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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

 

Ouvi dizer que o nosso amor acabou.
Pois eu não tive a noção do seu fim!
Pelo que eu já tentei,
Eu não vou vê-lo em mim:
Se eu não tive a noção de ver nascer um homem.
E ao que eu vejo,
Tudo foi para ti
Uma estúpida canção que só eu ouvi!
E eu fiquei com tanto para dar!

 

E agora
Não vais achar nada bem
Que eu pague a conta em raiva!
E pudesse eu pagar de outra forma!

Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã,
E eu tinha tantos planos pra depois!
Fui eu quem virou as páginas
Na pressa de chegar até nós;
Sem tirar das palavras seu cruel sentido!
Sobre a razão estar cega:
Resta-me apenas uma razão,
Um dia vais ser tu
E um homem como tu;
Como eu não fui;
Um dia vou-te ouvir dizer:
E pudesse eu pagar de outra forma!
Sei que um dia vais dizer:
E pudesse eu pagar de outra forma!

A cidade está deserta,
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte:
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas.
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura!
Ora amarga! Ora doce!
Pra nos lembrar que o amor é uma doença,
Quando nele julgamos ver a nossa cura!

Baía de Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza

Em Maio de mil setenta
Numa casa clandestina
Com campanheira e a filha
Caiu nas garras da CIA

Diz Alípio à nossa gente:
"Quero que saibam aí
Que no Brasil já morreram
Na tortura mais de mil

Ao lado dos explorados
No combate à opressão
Não me importa que me matem
Outros amigos virão"

Lá no sertão nordestino
Terra de tanta pobreza
Com Francisco Julião
Forma as ligas camponesas

Na prisão de Tiradentes
Depois da greve da fome
Em mais de cinco masmorras
Não há tortura que o dome

Fascistas da mesma igualha
(Ao tempo Carlos Lacerda)
Sabei que o povo não falha
Seja aqui ou outra terra

Em Santa Cruz há um monstro
(Só não vê quem não tem vista
Deu sete voltas à terra
Chamaram-lhe imperialista

Baía da Guanabara
Santa Cruz na fortaleza
Está preso Alípio de Freitas
Homem de grande firmeza

 

Onde estás, faz um som 
Chama o meu nome dentro ou fora de tom 
Diz-me que guardas um pouco de mim 
Na carteira um retrato, uma flor no jardim


A estação já mudou 
Levaram os móveis e o sol lá fechou 
Para onde foi, para lado nenhum 
Lugar tão deserto esse lugar comum


Caem as folhas no livro maior 
E corre o tempo a secá-las lá dentro


Deixa estar 
Deixa ser 
Tudo vai num instante 
Amanhã 
Sem saber 
Vai parecer tão distante 
Resta só 
Adormecer 
E sonhar sem te ver 
Outra vez


Não procures o meu rosto espantado 
Essa já não sou eu 
Mistério do amor 
O coração fui trair 
Abri-o ao meio pra te deixar 
Para onde foste, quem sabe onde vai 
Perdido lá dentro a arrastar-se no tempo


Deixa estar 
Deixa ser 
Tudo vai num instante 
Amanhã 
Sem saber 
Vai parecer tão distante 
Resta só 
Adormecer 
E sonhar sem te ver 
Outra vez


Sem te ver outra vez 
Deixa estar 
Deixa ser 
Tudo vai num instante 
Amanhã 
Sem saber 
Vai parecer tão distante 
E quando nada restar 
Vou adormecer 
E talvez vá sonhar, sonhar 
Só pra te ver 
Só pra te ver

 

Da próxima vez
Que eu voltar a cair
Se me vires a insistir
Não olhes p'ra trás

Eu não vou estar em mim
Se te quiser mais uma vez
Mesmo que diga que é de vez
Vou estar a mentir

E se eu disser que foi tudo confusão
Não falo com o coração, não falo com o coração
E se eu disser que ainda não é tarde
Não é amor, não é verdade

E se eu tiver ainda saudades
Deixa-me curar a ferida que arde
Deixa-me ficar com as melhores memórias
Acabou-se a história
Não olhes p'ra trás

E se eu disser que foi tudo confusão
Não falo com o coração, não falo com o coração
E se eu disser que ainda não é tarde
Não é amor, não é verdade
Não é verdade

E se eu tentar falar contigo para voltar
Não há volta a dar
Se eu me iludir que te vou perdoar
Não vale a pena acreditar

E se eu disser que foi tudo confusão
Não falo com o coração, não falo com o coração
E se eu disser que ainda não é tarde
Não é amor, não é verdade
Não é verdade

E se eu disser que foi tudo confusão
Não falo com o coração, não falo com o coração
E se eu disser que ainda não é tarde
Não é amor, não é verdade
Não é verdade

 

Os anjos não têm costas, por isso não te vi
Só mais tarde ao passar eu reparei em ti
Quando quis desviar os meus olhos dos teus
Já não era possível, já não te disse adeus
Os anjos têm asas, abriste-as para mim
Levaste-me ao céu e fiquei voando por aí
Completamente perdida por ti
Completamente perdida por ti

Os anjos não têm casa, telefone ou morada
Assim fiquei à espera de uma tua chamada
Mas como para os anjos o tempo não existe
O tempo foi passando e eu cada vez mais triste
Deixei a minha nuvem perdida por aí
Completamente perdida por ti
Completamente perdida por ti

Os anjos não têm sombra
Eu não te vi descer do céu com uma flor que me querias ... oferecer
Hoje vivemos juntos aqui ao pé do mar
Porque eu não tenho asas, porque eu não sei voar
Mas sempre que te peço tu levas-me ao céu
Abres as tuas asas e o teu corpo é meu
E deixas-me nas nuvens voando por aí 
Completamente perdida por ti
Completamente perdida por ti
Completamente perdida por ti
Completamente perdida por ti

Os anjos não têm costas, por isso não te vi
Só mais tarde ao passar eu reparei em ti
Quando quis desviar os meus olhos dos teus
Já não era possível, já não te disse adeus

Os anjos não têm casa, telefone ou morada
Assim fiquei à espera de uma tua chamada
Para os anjos o tempo não existe
O tempo foi passando e eu cada vez mais triste

Os anjos não têm sombra
Eu não te vi descer do céu com uma flor que me querias oferecer
Hoje vivemos juntos aqui ao pé do mar
Porque eu não tenho asas, porque eu não sei voar

Entristece-me ter sido cá que sucederam a vitória sionista, o regresso à glorificação da música de PVC, o regresso injusto de Portugal à cauda da tabela de classificações. Mas entristece-me mais constatar uma série de pontos que acusam a podridão televisionada e narrada em tons de rosa deste mundo.

 

  • Abordar a Eurovisão como se a política lhe estivesse alheia

A Eurovisão sempre foi e sempre será uma extensão reflexiva da política e, em particular, do carácter capitalista do certame. Desde a afirmação de uma espécie de geopolítica unificada, de estados muito próximos e com filosofias e culturas comuns (o que seria uma manifestação inequívoca da globalização, se fosse verdade), ao trabalho escravo, perdão, voluntário, de que um evento que movimenta milhões se faz valer (seria possível ser mais evidentemente neo-liberal?), à garantia de um lugar na final por parte dos estados que maiores contribuições financeiras disponibilizam, às votações por simpatia/proximidade/interesse, às vitórias (já lá vamos), absolutamente tudo na Eurovisão é política. Como tudo na vida é política (sim, pareço um disco riscado, bem sei).

 

  • O politicamente correcto

O incidente que ocorreu na actuação da representante do Reino Unido, em que um jovem subiu ao palco, tirou o microfone das mãos da cantora e disse "nazis of the UK media, what about freedom?" passou pelos intervalos da chuva. A realização do programa esteve impecável, mostrou imagens do público e rapidamente substituiu o microfone, a concorrente também continuou a sua actuação sem se deixar perturbar, e o espectáculo seguiu sem hesitações. Não se fala sobre o assunto. Varre-se para baixo do tapete os temas importantes e passíveis de clivagem ou agitação política. A admoestação a Salvador Sobral o ano passado, por ter levado a t-shirt a dizer S.O.S. Refugees, não foi um acaso. E caso tenha passado despercebido a alguém, o comentário da vencedora "next year in Jerusalem", muito menos. Curiosas coincidências, não é? E ainda mais curioso que o benefício seja sempre colhido do mesmo lado, o lado das grandes potências assassinas financiadas pelos mesmos do costume.

 

  • As micro-manifestações de xenofobia

A Austrália e Israel participam do Festival Eurovisão da Canção e isso parece fazer comichão a muita gente, só porque não são europeus. Ora, vamos lá ver. Antes de destilar fel, um pouco de informação não magoa ninguém. A organização não tem relação com a União Europeia, mas sim com a EBU/UER, União Europeia de Radiofusão, que integra países europeus, do médio oriente e norte-africanos, bem como outros países com o estatuto de membro associado, como é o caso da Austrália.

[O estado de Israel (que nem devia ser reconhecido como estado, dado o seu carácter colonizador, ocupacionista, fascista, xenófobo, criminoso) não me merece um pingo de consideração. Mas o estado e as pessoas não são equivalentes e há muitas pessoas israelitas que não se revêem nas acções genocidas. Não foi, de todo, o caso, mas o representante de um estado no evento não é necessariamente reprodutor das barbaridades perpetradas pelo mesmo.]

 

  • As macro-manifestações de xenofobia

Sabiam que a bandeira da Palestina é proibida no terreno de organização da Eurovisão? Pois é, a propaganda sionista que se fez valer este ano de quantidades massivas de pinkwashing nunca será suficiente para ocultar a verdade. celebração da diversidade e empoderamento e tal, ao mesmo tempo que a faixa de Gaza continua a ser bombardeada, o genocídio, apartheid, ocupação e colonização continuam, diariamente, a fazer vítimas de todas as idades entre um povo massacrado, torturado e roubado de tudo. Glorificação da intérprete sionista que em 2014 pertencia à Marinha israelita e se orgulha de ter servido a mesma, quando esta Marinha perpetrou mais um massacre do povo palestino.

 

  • O machismo em cada canto

Por onde começar? Pelas ofensas à figura e ao corpo da candidata israelita, pela sua comparação a Assunção Cristas com cortisona ou a uma galinha? Pelos comentários às pernas e decotes das quatro apresentadoras? Pelos elogios à canção cipriota "ouvida em silêncio"? Tantas belíssimas oportunidades de deixar a eloquência do silêncio tomar a palavra. Como se tudo isso não bastasse, a vitória de uma canção péssima, com uma letra paupérrima, e fazê-la passar por emancipação feminina.

 

  • A qualidade musical, ou falta dela

Sendo a Eurovisão um jogo de interesses revestido de certame musical, quem segue por apreciar a música tem de ter um coração (e ouvidos) fortes para suportar crimes acústicos do calibre de alguns que passam pelo evento. Pessoalmente, costumo seguir pela música e pela política, sendo que a primeira ganhou novo alento o ano passado, com a canção esmagadoramente bela dos manos Sobral. Deste ano, os momentos musicais de qualidade não se estenderam muito além do fado de Mariza e Ana Moura, de Sara Tavares, Maya Andrade, Salvador Sobral e as pianadas incríveis de Júlio Resede e o dueto com Caetano Veloso. Desculpem bater mais no ceguinho (fascista sionista, neste caso), mas a composição vencedora de 2018 é só mais um perfeito exemplo do péssimo que se faz na música pop. Não bastando a espécie de apropriação cultural asiática com o kimono, os maneki-neko e a alusão óbvia à Bjork, o cacarejar electrónico de letra ridícula e pobrezinha completam o panorama da mediocridade.

 

  • 2019

Para 2019, faço votos que exista um boicote internacional sério à realização do evento em Jerusalém e que seja significativamente mais bem sucedido que a tentativa de boicote deste ano com a campanha #zeropoints.

euro.jpg

Com cheiro a Trás-os-Montes, a aguardente, a pedra fria, aos riachos e campos verdes que povoam os meus sonhos, e a saudade.

 

Tenho dentro do meu peito dois moinhos a moer, um anda, o outro desanda, e assim é o bem-querer.

Tenho dentro do meu peito um alambique de aguardente p'ra destilar as saudades, ai as saudades, quando de ti estou ausente.

 

Dos que morreram sem saber porquê
Dos que teimaram em silêncio e frio
Da força nascida no medo
E a raiva à solta manhã cedo
Fazem-se as margens do meu rio.

 

Das cicatrizes do meu chão antigo
E da memória do meu sangue em fogo

 

Da escuridão a abrir em cor
Do braço dado e a arma flor
Fazem-se as margens do meu povo

 

Canta-se a gente que a si mesma se descobre
E acorda vozes arraiais
Canta-se a terra que a si mesma se devolve
Que o canto assim nunca é demais

 

Em cada veia o sangue espera a vez
Em cada fala se persegue o dia
E assim se aprendem as marés
Assim se cresce e ganha pé
Rompe a canção que não havia

 

Acordem luzes nos umbrais que a tarde cega
Acordem vozes e arraiais
Cantem despertos na manhã que a noite entrega
Que o canto assim nunca é demais

 

Cantem marés por essas praias de sargaços
Acordem vozes, arraiais
Corram descalços rente ao cais, abram abraços
Que o canto assim nunca é demais
O canto assim nunca é demais

 

Quando o dia entardeceu
E o teu corpo tocou
Num recanto do meu
Uma dança acordou
E o sol apareceu
De gigante ficou
Num instante apagou
O sereno do céu

E a calma a aguardar lugar em mim
O desejo a contar segundo o fim.
Foi num ar que te deu
E o teu canto mudou
E o teu corpo no meu
Uma trança arrancou
E o sangue arrefeceu
E o meu pé aterrou
Minha voz sussurrou
O meu sonho morreu

Dá-me o mar, o meu rio, minha calçada.
Dá-me o quarto vazio da minha casa
Vou deixar-te no fio da tua fala.
Sobre a pele que há em mim
Tu não sabes nada.

Quando o amor se acabou
E o meu corpo esqueceu
O caminho onde andou
Nos recantos do teu
E o luar se apagou
E a noite emudeceu
O frio fundo do céu
Foi descendo e ficou.

Mas a mágoa não mora mais em mim
Já passou, desgastei
Para lá do fim
É preciso partir
É o preço do amor
Para voltar a viver
Já nem sinto o sabor
A suor e pavor
Do teu colo a ferver
Do teu sangue de flor
Já não quero saber.

Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada.
O meu barco vazio na madrugada
Vou deixar-te no frio da tua fala.
Na vertigem da voz
Quando enfim se cala.

 

Quebra o real 
Penetra no infinito 
Desfaz-te em fragmentos perfeitos 
Átomos ao sol do meio dia 
Isto é caótico lascivo real 
Imagina o pensamento da hiena 
Sombrio malévolo instintivo 
Rasteja no profundo vazio 
Encontra o pagão 
Alquimista da vida 
Tens um banquete 
Uma tragédia ao luar 
Gente de cabelo de vermelho têm um bosque quente 
Atraente 
Sincero 
Que rasga as metáforas quânticas e pinta a essência no olhar 
Do ser universal 

 

Mais sobre os Persuade em https://persuade.bandcamp.com/ e https://www.facebook.com/persuadedigital/

 

A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste

A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos

A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"

Sem balanços, sem listas de resoluções, sem inícios nem fins, só prolongamentos da raridade tão especial que é estar vivo, saber que se está vivo, e ter tanto para aprender.

Ninguém o diria melhor que o genial António Variações, aqui na versão dos Humanos!

Vou viver

até quando eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver

Amanhã, espero sempre um amanhã
e acredito que será
mais um prazer

e a vida é sempre uma curiosidade
que me desperta com a idade
interessa-me o que está para vir
a vida em mim é sempre uma certeza
que nasce da minha riqueza
do meu prazer em descobrir

encontrar, renovar, vou fugir ou repetir

vou viver,
até quando, eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver
amanhã, espero sempre um amanhã
eacredito que será mais um prazer

a vida é sempre uma curiosidade
que me desperta com idade
interessa-me o que está para vir
a vida, em mim é sempre uma certeza
que nasce da minha riqueza
do meu prazer em descobrir

encontrar, renovar vou fugir ou repetir

vou viver
até quando eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver,
amanhã, espero sempre um amanhã
e acredito que será mais um prazer

 

 

 

Lembra-me um sonho lindo
quase acabado,
lembra-me um céu aberto
outro fechado

Estala-me a veia em sangue
estrangulada,
estoira num peito um grito,
à desfilada

Canta rouxinol canta
não me dês penas,
cresce girassol cresce
entre açucenas

Afoga-me o corpo todo
se te pertenço,
rasga-me o vento ardendo
em fumos de incenso

Lembra-me um sonho lindo
quase acabado,
lembra-me um céu aberto
outro fechado

Estala-me a veia em sangue
estrangulada,
estoira num peito um grito,
à desfilada

Ai como eu te quero,
ai de madrugada,
ai alma da terra,
ai linda, assim deitada

Ai como eu te amo,
ai tão sossegada,
ai beijo-te o corpo,
ai seara, tão desejada

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Não é a unanimidade que atesta o valor de alguém ou da sua obra. Não é por ter sido um ícone musical da sua geração que o Zé Pedro deixa um generalizado sentimento de perda em, arrisco dizer, toda a gente. A morte do Zé Pedro comove toda uma nação, independentemente de se gostar ou não da música dos Xutos. [Eu gosto, muito, e perdi a conta ao número de concertos dos Xutos a que assisti, em tantas ocasiões e palcos diferentes, da Festa do Avante a concertos privados, a cantar cada refrão.] A morte do Zé Pedro não precisa de artigos nos jornais a recordar os seus feitos ou a limpar as suas nódoas, porque o seu valor - sobretudo humano - não deixou margem para dúvidas em vida. O Zé Pedro ganhou-nos o respeito e admiração de cada vez que falava em público, com sinceridade e sem peneiras, como um amigalhaço de toda a gente, como um de nós, com as suas merdas, com dias maus, com bondade e alegria, com erros e com sonhos; de cada vez que falava dos seus problemas de saúde, dos vícios que deixou para trás, da música ou do amor, cada um de nós era um bocadinho Zé Pedro.

A comoção nacional com a morte do Zé Pedro não se pode fingir, não se pode contornar, não é passível de indiferença. Não há qualquer margem para polémicas e divergências. Qualquer homenagem que se lhe faça é merecida porque todos temos o Zé Pedro num cantinho do coração. Qualquer pequena manifestação de pesar pela morte do Zé Pedro tem de sobra aquilo que falta em outras, movidas por interesses, pelo politicamente correcto, por tentativas de limpeza de vidas cheias de podridão opressora e exploradora: honestidade.

Tomara que quando eu morra, me recordem assim, pelo sorriso e por nunca ter traído a minha classe em palavras ou em actos, por ser igual para todos, por igual.

 
Tu estás livre e eu estou livre
E há uma noite para passar
Porque não vamos unidos
Porque não vamos ficar
Na aventura dos sentidos
Tu estás só e eu mais só estou
tu que tens o meu olhar
Tens a minha mão aberta
À espera de se fechar
Nessa tua mão deserta
Vem que amor
Não é o tempo
Nem é o tempo
Que o faz
Vem que amor
É o momento
Eu que eu me dou
Em que te dás
Vem que amor
Não é o tempo
Nem é o tempo
Que o faz
Vem que amor
É o momento
Eu que eu me dou
Em que te dás
Tu que buscas companhia
E eu que busco quem quiser
Ser o fim desta energia
Ser o corpo de prazer
Ser o fim de mais um dia
Tu continuas à espera
Do melhor que já não vem
E a esperança foi encontrada
Antes de ti por alguém
E eu sou melhor que nada
Vem que amor
Não é o tempo
Nem é o tempo
Que o faz
Vem que amor
É o momento
Eu que


(Letra e música do enorme António Variações)
 

Para não te desfalcar o imaginário poético, nunca te disse que no "Porto Sentido", quando ouves "esse teu jeito de chapa" o Rui Veloso na verdade canta "esse teu jeito fechado".

Nunca te disse que o que mais magoou foi ter tido razão em tudo quando (alegadamente) te magoei, saber disso e ainda assim pedir desculpas, repetidamente. 

Que comprei um livro do FMR que te faria sorrir, talvez.

O que queria de prenda de aniversário.

Que te adoro - porque também te odeio.

Que podia amar-te, se o merecesses.

Que consegues ser patético com tanta insegurança mascarada de super-ego.

Que vais sentir muito mais a minha falta do que eu a tua.

Que sou tão mais forte do que me julgas.

Que foram todas, todas, as vezes. 

 

BEIJA-FLOR 

beija-flor
flor do céu
a cada dia a mesma canção
nunca perguntas porque será
e eu pensado como se faz
não é teu 
nem nunca será
é um sonho cantando
fora de ti

seja o que for
deixa o tempo em paz
se não me vais ouvir
para quê tentar

quero ir
onde tu vais
esquecer a razão porque parti
eu ainda procuro entender
beija-flor
como vai ser
olhei para trás
que confusão
todo o cansaço
de uma ilusão

seja o que for
deixa o tempo em paz
se não me vais ouvir
para quê tentar