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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Na sequência de ler este post, na Origem das Espécies, pensei:


 


Não conheço ninguém com paixão pela escrita que não seja fascinado pelo papel. Muito embora quase todos, hoje em dia, tenham substituído em grande parte as canetas, esferográficas e lápis por teclados. Mas a paixão não se consegue domar, não pode esperar, e quem tem frases penduradas nas pontas dos dedos sente-se forçado a alinhá-las e depositá-las, seja lá onde for, à hora a que calhar. Porque os pensamentos escorrem livres e nunca se sabe quando um pensamento digno, ou carecido, de materialização verbal, nos assola. E assim, todos os escribas (os apaixonados, volto a frisar) trazem consigo a todas as horas um (ou mais) bloco, caderno, o que seja. Não sei se assim é com todos, a mim o que me apela é o vazio dos cadernos e blocos e resmas de papel. A brancura (ou nem tanto, no papel reciclado) virgem, pluripotente, tentação máxima da criação, em palavras ou imagens!


Antes de saber o alfabeto (e aprendi precocemente) já tinha este vício do papel. Finas folhas brancas em formato A5 e lápis de cera Caran d'Ache (que o meu avô me passava para as mãos) faziam os meus dias. Mantive, desde sempre, o fascínio por papel e grafite. Tinta, nem tanto, apesar da numerosa colecção de canetas e esferográficas. Dá-me um certo prazer a arrumação organizada dos blocos e cadernos de vários tamanhos, protegidos, quase divindades merecedoras de mais do que os meus rabiscos. Sinto uma certa responsabilidade quando inauguro um caderno, faço um género de compromisso de honra de não o macular com frases vãs. Trato-o com delicadeza, toques suaves, que nenhum canto de página se amarrote, a caligrafia mais cuidada que o habitual (apesar de mesmo com cuidados não ser capaz de fazer letra bonita, simétrica, equilibrada). Por isso mesmo, escrevo demasiadas vezes em papel de rascunho quando retrato o meu mundo. Para os cadernos bonitos, dignos, elegantes, só material de primeira ou notas formais, académicas ou profissionais. E um dia, quando for grande, quero não hesitar em transcrever felicidades consistentes e lamentos densos para os mais prezados Moleskines.


 




Cada um, um universo secreto.

Não me venhas espiar as sílabas, não. Continua a fingir que cessei de existir e segue sem o entrave que fui eu. Segue rápido e feliz e vive tudo o que procuravas na fuga de mim. Não me venhas tomar o cheiro quando em vez, saber se já morri ou me tornei em quem não reconheces. Não me visites amiúde, não te quero aqui. Não sintas a temperatura a ver se está frio o suficiente para não queimar, ou morno o suficiente para te tirar o gelo do coração. Não te escondas debaixo desse manto de invisibilidade presunçosa que, sabes, não funciona comigo. Não vás retirando sanções até te julgares no direito de apagar o passado. Não. Deixa o tempo passar devagar. Quando me sentires a falta, não de quem preencha a minha vaga nas funções, mas de MIM, virás. Nesse dia, ler-me-ás de rajada e recordarás cada momento como um tempo que cristalizou. Far-se-á Luz na caverna escura de ti e o degelo será um flash. Nesse dia, se o dia chegar, entornarás significados antigos que evitaste e tudo será claro e límpido como a verdade que te vai ensurdecer. E nesse dia vais procurar por mim. Em cada rosto, em cada palavra, em cada um dos pequenos vazios dentro de ti, em cada saudade que descobrires. Vais ensaiar aproximações, negociá-las com o medo da rejeição. Eu não sei onde vou estar. Só sei que não estarei onde me deixaste, naquele sítio onde cabiam o teu mundo e o meu, onde tudo estava por ser. Não vou regressar a esse sítio nunca mais. Não acredito em regressos. Só acredito no infinito e em mim.


 





Odeio palavrões. Odeio ouvi-los, lê-los, odeio as bocas imundas que os proferem. Estão abolidos do meu vocabulário. Não sou púdica, mas sou sensível. Digo merda (oh, em múltiplos sentidos, digo tanta merda!, mas antes dizê-la do que ficar a remoer e a azedar por dentro). E escrevo muita merda também. Nem sequer considero que seja uma palavra hardcore. Jamais palavrão, só palavrinha. Mas não consigo não ficar chocada quando começo a ouvir, até nos ambientes que deveriam primar por uma certa esterilidade de conteúdos (por exemplo, o laboral - e o meu não é propriamente em cima duns andaimes), palavras e expressões que não me permito citar. Mas 'tá tudo doido? Ou é efeito da crise? Essa puta(na) (pois, também digo puta(na) quando em vez, quando a dita me exaspera) também me dá vontade de protestar por todos os meios, mas tenhamos modos, saibamos a dimensão e o contexto das coisas...


 


E sobre o vernáculo, chega. Mas já agora, que falo das comichões nos nervios, há mais duas expressões perfeitamente banais com que embirro solenemente:


1) "fazer amor" - desde quando é coisa que se faça? Ou acontece, ou se sente, ou se querendo referir a intercourse, use-se o coito, as relações sexuais, mesmo a reducionista queca. "Fazer" pressupõe um processo construtivo, como se dum mero coito apaziguador de necessidades fisiológicas brotasse um sentimento nobre e desconcertante. (Oh, daqui poderia nascer uma tese, mas já jurei que este ano não me metia noutra dessas!)


2) "católico(a) não praticante" - hein? como em praticar ténis ou râguebi ou vólei de praia ou ginástica?! O que quer dizer a imensidão de gente que se acomoda nesta muleta, não faço a mais pálida ideia. Provavelmente, que até foram baptizados e à catequese mas não estão para aplicar os princípios católicos às suas vivências diárias. É o que me parece, deste lugarzinho frio e crítico que ocupo no trono acima das crenças e das fés (assim, sem maiúsculas, que não lhes tenho consideração - às fés, pelas maiúsculas nutro até muito carinho). Se se estão a cagar para as missas e os confessionários, porque não dizem claramente que "até acredito em deus e nos santinhos, que foi o que a minha mãe me ensinou, mas não tenho pachorra para padres", ou uma variação sobre o tema? Mas não me digam que praticam ou não esse desporto de rezar terços e bajular figurinhas de gajos semi-nus pregados a cruzes e bonecas com vestidinhos entrapados.


 


E pronto, passa das 4 da manhã e apetecia-me desabafar qualquer coisa sobre temas que não os que me atazanaram os cornos até esta hora. Sim, também digo cornos. Não é palavrão, é palavrinha (de rigor científico; como mamas).

Não só não acho que conheço generalizadamente os homens como sou a primeira a dizer com toda a convicção que os homens não são todos iguais. Mas parece-me que anda meio mundo (independentemente de ter ou não pilinha) em absoluto desespero à procura de cara-metade e neste momento da minha vida, estou em contenção de energias desperdiçadas em causas impossíveis, digamos que preciso de simplificar. É que a sacana da imaginação mete as pessoas a sonhar alto, com idealizações que raramente correspondem com a realidade. Vai daí, quando a realidade se revela, o interesse dissipa-se como um bafo, instala-se uma amolgadela no ego e ficamos a braços com uma insatisfação pesada.

O Deserto do Sahara. Dunas dum laranja intenso, monocromático, acariciadas pelo pôr-do-Sol. O silêncio magnífico, amplo, como um universo à parte. E a noite. O céu estrelado como nos livros infantis; grandes, imensas estrelas a acenar, algumas a cair. Pela paisagem, pelo momento, porque tudo era tão único, tinha na cara um sorriso de orelha a orelha e os olhos marejados de mar.

ESPERAR UMA VIDA INTEIRA - CARLOS MGL TEIXEIRA





Tenho noites em que a acidez oblíqua da chuva, não fende apenas as árvores ou os insuspeitos nevoeiros da rua. Rasga a natureza comum dos dias que se vão somando, e expõe a dúvida. Olho da janela ao alto, deixando o corpo descair no canto do quarto. E vejo todos os milénios de um mesmo dilúvio extrair de uma matriz que ignoro, essas dúvidas vermelhas. Há noites assim, de dúvida escarlate. E observo a luz dourada de um qualquer candeeiro na rua, lembrar-me subitamente de como eram dourados os cabelos dela, quando a luz se lança do vidro fosco para a tela breve da noite. Dourados os cabelos, escarlate o sangue que verte da dúvida, cinzas as nuances cristalinas do nevoeiro. Há noites assim, em que se espera uma vida inteira.


 


São quase três meses sem ti. São quase dois anos contigo, com a certeza de que tu existes. Desde o primeiro fortuito encontro numa teia qualquer, as primeiras farejadelas disseram-nos que havia ali alguém interessante, com quem se pode conversar a um ritmo intelectual e emocional que poucos apanham, ou apreendem. Deve ter sido bom, repetimo-lo amiúde. Daí até aos almoços e programas improváveis foram dois passos, distâncias à parte. As distâncias para nós têm outro significado, não pesam, não afastam. Não arrastam nada no tempo, porque o tempo se molda a cada quilómetro ao ritmo a que o impusermos. Pode girar o mundo na palma das mãos mil vezes, não há ninguém igual. Nada foi comum nesta estória, na nossa estória, que já vai passando à história. Nem o começo, nem o meio, nem os interregnos, muito menos os recomeços. Sobressaltos e solavancos, nenhum dia terminava da mesma forma que começava. Repara que não falo em fim. Porque a qualquer momento espero um novo solavanco que vire tudo do avesso. Nada é definitivo, o nunca e o sempre são demasiado tempo. Tu disseste nunca, eu disse nunca. Mas tudo pode sempre mudar. Personagens que entram e saem, alguns, que devem estranhar estes estranhos universos onde as regras parecem não se aplicar. O tempo vai passando ao contrário e o espaço encolhe em vez de expandir. Pequenino, este casulo de mim onde não chega só a memória de ti. Os acasos, provocadores, ironias talvez.


Não me peças para esquecer-te.


Nunca deixarás de fazer parte de mim. Nunca.


 


O Wild Falcon perguntou ao amor "o que queres de mim?"


Tentou dissecar nas memórias o que sabe e acredita e conclui que não o entende, ao amor, mas está certo de já o ter sentido de forma extraordinária e lamenta não ter sabido amar melhor. O tema é-me caro, já reflecti muito sobre ele, de vários ângulos. E por pensar, tenho de dizê-lo, como o disse:







Conversemos então sobre tempos verbais. Conheço bem várias histórias de homens presos a um sentimento. Eu também concordo que os sentimentos não morrem, mas tenho a certeza que mudam. E o amor que se teve no passado, bonito, guarda-se e acarinha-se como uma boa colectânea de momentos extraordinários. Mas guarda-se no passado. Não se traz para o presente e para outra pessoa o fardo de ser comparada à primeira, porque quando procurares a primeira nas seguintes nunca a vais encontrar, e estarás pouco atento a tudo o que as seguintes são. Ninguém é melhor que ninguém. Todos somos diferentes e insubstituíveis. Nem tudo o que acaba tem de ser negativo. Mas lembra-te que se acabou, foi por ter motivos fortes. As relações que se sustentam em amor e paixão não acabam só porque um dia corre mal e uma frase saiu torta, ninguém desiste de ser feliz, apesar de muitos não terem a coragem de dar o primeiro passo e procurar a felicidade noutros sítios. Quando acaba, não é por acaso. Acaba porque tem de acabar, porque o tempo já se passou, porque a vida impele-nos a ousar ir mais longe. E às vezes a solidão temperada de memórias felizes (porque é um mecanismo de sobrevivência, guardar só as boas recordações) leva-nos para uma realidade que nunca existiu como a recordamos, e engana-nos, dizendo que aquele amor é que era, aquele amor tão completo e fascinante nunca acabou e suplanta todos os que possamos procurar no futuro. E depois vem a culpa, que estragámos o que tínhamos de melhor, que não soubemos amar como a outra pessoa merecia ser amada. E a vida vai passando e nós a afugentar as pessoas que podem, genuinamente, amar-nos como nunca ninguém amou, com um amor doseado, com um interesse hesitante. Porque esta pessoa não é loira ou alta ou morena como a outra, porque esta toca-nos na mão de maneira diferente e as palavras que sussurra ao ouvido são diferentes. E imersos no nosso engano, a tomar como paradigma de amor um amor que nunca existiu conforme o lembramos, achamos que o que sentimos é algo difícil de definir, e por isso separamos tudo em gavetas. Uma para a ternura, outra para a cumplicidade, outra para o desejo. E não queremos acreditar que está tudo ali, porque nos penitenciamos, acreditamos lá no fundo que viveremos a vida toda aquém do sublime amor que um dia conseguimos destruir.



 



 




Não quero dar lições ou fazer das minhas palavras um guia da verdade aplicável a todas as situações (porque acho que a psicologia é redutora e tenta traduzir pessoas em equações, cheias de constantes conhecidas). Mas quero que penses, que pensem, nisto. Posso não saber muito de nada, muito menos do amor e de relações entre seres humanos, mas conheço bem este “género de triângulo”, porque já estive nas três posições, todas ingratas. A que é idolatrada a anos de distância sob filtros irreais, a que foi preterida a uma idealização holográfica fora do espaço e do tempo e, finalmente, a que teve um dia a fortuna de ter sentido um amor tão puro e magnífico que se recusa a abdicar dele, ainda que as circuntâncias não tornem a repetir-se.




Mantém os olhos abertos e o coração permeável. :)


 



Palavras da @na, no fiossoltos:



 


EVITAR A DOR





 


Habituei-me desde muito cedo a contar só comigo. É muito difícil andar a bater a portas e levar com portas na cara, dói. Não peço ajuda, desenrasco-me. Não me queixo, levanto-me. Não é uma questão de orgulho, é uma questão de sobrevivência, de dignidade. Não conto com os outros, perto ou longe, não conto, preciso estar a afundar-me para pôr um braço de fora a pedir socorro. Não gosto de dependências, não gosto de esperar que os outros possam/queiram/tenham disponibilidade. Quem está longe provavelmente não pode ajudar, quem está perto consegue ver e se quiser chega-se à frente. É isso que eu faço e, eu sei que não somos todos iguais e se eu me viro do avesso por alguém é um problema meu, não posso exigir que o façam por mim, não posso e não quero, talvez com medo do retorno que possa vir. Não gosto de criar expectativas, prefiro as surpresas e perante a incerteza perfiro a ignorância.


Claro que há quem não entenda este meu lado demasiado independente, mas não sei funcionar de outra forma. Acham-me desligada, orgulhosa, teimosa, cheia de mim, talvez, mas a verdade é que não sou e por vezes mordo-me toda para não esticar o braço até chegar à conclusão que tenho de o fazer senão a subida é muito mais difícil, dolorosa e quiçá as voltas e o tempo que demorarei até voltar à tona e conseguir voltar a respirar, o problema é que a dor de esticar o braço é ainda maior, porque quando estico o braço, para me verem tenho de o passar por lâminas afiadas que cortam e, nessa altura sangro.



 


 

Porra, Eva, hoje estava a aguentar-me tão bem... Cheia de vontade de olhar em frente, as palavras conselheiras de quem só me quer bem ainda a ecoar na cabeça. A pensar que sou a pessoa mais optimista desta margem do Tejo e até que ponto o optimismo não será uma negação das realidades mais dolorosas.





E depois as tuas palavras, a tua estória, as mesmas mágoas que conheço demasiado bem e há demasiado tempo. Os meus conselhos, para ti, os teus, para mim. Raios de ciclos viciosos em que nos vemos à deriva.





Hoje não escrevo mais nada. Escreveste tu por mim.


 


Ele agarrou-lhe a mão, e ela agarrou-lhe as mãos, e ficaram de mãos agarradas, primeiro a olharem para as mãos, depois levantando lentamente os olhos, que por fim se encontraram, perdendo-se uns nos outros, sem já saber quem via ou era visto, os olhos ao mesmo tempo a verem e a serem vistos, nus, sem qualquer pudor.





Pedro Paixão in "Muito, Meu Amor".


 

As diferenças são muitas e nítidas. Sem ti acordo à mesma a pensar em ti, venho do sonho onde ainda te posso ver e vou para cada novo dia como se fosse para o cadafalso, onde tu não estás. Acordo com um esboço de sorriso e assim que percebo que as facas penduradas no tecto roçam-me os ombros com apenas memórias e nada mais, o sorriso dá lugar a um esgar de solidão. Nunca fui tão infeliz, se queres saber. Sem ti, preparo-me todos os dias para poder encontrar-te e o céu mudar. Disfarço as olheiras, ponho o mais doce perfume e a melhor lingerie. O meu coração pula quando a campainha toca, num misto de pânico e esperança que sejas tu. Ou quando vejo na rua alguém com semelhanças contigo, ou de cada vez que passo perto da tua porta. Sem ti sonho menos com o futuro e mais com o passado. Durmo mais, muito mais. Não tenho com quem deitar conversa fora até às 2 a.m. em school nights, já ninguém me recomenda filmes e notícias de jornal. Sem ti tenho pouca vontade de fazer planos, ou de ser espontânea. Sem ti, a lua continua a pedir para ser fotografada, mas eu já não to digo. Todas as canções são lamentos. Já vou tentando dormir no outro lado da cama, o que reservei só para ti. Já não questiono os porquês e termino sempre com pontos finais. Quando fecho os olhos estás lá, e quando os abro tenho vontade de correr para ti. Sem ti é mais difícil rir, porque mais ninguém tem as tuas piadas. Sem ti tenho as mesmas saudades tuas que tinha contigo, mas doem noutros sítios que eu desconhecia existirem. E ninguém me magoa como tu magoavas. Ainda não passou um dia em que conseguisse não derramar lágrimas impulsivas. Sem ti, não muda nada. Só a tua ausência em mim.



Já aqui tenho falado na minha necessidade extrema de verdade. Mesmo sabendo que posso estar a magoar alguém, ou a mim própria, mesmo vendo nitidamente as vantagens de me deixar ficar calada, mesmo sabendo que dar opiniões quando ninguém as pediu pode ser um abuso que coloca pressões nas liberdades alheias. Ferve-me sob a pele tudo o que penso e tenho de expulsá-lo, na hora, nem consigo deixar para depois e dar espaço e tempo para as ideias assentarem, amadurecerem e quiçá mudarem. Porque esta obsessão com a verdade e a fidelidade tem consequências e faz estragos. Quando decido alguma coisa, nada, mas é que mesmo nada, me faz demover. Posso ter todas as provas reunidas à minha frente a dizer que aquela decisão não é a melhor, que vai dar n problemas, que é simplesmente má ideia. Mas sou tão obstinada e faço tanta questão de ser sempre, sem excepção, mulher duma palavra só, que ainda dando a mão à palmatória e admitindo que estou redondamente enganada, não volto atrás. Se digo que irei por aquele caminho, que ninguém duvide, irei. Se me comprometo a fazer uma coisa, venha o que vier, razões, argumentos e obstáculos, farei. Morta de vontade de ir, dizer e fazer, se usei a palavra nunca, nunca irei, nunca direi e nunca farei.


 



 


Sofro, deixo passar oportunidades, e deixo lágrimas a escorrer. Mas de alguma forma, consola-me saber que esta sentença de carácter faz de mim uma Mulher grande, Honesta e Pura. Ostento, com orgulho (que os pecados capitais são para os crentes), um coração límpido e transparente, onde cada falha é obviada. E falhas, tenho muitas. Mas qualidades tenho muitas mais.






 

Diz-me, sou o teu segredo? Falas em mim ou guardas todas as memórias num sítio escondido, só teu? Vais lembrar-te de mim amanhã? Quando dormes sozinho recordas as nossas noites?


Se falas de mim o que dizes? Contas as palavras que te digo e te escrevo, contas os olhares, tens como explicar ou descreves apenas a versão narrativa sem sal? Pensas em mim quando estás longe ou limitas-te a evitar-me quando estás ao virar da esquina?


Fui alguma vez alguém com quem quiseste ser “algo mais que amigo”? O que te cruzou o pensamento em cada um dos momentos, o que te fez mudar de ideias de cada uma das mil vezes?


Que verdades aceitaste e em que mentiras embarcaste?


Sentes a minha falta como eu sinto a tua? A minha ausência dói-te, ao menos um bocadinho?


Sabes o quanto eu gosto de ti? Sabes o que é gostar assim? Quem te abraça quando te calas e deixas falar o fantasma que carregas no peito?


Quanto tempo mais vais demorar?