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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Sinto-me a viver uma vida dupla. No trabalho, ou perto de outras pessoas, comporto-me como sempre. Bem disposta, mau feitio, sempre pronta a ajudar, concentrada, empenhada, irritável, arrogante e com as sensibilidades à flor da pele. Ninguém diria que por dentro me sinto desfeita. Os melhores amigos sabem que algo está errado. Quando perguntam, digo-lhes. Os outros, que não perguntam, sabem só que ando com o olhar mortiço e posto no infinito. Continuo a rir como dantes, mas não a sorrir, dizem. Continuo sempre disponível para ouvir, mesmo quando tenho outras urgências a requerer atenção. Ninguém sabe o aperto que tenho no peito e que me faz querer deixar de respirar. Poucos seriam capazes de compreender. Ninguém diria que uma fotografia, uma canção, uma memória, uma cena na TV, são capazes de apertar o peito até que o ardor o faça rebentar. E eu rebento juntamente com os cacos de coração e sangue e tripas, a cada dia que passa. E tenho medo de chegar o dia em que não consiga levantar-me e erguer a cabeça para viver o lado B, para viver a personagem que não posso ser eu. Já o tenho dito, tenho saudades de mim. E dele, tantas. A ideia do "nunca mais" apavora-me. Porque meti na cabeça uma ideia vinda das profundezas da alma: que o sentido da vida está nos olhos dele, que o amor mora nos beijos dele, que a sensualidade está debaixo da pele dele. Ninguém diria que as minhas definições pudessem ser tão redutoras.


Mais que a ausência, mais que uma separação, dói que ele nunca tenha sentido o suficiente, nunca tenha gostado de mim o suficiente, que eu nunca tenha sido boa o suficiente para lhe merecer uma brecha de oportunidade. Ninguém diria que há palavras que mesmo a toda a distância ainda magoam e martelam os pensamentos, e ninguém diria que podem doer tanto, paralisar o coração, dar vómitos e mandar ao chão os joelhos desistentes.


Ninguém diria que não passa um minuto em que não me lembre, e tente esquecer. Ou que quando sonho acordo com o cheiro dele na almofada e posso jurar que sinto uma mão quente nas costas e a respiração dele no meu pescoço. Tão racional, tão pragmática que eu era. Ninguém diria que ainda espero estar um dia já em pijama quando a campainha tocar e for ele que me chega sem palavras, ao reencontro de tudo o que nunca chegou a ser.


Nem eu diria.


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