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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

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Porque é que temos medo das palavras? Meras letras atabalhoadas, embrulhadas, engasgadas, atadas sem rumo, atiçadas sem faísca. As palavras, imateriais poderes sem forma, não ferem, não matam, são frágeis impressões desconjuntadas. Porque nos desviamos suados das farpas esdrúxulas? Atiro com força novelos de palavras pesadas como culpa, como amor, como paixões em brasa. Trespassam os alvos como fantasmas, espectros imaginários que só eu vejo. Escrevo para quê se as palavras são inócuas, se nem se dão ao trabalho de decifrar a sua composição molecular, de responder ou plantar uma semente de palavra viçosa, como carinho, a ver se pega e cria raiz? Fugimos de verdades sussurradas como se fossem quedas certas ao abismo. Visto uma capa grossa de navalhas apontadas às palavras mansas que me tecem com uma doçura que desprezo, repetida a papel químico. Nunca me escreveram um poema, sequer uma bula médica ou manual de instruções, alguma coisa só minha. Sempre leitora, jamais musa. Nem amores nem amantes, todos com medo de ficar reféns das palavras que não lhes mereço. Tolos, coleccionam exclamações para me impressionar mas, cobardes que são, deixam rastos de reticências pelo chão.
A chuva de Verão bombardeia as janelas e é nesse transe que as percebo, às palavras, na aleatoriedade das pingas, como se de ofensas líquidas se tratasse. Temos medo das palavras como temos medo da chuva. Medos inúteis, que ninguém se dissolve na água ou nas letras e a mudança de que são capazes é apenas temporária. Inundem-me, pois, de palavras molhadas para que as navegue, para que nelas te ensine a nadar, ou para ser capaz de naufragar.

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