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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

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Febril, acordava em sobressalto, suada, ideias em ebulição confusa entre os sonhos carregados a carvão negro e o despertar para a escuridão de realidades que doíam com eco, nódoas negras subcutâneas. As palavras dele passavam em rodapé incessantemente, a comprimirem-lhe o peito como um corpete castrador. Sufoco, sim, por não poderem os olhos e as mãos conversarem em paz, sem risco de mal entendidos sem nexo. Por não conseguir curar, com os beijos milagrosos que sempre prometia, as mazelas antigas que lhe roubaram pedaços. A culpa de provocar culpa num peito culpado que ofendia por estar longe. Ofegava e dava murros no ar, raiva a jorrar de pequenez, de impotência amarga. Fechava os olhos com força e tentava apagar aquelas letras da memória. Sentia-se um ponto de  interrogação desnorteado, entre a razão e a angústia, entre o amor que lhe tinha e a raiva de não conseguir ser melhor. A música que devia devolver a calma e o sono era impossível, todas desaguavam numa memória passada, ou pior, futura, com o perfume dele. Suspirava e gritava para dentro, para ontem, nuvens surdas não obedecem a ordens. Tinha sede. O sorriso dele plantado no pensamento, erva daninha imune a pesticidas e tesouradas, sempre a despontar em cada esquina, matreiro como a tentação. Bebia sofregamente da torneira, como cadela amarrada num descampado, como se pudesse afogar as inquietações que a consumiam. Os lábios fendidos ardiam, pingavam os olhos, o coração lembrava-se de disparar, ou de pausar em cansaço, errático, desaustinado. A imagem da cara maltratada no espelho meteu-lhe medo. E se a vida toda, a partir daquele instante, fosse assim? Se aquela luta interna e eterna entre o querer e não poder ter se resumisse a décadas dobradas de angústia, de silêncios e de olhos inchados de ausências? As pernas tremiam, os joelhos ameaçavam fraquejar. De repente tinha frio, todos os pêlos eriçados, abstraídos dos chamamentos das cigarras que lá fora confirmavam o verão aos mais cépticos. Voltou a enrolar-se num casulo de lençóis e colchas, débil, prostrada. Não havia injecção, remédio ou mezinha que a pudessem poupar àquela enfermidade. A vacina falhara. Habituada a dores agudas, no esqueleto e na alma, inconformada com o diagnóstico, procurou no sol que nascia um remédio, um tranquilizante, um soporífero que anestesiasse o vendaval. Maleita crónica, anunciava o reflexo provocador do rio, como se ela desconhecesse os sintomas destas maldições em forma de gente que lhe troca todas as voltas, vira do avesso, desassossega e faz falta como o ar. Será para sempre então, aceitou. 

“Odeio gostar de ti”, confessou-lhe uma vez. Ele nunca fez ideia do quanto.

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