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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem




Tinha eu, se tanto, uns 8 anos. Era um sábado de manhã num início de Verão e tinha comido torradas ao pequeno-almoço. Estava na cozinha com o meu pai, que se preparava para engraxar os sapatos na marquise, como habitualmente. De repente ouvimos um barulho estranho e entrou uma coisa escura pela janela, direitinha como se alguém a tivesse arremessado da rua. Só que não era uma coisa. Era um pássaro, belíssimo, com penas azuis nas pontas das asas. Estava a sofrer. O meu pai pegou nele e eu arregalei os olhos. Depressa acalmou a agitação inicial. O pobre animal, que devia estar aterrado, sossegou nas nossas mãos. Tinha uma pata partida, o que explica a desorientação que o fez voar tão baixo e aterrar na cozinha dum rés-do-chão. Desde sempre adorei todo o tipo de bichos e combinámos, eu e o pai, tratar do pássaro. A caminho da casa dos meus avós, onde havia um quintal grande com espaço e condições para a sua recuperação do pássaro, perguntámos a um caçador se conhecia aquele pássaro. Disse-nos que era um gaio, tinha a certeza. Fiquei feliz, o pássaro tinha saído do anonimato da palavra “pássaro” em que se podia facilmente confundir com um dos periquitos da família. No quintal dos meus avós, tratamos de deixar o gaio suficientemente à vontade em cima dum ramo de nespereira, com uma corda atada à pata boa, como se fosse uma trela comprida, de modo a poder estar tão livre quanto possível mas sob os nossos cuidados. Passei as férias de verão na casa dos meus avós, a tratar do gaio. Dava-lhe água num prato vermelho, daqueles dos vasos de plantas, e apanhava minhocas na terra, para o alimentar. Dediquei-me com afinco e ternura àquela inesperada criatura que comigo traçava dias em conversas de silêncio. Eventualmente, o gaio recuperou, já conseguia apoiar-se em ambas as patas e ensaiar pequenos vôos do ramo para o chão e vice-versa. Libertei-o, ele voou. Passados muitos anos, estava eu de asas feridas, de tanto as haver enleado em arame farpado, que insistia em ignorar. Numa noite de Verão, o meu gaio voltou. Bateu à janela do sótão de mim, pegou-me pelos cabelos e ensinou-me a voar, mais alto do que alguma vez tinha ousado. Voámos juntos para além das estrelas, no nosso lugar, onde nos pertencemos.




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