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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

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Do pó das estrelas tecia sedas, com sonhos carpidos as tingia. Tosquiou o mar uma vez ou outra, gostava da aspereza do sal nos cabelos. Dedicava-se a cada uma das suas obras com minúcia, paciência e brio. Pegava em restos desirmanados de sonhos surreais e misturava com argúcia cores que chocariam os olhos de quem as pudesse ver, unindo cada costura com toda a raiva de volúpias cegas condensada no matraquear mecânico da agulha na chapa, taca taca taca taca. Tinha mãos geladas de fada, delicadas e enfeitiçadas com talentos surreais. Finalizava cada um dos mantos com finos bordados de pratas cavernosas, dourados ostensivamente ociosos, lágrimas nacaradas de virgens, gritos sibilados de monstros feitos de fumos imateriais e medos pastosos, arrepiantes. Com um sorriso líquido de orgulho, cumpria satisfeita o seu dever e, todas as noites, do alto da torre do castelo lunar, estendia pesadelos enredados um a um sobre as alegrias mundanas, ceifando cruelmente ambições e sonhos, mirrando esperanças e reduzindo cada alma à sua penitência.