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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

A primeira pessoa que me recordo vivamente de ter-me mentido foi a Lurdes. Pequenina e franzina, muito branquinha, com cara e cabelo de boneca, cheio de canudos. Chamávamos-lhe Lurditas. Éramos amigas desde a 1ª classe e isto aconteceu no 5º ano. Já não me lembro exactamente de qual foi a mentira, ou até se foi uma mentira sobre mim dita a terceiros em vez duma mentira que me tenha dito a mim. Não interessa. Interessa a parte de que nunca me esqueci. Fiquei magoada, desiludida, ultrajada. Como podia alguém de quem gostava tanto, em quem confiava, com quem ria e brincava, alguém que eu ajudava e protegia como podia, ter um acto tão vil para comigo? Lembro-me do sítio exacto do recreio da escola onde lhe disse que tinha descoberto e informei que não pretendia ouvir-lhe novamente a voz dirigida a mim. As duas de olhos mareados. Eu muito zangada. Penso agora que aquilo a que chamam mau feitio possa ter nascido muito antes da adolescência, esse bode expiatório para as decepções que causamos nos outros, esse chiar duma torneira que se abre nesse instante e não seca jamais. Passaram-se dias ou até semanas. Quando a Lurdes falava para o grupo, eu não respondia, olhava para o lado, nem sequer era capaz de rir da melhor das piadolas. Doía ainda a traição. Ela esforçava-se, eu sei que sim, na esperança de eu esquecer-me da zanga, de me deixar ir e voltar a chamá-la de amiga, voltar a caminhar com ela, voltar a dirigir-lhe um “olá” que fosse. E eu, irredutível. Depois houve uma manhã, antes de começarem as aulas (de Inglês, com aquela “stôra” de quem eu gostava tanto) e antes de chegarem mais colegas, em que a Lurdes veio ter comigo. Pediu-me desculpa. Dei-lhe uma resposta qualquer na 3ª pessoa (distante e altiva, como só sei ser se estiver magoada), mas assentindo. Sim, podíamos voltar a ser amigas. Sim, eu também tinha saudades da minha amiga. E sim, tornámos a falar e a rir e a brincar. Mas a essência do que nos unia, a pureza que tem uma amizade sincera, essa ficou manchada. Nunca mais voltei a confiar na Lurdes. Nunca mais lhe contei um segredo. Ia às festas de anos dela. Jogávamos ao elástico, desenfreadamente. Aos países, até à exaustão. Mas nunca mais foi como era. Nunca mais podia ser. Porque há coisas que podemos perdoar, mas não esquecer. Não esqueci, passados tantos anos, passados tantos guiões de aventuras e dramas tão mais possantes.


Há coisas que nunca mudam.


 


 




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