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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Um dos meus poemas favoritos de um dos meus autores favoritos, que hoje faço meu, porque meu poderia ser. Hoje regressei a um sítio que não visitava há longos meses e não chorei. Sorri. Terá sido ontem ou há mil vidas atrás?

 

 

 

 

 

ADEUS - Eugénio de Andrade

 

 

 

 

 

 

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, 



 

 

e o que nos ficou não chega 

para afastar o frio de quatro paredes. 

Gastámos tudo menos o silêncio. 

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, 

gastámos as mão à força de as apertarmos, 

gastámos o relógio e as pedras das esquinas 

em esperas inúteis.

 

Meto as mãos nas algibeiras 

e não encontro nada. 

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro! 

Era como se todas as coisas fossem minhas: 

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

 

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! 

e eu acreditava. 

Acreditava, 

porque ao teu lado 

todas as coisas eram possíveis. 

Mas isso era no tempo dos segredos, 

no tempo em que o teu corpo era um aquário, 

no tempo em que os meus olhos 

eram peixes verdes. 

Hoje são apenas os meus olhos. 

É pouco, mas é verdade, 

uns olhos como todos os outros.

 

Já gastámos as palavras. 

Quando agora digo: meu amor..., 

já se não passa absolutamente nada. 

E no entanto, antes das palavras gastas, 

tenho a certeza 

de que todas as coisas estremeciam 

só de murmurar o teu nome 

no silêncio do meu coração. 

Não temos já nada para dar. 

Dentro de ti 

não há nada que me peça água. 

O passado é inútil como um trapo. 

E já te disse: as palavras estão gastas.

 

Adeus