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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

No planeta em que eu vivo, milhões de mulheres (cerca de seis mil por dia!) são mutiladas enquanto adolescentes, cortam-lhes o clitóris, com uma faca, ou uma navalha, ou um pedaço de vidro, em nome da tradição, que em pelo menos 28 países pode ser sinónimo de castigo pelo azar de se nascer fêmea.

 

No planeta em que eu vivo, há raparigas que são ameaçadas, intimidadas e impedidas pela força, com tiros, se querem ir à escola, porque a educação é um direito que lhes é vedado.

 

No planeta em que eu vivo, são as mulheres que andam dezenas de quilómetros todos os dias para trazerem água e lenha para as suas aldeias (em África, 90% deste esforço é feito por mulheres, e a tarefa pode demorar até 8 horas diárias).

 

 

No planeta em que eu vivo, há crianças, meninas, que são vendidas aos seus futuros maridos por tostões, enquanto o horripilante mercado de tráfico humano movimenta pelo menos 800.000 mulheres e crianças por fronteiras internacionais para servirem enquanto escravas sexuais.

 

Neste planeta, o poder está, maioritariamente, nas mãos dos homens, tal como o acesso ao trabalho, à riqueza, aos direitos, à saúde, à educação. Em Portugal, para não variar, a situação é bem pior do que a média europeia.

 

No planeta em que eu vivo, é tristemente comum, no século XXI, milhares de mulheres nos ditos países desenvolvidos morrerem devido a maus tratos às mãos dos seus maridos e companheiros. Só em Portugal, em 2015, foram trinta e cinco, deixando órfãs quarenta e seis crianças. Neste mesmo planeta, muitas mulheres têm medo, têm vergonha, de fazer queixa e de pedir ajuda em casos de violência doméstica e de violação. O que se torna, em certa medida, compreensível, dados os casos de impunidade descarada, como aquele em que o violador de uma mulher grávida, sua paciente, sai impune porque não ficou provado que tivesse usado "demasiada violência"...

 

Pois, neste planeta onde eu tenho de viver, as violações são assunto corriqueiro e impune em algumas partes do mundo; perdão, em todo o mundo.

 

 

 

Eu vivo num planeta onde os empregadores, nomeadamente os meus, acham que no dia da mulher fica bem oferecer uma flor a cada funcionária, mas onde as condições de trabalho são distintas, tal como os salários e o acesso a certos cargos, para pessoas de um e de outro género. Na Europa, os salários médios das mulheres são 16% mais baixos do que os dos homens, e a diferença foi agravada com a crise económica. Aparentemente, vamos precisar de, pelo menos, mais 118 anos para as desigualdades económicas entre géneros se dissiparem. Legal ou ilegalmente, muitas mulheres perdem o emprego ou oportunidades na carreira pelo simples facto de engravidarem.

 

 

 

 



Infelizmente, este é o meu planeta. Por isso, às pessoas que dizem que o Dia da Mulher é uma tolice, que não faz sentido, que é um dia feito para as floristas venderem rosas e que "não há igualdade porque não há dia do homem", eu pergunto em que planeta vivem. É que gostava muito, mesmo muito, de viver num planeta em que não fizesse falta haver um dia da mulher.

Que não haja sombra de dúvidas: o mais querido e especial dos homens é o meu, é o meu tudo, o Grande Amor da minha Vida. Entendemo-nos lindamente e raramente temos uma zanga ou discussão. E, quando as há, o motivo é, invariavelmente, um: a desarrumação. O tipo é desarrumado, desorganizado e desleixado à quinta casa. E eu sou um tudo-nada obsessiva-compulsiva com as limpezas e arrumações. Mas também sou defensora acérrima da divisão equitativa das tarefas domésticas. Portanto, nada de fazer o que lhe compete a ele só para evitar gigantes crises de nervios. Respiro fundo, conto até 100 e penso em azul, aponto-lhe calma e delicadamente as tarefas que está a negligenciar, uma e outra e outra vez. E depois lá virá uma vez em que não consigo contar nem até três e estala-me o verniz, e fico com a crise de nervios, e ele bufa e resmunga e lá vai fazendo uma parte (porque fica sempre qualquer coisa no esquecimento!) e eu evito fazer as fitas que ouvimos nos vizinhos do lado (tenho de arranjar tempo para vos vir relatar, que é melhor que novela mexicana).

 

Somos uns privilegiados, porque temos ajuda uma vez por semana, não temos de nos preocupar com passar a roupa a ferro e uma parte das refeições. E tudo o resto será muito mais fácil se arrumarmos depois de usarmos, se limparmos depois de sujarmos, o óbvio e básico - para mim e para vocês. Mas para o homem está difícil de entender...

 

Sabem aquelas mulheres que dizem que é melhor os maridos não fazerem isto ou aquilo porque não têm jeito nenhum, e ainda deixam pior do que estava? Aqui essa conversa não pega. Isso é o que eles querem ouvir, estimadas leitoras! Assim, vão sempre agarrar-se a esse argumento e passam a vida toda sem mexer uma palha! Eu acho precisamente o oposto. Se não sabe fazer, entra em fase de estágio e vai fazer quantas vezes for possível para aperfeiçoar a técnica. De modos que o eterno estagiário já domina certas competências, outras ainda estão numa fase muito rudimentar, mas o problema maior parece ser a epidemia que afectou personagens como Cavaco SilvaZeinal Bava, Pedro Passos Coelho, Vítor ConstâncioHenrique Granadeiro ou Ricardo Salgado: a fraqueza da memória.

 

Um flagelo, a amnésia selectiva! Vejam bem que, sem a minha voz a lembrar docemente que "dá o mesmo trabalho levar a loiça suja da sala e colocar em cima da mesa da cozinha ou colocar na máquina de lavar", que "não são necessários 10 pares de sapatos à porta, podem bem estar dentro do armário" e outras coisas parecidas, estes pormenores escapulem-se da cabeça do gajo.

 

Ao contrário do que é normal, o homem hoje saiu de casa 2 horas depois de mim e eu cheguei muito antes dele. Contava, portanto, encontrar a casa minimamente arrumada. Em vez disso, encontrei:



    • o toalhão de banho dele enrolado em cima da cama;

 

    • roupa suja dele na mesa-de-cabeceira (o quê, não é o melhor sítio para a colocar?!)

 

    • a roupa passada que pedi para ele pendurar no roupeiro, exactamente no mesmo sítio;

 

    • um rasto de migalhas na cozinha (tábua de corte e faca de pão onde? em cima da mesa, claro);

 

    • um pacote vazio de manteiga e respectiva faca suja em cima do balcão;

 

    • o saco do pão aberto, com um naco de broa de milho (de que ele não gosta) a enrijecer para mim;

 

    • loiça suja espalhada entre o lava-loiças e a mesa da cozinha;

 

    • o resto do jantar no frigorífico... dentro da panela... destapada.



Por isso, e porque amo muito o meu homem, vim descarregar um bocadinho para o blogue e vou já de seguida dedicar-me à cozinha, a pensar nele. :)

 

Alguém explique às criaturas ignorantes do código do trabalho, da constituição portuguesa, e do bom senso em geral que quem paga as baixas médicas e subsídios e licença de maternidade é, por ora, a segurança social e não a pobre entidade empregadora sem orçamento para contratar mais do que uma pessoa e, por isso, se acha no direito de questionar as mulheres se planeiam engravidar numa entrevista de recrutamento (ou em qualquer outra situação, by the way). E que a lei do trabalho permite a contratação de trabalhadores temporários para suprir as ausências de trabalhadores em licença de parentalidade. Duh! E também me podiam explicar onde estão esses médicos porreiraços que passam baixas só por lhes pedirmos. Deve ser no mesmo sítio onde as mães portuguesas preferem ficar tanto tempo quanto possível a receber só uma %do salário, porque a malta trabalha mesmo é para aquecer, o salário é irrelevante. Yeah. Num mundo imaginário habitado em exclusivo por patrões e jotinhas.