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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Primeiro, as palavras. As que nunca ninguém antes havia dito. O respeito e a certeza que se foi instalando. A seguir a confirmação de que te esperava desde sempre. A Luz, a resposta passa pela luz que és, que acendeste em mim.

 

 

 (Feliz Aniversário, Amor. )

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Há coisas que também eu não te digo, para não te assustar, pensamentos e vontades, carinhos que brotam de surpresa. Sempre que falas de ter filhos, faço um esforço por enxotar a imagem sorrateira em pastel esbatido de ti a falares com a minha barriga, a acariciares com o nariz o meu umbigo, a inundares de beijos seguros cada estria, enquanto uma mão distraída se entretém com um mamilo pronto a ser partilhado com a tua boca. Penso nestas coisas tolas quando pensas que estás só a debitar banalidades e eu te vejo inteiro, nu, exactamente como és quando te esqueces da armadura. Imagino que tentes esconder de mim, a princípio, quando encontrares poiso que te queira bem e não te faça fugir. Saberei como sei sempre tudo sem que o digas, sem que haja indícios visíveis, sem que me contem. Não to direi com palavras honestas, mas secretamente vou rebentar de orgulho como sempre fico, cheia e vaidosa, com qualquer pequena vitória tua. És um pouco meu, passei por ti e fiquei um pouco em ti, como ficaste tu em mim. Posso vir a odiar a cara sardenta que te leve, mas a ti não. Digo-te tantas vezes, nunca percebes, nunca respondes: gosto de ti.

Para não te desfalcar o imaginário poético, nunca te disse que no "Porto Sentido", quando ouves "esse teu jeito de chapa" o Rui Veloso na verdade canta "esse teu jeito fechado".

Nunca te disse que o que mais magoou foi ter tido razão em tudo quando (alegadamente) te magoei, saber disso e ainda assim pedir desculpas, repetidamente. 

Que comprei um livro do FMR que te faria sorrir, talvez.

O que queria de prenda de aniversário.

Que te adoro - porque também te odeio.

Que podia amar-te, se o merecesses.

Que consegues ser patético com tanta insegurança mascarada de super-ego.

Que vais sentir muito mais a minha falta do que eu a tua.

Que sou tão mais forte do que me julgas.

Que foram todas, todas, as vezes. 

 

é muito subjectivo. Protestei tanto que não fazia sentido, nunca fez, e cada vez faz menos sentido. Mas já não importa porque fazer sentido nunca foi importante.

Depois de tanto que se passou sem se ter passado nada, voltei a reler as coisas tão bonitas que me dizias há tão pouco tempo. Parece que foi há décadas e permito a confissão das saudades de me sentir como me fazias sentir. Faz parte do exercício de exorcismo, passar por cima de cada ponto, remoer para escaqueirar e varrer porta fora. Medir a distância do que prometia ser ao que nunca foi - anos-luz! Em menos de um fôlego passei do tudo, dos planos e promessas, à transparência indiferente de coisa nenhuma; ao silêncio - obrigada pelo silêncio.

Prefiro mil vezes saber que sou nada à interrogação, às meias palavras, reticências e desculpas vazias. Não faz sentido? A indefinição é apenas mais uma forma de indiferença, de unilateralidade; é apenas mais uma violência.

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Tenho andado a pensar em cortar contigo, fechar-te num envelope e manter-te só no pretérito, como uma recordação saudosa e amarelada que se encontra com surpresa no fundo de uma gaveta quando se faz uma arrumação. És difícil de conter num envelope; não te consigo resumir em meia dúzia de fotografias ou nas milhentas cartas que já trocámos, feitas aviões de papel em vôos picados, cada um a despenhar-se desajeitadamente sobre si próprio, sem sobreviventes. Há sempre uma ponta que se solta ou uma página que ainda aparece, desenquadrada, virgem, inédita. Uma palavra quase esquecida, um novo carinho insuspeito que largas ao acaso no meio dum raciocínio distante, interrompendo o meu luto.

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Sei que tenho de te arrumar em algum lado, nos confins de mim, onde não me desafies nem inquietes. Tenho mesmo, que viver com um permanente ardor no peito e um vazio num pedaço de alma, qual membro fantasma de uma coisa que nunca esteve realmente lá, não é sustentável, vai envenenar o que tenho de são e dissolver a fortaleza que me orgulho de ser.

Talvez tenha de te cortar efectivamente, com golpes fundos de navalha, com força impiedosa e toda a raiva que me tenho, para te imputar a ti a tarefa do silêncio. É ainda mais difícil, que sempre que te arranho arrasto-me pelos dois e depressa esqueço todos os planos tão racionais de abandono sem voltar costas, para te querer mais perto, proteger-te, fazer do meu corpo tua carapaça, tomar por ti todas as dores e curar essas feridas abertas em que deitas sal.
A tua presença é-me difícil, assim como é, vagarosa e nublada, intensa e fantasmagórica, em fuga constante; já a tua ausência é-me insuportável. Fazes-me falta, iluminas uma parte de mim de que já me ia esquecendo de ser. Escureces inseguranças que não têm lugar nos teus olhos e o que vês de mim é muito mais o que sou eu sem casca nem carapaça.
É, tudo isto, um perfeito desperdício de amor e de forças. Afastar-me para não sofrer, e afinal sofrer com isso muito mais. A equação é cruel. As perguntas já se habituaram a seguir sem respostas.
Também já me ocorreu cortar com tudo o resto, com todos os outros que fazem desta provação uma tortuosa espiral de ferros em brasa. Só que o meu sentido de justiça é um estúpido que fala mais alto, não posso penalizar quem nos quer tão bem só por não (te) ter.
Não havendo mais opções para lidar com o martírio, o corte é este, o meu, por cima de cicatrizes antigas, para se notar menos a quem olha em horror. Sem lágrimas. Com lâminas tristes e rombas que fraquejam quando chegam ao osso, mas terão de continuar mais fundo, que para cortar a tua presença em mim tem de ser renovado o tutano, ou então nascer de novo. A falta que me fazes ninguém sabe e se me perguntares nego com toda a força bruta que desconheces. Que tristeza esta que alimenta demónios chifrudos, fatia a fatia, engordando vazios cheios de ti. Que ausência é esta, amigo, que emaranha os novelos que te apertam em mim?

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"Isso acabou." "Não haverá próxima vez."

Ela não lhe via os olhos mas sabia que ele provavelmente acreditaria nas suas próprias palavras e sabia de cor que os olhos dele vagueavam cabisbaixos, à procura da certeza que ela tinha na voz, ou de uma confirmação divina de que bastavam as suas melhores intenções para lhe evitarem os desvios.

Ele não sabia que mentia porque não é preciso mentir quando todo o caminho ainda por percorrer existe num plano passado a limpo em cadernos quadriculados, e está fotografado de antemão em película por revelar. Ela tinha o condão de ler as pessoas e de saber, com uma certeza inexplicável que nunca se enganara, tudo o que precisava de saber, qual mística Blimunda. Ainda assim, insistia em dar o benefício da dúvida, uma e outra e mais outra vez. Recolhia os cacos do seu ego estilhaçado e lambia as próprias feridas, quase pedindo desculpa por incomodar com as marcas de sangue nos degraus.

Que teimosia era aquela que a fazia avançar sem hesitações quando sabia, por ter visto por dentro, que cada novo tropeção lhe esfolaria novamente os joelhos já em osso?

Que perdão concedido à partida era aquele que, por amor ou condescendência, garantia a quem (sem querer?) a agredia, repetidamente?

"Vive as coisas com naturalidade" - aconselhava ele antes de mudar de assunto, com ingenuidade forçada, como que a dar uma odiosa palmadinha nas costas, e talvez seguro de que uma próxima agressão não seria ainda a última, não seria ainda o limite, não seria ainda suficiente para ela sair sem bater com a porta, de mansinho, a meio de um Domingo distraído e solarengo em que nenhuma promessa se havia cumprido.

Enquanto descia as escadas devagarinho, a esconder os olhos do Sol que a abraçava e com toda a bagagem enrolada debaixo do braço, ela pensava nele e em quão desorientado ele se encontraria nos meses todos que ia demorar a notar que ela não regressaria, tinha saído para sempre, sem dar explicações, empurrada com toda a violência por uma leve palmadinha nas costas.

 

Hoje deu-me uma enorme vontade de chorar, não me perguntes porquê. Alguma coisa estará a desmoronar, talvez. Mudei a rota. Enchi o peito de valentia destilada e marchei até ao nosso banco. Chamei nomes feios a quem lá estava, só porque sim, ou então porque queria mesmo era ver a memória de nós dois, em deslumbramento um com o outro, a deixar fugir beijos tão honestos, de mãos dadas e conversa líquida, eu colada aos teus olhos e à tua barba, tu agarrado a uma fantasia em que eu era protagonista. Tenho vontade de chorar. Fomos poesia. Nunca mais nos vou ver assim, tão puros e novos a estrear, com aquele brilho nos olhos de quem acabou de ganhar o euromilhões mas em melhor, com o tempo a parar à nossa volta, como nos filmes, com a banda sonora a adormecer-nos os sonhos. Como sei que sonhaste, porque eu sonhei também, tantas vezes. Tudo mudou. Os teus olhos não se deixam ver por mim e eu não choro, mesmo sem saber o que me quer este vazio pegajoso que persiste.

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O espanto, em vez de ser apaziguado com a falta de cinética, é depurado. A peneira da memória não é traiçoeira, é sim essencial para remover as insignificâncias que poluem a clareza de raciocínio. Os momentos chave de qualquer história de relevo pessoal não ficam entaramelados na névoa amarga, vão-se cimentando na matéria prima do que somos.

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[Mudar de rota talvez ajudasse, mas não preciso do Largo do Regedor para pensar diariamente naquele fim de tarde, no abraço, nos beijos de que fugi, nas festas que me fizeste nos braços, na suavidade insuperável da tua voz, dos teus lábios, cuja memória perdura e ecoa em ondas, de prazer e de saudade, esses lábios, beijos de nuvens.]

[Mudar de vida talvez me mudasse, mas o coração lá ficou no túnel desde aquele dia, pendurado num segredo anunciado, as tuas mãos que pertencem às minhas mãos, a poesia de que és feito entranhada em mim, essa força incorruptível que desprezei com punhais apontados a mim.]

Aque nesta margem esquerda, a margem certa, a vida ocorre num universo paralelo em que o impossível desenrola-se perante os olhos muito abertos e queixos esquecidos. O insólito acontece a par e passo com o ritmo corriqueiro dos dias. Nada causa espanto, de tão espantoso que tudo é. Penso-me tantas vezes presa nas linhas de uma ficção, um qualquer conto da Alice Munro, só percebo que é real porque a paisagem é impossível de confundir. As coincidências são demasiado óbvias para que a realidade simplesmente exista porque sim. Os insólitos, o inexplicável, o sobrenatural que me pisca o olho a todo o instante e que teimo em renegar, como se as entrelinhas deste enredo tivessem saído da minha mente no seu estado mais perverso. É possível que seja só loucura, que se tenham esquecido de me sintonizar bem as antenas lá na fábrica onde montam as peças das pessoas. Somos todos demasiado inverosímeis, não achas?

Quando era criança (nunca fui, nasci já velhíssima) e estava muito mais próxima da verdade de todas as coisas e a cabeça fervilhava com teorias fantásticas e absurdas, tinha a certeza que vivia num mundo falso, com cenários montados para me estudarem os movimentos e lerem os pensamentos. Nada fazia sentido. Porque motivo estava eu presa no corpo de uma menina pequena, aquelas pessoas afáveis mas tão diferentes de mim a fazerem-se passar por família, vizinhos, amigos. Nunca me enganaram!

Nesta margem as coisas desaprendem-se com o tempo, o curso das águas e as rotações do planeta. Surreal é virar-te as costas quando te trago dentro de mim.

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Deve chamar-se saudade, esta necessidade tão grande de um abraço teu, dos teus beijos tão cheios, em que não cabia mais nada além de uma história por contar, a começar e a terminar ali, tão fugaz. Beijos tão decisivos que nunca mais me permitiram paz. Os teus braços enrolados ao que há de cristalino e puro, como bóias, como âncoras, que me prendem e me mantêm à tona, que me desgraçam e me elevam.

Prometo-me não repetir, prometo-me a cura, vou vedando frestas. Volto sempre ao teu abraço, aos teus beijos tão cheios. Gosto de ti, gosto muito, gosto tanto de ti.

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Foi um ano bom. Muito bom. Fiz Amigos. Dos grandes. Estive com os Amigos de há 20 anos, que são tesouros. Aprendi. Viajei um punhado de vezes. Fiz uma série de coisas que tinha dito que nunca faria, lições de humildade, descoberta e auto-conhecimento. Apaixonei-me várias vezes pelas mesmas pessoas (é doença ou casmurrice). Comecei projectos pessoais gigantes. A minha saúde melhorou significativamente e a auto-estima também. Aprendi a gostar um bocadinho mais do meu corpo (é muito difícil e há dias de extremos, mas estou no bom caminho). Senti-me desejada, amada e valiosa. Equacionei mudar radicalmente de vida, em vários aspectos (é uma reflexão em curso e tendencialmente irreversível). Continuo a ter presentes todos os que me importam. Sindicalizei-me. Fiz nódoas negras, sobretudo sentimentais. Regressei ao blogue e voltei a escrever mais com o coração do que com o cérebro. Escrevi cartas em que me pus completamente a nu - e só perdi com isso. Sonhei alto e cheguei a achar que era tudo realmente possível. Arrependi-me de um instante em que não fiz o que queria ter feito. Continuo a ser a pessoa mais destemida que conheço. Consegui não bater em ninguém. Fartei-me de rir. Chorei menos do que me apetecia. Continuo a sentir-me muito mais nova do que diz o cartão de cidadão, quase adolescente. Continuo sem rumo e errática e sei que é esse mesmo o meu caminho.

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No outro dia escrevi para mim própria o seguinte:

 

"É difícil conter a vontade de te mandar beijos aleatórios a qualquer hora, despedir-me sem abraços nem lábios colados. É difícil manter uma capa de aparente sangue frio e descontracção quando o coração aos pulos ameaça desintegrar-se em salpicos. É muito difícil não te contar da vontade de fazer planos a dois e das outras vontades que ainda me assombram. Podias ser menos perfeito, podias não me ler os pensamentos, podias não ter sido desenhado à minha medida. Facilitaria a minha tarefa. Assim, sobra-me apenas a esperança de que venhas a ser um calhorda para poder odiar-te em paz."

 

Dia após dia, constato repetidamente o que sempre soube e nunca escondi, nomeadamente de ti. Não tenho vocação para relações superficiais e ainda menos para mentir, esconder ou ocultar. Sou o que sou, quem não gosta pode pôr à borda do prato (como tu). Não vou deixar de ser quem sou. Não vou esconder que (ainda) gosto de ti e sempre que me der na real gana digo-o ou faço o que bem entender. Beijos mil.

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Porque hoje é dia 29. Se pudesse voltar atrás, já sabes o que faria. O primeiro momento teria sido diferente e talvez a partir daí tudo tivesse sido diferente também. Mesmo com todas as complicações e frustrações, mesmo virada do avesso e sem bússola, e mesmo sabendo que nada é exactamente o que parece, mas antes tudo o que o instinto me diz. Em voltando àquele outro dia 29, faria hoje tudo diferente, sem resistência nem hesitações. Atirava-me de cabeça para os teus lábios e deixava-me ficar aninhada nos teus braços até serem horas da vida real. Não largava. Não me afastava. Tu ficavas à mesma com o meu perfume nas mãos, mas as nossas mãos já não ficariam vazias. Nunca mais vazias.

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Odeio que sejas perfeito, talentoso e provocador. Odeio a torrente inconstante que és, num dia comportas escancaradas de emoção e no outro o deserto mais árido. Odeio que me tenhas apanhado de surpresa e que te tenhas entranhado em mim. Odeio que sejas birrento e mimado e que queiras tudo como tu idealizas, quando queres, sem dares espaço às necessidades dos outros. Odeio as saudades que tenho tuas e tu não tens minhas, odeio a falta que me fazes, odeio a poesia que pediste e depois apagaste. Odeio que tenhas tanto poder sobre mim, que as tuas palavras me rachem de cima a baixo ou me encham de luz. Odeio que me conheças tão bem sem me teres conhecido o suficiente. Odeio a tua retórica à prova de bala, o mel da tua voz, odeio o teu sotaque adorável e a maneira como franzes a testa. Odeio a tua barba desalinhada longe dos meus dedos, odeio as tuas dentadas. Odeio, mais que tudo, as tuas fugas, as tuas urgências e os teus silêncios. Odeio que estejas em todo o lado, em todas as canções, em cada memória do que quero repetir para poder viver tudo de novo mas contigo. Odeio o avesso em que me tornaste. Odeio a inevitabilidade do desastre que eu sou.