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Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

Ventania

Na margem certa da vida, a esquerda.

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11 de Outubro é o Dia Internacional das Raparigas, mas é também o dia a partir do qual trabalho sem receber.

A desigualdade salarial entre géneros em Portugal corresponde a uma perda de 58 dias de trabalho remunerado. Significa isto que, em média, pelo simples facto de ter nascido com útero, ovários, vagina, as mulheres a desempenharem as mesmas funções que as outras pessoas que nasceram com pénis e testículos são penalizadas. São mais exploradas. Vendem a sua força de trabalho por um valor inferior. 

Além de todas as outras opressões que acrescem a esta, tão simples e tão óbvia, se as mulheres forem pobres, se não forem brancas, se forem imigrantes, se tiverem uma orientação sexual diferente da normativa...

A maior parte das famílias monoparentais dependem do salário de uma mulher, que permitimos ser inferior ao que devia, perpetuando o ciclo de desigualdades particularmente penalizador para os mais pobres.

Não somos o sexo fraco. Não somos menos competentes. Não temos menos formação nem menos capacidades. Não somos pessoas de modo algum inferiores. Porque aceitamos ser tratadas como trabalhadoras de segunda?

Até quando vamos - todos nós, pessoas - permitir que um género seja tão descaradamente, tão violentamente subjugado e remetido para um lugar secundário e acessório na sociedade e no mundo laboral?

Porquê? Até quando?

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O Paulo Côrte-Real disse tudo o que era necessário no Jugular. Os questionários são mal feitos, ponto. As questões relativas ao comportamento sexual dos candidatos a dadores cujas respostas interessam deveriam ser, objectivamente:


- manteve relações sexuais (inclui sexo vaginal, sexo anal e sexo oral) desprotegidas nos últimos 6 meses?


- teve contacto, nos últimos 6 meses, com mais do que um parceiro sexual?


Só isto.



 


Independentemente das questões colocadas, não há como validar a veracidade das mesmas, pelo que o questionário cumpre apenas com a função de despiste prévio (evitando recolha de sangue que, após análise, seja identificado como portador de algum factor de risco, como por exemplo vestígios de doenças infecto-contagiosas). Caso um candidato a dador seja excluído durante esta triagem, evita a dádiva (que pode provocar algum desconforto e fraqueza), e são evitados os custos associados à recolha, transporte e análise de tecido sanguíneo que não será utilizado para dádivas a outrem e ainda tem de ser destruído.


Após a recolha são, naturalmente, realizadas as análises consideradas necessárias (cujo resultado é partilhado com o dador).


Mas há outro ponto que acho sensível e importante e que partilho convosco. Há genes que se sabe terem uma correlação com o desenvolvimento de algumas doenças auto-imunes. A doação de sangue por parte de portadores desses genes não é consensual. Ora, eu fui dadora de sangue durante alguns anos (como acho que todos os que podem e reúnem condições para a dádiva, tanto de sangue como de medula, deviam ser). Depois descobri que sou heterozigótica para um destes genes malvados e fui investigar. Pois que nuns países se dizia que sim senhor, não se conhecem efeitos nos receptores de sangue quando os dadores são portadores e, por isso, não havia impedimento algum. Noutros países, por precaução, a recomendação é que os seropositivos para aquele gene não doassem sangue (e agora já não me recordo se era feita a análise ou se os questionários de rastreio incluíam alguma questão sobre o tema). Eu sabia que cá em Portugal o tema não era abordado especificamente nos inquéritos de rastreio (apesar das questões incidirem também sobre o histórico clínico, mas a questão é que se pode ter este gene sem haver desenvolvimento de doença auto-imune ou as suspeitas de doença só surgirem mais tarde). Vai daí, perguntei ao Instituto Português do Sangue qual era a postura adoptada, e se poderia ou não continuar a ser dadora. A resposta foi a mais imbecil possível. Diziam-me qualquer coisa como "depende da opção de quem estiver a fazer o rastreio, o melhor é vir cá e logo se vê". Se seria possível ser mais ambíguo ou irresponsável? Duvido.


 


[Infelizmente para mim, a dúvida deixou de fazer sentido quando se confirmou que me havia "saído a lotaria", ou seja, tenho uma doença crónica auto-imune e passei a tomar drogas que ninguém quer no seu sangue e me excluem da possibilidade de doar sangue.]