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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Por entre corredores sujos
Trapos e vidros rachados
Oiço o arranhar das lágrimas
Esqueletos de melros na gaiola
Atestam a beleza insuficiente da morte
Não se sacode o pó, que magoa
Só as pegadas marcam vestígios
Nas paredes de musgo
E gavetas perras
Ruínas de nós
Cadeiras coxas, a cama rota
Molduras quebradas
Fotografias baças do que nunca fomos
Os filhos que não nos nasceram
Dos corpos que não se trocaram
E o cheiro que se entranha
Cartas antigas, amarradas, amarelas
Encerram poemas e guerras
E tanto
Amor

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O meu elemento é o ar (o nome do alter-ego não é acaso). É onde me sinto mais em casa, com alguma distanciação do terreno e material. É lá por entre as nuvens que me encontram a divagar, muitas vezes a construir castelos ou a conversar com os pássaros. Sem pesos nem amarras, num mundo alternativo.

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Não tinha falsas modéstias, sabia que tinha uma cabeça interessante, um discurso cativante, rebelde e uma dose de poesia na alma que, nas raras ocasiões em que a revelava, não colhia indiferença.

Bicho-do-mato, arisca, bruta, conseguia afastar qualquer um antes de dar a hipótese de ser rejeitada. Não concebia que pudesse ser mais a outros olhos do que era aos seus próprios e sacudia com força quem ousasse aproximar-se. Quem não toca não magoa e esse parecia ser o segredo para não morrer de amor.
Não se reconhecia na imagem que devolvia o espelho, que evitava olhar de frente. As formas flácidas, as curvas esmorecidas, papos, borbulhas e cicatrizes atacavam de frente a miúda atrevida que queria ser, chamando a atenção de que afinal o tempo de ser miúda já passou e o atrevimento podia ser ridículo. Voltava costas e tentava esquecer-se do reflexo que lhe tolhia as ousadias.
Todos os dias odiava as suas contradições, enquanto ia aprendendo a amar-se. Queria mudar o mundo, mas não cabia nos moldes mundanos. Todos os dias corria atrás de um ideal que não sabia definir. Queria ser especial mas para ser invisível era preciso ser banal. Apontava as fugas de toda a gente, incapaz de se deter e se despir. Gabava-se de não temer nada mas soluçava o choro seco de quem lamenta existir. Queria ser leve, simples, fácil, mas era um vendaval surreal.

Sofia apagou-se um dia, com o coração em remendos e a alma em cacos.

 

Faz hoje um mês de espanto pela espinha abaixo. Roubaram-me um beijo a meio caminho de outro destino. Tentaram roubar mais beijos, abraçaram-me com força e com ternura. Fizeram-me festas nos braços e no ego. Ouvi coisas bonitas pingar de uma voz de mel, que sorria, toda minha. 
Faz hoje um mês que a minha cabeça deu um nó e qualquer coisa selvagem se desamarrou do coração. Sou arrastada a galope do temporal, sem saber se naufrago ou afundo.

Fui roubada naquele dia.

Faz hoje um mês de tormenta, de infinito e de poesia. Faz um mês de Ventania. 

(Estou de volta.)

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Estou longe de ser uma pessoa estável. Sou até bastante temperamental, de fases, consoante a lua, a hora, o interlocutor, o tempo ou as cores… Sou errática e desequilibrada, de extremos e peremptória nas escolhas que faço. Detesto rotinas e a ausência de estímulos novos: conversas, locais, desafios, ideias. Talvez por isso não esteja nunca demasiado cansada para embarcar em programas que me digam algo às sinapses. O que me cansa é exactamente ter limites pré-definidos, saber antecipadamente como vai ser um dia de trabalho, uma refeição, tudo com horários e regras. Detesto conhecer de cor as pedras da calçada e os buracos no alcatrão, a acomodação de usar sempre o mesmo caminho só porque é o mais rápido… Do que eu gosto mesmo é do inesperado, de surpresas, de aventuras de e em todos os sentidos. Gosto de passear a pé, em cidades desconhecidas, no meio da serra ou na planície. Gosto de encontrar velhos amigos em locais inesperados. Gosto das rajadas de vento que deixam a verdade a descoberto. Gosto de arriscar mudar só porque sim. No caos em que a minha vida se encontra neste momento, achando-me até ineditamente desanimada, encontro alento no amanhã por descobrir. Tenho a absoluta certeza que a próxima semana será diferente desta, e conforta-me não ter a mínima pista de onde estarei ou a fazer o quê.

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Quando era miúda não conseguia imaginar-me com mais de 18 anos. Até aí a vida seguiria certamente de acordo com o planeado, em torno da escola e pouco mais. A partir dos 18 não conseguia sequer visualizar uma sombra de futuro. O que até é estranho, porque sabia exactamente que curso queria tirar e onde (e foi isso mesmo que fiz), mas esse é outro capítulo, o da obstinação desmedida (que quando meto uma ideia na cabeça não desisto até a ver concretizada; mas é que não desisto MESMO!). Nunca tive planos muito concretos a longo prazo, nunca imaginei como seria a minha vida aos 20 ou aos 30. Sabia, grosso modo, o mesmo que sei hoje: que o que me dá prazer é aprender e viajar pelo mundo, que amar é imprescindível e que a felicidade não reside nos bens materiais. Tenho confiança em mim, e isso basta-me, por ora, para não ceder à resignação.