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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

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Sempre a melhor amiga, a companheira, amiga, camarada, o ombro amigo, confidente... mas nunca a mulher desejada. São décadas disto, e cansa. São décadas disto, e dói. Por uma vez que fosse, gostava de saber qual é a sensação de se ser o objecto de desejo e atenção de alguém. Gostava de saber que suscitava a lascívia pura de alguém, sem se deter com as intelectualidades, que me dizem intimidar os outros, sem haver egos gigantes carentes de atenção, sem dramas nem complicações, sem solidões a pedinchar um mimo para aplacar uma dor causada por outra. Por um momento, gostava de poder ser só uma mulher interessante que deixasse um homem com suores frios, com borboletas no estômago, doente de desejo, louco de tesão. Por um momento, gostava que o meu ego fosse mais importante. Gostava de deixar de me preocupar, gostava de conseguir largar, gostava de ser capaz de não gostar. Décadas disto, e cansa, e dói.

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E já to disse, e já to repeti, e repetirei, e desejarei, porque não sei saciar a fome da minha pele pela tua.


 


Desejo, by Boca de lís


 


Desejo. É uma coisa engraçada e dá-se-lhe pouco apreço. No amor todos querem espetar o dedo, como quem gira um globo de plástico e o pára só para dizer "Estive aqui!", apontando para um sítio do planeta. "Amei aqui!", dedo espetado na ferida que esse bastardo tem por costume deixar. Do desejo fala-se pouco: levantam-se mãos que “Não fui eu!”. Varre-se para debaixo do tapete, desligam-se as luzes antes de o cumprimentar, porque ai de quem lhe veja os olhos. O seu lado lunar, pulsando vaidades animalescas que ninguém consegue pintar em alegorias. O amor ensina-se às crianças; sexo tem idade. Podemo-nos apaixonar aos 4 anos e seremos idolatrados do infantário à reforma – é história de se gabar aos netos. Se aos 4 fala de sexo, é prematura e dir-se-á promíscua até aos 30 – e só os pais saberão o pudico e secreto incidente. Contam-se romances e interioriza-se que o amor é uma coisa tão agradável que não lhe bastam todas as metáforas nem suficientes lhe são todas as líricas. O amor é como um suminho de laranja natural, apetece. A apregoada imagem de um casal idoso que dá as mãos, passeando na rua, comove mundos. Imaginam-se enredos, de uma paixão proibida, restringida, e um amor que vinga incondicional e independentemente. Não há histórias da luxúria na primeira pessoa, os contos exigem coerência que o desejo não tem. Desejo-te. Não se diz. É comprido demais, tem muitas sílabas, não fica bem em inglês e certamente se perde nas traduções para o francês. Roça o pornográfico se virmos por línguas espanholas. Cai em desuso, porque áspero. O desejo é como um limão, não se lhe pode trincar que incomoda até às vísceras. Até faz parecer que não se gosta de uma pessoa: queremo-la. E se "quero-te bem" é amoroso, "quero-te", assim, sozinho, desnudo, já parece capricho. Mas queres porquê? Egoísmo, pela certa! E ai dos Homens que se prestem a vanglórias, olhem o amor que é altruísta! Coisa bonita! Existe para lá do corpo e... morre sem ele. Porque dêem-me quantas líricas queiram, poética que o seja, não vejo amor sem desejo. Sem um "chega-me para cá essas pernas, mulher!" ou um agarrar de unhas cravadas nas costas dele, porque se o deseja por inteiro. Só havendo laranjas, não nos sai da cabeça a imagem amarela e reluzente daquele limão - Trinca-me.

E porque é o que mais nos aproxima dos animais, é o que mais nos assusta. Julgamo-nos tão racionais e, no final de contas, tão especiais... que nos esquecemos que é o desejo que nos alimenta o amor. Impropriamente, o Amor Próprio - rei de todos os outros.

 

Estava capaz de me atirar à dentada a alguém por um chocolate negro a derreter-se na língua. Mas não posso. Por maiores e mais penosas que sejam as saudades de sucumbir às tentações do demo!


(Tenho de resolver esta questão de fidelidade extrema aos compromissos, também.)


 


 






Anda, regressa àquele momento em que tinhas certeza das dúvidas que te provoco. Pede-me desculpa. Ilumina-te, -me, -nos. Desafia-me. Anda, lambe a minha alma até ao esqueleto dos segredos. Sente os picos da minha acidez a derreter por entre os teus dedos.


Deseja-me. Deseja-me até ao zumbido na tua cabeça se tornar insuportável, até o sangue te efervescer. Cede. Esquece as amarras que te prendem a um ideal morto e tão pouco ‘ideal’. Esvazia a cabeça das frases que ergues como arame farpado e que já não são de dentro de ti. Anda, vem arriscar um mergulho ao contrário. To the moon and back.


 



Se abriria a porta?


Abrir uma porta não significa apenas deixar alguém entrar. Significa que se está pronto para sair e explorar sítios novos, lá fora e cá dentro. Dentro de mim. A ti deixava-te entrar, como deixei sempre, tu entraste mal viste uma brecha, sem perguntar se podias. E eu não te expulsei. Achei até que entraste com tanta avidez que querias mesmo cá estar, e ficar. Entraste de rompante, impuseste a tua voz no meio dos meus sonhos e agarraste-me pela cintura. Deste-me a mão, levaste-me portas fora e portas dentro com rodopios, com esses sorrisos que me desfazem por dentro, com carinho e cumplicidade, possuíste-me, com força, com o que se parecia com mais do que paixão movida a desejo. E um dia saíste sem te despedires, deixaste a porta aberta e eu fiquei, parada, a ver-te longe, agarrada ao espanto do vazio e à solidão da dor. Chegaste a voltar, envergonhado e a medo, quase que a pedir desculpa por não teres resolvido as dúvidas que persistem como ferrugem num prego velho. E com mais amor que medo te voltei a abrir a porta. Agora, que não sei de ti, não sei o que pensar ou onde deixei o coração, decidi manter a porta aberta. Porque tenho todos os motivos para a trancar e vedar a pessoas como tu. Mas repara, está vedada aos outros. A minha porta convida-me a sair, mas eu não vou longe. Não quero ir sem ti. Se soubesse como encontrar-te ia até ao fim do mundo buscar-te, salvar-te. Quando quiseres ser salvo, a minha porta está aberta para ti. E só a fecho quando vieres com mais do que a paixão movida a desejo.


 


Ridículo é eu ficar com os joelhos a tremer quando te encontro na rua. Tremer toda, não sei bem se de contrariada porque querendo-te, quero afastar-te da vista (na improvável hipótese de que ajude a afastar-te do coração), ou de medo de ai ficar, quebrada em mil pedacinhos, num sopro fulminada pelo teu olhar calado.


 


Ridículo é ainda almejar o tudo de quem não quer nada de mim.

A mozzarela de búfala explodiu no frigorífico. O dentista mais fofinho (até hoje) diz para não abrir tanto a boca (e chama-me querida, faz festinhas e dá beijinhos, mais os sorrisos na moldura barbuda e os olhares intelectuais quando lhe respondo com palavreado científico). Mal sabe ele dos excessos da mente que nem chegam a sair boca fora, ninguém os quer ouvir. Trambolhão que me deixou com severas dificuldades em subir e descer escadas.


Pensamentos nas ausências do passado e do futuro. Quão frágeis somos, de corpo e de alma. Lá fora, a chuva. Vontade de fazer disparates que podem custar caro, mas a vontade está cá, a espicaçar, a provocar. Não tenho medo da chuva. Molha, mas nem tanto. Ah, mas ajuda a escorregar. Os disparates não eram necessariamente para fazer à chuva. Podia ser em frente da lareira. Ou no fim do mundo, ou na lua, desde que com ele.


A psicoterapeuta admite que concorda comigo, mas ainda insiste que devia ir à procura do que não quero encontrar. As fotos ficaram bem mais giras do que imaginei. Sem vontade dos doces natalícios, excepção feita a uma ou outra azevia de grão (com pouca canela). A avó do falecido faz umas azevias como eu gosto, inundadas de canela e limão. Afinal sempre tenho ainda transtornos com a separação.


Litradas de chá quentinho.





Mas o que fazia falta era um tubinho de Hirudoid. Ai...


 


*não se espera nada mais, e ainda nem toquei no moscatel.

Lembrei-me de quando te ensinei a contar. Ou comecei a ensinar. Chegámos ao seis ou sete, não? Eram tentativas de alcançar o 658 mil e qualquer coisa, se bem me lembro.





Prometeste-me beijos, não cumpriste o suficiente. Um... Dois... ...





"Achas que se pedirmos muitas vezes o mesmo desejo às estrelas cadentes aumentam as probabilidades dele se realizar?"






 


Eu peço sempre o mesmo, desde que te conheci, pelo menos. Na noite em que comecei a ensinar-te a contar devo tê-lo pedido umas 7 vezes. Sete, my lucky number. Um por cada uma das estrelas cadentes, ao som do nada, ao som apenas das nossas vozes, das nossas respirações. Ao som do vento.


 


Nunca desejei tanto coisa nenhuma. Preferia este desejo realizado a meia dúzia de primeiros prémios no euromilhões, a poderes mágicos ou aptidões extra-sensoriais. Nunca desejei tanto. Nunca me senti tão rendida e presa a um sentimento que mais parece calamidade, condenação a prisão perpétua. Nunca fugi com tanta obstinação, querendo fugir na direcção oposta. Também nunca antes tinha amado assim, antes não havias tu e não vou repetir-me os porquês e os talvez.





Evito falar-te, ver-te e pensar-te. Ambos sabemos que não adianta um milímetro. Se consigo abafar a maior parte das recordações, continuo a não conseguir escapar às imagens dos abraços que me são devidos pelo destino ou pela justiça. Quase como premonições, vejo-te a procurares o meu calor para enterrar o sorriso frio, sinto os beijos que ficaram por dar, vejo a tua felicidade reflectida nos meus olhos. Tão reais, estes sonhos acordados, com os teus sons e cheiros, sem fantasmas nem medo.





Talvez esteja só a ficar demente. Mas ainda peço às estrelas o mesmo desejo, sempre o mesmo. Às estrelas, à lua, ao mar e ao vento, só ainda não pedi a deus nem aos santinhos, para não darem ainda mais azar. Perturba-me a realidade em que este desejo não tem lugar, mas ainda me perturba mais que não consiga deixar de pedi-lo e não peça antes alguma paz. Tu e eu, não fomos feitos para estar a flutuar numa paz sem sentido. Fomos feitos para conquistar (o mundo?), para voar, juntos.


 


Até quantos sabes contar?