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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

origem

Gostava de te ter conhecido mais cedo, na alvorada de ti, de ter visto nascer o homem imenso dentro do adolescente imberbe e desajeitado como o sol que desponta, rubro e impertinente, já a ameaçar rebentar pelas costuras do que o mundo pode compreender. Gostava de ter estado ao teu lado a admirar o doce gigantismo do teu coração, a roubar-lhe um canto cativo onde coubesse em silêncio, a reflectir um pouco da luz imensa que emanas aí para dentro da escuridão que vais alimentando a gritos, balas e granadas, a assegurar-me que o teu ego não ficava estilhaçado com a crueldade de quem não te merece, do bloco de gelo lascado em que te queres tornar. Ter-te-ia dito e provado há mais tempo que os blocos de gelo derretem, diluem-se em tons de azul e mar. Gostava de te ter dado a mão quando travaste sozinho batalhas dantescas, invisíveis a olho nu ou desatento, contra monstros e moinhos de vento, essas mãos soltas e definitivas aninhadas nas minhas, capazes de moldar poesia e coisas raras a partir de qualquer nada que é o tanto que te compõe. Gostava de te ter dado livros e vinhos a provar à boca, dos meus lábios aos teus. Gostava de ter morado em ti mais do que um esgar de fugida num sonho delirante de um inverno que nunca se fez primavera. Teríamos ido juntos a muitos concertos, comovidos, prostrados, imóveis e gelados, como idiotas perante a beleza ensopada de verdades que os outros não conseguem sintonizar. Teríamos ficado a rir, rasgando madrugadas, que teriam de ser navegadas de barco a remos e a sussurros, a ver as estrelas salpicadas num céu só nosso, afoito, de veludo meigo. Teríamos acampado e fingido que o mato era o nosso paraíso pristino, que só poluíamos com atrevimentos e uivos gemidos, roubados aos intervalos das corujas. Teríamos dançado mal, mancos e descoordenados, descalços sob o sorriso matreiro da lua complacente. Tu tinhas-me ensinado a andar de bicicleta por entre as nuvens e eu tinha-te ensinado a nadar nas copas das árvores. Tu tinhas-me ensinado a chorar sílabas no lugar de lágrimas e eu tinha-te ensinado a confiar nos abraços com cheiro a casa. Eu tinha aprendido contigo a não fugir das pessoas que me vêem por dentro e tu tinhas aprendido comigo a não ter medo de te dares inteiriço e em excessos. Teria saltado contigo de qualquer penhasco, de asas abertas, para te mostrar que o desafio do vôo vale a pena apesar dos ossos quebrados quando a aterragem corre mal. Teria sido o teu pára-quedas e lambido as tuas feridas, teria cumprido as promessas de bálsamo e de espelho e teria fintado os golpes sujos que te mataram. Teria ficado atarantada nessa combinação fatal do teu sorriso de pingo de mel e olhos de adagas, tal qual fico hoje. Teria tido tempo de nunca te perder.

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