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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Não sou a maior fã de fazer balanços ou da perspectiva contabilística da vida. Não gosto de fechos, ou de despedidas ou de finais. Gosto de inícios, de estrear cadernos, sorrisos, beijos e emoções, com todas as possibilidades em aberto, gosto da aventura do desconhecido a seguir a cada esquina da vida num lugar estranho, sem mapa nem destino.
Apesar de fugir dos clichés em geral, nomeadamente do balanço de fim-de-ano, dei por mim a reparar que, ultimamente, os meus ciclos pessoais têm colidido com Dezembros e Janeiros. Os últimos 12 meses têm sido de uma intensidade que me esgota e que me arrepia de expectativas. Estou grata, muito grata, pelo que (e, sobretudo, por quem) de bom e maravilhoso tem surgido no meu caminho e tem vindo ter às minhas mãos, desde que aprendi a aceitar mais e a duvidar menos.
Têm chegado desafios muito bons, que tenho agarrado pelos cornos, ainda que com os joelhos a tremer num par de ocasiões. Ainda não me arrependi, até porque só costumo arrepender-me do que não faço.


Já sabia desde sempre que ninguém combate as nossas lutas por nós, não as podemos deixar para outros porque não há outros; quem acredita num mundo melhor tem de se pôr em marcha e ir desbravando terreno. Este foi o ano em que arrepiei caminho num lado (mais) acertado. Fazer estas lutas ao lado de camaradas como os que me ladeiam tem sido um enorme privilégio, uma aprendizagem incrível, e faz a diferença entre o desepero de achar que se está sozinho e acreditar que juntos vamos conseguir. Ocupámos as ruas, tocámos nas feridas,  desafiámos opressores, gritámos por direitos e pela justiça, e vencemos algumas batalhas. No sindicalismo, no feminismo, no anti-capitalismo, na justiça climática e ambiental, pela igualdade entre todos e contra todas as opressões, somos muitos, somos sementes e faíscas e, pese embora a luta jamais se adivinhar ligeira, a certeza da inevitabilidade da vitória vai ganhando espaço, fincando pé, criando raízes profundas.

Foi este ano que a escrita tomou um tom mais sério, que deu pequeninos frutos de papel, esquissos que serviram para definir por onde me vejo e desejo e por onde não quero ir. Foi neste ano que reconquistei sozinha um espaço em que posso ser sempre quem sou, e que trouxe entre as páginas amigos especiais, posso mesmo dizer excepcionais, que me leram o coração escancarado e os pensamentos trancados a sete chaves, as minhas verdades que faço explodir em festim e os segredos indizíveis soltos nas entrelinhas.

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Não foi sempre bonito e leve. Este ano chorei como já não chorava há muitos anos. Chorei de cansaço e de tristeza, de desespero. Passei noites em claro, perdida, sem saber o que fazer para não permitir que pessoas que amo se perdessem; afastei, aproximei, esgotei as palavras e os silêncios, dei tudo de mim. Fiquei fisicamente (mais) doente com maleitas da alma, com o coração a querer sair pela boca, quase literalmente. Perdi Amigos sem perceber bem porquê. Perdi a vontade de viver - e não há forma eufemística de dizer isto. Encontrei amparo nos pontapés que me deram quando já estava no chão e me obrigaram a reagir. Foi só quando me trataram como louca que percebi que não tinha perdido a sanidade. Encontrei guarida e conforto nos colos que sempre me acolhem com amor, ainda que o sempre não tenha anos plurais. Encontrei Amigos espantosos em lugares insuspeitos, e outros em lugares mais do que prováveis. Fiz planos, cumpri planos e alterei os planos.
Chorei comovida de emoções transbordantes, sem outro lugar por onde escorrer, quando me ofereceram poemas e tive a certeza de que aquele amor espinhoso e enjaulado seria eterno. Encontrei Amor genuíno nos antípodas e num reflexo que quase podia ser um espelho. Foi este ano que realmente multipliquei o Amor em amores mais que perfeitos. Respirei poesia, dei-lhe a mão, deitei-me com ela e dormimos abraçadas em suspiros ofegantes e surreais, de dedos entrelaçados e cabelos desgrenhados.

Fui, sou inteira, de punho em riste e coração ao alto, fractura exposta do esqueleto da alma, blindada à prova de medo, brava e agreste e intragável. 
Não carece de cálculos matemáticos a constatação de que 2018 foi um dos melhores e um dos piores anos.
Afinal, apesar dos desfalques que as mágoas levaram a cabo, este ano consegui passar uma boa parte do meu tempo a fazer aquilo que sempre quis. Aprender. Amar. Escrever. Lutar. Aprender mais. Amar mais. Escrever mais. Lutar mais. Cresci. Ousei. E nunca, nunca, me resignei.

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