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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

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Porque é que gosto de ti, pergunto-me às vezes. Não sei se é por me reconhecer tanto em ti, em versão melhorada e apurada, não sei se é pela pureza que transparece nesse teu sorriso por que daria sete voltas ao mundo. De cada vez que tenho alguma certeza, alguma decisão firme em relação a ti, baralhas tudo de novo, boicotas-me sem saber.

Já decidi mil vezes deixar de gostar de ti, pegar em cada coisa ridiculamente estúpida que fazes para me apoiar as razões, que escrevo pelas paredes para que nunca me esqueça, e depois vejo-te por dentro e constato, mais uma vez, que não basta decidir, porque gosto mesmo de ti, em cada idiotice que compreendo bem, em cada silêncio que rasga e me fere e me diz que precisas que te vá resgatar.

Sempre que te vejo parece-me até fácil deixar estar tudo assim como está, conversamos e disparatamos em paz, rimos e discutimos em paz, e eu consigo disfarçar os momentos em que fico com um sorriso parvo só a olhar para ti, a rebentar de orgulho em ti, comovida só por te saber real, a pensar em como gostaria de te ter assim um bocadinho todos os dias, mesmo que fosse só assim, fazer-te uma festa na cara, gozar da tua companhia, da tua amizade, desta cumplicidade que é exclusiva, do fogo-de-artifício da tua gargalhada, dos tiques retorcidos dessa cabeça tão enrolada.

Depois fico um dia sem ti e a tua ausência enche cada espaço que reservei para a minha solidão. Depois são dois, seis, oito dias e o aperto sufocante não aperta menos, nem sufoca com delicadeza. Até que um dia, em que a contagem já se diluiu nos meses baços, já não me incomoda se o teu nome vem à baila ou se te sei aqui ao lado, a fingir que não existo e não queres saber de mim. A lucidez prevalece sempre, objectivamente, imbuída da sua verdade.

Talvez não devesse dizer-te que ainda gosto, estupidamente, de ti. Já sem paixão, já sem desejo, sem dor, que não cheguei a dizer-te, tudo se virou do avesso sem mexer grandemente. Não te falei ainda dos meus novos amores, que esperaram educadamente que deixasses de lhes ocupar o espaço, anunciados que estavam, para crescer. E como cresceram! Em direcções antagónicas, tão seguros de si. Entre o fascínio, o paraíso e o terror, a hecatombe anunciada, filmes daqueles surreais para os quais a vida me reservou. Seguros, fortes, para a vida toda. Sei que lhes vais lendo os vestígios, a espaços. Ficarias de sobrolho erguido com cada um, jocoso, talvez um dia que perguntes te mostre um pouco mais da maravilha, da explosão permanente em que ferve o meu coração.

Porque é que ainda gosto de ti, camarada, amigo, irmão, pergunto-me quando em vez. Não é importante a razão. A porta está no mesmo sítio, com um perdão não solicitado e não merecido por recolher, dentro de um saco de pão pendurado por fora.

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