. Fiz remendos, trabalhei-me, recuperei-me. Reencontrei-me. É grande, o meu mar. Nenhum cais chega para mim. Sem procurar, encontrei o meu lugar. Sorri. Errático, à deriva. Sem amarras. Pertenço aqui. Mesmo que este lugar seja vazio, sem ti. Se um dia chegares, estarei aqui.