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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

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Caminhava como vivia, em contra-corrente, de peito feito e olhar obstinado, fixo no ponto onde as portas automáticas não descansavam, escancaradas, parindo em golfadas ritmadas dezenas de caras ténues, sem expressão, uma previsível mancha de corpos amorfos, transpirados, diluídos, que marchavam em círculo, sem princípio nem destino. Tinha a sensação de ter perdido o momento certo para o fazer e sabia até que se iludia novamente, mas a ambição era demasiado sedutora para não apostar todas as fichas naquele momento.

[Gostava de presentear-se com fugazes parênteses irreais em que podia ser quem gostaria de vir a ser, sem hesitações nem amarras. Logo a seguir, numa rajada, furava em penitência as palmas, num estouro rebentava os balões, reduzia a carvão tudo o que pudesse florescer de uma ou outra verdade caída no chão.]

Não se enganou, bastou um sorriso para João saber que chegara ao sítio onde desde sempre era esperado.

[Ali podia demorar-se a criar o excepcional, a apreciar o raro, a saltar por cima do impossível. Nunca tinha feito tanto sentido, nunca lhe parecera mais próximo do sonho do que naquele momento, na doce materialização daquela mulher.]

Ela parou e olhou-o, nervosa, com o sorriso a abrir-se numa espantosa confiança que sempre lhe era alheia, enquanto o peito se erodia em galáxias distantes que lhe fugiam ao entendimento. Reconheceu os prenúncios anunciados em flashes desde o primeiro momento; sabia que seria ali, nos braços daquele homem, o seu fim, a morte inevitável da personagem idealizada que quase tinha conseguido alcançar, e ali mesmo o seu começo, o insólito nascimento da mulher inquebrável que se desfez em cacos e passou a incendiar o ar só com as chamas das palavras.

Ele não se deteve. O olhar verde escuro, recto, mantinha-se cativo nas azeitonas sumarentas e risonhas que eram suas, a partir daquele instante e até ao fim dos dias. Continuou a avançar sem desvios e só travou quando os lábios todos se encontraram, sedentos, macios, sôfregos, nuvens doces, línguas molhadas e as mãos seguras onde pendurar todos os sonhos.

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