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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Ela acredita que foram feitos um para o outro e que essa é a mais incontornável verdade de bolso.


Ele acha que ela o critica e o deseja mudar, não percebeu ainda que ela o aceita e admira por tudo o que ele é.


Ela acha que ele faz finca-pé em ser mártir e que ele utiliza o desgosto como um porto de abrigo. Ele chama-lhe teimosia, raramente amor. Ele sabe que aquele amor já passou e que é só por ser impossível e trancado no pretérito que tem um encantamento romântico. Ela queria puxá-lo para baixo da sua asa e protegê-lo, porque sabe que ele se magoa e que mais ninguém compreende a sua dor. Ela compreende bem a dor dele e detesta compreender. Porque ele não compreende a dimensão da dor dela. Ele acha que o amor é racional, ela sabe que não.


Ele esforça-se por ser um cabrão idiota. Ela inventa-lhe desculpas em vez de se enfurecer. O amor dela é resiliente, não perde cor com o tempo nem com as mágoas. É um amor maior e melhor do que o que ele perdeu. É real, é verdadeiro, e ela acha que isso devia valer pelo menos uma brecha de oportunidade. Ele tem medo, presume ela.


Ele receou e ansiou a proximidade e cedeu. Ela receou e recusou, mas também cedeu. Ele deu, ela deu. Ele tirou. Ela penitencia-se por não ser quem devia, quem ele queria. Chora, não come, mas todos os dias segue de cabeça erguida, sustentada pela armadura holográfica.


Ele pensa que ignorá-la protege ambos e apaga o passado. Ela reforça e lamenta a certeza da sua razão.

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