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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

[Amor de prateleira (parte I)]

 

Ouço-te as lágrimas que escondes, recolhido, embalado em canções que picam e arranham esse coração frágil, de papel, amachucado e vincado das palavras que foram apagadas e reescritas, dos nomes e sinais e rabiscos nas margens. Estendo-te a mão, enxugo lamentos ácidos que sempre vertem em corrosão para o meu colo, que vou-te amparando como posso, com silêncios e os abraços apertados que não te tocam a pele para não melindrar, para não deixar marca - não como queria, com abraços sufocantes, com lágrimas e saliva e contigo embrulhado num novelo pendurado ao meu pescoço, colado ao meu umbigo, os meus ossos escudo protector, os meus cabelos manto de solidão. Envelheço, às escuras. A espera tornou-se uma constante sem incógnita, tudo às claras, mas nem a luz preenche o vazio da antecipação do que está condenado a não chegar. Hoje sou cinzenta, esmorecida. Bordei letras com minúcia, inscrevi-te em mim, dei-te o tempo e espaço de privilégio no peito, onde te cravaste com pregos, na cruz de te querer. Dei-me por inteiro e sem reservas, atirei-me de cabeça e sem pára-quedas, esperando que me acolhesses sem medo de nos crescerem asas negras. Estatelei-me no chão. Quebrei ossos, lombada, as letras amontoadas ficaram espalhadas em rios, pelas nuvens e nas dobras geladas de cada suspiro, nas cavernas longínquas de segredos sem legendas que se lêem nas bocas mudas. Não te mereço palavras meigas, não me sopras poesia, guardas os abraços para quem não queima. Lamentas, não mais do que eu. Dás-te em luz ao mundo, nas não a mim, que já te vi por dentro; não poderias dar-te sem ser por inteiro, em loucura, lava viva sem travões a reformular as verdades, céu abundante de estrelas em vôo picado para o infinito. Talvez tenha de te encerrar de vez num velho livro morto, onde nenhuns dedos curiosos se entretenham a investigar quem fomos nos tempos de andorinhas e de fogo-de-artifício sobre o rio. Olhas o espaço vazio em que eu morava na tua colecção, como se não soubesses ao certo quem o ocupara, talvez já esquecido do sabor dos meus beijos de baunilha e canela picante. Aproximas-te num pulo, em urgência acesa pela ausência, o queixo escorrega em choque, os lábios derretem. Acaricias o intervalo vazio com dedos de fantasma, delicados e etéreos. Caída no mesmo soalho onde jazem também os outros nomes sem título que dizes ter amado, em monte que aguarda a purificação pelo fogo e esquecimento, desvaneço, página por página, ignorada, virgem de ti, desperdiçada. Se existisse ainda inteira poderia ter testemunhado o som áspero de um soluço, ou visto em câmara lenta o momento em que te contorcias no chão, serpente de sangue quente, gemendo a saudade em golfadas. Mas o conto segue desenfreado, na mesma rota. As pálpebras encerram capítulos como quem gira ponteiros e em breve já nenhum espaço sobra naquela prateleira, repleta de romances descartáveis sucessivos, consumidos em série, sem que algum te consuma o fôlego ou te apazigue o gelo estonteante do coração.

 

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